2.1.24

Campos Elíseos – 2023/2024

 




Festejar o Ano Novo no Novo Mundo é assim. Foram-se os abraços e os beijos, é o reino do telemóvel!
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Mia Couto

 

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Pobres cada vez mais pobres

 


«Num novo ano que começa, os países em desenvolvimento continuam a sua preocupante escalada de pobres cada vez mais pobres. Recentemente, o relatório anual do Banco Mundial salienta que, pela primeira vez neste século, estes países reembolsaram mais empréstimos do que contraíram, o que vem confirmar a preocupante tendência para a redução do financiamento internacional para os países mais pobres.

É que os novos empréstimos têm sido sujeitos a uma taxa de juro mais elevada, seguindo assim a trajetória de aumentos levados a cabo pelos principais bancos centrais mundiais, no qual se inclui o “nosso” Banco Central Europeu. Esta é uma circunstância que aumenta a pressão sobre países que, como Angola, já tinham sido fortemente afetados pela crise dos preços do gás, do petróleo e dos alimentos em consequência da invasão da Ucrânia. Boa parte dos escassos recursos acumulados, sobretudo dos mais empobrecidos, escapam-lhes entre pagamentos financeiros, alimentares e energéticos. Não é por acaso que Moçambique dedica 37% da sua riqueza para pagar a dívida externa.

Uma combinação explosiva entre os aumentos das taxas, da valorização do dólar e do declínio dos novos financiamentos resulta num aumento notável do serviço da dívida, sem que para isso façam alguma coisa. É como o aumento da prestação da casa no orçamento familiar: aumentou porque aumentou. Essa subida atingiu máximos históricos, cerca de 443 mil milhões de dólares anuais, e com a perspetiva de continuar a crescer nos próximos anos. Se estes países começarem a ter dificuldades em pagar os empréstimos, pode afetar todo o sistema financeiro.

Com a dívida a crescer por via do aumento das taxas de juro, o dinheiro que deveria ser alocado à educação, à saúde ou às infraestruturas diminui, comprometendo gravemente o progresso de muitos países. Além disso, as guerras na Ucrânia e em Gaza puseram em causa os princípios básicos em que se baseia a ordem internacional. Dito de outra forma, os países com menos recursos estão a pagar um preço elevado pelos efeitos económicos de ambos os conflitos e é pouco provável que mantenham o seu apoio aos mais ricos.»

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1.1.24

E por vezes





E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites, não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos.

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira



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Optimismo

 

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Bissextos?

 


Ou seja:
No calendário gregoriano, são bissextos os anos múltiplos de 4, mas os terminados em 00 só serão bissextos se forem múltiplos de 400. (Por exemplo, 1700 não foi bissexto.)
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Sempre nesta data

 


No primeiro dia do ano, era por volta do meio dia que abríamos o rádio para não perdermos a pérola do ano que Américo Tomás nos oferecia.

Aqui fica a da imagem e mais duas:

«Eis-nos chegados ao primeiro dia da oitava década do século XX, pelo que precisamente de hoje a trinta anos surgirá, para os que então viverem, o primeiro dia do século XXI.» (01.01.1971)

«Decorreu célere, como os que o precederam, o ano que acabou de sumir-se na voragem do tempo. Outro o substituiu, para uma vida igualmente efémera. Nesta mutação constante, afigura-se haver agora um fenómeno de visível incongruência, pois, quando tudo se processa a ritmo que se acelera constantemente, pareceria lógico que de tal circunstância resultasse um aparente alongamento no tempo e não precisamente o inverso. Se sempre o presente, mal o é, se torna logo em passado, nunca, como nos nossos dias, tão evidente verdade pareceu mais evidente.» (01.01.1966)
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31.12.23

Com esperança e paciência, isto há-de ir!

 

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31.12.1968 – Uma vigília contra a Guerra Colonial

 

(Cabeçalho da convocatória para a Vigília)


Em 31 de Dezembro de 1968, cerca de cento e cinquenta católicos entraram na igreja de S. Domingos, em Lisboa, e nela permaneceram toda a noite, naquela que terá sido a primeira afirmação colectiva de católicos contra a Guerra Colonial, numa actividade formalmente «disciplinada». Com efeito, o papa Paulo VI decretara, em 8 de Dezembro, que o primeiro dia de cada ano civil passasse a ser comemorado pela Igreja como Dia Mundial pela Paz e, alguns dias depois, os bispos portugueses tinham seguido o apelo do papa em nota pastoral colectiva. 

Assim sendo, nada melhor do que tirar partido de uma oportunidade única: depois da missa presidida pelo cardeal Cerejeira, quatro delegados do numeroso grupo de participantes comunicaram-lhe que ficariam na igreja, explicando-lhe, resumidamente, o que pretendiam com a vigília: 

«1º – Tomar consciência de que a comunidade cristã portuguesa não pode celebrar um “dia da paz” desconhecendo, camuflando ou silenciando a guerra em que estamos envolvidos nos territórios de África. 
2º – Exprimir a nossa angústia e preocupação de cristãos frente a um tabu que se criou na sociedade portuguesa, que inibe as pessoas de se pronunciarem livremente sobre a guerra nos territórios de África.
3º – Assumir publicamente, como cristãos, um compromisso de procura efectiva da Paz frente à guerra de África.» 

Entregaram-lhe também um longo comunicado que tinha sido distribuído aos participantes, no qual, entre muitos outros aspectos, era sublinhado o facto de a nota pastoral dos bispos portugueses, acima referida, tomar expressamente partido pelas posições do governo que estavam na origem da própria guerra, ao falar de «povos ultramarinos que integram a Nação Portuguesa». 

Apesar de algumas objecções, o cardeal não se opôs a que permanecessem na igreja, ressalvando «a necessidade de uma atitude de aceitação da pluralidade de posições». Pluralidade não houve nenhuma: até às 5:30, foram discutidos todos os temas previstos e conhecidos vários testemunhos, orais ou escritos, sobre situações de guerra na Guiné, Angola e Moçambique. 

Hoje tudo isto parece trivial, mas estava então bem longe de o ser. Aliás, seguiu-se uma guerra de comunicados entre Cerejeira e os participantes na vigília, que seria fastidioso analisar aqui. Mas vale a pena referir que, com data de 8 de Janeiro, uma nota do Patriarcado denunciou «o carácter tendencioso da reunião», terminando com um parágrafo suficientemente esclarecedor para dispensar comentários: 

«Manifestações como esta que acabam por causar grave prejuízo à causa da Igreja e da verdadeira Paz, pelo clima de confusão, indisciplina e revolta que alimentam, são condenáveis; e é de lamentar que apareçam comprometidos com elas alguns membros do clero que, por vocação e missão deveriam ser, não os contestadores da palavra dos seus Bispos, mas os seus leais transmissores». 

A PIDE esteve presente (há disso notícia em processo na Torre do Tombo), mas não houve qualquer intervenção policial. Alguns jornais (Capital e Diário Popular) noticiaram o evento, mas sem se referirem ao tema da Guerra Colonial – terão provavelmente tentado sem que a censura deixasse passar… A imprensa estrangeira, nomeadamente algumas revistas e jornais franceses, deram grande relevo ao acontecimento. E foi forte a repercussão nos meios católicos. 

Para quem esteve presente em S. Domingos, como foi o meu caso, essa noite ficará para sempre ligada à Cantata da Paz, hoje tão conhecida, mas que poucos identificam com a sua origem. Com versos propositadamente escritos para essa noite por Sophia de Mello Breyner, e com música de Francisco Fernandes, foi então estreada por Francisco Fanhais. (Quantas vezes a terá cantado depois disso, nem ele certamente o saberá…) 



P.S. – Quatro anos mais tarde realizou-se uma outra vigília pela paz na Capela do Rato, com consequências bem mais gravosas porque envolveu uma greve de fome, prisões e despedimentos da função pública.
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Boas Festas!

 

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A direitização da direita europeia

 


«O populismo da e na Europa. Desde o final da Segunda Grande Mundial que direitas e esquerdas relativamente moderadas foram um dos principais esteios da integração europeia. Contudo, com o acentuar da retórica da crise – financeira, migratória, cultural, pandémica, securitária – ao longo de décadas, a dicotomia nós e outros foi elevada para um nível emergencial (veja-se o acordo recente sobre o Pacto de Migração e Asilo na UE). Como consequência, certos partidos, quer lhe chamemos populistas de direita ou de extrema-direita, tornaram-se parte do mosaico político europeu. Por exemplo, a ascensão do FPÖ ao poder, na Áustria, na década de 2000, e o sucesso de partidos similares em França, Finlândia, Países Baixos e Suécia nos inícios dos anos 2010. Num relatório do Institute for Global Change sobre os populistas no poder no mundo, na secção sobre a Europa, conclui-se que o populismo cultural – o que fala das e para as verdadeiras pessoas, aquelas, provavelmente, de bem – é o mais recorrente e bem-sucedido no continente.

Tendências de direitização. O que é que preocupa os europeus? A situação económica e a imigração, a transição verde e digital e a exclusão que daí advém e o desgaste provocado pela(s) guerra(s). Quem tem liderado essas “agendas”? Pelo menos, ao nível retórico, a direita, mas não a moderada. Na Polónia, o Lei e Justiça esteve no poder desde 2015 e ganhou eleições recentemente, embora sem maioria para permanecer no Governo. Na Hungria, Orbán conquistou o poder há quase década e meia, tendo vencido de novo as eleições em 2022. Em setembro desse ano, Meloni venceu as eleições com os seus Irmãos de Itália e na Suécia a extrema-direita dos Democratas Suecos ficou em segundo lugar, oferecendo apoio parlamentar ao novo Governo. O mesmo sucedeu na Finlândia, em abril de 2023, com o Partido dos Finlandeses a integrar o Governo dos conservadores. Na Alemanha, os nacionalistas da AfD assumiram-se como a segunda força política nas eleições regionais de outubro passado. Nos Países Baixos, o VVD de Geert Wilders, saiu vencedor nas eleições gerais de novembro passado.

Ao nível das tendências, verifica-se que, em grande parte da Europa, a maioria dos partidos deste espectro ideológico se situa atualmente bem acima dos 10%. Lideram as sondagens na Áustria, FPÖ (30%), e Bélgica, Vlaams Belang (23%). Estão em segundo em França, Rassemblement National (24%); Roménia, Aliança para a União dos Romenos (19%); e República Checa, Partido Democrático Cívico (13%); e em terceiro em Portugal, Chega! (16%), e Letónia, Aliança Nacional (13%).

O fim do centro político na UE. Bem sei que são consideradas eleições de segunda linha e que, antes, temos eleições legislativas em Portugal. Contudo, estamos a menos de meio ano das eleições europeias de 2024 e isso inquieta-me. Inquieta-me, porque a maioria dos partidos supramencionados faz parte de dois grupos no Parlamento Europeu – ID e ECR – que partilham entre si populismo de direita, nacionalismo e euroceticismo. Inquieta-me, porque esta direitização é uma tendência crescente que deve prosseguir – recordo que metade dos europeus inquiridos disse, recentemente, estar insatisfeita com o funcionamento das suas democracias e com o estado da União e que apenas uma minoria disse sentir alguma influência nas suas decisões. Inquieta-me, porque isto significará uma profunda reconfiguração das maiorias no Parlamento Europeu, pondo em questão o bloco central PPE e S&D e, consequentemente, o próprio processo de integração europeu. Por fim, inquieta-me que tudo isto pareça irrelevante, quando, a bem ou a mal, 70% a 80% da legislação vem de Bruxelas.

Para países como Portugal, estas dinâmicas têm consequências. É extraordinário ver partidos portugueses a apoiar estas perspetivas quando, no geral, estes outros partidos europeus olham para nós – beneficiários líquidos da UE – como meros sorvedouros de fundos comunitários. Como diria um antigo presidente do Eurogrupo: os países do Sul da Europa não podem gastar em mulheres e álcool e, depois, pedir ajuda. Com a direitização da direita europeia e o potencial fim do centro político na Europa, países como Portugal serão, porém, a menor das preocupações da Comunidade. Nas próximas eleições, o que está em jogo, verdadeiramente, é a (des)integração europeia como um todo.»

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Excelente 2024 para si!

 


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