.
20.4.13
A origem do mundo
A guerra civil da Espanha tinha terminado há poucos anos e a cruz e a espada reinavam sobre as ruínas da República. Um dos vencidos, um operário anarquista, recém saído da cadeia, procurava trabalho. Virava céu e terra, em vão. Não havia trabalho para um comuna. Toda a gente fechava a cara, sacudia os ombros ou virava as costas. Não se entendia com ninguém, ninguém o escutava. O vinho era o único amigo que sobrava. À noite, em frente dos pratos vazios, suportava sem dizer nada as queixas de sua esposa beata, mulher de missa diária,
enquanto o filho, um menino pequeno, recitava o catecismo para ele ouvir.
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, contou-me. Contou-me em Barcelona, quando cheguei ao exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso, não entendia.
— Mas, pai — disse Josep, chorando — se Deus não existe, quem fez o mundo?
— Bobo — disse o operário, cabisbaixo, quase que segredando. Bobo. Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.
Eduardo Galeano, O livro dos abraços
.
Valha-nos o humor
Notícias de Bogotá
- Não há cá Nobel, nem meio Nobel, filho. Acho muito bem que não faças publicidade a comunas e, se estão chocados, eu mandava-lhes um comunicado a mudar de conversa. Era tipo "Sara Mago, pseudónimo literário de Joana Vasconcelos, não pôde estar presente no discurso do senhor presidente derivado ao facto de ainda se estar a levantar do chão, depois de ter ingerido um par de jeans tónicos sem bainhas e um memorial com vento". E agora despacha-te que eu ainda gostava de ir ao enterro do Ricardo Reis, já que perdemos o da Tia Margaret...
(António Costa Santos no Facebook)
.
Europa: ainda temos a Liga dos Campeões
«Até há 20 anos, a Europa era o sonho, a esperança, o desafio de um novo começo: a libertação pacífica dos países de Leste, a reunificação alemã, a abolição das fronteiras, a livre circulação das ideias e das pessoas, Erasmus. Atualmente, temos apenas a Liga dos Campeões para nos lembrarmos de que ainda somos uma União. Quanto ao resto, bem-vindos à Eurolândia, a árida terra do euro, uma união monetária em que as palavras mais aterradoras que um europeu pode ouvir são: “Olá, sou da UE e estou aqui para te ajudar”.»
(Daqui)
.
19.4.13
A Associação 25 de Abril e as comemorações do 39º aniversário da Revolução
Mensagem da Associação 25 de Abril
Foi há 39 anos que o Movimento das Forças Armada concretizou o derrube da mais velha ditadura da Europa. A luta de muitos portugueses contra a tirania, a opressão e o obscurantismo, culminou nessa radiosa jornada de 25 de Abril de 1974, que nos lançou na mais extraordinária aventura que um povo pode viver: construir um país novo, recuperar do atraso em que o haviam colocado, fazer um Estado Democrático e de Direito, reconhecer o direito à autodeterminação e independência de povos colonizados, retirar Portugal do isolamento internacional em que os ditadores o mantinham, inserir-se numa Europa onde o Estado Social garantia há mais de trinta anos uma situação de paz, progresso, bem-estar e justiça social.
Foi o tempo de todas as esperanças, convictos de que se caminhava numa estrada com sentido único, ao encontro de uma sociedade verdadeiramente livre e justa.
Hoje, envolvidos numa enorme crise, damo-nos conta de que não há conquistas irreversíveis, de que é sempre possível o regresso dos fantasmas, de que os tiranos estão permanentemente disponíveis para subjugar os povos que se descuidam e não se protegem eficazmente.
Hoje, assistimos e sofremos na pele, ao destroçar de muito do que de bom se conseguiu, ao retrocesso para “tempos da outra senhora”, à destruição do Portugal de Abril e ao abrir de portas a novas escravidões, à iniquidade, à perda de soberania.
Muitos perdem a esperança. Vemos com preocupação o regresso da emigração em massa, com muitos portugueses a procurarem no estrangeiro as condições de sobrevivência que não vislumbram na nossa terra natal.
Mas, porque “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”, estamos a lutar, comas armas que a Democracia conquistada com Abril ainda nos permite, contra os novos tiranos que nos roubam o pão, o trabalho e a soberania!
É uma luta difícil, os inimigos são poderosos, mas a nossa História de quase mil anos e o direito à nossa vida com futuro a isso nos obrigam!
Estamos a lutar contra os que nos trouxeram a esta situação, contra os que se apoderaram do poder e o utilizaram em benefício próprio, contra os que se venderam ao capital financeiro e aceitam ser capatazes do seu próprio povo.
Estamos a lutar contra a corrupção, que foi a principal arma utilizada para provocar esta crise, e exigir a punição dos seus autores.
Estamos a lutar contra o agravamento da crise, que vem aumentando em relação directa com a responsabilidade dos detentores do poder – sejam eles o Presidente da República, os governantes ou os deputados, que se mostram incapazes de encontrar soluções que travem a crise. Mas também, é curial afirmá-lo, as oposições políticas ou sindicais, incapazes de apontar alternativas.
Temos consciência que a crise é generalizada no mundo ocidental, nomeadamente na Europa, mas isso não justifica a profundidade que atingiu em Portugal.
Estamos a lutar contra o marasmo, o conformismo, o amochar que se tem apoderado dos portugueses, perante as contínuas agressões, os roubos de que são vítimas, que os levam a olhar para a destruição do país, sem que se mobilizem e ponham cobro a uma situação que seria impensável há meia dúzia de anos.
Estamos a incentivar as acções da sociedade civil que vem despertando, vem assumindo a contestação e vem dando sinais inequívocos ao poder, que a não serem entendidos, provocarão fortes convulsões sociais, com a violência como pano de fundo.
Nesse sentido e considerando:
- O envolvimento em vários processos fraudulentos, de milhares de milhões de euros, de pessoas com as mais altas responsabilidades em diversos sectores da economia e das finanças da nossa sociedade, muitas vezes oriundos dos aparelhos partidários e tendo desempenhado as mais elevadas funções no Estado português;
- A continuação das enormes arbitrariedades que agentes do poder público continuam a praticar, ao mesmo tempo que se vêm conhecendo novos dados sobre a natureza e a responsabilidade de muitos actos “lesa pátria”, alguns configurando situações criminosas;
- A ausência de acções concretas, no sentido de responsabilizar os autores desses crimes;
A Associação 25 de Abril manifesta a sua indignação, face aos acontecimentos que se estão vivendo em Portugal e que configuram, sem a menor dúvida, um enorme e muito grave descrédito dos representantes políticos, um logro à confiança cidadã e um desprestígio para o nosso país, precisamente em momentos especialmente delicados e que requerem uma grande responsabilidade e compromisso.
A Democracia baseia-se num pacto social, onde os cidadãos elegem os que consideram os mais indicados para gerir os assuntos públicos e para os representar durante um período de tempo previamente acordado.
A Democracia não é, nem pode ser jamais, a concessão a uns quantos de uma patente de pilhagem para se enriquecerem durante quatro anos ou mais!
A Democracia tem o seu fundamento na confiança que os representados têm nos seus representantes ena lealdade destes perante quem os elegeu.
Quando essa confiança é traída e essa lealdade desaparece, o prestígio e a legitimidade moral da classe política desmoronam-se e o cimento da Democracia apodrece.
É o que, na opinião da Associação 25 de Abril, se está passando em Portugal!
E é mais que sabido o que sucede quando, num Estado de Direito, a classe política perde o seu prestígio porque se transforma numa espécie de casta que deixa de servir os interesses de todos para servir apenas os seus próprios interesses.
Basta analisar a história do século XX para se concluir que essa foi sempre a antecâmara do totalitarismo.
Nesse sentido:
- A Associação 25 de Abril reclama uma justiça firme, eficaz e rápida;
- A Associação 25 de Abril reclama junto dos partidos políticos, a todos sem excepção, que façam tudo o que estiver ao seu alcance para denunciar e expulsar das suas organizações todos quantos hajam tomado parte em práticas corruptas. A todos e a todas, sejam quem forem.
Sendo os partidos políticos elementos essenciais ao funcionamento democrático, só com a sua elevação ética e regeneração poderá a classe política recuperar o prestígio perdido e a sua representatividade moral.
Sem isso, a democracia, tal como a entendemos, será uma mera ficção!
Por isso, se não forem os partidos políticos a alterarem este estado de coisas, terão de ser os portugueses a alterar os partidos políticos.
Para isso, os partidos políticos têm de ser capazes de ultrapassar os interesses próprios, de “capelinha”, e privilegiar os interesses colectivos. Só assim serão responsáveis, só assim serão patriotas!
A Associação 25de Abril exorta os meios de comunicação social a que, nestes tempos tão graves, sirvam, acima de tudo, os interesses dos cidadãos! Informem com verdade, objectividade e exaustivamente, sem negar ou ocultar a realidade nem manipular os factos.
Só da difusão e do conhecimento da verdade pode surgir a regeneração ética, de que a nossa nação necessita mais do que nunca!
A Associação 25de Abril manifesta, por último, a sua esperança e a sua confiança, assim como a sua total lealdade, no sistema democrático e no Estado de Direito a que o 25 de Abril deu origem em Portugal, plasmados na Constituição da República.
Reclamamos pelas medidas necessárias ao impedimento da proliferação dos que se aproveitam do sistema para o seu próprio lucro e benefício, mas reclamamos também que essa exigência se faça rejeitando tutelas e “salvadores da pátria”.
Continuamos pensando que o sistema de liberdades e o pacto democrático entre os cidadãos é o melhor dos sistemas de governação.
Não desistimos, numa luta que não é só nossa. Nós e os outros povos europeus temos de ser capazes de perceber que os inimigos não são os outros povos, mas sim o capital financeiro que nos domina a todos e os que, em cada um dos países, a ele se venderam. A nossa luta é contra os tiranos e não de uns povos contra outros povos.
A Associação 25 de Abril exorta a uma democracia com ética e justiça!
Vamos vencer o medo, reafirmar Abril, construir o futuro!
A Direcção
Lisboa, Abril de 2013
**********************
Alem disso, ler também:
Por uma vez, totalmente de acordo, dr. Soares!
O PS continua fiel a si próprio e António José Seguro é o merecido, e merecedor, líder do partido que hoje comemora o seu 40º aniversário –assino por baixo. A realidade comprova-o todos os dias, certo?
Talvez os fundadores se tenham enganado na escolha do apelido para a organização, mas isso é uma outra história e já se sabe que ninguém alguma vez a levou a sério – a começar pelo próprio Mário Soares, obviamente.
(E a piada do dia vai mesmo para aqui: «Se o Partido Socialista fosse vivo comemoraria hoje 40 anos!»)
.
Fantasia
«Às vezes a política não é uma encenação, mas é raro tal acontecer; às vezes a política consegue ser coerente, mas não é nada frequente; às vezes os políticos são sinceros, mas não é costume. A semana que agora acabou foi pródiga em tudo isto. Por momentos, parecia um ensaio de bailado entre Passos Coelho e Seguro - só que ambos escorregavam e caíam, sem conseguirem completar os movimentos. Na época da comunicação digital, o primeiro-ministro e o líder do maior partido da oposição correspondem-se por carta para criar um ambiente de romance - uma coisa para inglês ver, melhor dizendo, para troika observar. Nesta última semana, não houve dia em que Passos e Seguro não falassem. Falaram demais - dias de cacofonia, de simulações e de muito poucos actos. Até a cena final - a conferência de imprensa matinal de quinta-feira, depois da dramatização de um Conselho de Ministros ao longo da madrugada, foi um triste espectáculo de vazio, uma ilusão de óptica. No fim da conferência de imprensa, fiquei com a certeza de que a troika vai saber, antes dos cidadãos, os cortes orçamentais que não foram revelados. Fecho os olhos e imagino tudo isto como se fosse um filme: o Governo retocou-se, escolheu uma nova maquilhagem, até fez um "casting" interessante para novos personagens. Mas mesmo bons actores podem aparecer em maus filmes, quando o realizador falha o seu serviço e o produtor está apenas interessado em tapar as evidências de que as coisas não vão bem. Olho para o Governo e tenho a sensação de que estou a ver um filme que é uma produção falhada, um filme que ultrapassou o orçamento, falhou a história, um filme onde os actores não se entendem e realizador e produtor não conseguem concretizar o projecto. Vítor Gaspar falhou estrondosamente no orçamento de produção, e Passos Coelho é um realizador que deixa a história degradar-se, por causa das dificuldades do produtor, e que não consegue dirigir os seus actores. Espero que nunca se candidatem a um subsídio à produção de cinema.»
Manuel Falcão
(O link pode só funcionar logo mais tarde ou amanhã)
.
18.4.13
Túnel ao fundo do túnel
Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje, sobre alternativas e falta delas.
«O nosso destino é falhar. Vamos falhar todos juntos. E sem estrebuchar. Há que educar o gosto para a beleza do falhanço colectivo. Imagine que vai ser devorado por um tigre. Não seja lírico. Já lhe disseram que não há alternativa. Lutar com o tigre é inútil (recordo que não há alternativa). O melhor é ficar quieto e deixar-se devorar. E, já agora, deitar uma pitada de sal no lombo, que o tigre gosta da carne apaladada. O trabalho do Governo é tratar deste tempero. Não se preocupe com nada.»
Na íntegra AQUI.
.
Pequenino, tão pequenino
... este ser presidencial que nos coube em azar.
Para além dos Urais e da Ilha das Flores
A descrição terá origem numa espécie de conclusão do FMI e ilustra a realidade de um certo ponto de vista: viveríamos agora uma «Primavera perfeita», «se não fosse a velha Europa estar numa profunda crise económica, que pode voltar a provocar uma crise financeira grave e profunda com efeitos sistémicos a nível mundial».
Países emergentes, Estados Unidos e asiáticos protestam e todos apontam o dedo à «estúpida política de austeridade imposta a muitos países europeus pelos parceiros mais ricos da União Europeia», que impede o crescimento e nem resolve o problema das dívidas.
Não sei se a Primavera mundial seria assim tão perfeita sem a nossa desgraça, mas o tema serve-me para regressar ao que sinto sempre que saio desta velhíssima Europa, sobretudo se aterro na América Latina ou em certos países da Ásia: são mundos virados para o futuro, optimistas de certa maneira mesmo quando (ainda?) pobres, lugares de esperança, terras de lutadores.
Nunca esquecerei a terrível sensação que tive ao passear pelas ruas desertas de Frankfurt, num Sábado cinzentíssimo de Inverno, acabada de chegar de Pequim: esvaziaram a Europa e ninguém me disse, transformaram isto em museu. Já lá vão nove anos e a palavra «austeridade» não fazia ainda parte do nosso léxico diário. Mas tudo vinha a caminho.
A partir daqui.
.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
.jpg)
.jpg)








