16.1.24

Portas

 


Portas da Casa Calise, numa das mais belas fachadas Arte Nova de Buenos Aires. 1911.
Arquitecto: Virgínio Colombo.

Daqui.
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«Chegados»

 

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Chega é o alento dos ricos e poderosos

 


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Carta aberta ao próximo Governo

 


«Quando a democracia que nos construiu o SNS celebra meio século, somos obrigados a começar aí. Haverá, por parte do próximo Governo, vontade política para resolver o problema da falta de médicos do SNS, e de responder às suas necessidades? O próximo Governo será capaz de reverter o quadro de destruição testemunhado no SNS, sobretudo nas últimas duas décadas?

Será desta que o SNS vai deixar de ser suborçamentado, passando a contemplar a valorização dos médicos e demais profissionais? Até novembro de 2023, apenas 34% dos 753 milhões de euros previstos para investimento no SNS foram executados. Irá passar a haver a execução fundamental na reabilitação, ampliação e construção das Unidades de Saúde, e dotá-las dos recursos necessários, humanos e materiais? Será que 17 em cada 100 utentes vão continuar sem médico de família, as consultas e cirurgias atrasadas, e a faltar macas nos serviços de urgência ou camas nos internamentos?

Será que o próximo ministro da Saúde vai ser capaz de negociar de forma séria e competente para alcançar acordos capazes de atrair médicos para o SNS? Que permitam recuperar o poder de compra perdido na última década e deixarmos de ser dos médicos com salários mais baixos da Europa? Será que vamos conseguir conciliar a vida profissional e pessoal, com uma jornada diária que não ultrapasse o previsto nas diretivas europeias? Para que não trabalhemos mais quatro meses por ano que o resto dos profissionais? Vamos conseguir salvaguardar o descanso compensatório depois de uma noite de serviço? Recuperar os dias de férias retirados ao longo dos anos? Progredir condignamente na nossa carreira e assegurar uma formação de qualidade aos nossos médicos internos, integrando-os na mesma? E procedemos à eleição interpares de cargos de direção ou coordenação baseada em processos transparentes e democráticos?

São perguntas simples, cujas respostas os médicos querem ouvir para saber se têm condições para ficar ou voltar ao SNS. Ou será que os governantes vão continuar a assistir, impávidos e serenos, à sangria de médicos para o sector privado, prestação de serviço e estrangeiro? Vai o próximo Governo ser sensível ao que dizem os médicos ou vai preferir o caminho fácil dos lugares-comuns, onde as declarações de amor ao SNS são poucas vezes sinónimo de um programa efetivo para o salvar?

Os médicos já deixaram claro que vão manter a luta pela sua profissão e pelo SNS. Além disso, vão continuar a cumprir com o dever de não exceder o limite legal das 150 horas suplementares por ano e rapidamente se verá que o SNS continua a funcionar no limite da sua capacidade.

Sendo isso claro, será o próximo Governo capaz de encetar uma negociação com os médicos, à primeira hora do seu mandato, para evitar o cenário que se viveu em 2023, expondo a segurança de médicos e utentes?

Visamos os partidos que vão a votos a clarificar o que pensam para a Saúde e o que pretendem fazer. Não por via de discursos demagógicos, mas através da apresentação de soluções concretas para defender a carreira médica e o SNS.»

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15.1.24

Mal-entendidos

 

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PPD – O que eles andaram para cá chegar

 


Eu já divulguei mais de uma vez este vídeo, mas este ano «impõe-se». É um documento histórico sobre esse partido inequivocamente «de esquerda», segundo afirmações de Sá Carneiro e do «camarada» Francisco Balsemão. E notável também pelas declarações de Magalhães Mota (nome que nada dirá aos mais novos, mas que foi deputado da Ala Liberal, destacado fundador do PPD e ministro dos quatro primeiros Governos Provisórios) sobre nacionalizações.

(1º Congresso, Novembro de 1974)

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Martin Luther King Jr

 


Chegaria hoje aos 95.
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Chega, o voto de quem desistiu da exigência

 


«Com seis congressos em quatro anos, vários deles por irregularidades internas, o Chega é compensado pela sua incompetência com direito a fins de semana de diretos nas televisões em cada um deles. É um prémio ao infrator porque as televisões sabem que a extrema-direita é como o acidente de carro: uma tragédia que dá audiências.

Quando ouvimos os debates que entusiasmam os congressistas do Chega percebemos que não é verdadeira a ideia de que são eles que respondem, mesmo que de forma populista, aos anseios das pessoas. Grande parte das moções e intervenções não são sobre o SNS ou os salários baixos. O que excita aqueles delegados são as casas de banho mistas ainda por implementar, a “ideologia de género” com que o cidadão comum não se relaciona fora das redes sociais, o hino nas escolas. Já nem me interessa muito o perfil reacionário desta mundividência. Ela apenas exibe o vazio de ideias quanto ao que realmente afeta a vida dos portugueses.

Mas como o Chega se quer apresentar como partido de poder, lá teve de avançar com umas propostas para que isso fosse dito sobre ele. Uma foi a reforma mínima garantida equivalente ao salário mínimo, até 2028. A proposta representaria, segundo o Chega, um acréscimo de seis mil milhões de euros anuais.

Estamos a falar de 66 vezes o valor do aumento salarial dos médicos para 2024, mais de 20 vezes a reposição integral do tempo perdido na carreira docente ou 11 vezes o custo fiscal do IVA zero nos bens alimentares essenciais. Para além da injustiça de ver quem recebe o salário mínimo descontar e subsidiar no mesmo valor as reformas de quem não contribuiu, porque viveu num tempo em que muitos trabalhadores rurais não o faziam mas também porque não quis, esta irresponsabilidade colocaria em causa a reforma de todos em meia dúzia de anos.

Tomando como bons os números de André Ventura, o Fundo de Estabilização da Segurança Social teria reservas para pouco mais de 4 anos para pagar uma medida com este impacto. Nem chegariam os atuais excedentes da Segurança Social, para o qual contribuem de forma decisiva os imigrantes que o Chega diz viver à custa de apoios que não existem. Sem a “almofada” criada para compensar o envelhecimento da população, teriam de ir ao Orçamento de Estado, aumentando ainda mais os impostos. Na realidade, se a ideia é equiparar a pensão mínima ao salário mínimo, e cumprindo a lei atual, teria de ser o OE a financiar, como faz hoje com as pensões mínimas. Como o Chega alinha com muitas propostas fiscais da IL, ninguém sabe onde iriam buscar o dinheiro. Quando respondem que seria ao que se perde com a corrupção, com números fantasiosos que duplicam de um dia para o outro, percebemos que não têm qualquer intenção de cumprir a promessa. Acabar com a corrupção em quatro anos é coisa que nenhum Estado alguma vez conseguiu. Isto partindo do princípio que um antigo inspetor do fisco que se passou para o privado para ajudar a contorná-lo seria o herói para esta empreitada.

Quando propôs entregar 420 milhões supostamente gastos pelo Estado com o que chama de “ideologia de género” para criar um fundo para as forças de segurança, Ventura sabia que ninguém minimamente informado deixaria de torcer o nariz ao ouvir aquele extraordinário número. O valor inclui, como bem recordou Paulo Baldaia na SIC Notícias, o reforço do abono de família, o alargamento gratuitidade das cresces, a gratuitidade dos passes para sub18 e sub23 e medidas que ele nunca se atreveria a anunciar o cancelamento. A notícia do “Público” até faz referência ao reforço do Complemento Solidário para Idosos. O mesmo Ventura que quer aumentar cegamente os pensionistas tem como uma das primeiras medidas não reforçar o CSI aos que, comprovadamente, não têm outra forma de rendimento e subsistência.

Tudo o que está nesse pacote que ele mete, sabe-se lá por quê, na promoção da “ideologia de género”, são medidas que, direta e indiretamente, contribuem para objetivos da promoção da igualdade de género. Podia-se dizer que não sabia do que estava a falar e é apenas incompetente. Mas sabia, porque a utilização abusiva deste número já tinha sido desmontada em outubro. Só que ser apanhado numa mentira nunca foi um problema para os dirigentes do Chega. Confrontado com isto, André Ventura chutou para canto, mandou uma laracha e seguiu em frente.

A pergunta que muitos eleitores tentados a votar no Chega fazem é se Ventura é o único que mente e faz promessas que não tenciona cumprir. É claro que não é o único. Só que o descaramento na mentira, a total despreocupação perante a sua evidência, sendo a caricatura dos piores políticos que critica, demonstra que a credibilidade do que promete lhe é indiferente. E nada diz mais sobre como um governante tratará os cidadãos do que a evidência que despreza a inteligência dos seus eleitores.

Os dirigentes do Chega acham que os seus eleitores são estúpidos? Se achassem, seriam eles os estúpidos. Acham, e têm razão, que o voto no Chega é menos exigente do que o voto em qualquer outro partido. Não são os eleitores que são menos exigentes, é este voto específico. Não chega a ser um voto de protesto. É um voto de desistência. Quando dizem que os outros não são melhores, argumento que nunca usariam para justificar o voto em qualquer outro candidato, estes eleitores confessam a desistência. Se prometer que viveremos todos num resort em Marte daqui um ano não perderá um voto com isso. Assim como Trump sabia, e disse-o, que poderia matar uma pessoa na 5ª Avenida que não perderia um voto, Ventura sabe que não será escrutinado pelos seus eleitores com os mesmos critérios que usam para outros políticos.

As pessoas não se deixam enganar quanto à capacidade do Chega cumprir as promessas que faz. Mas são enganadas pela ideia de que farão tremer o “sistema”. Farão tremer quem, exatamente? As famílias mais ricas do país e a rede de empresários que financiam o Chega? Alguém que tenha poder económico neste país? Para essas, a extrema-direita, que direciona a fúria do descontentamento para os de baixo, nunca foi um problema.

Quem paga o preço do impasse político criado pelo crescimento de partidos como o Chega, cujo verdadeiro programa eleitoral é mais liberal do que o da IL (o primeiro, que apresentaram e depois esconderam, parece o de Milei na Argentina), é o cidadão comum. Quando os cidadãos desistem da democracia e da exigência perante os que elegem não é o “sistema”, se o entendermos como sinónimo de quem tem o poder, que sofre. São os debaixo. Porque os únicos que realmente precisam democracia são os que não têm outro poder para além do voto.»

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14.1.24

Casa de Bonecas

 


Esta casa de bonecas sueca de quatro andares tinha um elevador que funcionava, feito de peças metálicas de um relógio, e iluminação elétrica em todos os quartos. Também contava com um um telefone que tocava, uma mini máquina de escrever, uma máquina de costura, um lustre e trinta bonecas. 1913.
John Carlson construiu-a para uma irmã mais nova.

Daqui.
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«Sou fascista»

 


No congresso de um partido considerado democrático. (13.01.2024)
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A campanha

 

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Quando os pobres votam na direita

 


«O historiador Thomas Frank tem, na edição dos seus livros em francês, duas obras traduzidas com títulos provocadores. Uma sobre a razão por que os pobres votariam na direita e a outra sobre os motivos por que os ricos passaram a votar à esquerda. Nestes textos, muito baseados na situação dos EUA, relata-se o abandono das classes populares por parte dos partidos da esquerda moderada em troca de agendas menos ligadas aos direitos sociais e mais conectadas com os direitos individuais e as múltiplas agendas identitárias.

Num estudo coordenado por Thomas Piketty sobre a relação entre as desigualdades sociais e os resultados eleitorais em 50 países “democráticos” (Clivagens Políticas e Desigualdades Sociais) verifica-se que há em muitos países desenvolvidos uma evolução: antigamente, as classes trabalhadoras tendiam a votar à esquerda e os patrões, ricos e licenciados à direita. Hoje, verifica-se que os licenciados votam à esquerda e que parte das classes trabalhadoras já não vota, ou não o faz à esquerda. Isso coincidiria com várias circunstâncias: o abandono por parte da esquerda do terreno popular e da defesa das classes trabalhadoras e a passagem de reivindicações “materiais” para “pós-materiais”, enquanto se multiplicam novas lutas de caráter identitário que tornam invisível o conflito de classes. Como alguém dizia, “a classe social não foi morta, ela foi enterrada viva”.

Obviamente que é necessário fazer uma política que tenha em conta as identidades, mas isso não significa reduzir a política a uma soma de identidades cada vez mais próxima da individualidade.

Este processo de individualização e perda de referentes coletivos tem a ver com uma alteração da realidade económica e social: a desindustrialização do mundo desenvolvido, a criação de empregos por plataformas, em que dezenas de milhares de pessoas, a fazer a mesma coisa, parecem todas isoladas, em que todos têm laços cada vez menos estáveis, em que há uma certa liquidificação da sociedade.

Mas tudo isto também foi fruto de uma vitória ideológica. Num célebre artigo em 1939, Friedrich Hayek defende que se deveria entregar a condução da política monetária a uma organização supranacional. Propõe a criação de instituições supranacionais como forma de, na prática, retirar ao controlo democrático o funcionamento da economia.

Na altura, esta vontade era amplamente minoritária mesmo no seio da social-democracia e da direita moderada, em que o pensamento keynesiano era dominante. Mas até aos anos 70 os pensadores neoliberais e as classes proprietárias, interessadas em reduzir a força dos sindicatos e dos trabalhadores na distribuição do rendimento, construíram uma nova hegemonia. Como afirmava um dos seus defensores mais conhecidos, Milton Friedman, fizeram com que o politicamente impossível se tornasse o politicamente inevitável.

Este processo de dissociação total entre economia e democracia, através da globalização e da integração europeia, da democracia e da economia, provocou, desde o final dos anos 70, um lento apodrecer das instituições democráticas e uma ideia de impotência da democracia para resolver os problemas das pessoas. Independentemente de em quem votem, as decisões económicas são sempre as mesmas e servem, preferencialmente, determinadas elites políticas e económicas.

Perante este vazio, numa sociedade cada vez mais deslaçada em que impera o isolamento e a insegurança em relação ao futuro - as novas gerações vão viver pior do que as anteriores -, o populismo de extrema-direita veio tentar ocupar o vazio através de um redesenhar do território da política.

De um lado, teríamos as supostas elites, todas confundidas e misturadas, políticos e intelectuais, os imigrantes e as pessoas que não são “da nossa cultura e raça”, e, do outro lado, o povo de bem.

Este mapa da política deixa de lado, naturalmente, as diferenças entre patrões e trabalhadores. Nega a existência de uma luta de classes e substitui-a por uma suposta guerra de civilizações. Aquele que trabalha e é roubado por uma economia que enriquece bilionários não olha para eles e concentra o seu ódio no imigrante que trabalha por metade do preço. Como se essas situações não fossem ditadas pelo capitalismo financeiro globalizado. André Ventura faz esse movimento de prestidigitação, retirando da vista os empresários milionários que dão dinheiro ao Chega, fazendo ainda um ajuste de contas histórico. Quer fazer-nos crer que a culpa da nossa situação de miséria está na democracia, e não na economia. Ao mesmo tempo, faz uma lavagem do fascismo e do colonialismo, como se eles não tivessem sido uma das razões, a par da política neoliberal, do nosso atraso e da falta de condições de vida em que se encontra a maioria das pessoas que vivem em Portugal. Para dizer claramente, não foi quem combateu a ditadura e o colonialismo que traiu as pessoas que vivem em Portugal, foi quem defende esse regime fascista que tem as culpas do sofrimento, miséria e falta de liberdade em que viveram gerações.

O Chega é o braço armado dos ricos, que lhe pagam, a fingir que quer apoiar quem trabalha. Tudo isso disfarçado com discursos sobre segurança, ideologia de género, falsa teoria da substituição dos portugueses pelos imigrantes e o alegado combate à corrupção, que deixaria os maiores corruptos a salvo.

Para impedir o crescimento da extrema-direita é preciso sair de um conflito em que a extrema-direita fala às entranhas das pessoas, enquanto do outro lado só há uma esquerda moderada que fala com o Excel.

O drama é que populismos e fundamentalismos têm sido contestados por bons motivos mas com más respostas. Como escrevia William Butler Yeats n’O Segundo Advento, “aos melhores falta convicção e aos piores sobeja apaixonada intensidade”. Talvez fosse melhor desenterrar a luta de classes e reivindicar a parte intensa de um conflito social com coordenadas verdadeiras.»

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