19.6.10

Um aniversário triste


Aung San Suu Kyi faz hoje 65 anos. Continua com residência fixa na sua casa de Rangun, que nem de longe pode ser vista porque a rua que lhe dá acesso está barrada ao trânsito – testemunhei-o quando lá estive, há menos de um ano.

Apesar de todos os apelos, incluindo um de Obama feito ontem, a Junta Militar que governa o país não a liberta. Simbólica e silenciosamente, os seus seguidores plantarão hoje 20.000 árvores espalhadas por todo o país, com a convicção de que a mensagem política da sua líder crescerá como as plantas.

Dezenas de milhares de exilados brimaneses espalhados pelo mundo celebram hoje o 65º aniversário de Aung - a «senhora», como carinhosamente lhe chamam – com festejos e muitos protestos. No Facebook, várias Causas e páginas se associam, com um sem número de mensagens. É o mínimo – e infelizmente o máximo – que pode ser feito.

Entretanto, haverá eleições em Outubro - «nem livres, nem limpas, nem democráticas» -,mas o partido liderado por Aung, desde 1988, não concorrerá (dissolveu-se, mesmo), já que, ao contrário de muitas expectativas, a extensão da pena de residência fixa a que ela está condenada não foi reduzida a tempo de poder participar na campanha eleitoral.

Estive nesse terrível país, que terá ficado gravado na memória de muitos pela colorida revolta dos monges em 2007, e onde há mais de 2.000 presos políticos, em Novembro de 2009. Retomo algumas passagens do que então escrevi:

Habana vieja

Leio tudo o que encontro escrito por este senhor. Fundamental para sentir o pulsar de Havana.


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A crise segue dentro de momentos



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18.6.10

Um clássico



Num dia em as coisas não correram lá muito bem para a Alemanha...

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Nem só de calendários vive o homem


A possível diminuição do número de feriados em Portugal, e a sua eventual colagem a fins-de-semana, quase rivalizam com o Mundial em número de notícias e comentários. Mais um.

Poderia ir pela via das laicidades, mas não me apetece e parece-me totalmente salomónica a opinião (ou decisão, não entendi bem) de cortar um número igual de feriados laicos e religiosos. Tal como considero demagógica a afirmação do chefe da UGT que declara ser absurdo aumentar o tempo de trabalho quando aumenta o desemprego. E lamentável a ignorância de excelsos deputados e bloggers de esquerda, pura e dura, que gritam aos quatro ventos que seria inimaginável que Portugal fosse o único país no mundo a não celebrar o Dia do Trabalhador no 1º de Maio: pelo menos em Inglaterra, nem sei desde quando mas há muitos anos, é na primeira 2ª feira de Maio que ele é comemorado.

Qualquer que seja a redução e os critérios quanto a mobilidade, mudar o Natal é mexer a tal ponto nos usos e costumes que parece absurdo, 1 de Janeiro é dia de ressaca mundial e o resto é fantasia. Sobre feriados religiosos, «passo»: entenda-se quem de direito para manter quais e quando.

Sobre os outros, avanço um critério, tão discutível como todos, certamente mais absurdo do que muitos, mas que é o meu: considero inadmissível que sejam «transladados» aqueles que assinalem acontecimentos de que haja ainda protagonistas vivos. Explico melhor: enquanto existir algum sobrevivente do 5 de Outubro (deve havê-los, pelo prolongamento da esperança de vida…) e enquanto todos os que vivemos o 25 de Abril não morrermos, essa datas são tão «sagradas», para quem as viveu, como a do nascimento de um filho. É-me perfeitamente indiferente recordar dois ou três dias mais tarde a morte de Camões ou a Restauração de 1640, mas nunca o será confundir a última semana do marcelismo, ou a ansiedade pela libertação dos presos em Caxias a 26, com as horas passadas nas ruas no dia 25. Pieguice, sentimentalismo bacoco? Quero lá saber! São também os afectos que é necessário preservar, a vida não é um compêndio actualizado da velha História do pai Mattoso.
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Saramago: Deus, a Igreja e o pecado



A última polémica, a propósito de Caim.
Gostei muito de alguns dos seus livros e, como (quase?) toda a gente, deixei outros a meio. Nunca tive uma especial simpatia pela pessoa.

 Esta tarde, senti muito a falta de José Cardoso Pires.
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Há 70 anos



Discurso de De Gaulle, lido na BBC, em 18 de Junho de 1940. Considerado como símbolo e início da Resistência francesa na II Guerra Mundial.

Mais informação.
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17.6.10

As Isildas não desistem


Não há dia em que não se leia uma ou outra notícia sobre pressões para que Bagão Félix concorra às presidenciais. Hoje fala-se de 100 mulheres católicas que «ficaram sem candidato» desde que Cavaco Silva promulgou a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. (Por que razão a identidade de género é para aqui chamada é para mim um mistério, mas adiante porque, em iniciativas que incluam a drª Isilda Pegado, há sempre algo que me transcende.)


Gravíssima a promulgação do diploma sem devolução à Assembleia da República e única razão para todo este burburinho? Nada mais em causa para além das presidenciais de 2011? Acredite quem quiser. Aparentemente, está à vista apenas a ponta de um iceberg onde se consolida uma movimentação crescente dos conservadores católicos que estão a organizar-se a diferentes níveis, entre outras razões porque até os partidos da direita são considerados demasiado liberais em matéria de costumes e de família.

«Sabe-se», «diz-se», «dizem-me» que o próprio Policarpo terá feito agora afirmações menos cordatas e um tanto mais hostis do que é habitual, por um lado como resultado de grandes pressões, por outro para travar eventuais posições públicas mais agressivas e menos razoáveis. Com fundamento ou resultado de puras conjecturas, o que parece certo é que o bater de asas das borboletas espanholas está a fazer-se sentir - devagar, devagarinho porque desde lado tudo é mais manso, mas…

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Só eu é que acho isto péssimo?



...num canal infantil? «Como nós não há igual»? Só espero que o filme não tenha sido subsidiado pela Comissão das Comemorações do Centenário da República: viram o dístico publicitário no aviãozinho?
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Suicide-se: o país agradece


«A TVI noticiou ontem que o INEM vai acabar com aquilo que o seu presidente classificou de serviço "dispendioso": a ajuda, quer telefónica quer no terreno, a pessoas em tentativa de suicídio (bem como ainda às vítimas de violação e de maus-tratos). As ordens "de cima" são para poupar e o INEM poupará deste modo nos salários de 7 psicólogos, que atendiam, em média, 27 chamadas e saíam 5 vezes por semana para apoiar pessoas em estado de grande depressão e em vias de se suicidarem. Um cínico diria que os critérios de poupança do INEM se justificam inteiramente. Impedir alguém de se matar contribui, de facto, para o agravamento do défice, sendo, por isso, antipatriótico. Implica não só encargos com pessoal e meios como ainda obsta a que a Segurança Social poupe em pensões e subsídios, já que boa parte dos potenciais suicidas, quando não são doentes crónicos ou terminais que oneram o SNS, são provavelmente idosos, desempregados e beneficiários de Rendimento Social de Inserção, isto é, gente "inútil" e, pior, fardos que só atrasam a gloriosa marcha de Portugal em direcção aos 3% de défice em 2013.»

Manuel António Pina, do JN de hoje (o realce é meu).
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16.6.10

«Cinzas de Verão»


O blogue do Centro Nacional de Cultura publicou hoje mais uma crónica de João Bénard da Costa. Sobre calendários, férias, o Verão numa das suas grandes paixões: a Arrábida.

Trago-a para aqui não só pelo texto em si, mas porque o mesmo me fez recuar a meses de Agosto únicos, passados com a família Bénard da Costa. Não na Villa Raul, de que o João fala, mas muito perto, já com a novíssima ponte sobre o Tejo e alguns automóveis em segunda mão a facilitarem a viagem,  com péssimas estradas, ainda sem electricidade, sem lojas, apenas com os longos dias no Creiro, para onde se ia a pé ou no barco do Salmonete, as intermináveis conversas noite fora à luz da vela, com o mar de Alpertuche de um lado e o Convento incrustado na Serra do outro, a festa pela chegada do primeiro gira-discos a pilhas, vindo da América, os dramas de amores e desamores em plenos anos 60.

A morte nalguns casos, as vidas nos outros, espalharam-nos por aí e já raramente nos encontramos. Mas a Arrábida, essa, ficou para sempre colada à pele.


1 - 1 de Outubro. Para mim, os anos começam sempre a 1 de Outubro. 1 de Janeiro é só o menos estimulante dos dias da quadra do Natal, uma espécie de cinzento P.S. (vale para "post-scriptum") do Dia do Menino Jesus.
Aos mais novos recordo que, nos meus tempos, era a 1 de Outubro que recomeçavam as aulas, após as férias que nos anos sem exame (e dos sete do liceu, quatro eram anos desses) se espraiavam docemente entre 14 de Junho e 30 de Setembro, dia dos anos da minha avó. Para mim, espraiavam-se literalmente entre 1 de Agosto e 28 ou 29 de Setembro. 1 de Agosto era o dia da viagem, entendendo-se por viagem o percurso entre o nº 86 da Avenida António Augusto de Aguiar, em Lisboa, e a Villa Raul na Arrábida. Os quilómetros (46) não encolheram com o tempo, mas sem pontes sobre o Tejo (travessia em "ferry-boat"), camioneta de Cacilhas para Azeitão e mais camioneta de Azeitão para a Arrábida, o percurso era coisa para quatro, cinco horas a que se somavam as horas de espera pelas mencionadas carripanas, exclusivo de João Cândido Bello. Cedo erguer em Lisboa e pôr-do-sol na Arrábida, onde, felizmente, havíamos sido precedidos pelas criadas, que já tinham posto a casa mais ou menos em condições. Tudo era diferente, nos rituais do quotidiano. Não havia luz eléctrica, a água provinha de uma cisterna e era levada em jarros para os quartos e respectivos lavatórios. Não havia telefonias nem telefones, não havia cinemas nem lojas. Havia a praia e os banhos, os passeios na serra. Um silêncio total. Regressar a Lisboa era passar do século XIX ao século XX. A surpresa de carregar num interruptor e fazer-se luz, da água a jorros, do telefone a tocar. À noite, na cama, eu ouvia os silvos dos comboios de Entrecampos e não mais a nortada a fazer ranger as madeiras das portas e dos tectos. Um ano acabara, começava outro, ao reencontrar (ou perder) colegas e professores nos pátios e nas aulas do Liceu Camões. Nunca mais via os primos e as meninas do Verão. Até outro Verão. Mas não o Verão, como eu não o via, com os mesmos olhos. O tempo ainda não passava a correr e um ano na adolescência é maior do que a légua da Póvoa. Nesse tempo, é que a vida eram literalmente dois dias: os dias do Inverno e os dias do Verão. As coisas então mais importantes para mim também se contavam a dois: os dias do campeonato de futebol e os dias sem campeonato, começou a época, acabou a época. Havia, no defeso, alguns sucedâneos (a Volta em Portugal em bicicleta, por exemplo), mas não era nada a mesma coisa. As temporadas dos cinemas: os grandes filmes chegavam em Outubro e desfilavam até Junho-Julho, quando começam as "reprises". No Verão, muitos cinemas fechavam enquanto os anúncios anunciavam: "Temporada de 1949-50". Havia os amores de Verão e os desamores do Inverno, e só mais tarde começou a ser vice-versa. Havia os pecados de Lisboa e os pecados da Mata Coberta. Havia as missas em capelas de casas ou grutas particulares e havia as missas de S. Sebastião da Pedreira ou do Patronato. Havia um eu de Inverno e um eu de Verão. Como é que eu posso dizer que o ano não começa a 1 de Outubro?

Continua aqui.
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«No tuve juicio, ni abogado, ni sentencia»


Quinze cineastas, escritores, artistas e músicos deram rostos e vozes a outros tantas pessoas assassinadas durante a Guerra Civil de Espanha, num vídeo impressionante - para vergonha dos juízes que perseguiram Baltasar Garzón, disse Emílio Silva, presidente da Associação para a Memória Histórica.



(Fonte)
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