14.10.25

Lisboa, voto urbano

 


«PS, PSD e Chega subiram as suas votações na Área Metropolitana de Lisboa - mas com o partido de Ventura a reforçar-se em mais de 200% dos votos, esmagadoramente acima, em termos percentuais, do crescimento registado por socialistas (5%) e sociais-democratas (17%).»


14.10.1964 – Nobel da Paz para Luther King

 




Excertos do discurso:

«Aceito o Prémio Nobel da Paz num momento em que 22 milhões de negros nos Estados Unidos estão envolvidos numa batalha criativa para encerrar a longa noite da injustiça racial. Aceito este prémio em nome de um movimento de direitos civis que está avançando com determinação e um majestoso desprezo pelos riscos e perigos de estabelecer um reino de liberdade e um sistema de justiça. Estou ciente de que uma pobreza debilitante e asfixiante aflige o meu povo e o acorrenta ao degrau mais baixo da escala económica. Portanto, devo perguntar porque é que este prémio está a ser concedido a um movimento que é comprometido com uma luta incessante; a um movimento que não conquistou a própria paz e fraternidade que é a essência do Prémio Nobel. Depois de pensar a esse respeito, concluí que este prémio que recebo em nome desse movimento é um reconhecimento profundo de que a não-violência é a resposta à questão moral e política crucial de nosso tempo: a necessidade do homem superar a opressão e a violência sem recorrer à violência e à opressão (...).

Ainda creio que superaremos tudo isso. Essa fé dá-nos a coragem de enfrentar as incertezas do futuro. Dá forças aos nossos pés cansados enquanto continuamos a nossa marcha rumo à cidade da liberdade. Quando os nossos dias se tornarem lúgubres e cobertos por nuvens e as nossas noites se tornarem mais escuras que mil meias-noites, saberemos que estamos vivendo no tumulto criativo de uma civilização genuína que luta para nascer.»

Recordar nem sempre é reviver

 


As percepções das autárquicas

 


«Há eleições que revelam o país todo, e há eleições que o revelam em partes. As autárquicas pertencem, quase sempre, à segunda categoria. São uma soma de geografias e de personalidades, de afetos antigos e fidelidades locais. A tentação de lhes extrair um mapa nacional é antiga, mas, como todos os vícios políticos, resiste à evidência.

Veja-se Viseu. Laranja durante décadas, o Cavaquistão caiu agora para o Partido Socialista. Seria um sismo ideológico, não fosse o facto de ter nome próprio: Fernando Ruas. A derrota deve-se menos à erosão nacional do PSD do que à fadiga de um poder local sobranceiro.

Ainda assim, o saldo global é inequívoco: foi uma vitória clara do PSD. Recuperou, doze anos depois, a Associação Nacional de Municípios e conquistou as cinco maiores câmaras do país. Carlos Moedas assegurou o segundo mandato, Pedro Duarte venceu no Porto, Luís Filipe Menezes regressou a Gaia, Marco Almeida derrotou a ministra Ana Mendes Godinho em Sintra, e Carlos Carreiras, em Cascais, perdeu a maioria mas manteve o poder (com a grande surpresa a ser João Maria Jonet que, sozinho, conseguiu ultrapassar o Chega). Se é imprudente tirar conclusões nacionais de resultados locais, permitam-me uma excepção: esta foi também uma vitória pessoal de Luís Montenegro. Apostou o capital político do governo para proteger Moedas e dar lastro a Pedro Duarte, e saiu-lhe bem. Foi, em tudo, uma segunda volta simbólica das legislativas. Montenegro não só sobreviveu ao governo, como acabou de ser reeleito pelo país.

Mas há outra leitura, menos triunfalista. O PSD venceu porque aprendeu a falar a língua do tempo. E o tempo é securitário. Pedro Duarte, no Porto, preferiu as percepções aos dados e tratou a insegurança como um rumor palpável. Moedas, que já tinha o discurso oleado a esse propósito, fez o mesmo em Lisboa. Em Sintra, Marco Almeida contou com o selo de Passos Coelho e levou até ao voto a tese de que as linhas vermelhas já não servem para nada. Foi uma vitória do pragmatismo, mas também do mimetismo: o PSD passará agora a acreditar que a forma mais eficaz de neutralizar o Chega é repetir-lhe o léxico, limando-lhe o excesso.

No Partido Socialista, o dilema é outro. José Luís Carneiro tinha duas candidaturas-símbolo à prova. Alexandra Leitão, em Lisboa, apostou na coligação à esquerda e perdeu, embora por pouco. Ricardo Leão, em Loures, cultivou uma retórica de ordem e autoridade. Chegou aliás a ser atacado pelo ex-secretário geral, António Costa, por ofender “gravemente os valores do PS”. E ganhou. Não se trata apenas de sociologia local. É um sinal de que também nos socialistas o centro de gravidade se desloca. José Luís Carneiro perceberá o que os resultados insinuam: o discurso que rende hoje não é o da pureza ideológica, é o da estabilidade. A vitória de Leão pode tornar-se a gramática da nova esquerda governamental ao invés de uma esquerda que se apresenta como a última reserva moral da moderação.

No fim, as autárquicas deixaram o retrato de um país menos radical do que o medo sugeria, mas mais conservador do que a retórica admite. O Chega não destruiu o bipartidarismo, mas contaminou-o. A extrema-direita não conquistou o poder, mas mudou a gramática de quem o exerce. O mapa político português continua dividido a meio. Mas o vocabulário com que o descrevemos deslocou-se alguns graus à direita.»


13.10.25

13.10.1941 – Paul Simon

 


Confesso que continuo com dificuldade em «desgarrar» Simon de Garfunkel que conheceu quando ambos tinham 10 anos e com quem iniciou exibições aos 13.

Bridge Over Troubled Water (1970), o último álbum antes de se separarem, inscreve-se na lista dos mais vendidos de sempre. Voltaram a reunir-se pontualmente, como no célebre Concerto de 1981, no Central Park de Nova Iorque.

Mas Simon continuou sozinho como um dos grandes artistas do século XX, sendo de realçar Graceland (1986), que é talvez o seu álbum com mais sucesso, e Sete Salmos, o seu último álbum, que lançou em 2023:


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Lisboetas: Na CML, ficámos com os “Trocos”.

 


Tristeza…

13.10.1921 – Yves Montand

 


Yves Montand, de facto Ivo Livi, nascido italiano e naturalizado francês, cantor e actor, formou um dos pares mais célebres do cinema francês quando se casou com Simone Signoret em 1951.

Pretexto para recordar algumas das suas interpretações, entre muitas.

Paris, Paris:






Porque é tempo delas:




E, inevitavelmente:


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O anúncio da morte do bipartidarismo foi francamente exagerado

 


«À hora que escrevo, ainda nem todos os resultados estão fechados. Há troca de vitórias e derrotas entre o PS e o PSD. Sendo verdade que o PSD passa a ter as cinco maiores câmaras do País – Lisboa, Porto, Sintra, Gaia e Cascais –, conquistando três delas, e passa a ser o partido com mais autarquias (pouca diferença), não é menos verdade que o PS consegue ganhar novas capitais de distrito como Faro, Évora, Coimbra, Viseu e Bragança – Beja é perdida para o PSD, que também ganha Setúbal, à boleia de Dores Meira. O PS não venceu, mas é, destacadamente, a segunda força nacional.

Ao contrário do que muitos vaticinavam, o bipartidarismo não foi beliscado. As grandes disputas continuaram a ser entre os dois grandes e, apesar das importantes conquistas de Albufeira (o sétimo maior orçamento do país), o Chega fica-se por três câmaras, muito abaixo do PCP e até do CDS, e a léguas do que tinha conseguido em legislativas. Quando Ventura não é o candidato o Chega não penetra.

Quanto ao PCP, os ganhos (Sines, Montemor, Aljustrel e Sesimbra) não compensam as perdas. Não me refiro à perda de Serpa, Alcácer-do-Sal, Grândola ou Benavente, mas das duas únicas capitais de distrito que mantinha – Évora e Setúbal –, o que faz desta uma das piores noites autárquicas dos comunistas. Olhar para os resultados da CDU nas autarquias suurbanas de Lisboa também nos diz alguma coisa sobre a transformação do seu eleitorado. Irónico, é que o seu bom resultado em Lisboa tenha sido, numa noite má, determinante para a reeleição de Carlos Moedas (aliado ao resto da esquerda, haveria uma maioria absoluta para governar a cidade). Talvez volte a isto e ao instinto suicida de esquerda noutro texto.

Seja como for, a grande notícia desta noite eleitoral é que, havendo muitas notícias, não houve qualquer terramoto e o país mudou menos do que as legislativas faziam pensar.»


Com raiva e com esperança

 


12.10.25

12.10.1960 – A sapatada de Nikit

 


Quem tem idade para tal lembra-se certamente deste episódio cujas imagens deram volta ao mundo, quando este era muito mais politicamente respeitador do que hoje: durante uma agitadíssima Assembleia Geral da ONU, Nikita Kruschev tirou um sapato e bateu furiosamente com ele na sua bancada.

O incidente produziu-se num momento de grande tensão na Guerra Fria, cinco meses depois de um avião-espia americano ter sido abatido em território soviético e quando o recentíssimo governo de Fidel Castro se aproximava cada vez mais da URSS.

Na origem do gesto de Kruschev esteve uma intervenção do representante das Filipinas, em que este acusou a União Soviética de «colonizar» os países da Europa de Leste e os privar de direitos civis e políticos.

Seguiu-se uma sequência rocambolesca: Nikita protestou com o sapato, o presidente da Assembleia tentou controlá-lo batendo na mesa com um martelo, partiu-o, apagou a comunicação das traduções simultâneas e interrompeu a sessão.


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12.10.1972 - O dia em que a PIDE assassinou Ribeiro dos Santos



No dia 12 de Outubro de 1972, a PIDE assassinou José António Ribeiro Santos, militante do MRPP.

Quando ia realizar-se um «meeting contra a repressão» em Económicas, gerou-se uma confusão quando foi identificado, junto das instalações da Associação de Estudantes, um desconhecido que analisava cartazes e tomava apontamentos. Seguiu-se uma série de episódios, resumida por Jorge Costa em texto publicado há alguns anos e mais tarde retomado, que culminou em disparos de revólver por um agente da PIDE – António Gomes da Rocha –, que mataram Ribeiro dos Santos e feriram José Lamego, também ele militante do MRPP (que esteve internado sob prisão no Hospital de S. José, até ser levado para Caxias e aí ser sujeito à tortura do sono).

O assassinato de Ribeiro dos Santos despoletou uma grande reacção em todo o movimento estudantil e marcou-o até ao 25 de Abril. Ainda na noite do dia 12, foi tomada em plenário de estudantes a decisão de paralisar a universidade para permitir a participação no funeral. Este deu lugar a uma forte carga policial, à saída da casa dos pais de Ribeiro dos Santos, perto da igreja de Santos, com a polícia a impedir que os colegas carregassem-se a urna, a pé, até ao cemitério da Ajuda. Houve feridos, algumas detenções e os distúrbios continuaram mais tarde pela cidade.

O que se seguiu? Cito Jorge Costa: «Nos dias seguintes, a universidade está parada. Face ao crescendo de manifestações, são emitidos mandados de captura contra os quatro primeiros dirigentes da AE de Ciências e da direcção cessante da AEIST. Alguns conseguem escapar e permanecer na sombra. Os plenários de 19 e 20 de Outubro são impedidos e toda a cidade se encontra super-policiada. A DGS realiza buscas nas casas de dirigentes associativos e muitos são levados para Caxias. Em Novembro, multiplicam-se as greves estudantis. Para impedir a agitação contínua, Sales Luís encerra o Técnico. Farmácia e Letras também fecham. Muitos dos estudantes suspensos são incorporados no exército colonial. Há muitos estudantes do ensino secundário entre os presos, em Lisboa e no Porto (...). No final de 1972, os estudantes estão em todas as batalhas da "quarta frente" da guerra que condena a ditadura.»
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Porque é que Trump nunca, jamais, em tempo algum, deveria ter o Nobel da Paz

 


«Embora o mundo esteja bizarro, caótico, esquisito, acreditei sempre que seria um absurdo se gente civilizada e com um módico de lucidez desse o Prémio Nobel da Paz a Donald Trump. Felizmente tal não aconteceu e eu imagino a raiva do próprio e dos seus pela recusa, depois de passar um ano a pressionar tudo e todos a renderem-se ao seu narcisismo agressivo. Trump nunca fez nada pela paz, fez tudo pelo Prémio Nobel, o que não é de todo a mesma coisa. E como há sempre um esforço dos “cientistas políticos” para encontrarem racionalidade no que ele faz, faz-se tábua rasa de que o seu único argumento é a força, a ameaça, e a pressa (para o Nobel), e isso pode aparentar resultados a curto prazo, mas nada que se sustente no tempo. Aliás, só quem não conhece o Médio Oriente pode confundir o que é um plano de rendição do Hamas com um plano de paz para a Palestina, como se verá a curto prazo.

No entanto, havia dez grandes razões para não dar a este homem violento e ameaçador o Prémio Nobel. Aqui vão:

1. Viola todas as leis, organiza a violência, deporta pessoas sem julgamento para prisões em ditaduras que suborna, cria um ambiente de guerra civil.

2. Conduz uma guerra contra aquilo a que chama o “inimigo interno”, os americanos que dele discordam e exercem os seus direitos cívicos debaixo da ameaça de despedimentos, espancamento, prisões. A classificação de “guerra” é dele.

3. Mudou o nome do Departamento de Defesa para Departamento da Guerra, introduzindo uma linguagem bélica nas forças armadas americanas muito para além das ameaças à segurança americana.

4. Conduz uma nova guerra contra a Venezuela a pretexto de combater os cartéis da droga, procedendo a execuções extrajudiciais, e criando um risco, por exemplo, para os pescadores venezuelanos que temem sair para o mar e serem tomados por barcos de drogas.

5. Nunca seria possível Israel ter feito o que fez em Gaza sem o apoio de Trump. O que ele agora diz que quer “remediar” para haver “paz” foi aquilo que ele incentivou, consentiu e a que fechou os olhos. Se há genocídio em Gaza há dois responsáveis: Trump e Netanyahu.

6. Traiu e trairá aos soluços a defesa da Ucrânia de uma invasão estrangeira, impedindo a sua defesa eficaz e estendendo o tapete a Putin, que ameaça sem nunca cumprir. A defesa da paz implica que nunca haverá vantagem para o infractor, e Trump é mais hostil ao invadido do que ao invasor.

7. Ameaçou invadir a Gronelândia, o Canal do Panamá, e outros territórios soberanos, não de forma simbólica, mas real. Nunca afirmou que não usará a força para os subjugar.

8. A maioria das guerras com que ele diz ter “acabado” não sabe quais são, nem se existiam à data em que “acabou” com elas, ou se continuam, haja ou não haja acordo assinado na Casa Branca, apoiado por subornos e ameaças, as suas armas principais. Uma, entre o Egipto e a Etiópia, não existia; outra, entre a Sérvia e o Kosovo, está longe de acabar, embora o truque que ele usa seja chamar “guerras” a todos os conflitos, mesmo que não tenham expressão militar ou que, se a tiverem, se tratem de pouco mais do que escaramuças fronteiriças, que se repetem periodicamente e que tornarão a repetir-se.

9. Nalguns casos, como no conflito entre a Índia e o Paquistão, os responsáveis indianos literalmente gozaram com a afirmação de Trump de que tinha sido ele a “acabar” com o conflito. Na verdade, na Casa Branca devem andar a ver catálogos de conflitos pelo mundo inteiro para que o Presidente tenha mais uma “guerra” com que “acabar”.

10. Sim, acabou com uma guerra, a que disse que existia entre o Camboja e Arménia, como ele afirmou no seu discurso nas Nações Unidas. Acontece que essa guerra não existia, e seria absurda se alguém visse um mapa ou tivesse a mínima noção de geografia. Se houver algum dia uma guerra entre o Camboja e a Arménia, então merece mesmo o Prémio Nobel da Paz porque acabou com ela por antecedência.»