30.9.25

Israel na Eurovisão?

 


29.9.25

Chega: sexo, mentiras e Deus

 


ESTE TEXTO de Paulo Pena está «aberto» e merece leitura muito atenta.

Isabel Moreira

 


O algoritmo não vota, mas decide

 


«Sobre algoritmos que podem manipular eleições, calados. Sobre empregos que a automação ameaça, silêncio. Sobre literacia digital, nada.

Estamos em campanha eleitoral, na verdade em duas (autárquicas e presidenciais) que se atropelam no tempo, mas também nas promessas e nas declarações de intenções. É certo que não há nenhuma dúvida sobre os assuntos que mais importam aos portugueses: habitação, saúde, educação, salários e impostos. No entanto, é necessário colocar a inteligência artificial na ordem do dia. Necessário porque impacta, e de forma substancial, em praticamente todos os temas. Não chegam chavões sobre inovação e modernização. É preciso começar a agir no sentido de proteger os direitos digitais dos cidadãos. No fundo, proteger a democracia.»

Continuar a ler AQUI.

Samora Machel

 


Seriam 92, hoje.

O Chega já conseguiu “implodir o sistema”: o Parlamento é uma bandalheira

 


«Vinham para fazer “implodir” o sistema e estão a ser muito bem-sucedidos. A bancada do Chega tornou o Parlamento numa tasca mal frequentada, onde as mulheres deputadas são intimidadas e insultadas e isto não começou com o “beijo”. Tabernas em que a frequência era maioritariamente de javardos sempre existiram – naqueles lugares, muitas mulheres evitavam entrar sob pena de serem alvo de assédio ou insultos. Hoje, a Assembleia da República funciona no mesmo comprimento de onda.

O caso do “beijo” que o vice-presidente da Assembleia da República Filipe Melo enviou à deputada Isabel Moreira é apenas mais um episódio na degradação do Parlamento que tem vindo a ser levada a cabo pela força de direita populista, perante uma grande inércia da mesa da Assembleia da República e dos outros grupos parlamentares. O não saber lidar com a bandalheira torna a bandalheira aceitável.

Em última análise, está em causa o regular funcionamento das instituições da República. A passividade perante esta implosão dos órgãos de soberania – ou o encolher de ombros – está a pôr em causa a democracia.

Defender que não se pode fazer nada e que se é obrigado a aceitar a intimidação de pessoas com tendência para actividades javardas (no fundo, a forma como todos reagimos quando entramos em tabernas mal frequentadas) não funciona. Das tabernas, todos nós saímos com facilidade. Abandonar o Parlamento por via do assédio do Chega é colocar o problema numa outra dimensão.

À cena degradante do “beijo” do vice-presidente, José Pedro Aguiar Branco respondeu de forma dura, depois de ter visionado as imagens. Vamos ver o que se segue. Até aqui, a condescendência tinha sido a palavra de ordem. Os deputados do Chega têm tido imenso sucesso no seu objectivo de destruição das instituições da República, só porque ninguém sabe qual é a melhor maneira de lidar com eles. O que acontece no Parlamento é uma espécie de paralisia, à semelhança do que se está a passar com o Partido Democrata nos Estados Unidos da América.

A degenerescência do Parlamento às mãos do Chega já foi muitas vezes documentada. O assédio a Isabel Moreira tem sido contínuo. Em Maio de 2024, a deputada socialista denunciava a “ofensa e injúria permanente” dos deputados do Chega contra mulheres.

Dizia Isabel Moreira na altura: “Ouvi coisas como vaca, mugidos ou nomes que se chamam a deputadas assumidamente lésbicas”. Na altura, Isabel Moreira dizia que o assédio é muitas vezes feito “nos corredores” quando as deputadas “estão sozinhas e ninguém está a ouvir” e acusava os deputados do Chega de “dizerem coisas absolutamente insuportáveis”.

Todas as mulheres tendem a evitar locais onde possam ser sujeitas a este tipo de assédio – as tais tascas frequentadas por bêbados ou javardos. A Assembleia da República é hoje um lugar onde uma mulher não pode estar sem ser vítima de assédio. O assédio não é só protagonizado por homens. A deputada Rita Matias já chamou “senil” à deputada socialista Edite Estrela.

. Depois, há o racismo: a ex-deputada Romualda Fernandes, negra, foi atacada por parlamentares do Chega com alegadas graçolas.

Este Portugal bronco evidentemente existe. Foi convencionado que o cargo de Presidente da República, o segundo órgão de soberania que é a Assembleia da República, o Governo se iriam reger por regras de boa educação. De resto, existe até o protocolo de Estado. Provavelmente o protocolo de Estado já é um papel ultrapassado pelos acontecimentos.

“Rebentar com o sistema” também é isto: é tornar irrespirável o ambiente no Parlamento, com o fim de um dia acabar com ele. Encolher institucionalmente os ombros – a estratégia que vingou agora – é ser cúmplice da implosão.»


Flotilha vista pelo MNE espanhol

 


28.9.25

Cálices

 


Cálice "Pin Cones". Combinando ourivesaria e vidro, este objecto utiliza várias técnicas de artesanato do artista. Vidro de dupla camada, com uma base prateada. 1902.
René Lalique.

Daqui.

O PS na sua «retração»

 


«Estudo de especialista da GfK Metris mostra que partido enfrenta uma “retração eleitoral sem precedentes”. Em 122 concelhos, os socialistas estão sob alerta “elevado ou “crítico”.»


28.09.1974 - A «Maioria [que ficou mesmo] Silenciosa»

 


O país esteve agitado. Esperava-se a realização da chamada «Manifestação da Maioria Silenciosa» – uma iniciativa de apoio ao apelo do general Spínola, convocada alguns dias antes por cartazes que invadiram Lisboa.



Acabou por ser proibida pela Comissão Coordenadora do Programa do MFA. Antes disso, Spínola que tinha tentado, sem sucesso, reforçar os poderes da Junta de Salvação Nacional, emitiu um comunicado, pouco antes do meio-dia, a agradecer a intenção dos manifestantes, mas declarando que, naquele momento, a manifestação não seria «conveniente».

Os partidos políticos de esquerda (CARP M-L, CCRM-L, GAPS, LCI, LUAR, MDP/CDE, MES, PCP m-l, PCP, PRP-BR, URML), sindicatos e outras organizações tinham desencadeado, no próprio dia, uma gigantesca operação de «vigilância popular»: desde as primeiras horas da manhã, dezenas de grupos de militantes distribuíram panfletos e pararam e revistaram carros em todas as entradas de Lisboa.

Em 30 de Setembro, Spínola demitiu-se do cargo de presidente da República, sendo substituído pelo general Costa Gomes. Fechou-se assim o primeiro ciclo político do pós 25 de Abril.
.

Uma criança poderosa

 


«Para exibir a inutilidade da ONU e exigir o Nobel da Paz, Donald Trump congratulou-se por ter acabado com sete guerras em sete meses, misturando escaramuças, conflitos de poucos dias, tensões que se mantêm e duas guerras inexistentes — entre a Sérvia e o Kosovo (um acordo de normalização económica sem qualquer sinal de confronto) e entre o Egito e a Etiópia (meras tensões diplomáticas por causa de uma barragem, que a última guerra foi no século XIX). De fora ficaram, claro, guerras reais, como na Ucrânia e em Gaza, que Trump jurara que acabaria num ápice, até amuar com os seus responsáveis por não lhe fazerem a vontade. Para o herdeiro mimado, o Nobel tem a mesma função de quase tudo o que faz: alimentar o seu ego inseguro. E para isso servem todas as cimeiras, negociações, visitas de Estado: evitar a birra do bebé grande que se transformou no homem mais poderoso do mundo.

Não sei se Trump tem consciência da mentira, se a acha irrelevante ou se a ignorância não lhe permite fazer esta distinção. Sei que, há não muitos anos, se um Presidente dos EUA inventasse, perante a Assembleia-Geral da ONU, ter posto fim a duas guerras inexistentes, e isso não resultasse de uma gafe, o tema seria a sua saúde mental. Foi com falhas menores que desconfiámos de Biden. Não é assim com Trump porque, tal como todos os que lhe copiam o estilo, os critérios para os líderes forjados por este tempo são diferentes. A mentira é detetada pela bolha que se informa pelos meios que usávamos no passado. Mas uma realidade paralela segue o seu caminho. Não é que haja mais ignorância, mas horas de scroll nas redes dão a ilusão do saber. E estamos só no início da distopia, ainda sem o impacto mais profundo do conforto da inteligência artificial capaz, que nos dispensa o pensamento crítico. O ser humano está, como um demente, a desligar-se da realidade. Porque deixámos de nos informar e comunicar através de meios de intermediação falíveis e parciais, mas escrutináveis, para o fazermos em plataformas falsamente horizontais, ilusoriamente neutras e, graças à sua opacidade, muito fáceis de manipular. A democracia está a morrer porque morreu qualquer ideia de verdade partilhada por uma comunidade. Nem a verdade científica, transformada em cabala de elites, sobrevive.

Sem uma verdade partilhada, um sentido de comunidade e mediadores que estruturem a nossa vida social não há ética que sobreviva. É por isso que, no meio de um genocídio, o risonho ministro das Finanças israelita pode dizer que tem, para uma Gaza em escombros, um projeto imobiliário que pagará o investimento na carnificina. Não é que ninguém se choque. Ainda sobra passado neste presente que anuncia o futuro. Mas a alienação em que vivemos permite que a vida continue sem um sobressalto tal que os Estados europeus sejam obrigados a mais do que umas declarações simbólicas. Não é que a amoralidade supremacista seja nova. A sua exibição desabrida é que era pouco habitual. Mas a verdade foi substituída por um subproduto: a boçalidade. Se a verdade passou a ser indiferente, ser hipócrita, cimento de uma civilização em que as pessoas não se agridem quotidianamente com a expressão sem filtro dos seus sentimentos, é o pior dos crimes. Perdemos o que nos faz adultos: distinguir a realidade da fantasia e manter regras so¬ciais de contenção para não tornar a convivência num inferno.

Esta infantilização coletiva, com o endeusamento amoral do sucesso individual, é uma das causas para a ascensão de egomaníacos como Trump. Sempre houve narcisistas em todo o lugar onde está o poder. Mas, neste tempo de redes e burburinho, o povo parece ter recuperado o fascínio por mentes perturbadas. Aquelas que as ditaduras unipessoais forjavam depois de décadas de poder sem escrutínio. Se nada é realmente mentira, nada é realmente errado. Como numa ditadura, o único imperativo que sobra é a vontade do ditador.

Sou dos que acreditam que vivemos o ocaso da democracia moderna, experiência curta na história da humanidade. Sem estruturas mediadoras que enquadrem a vida social com regras, com milionários tecnológicos mais ricos do que os Estados, concentrando uma riqueza e um poder nunca vistos, com um capitalismo global financeirizado, com a Ágora ateniense transformada em Coliseu romano, com a mercantilização de todas as necessidades humanas e sem qualquer noção de futuro, por sabermos da caminhada para o inferno climático, não sei se é possível travar a queda. Mas gostava que ainda fôssemos, como os brasileiros, à luta. Mesmo que seja inútil, a mais falhada das gerações (a minha) cumprirá um dever histórico para com os que pôs num mundo que destruiu a uma velocidade sem precedentes.»


2.300 euros?