14.2.15

Lido por aí (235)


@João Abel Manta

* No es el descontento, es la desafección (José Ramón Montero e Mariano Torcal Loriente)

* ‘If I weren’t scared, I’d be awfully dangerous’ (Yanis Varoufakis)

* Varoufakis vs. Piketty: um embate para prestar atenção (Antonio Luiz M. C. Costa)
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Não foi o Syriza



Miguel Sousa Tavares, no Expresso de 14.02.2015:

«Qualquer benefício obtido pelo Governo grego na situação actual de estrangulamento financeiro em que vive terá o efeito de uma bofetada em Passos Coelho e Paulo Portas. Pois que significará duas coisas: que não estamos condenados ao TINA (“There Is No Alternative”), e que vale mais não abdicar de ser um parceiro europeu, com voz própria e ainda que desprezada, do que ser um mero vassalo da vontade e interesses alemães, ajoelhando aos pés de Schäuble, como fez Vítor Gaspar, prometendo-lhe obediência eterna em troca de uma “atençãozinha” (tão ao nosso jeito e tradição).

Portas — que costumava ser sensível a estas coisas — sabe muito bem que a vitória do Syriza e a sua postura perante Bruxelas e a Alemanha têm um efeito de atracção e contágio virais: eis um pequeno país, arruinado e pobre, que, em vez de se manter como pedinte, estendendo a mão e agradecendo, reivindica a sua quota-parte de soberania nacional, que os tratados europeus garantem. Por muito que custe a Passos Coelho entender estes detalhes, o Syriza foi eleito pelos gregos, em eleições livres e contra todas as ameaças e avisos de Bruxelas, para inverter a política do Governo da Nova Democracia de Samaras — cuja gestão era a única que a troika consentia. Esse detalhe — a manifestação de soberania nacional de um povo — é tudo aquilo que a UE, capturada pela Alemanha e pelo interesse alemão, não suporta. Mas não foi o Syriza que conduziu a Grécia à ruína e sim a ND e o PASOK; não foi o Syriza que instituiu na Grécia um sistema corrupto e um Estado clientelar; não foi o Syriza que fez batota com os dinheiros europeus e que permitiu toda a espécie de falcatruas e de evasões fiscais; e não foi o Syriza que, depois de ter arruinado o país, chamou a troika e lhe pediu montes de dinheiro emprestado — o qual, na sua maior parte, foi usado para safar a banca alemã, que, por ganância criminosa, tinha apostado forte na ruína financeira da Grécia. Não houve nada de inocente na forma como Bruxelas e Berlim assistiram à falência do Estado grego. É preciso ver para lá da babugem das marés, para lá dos fóruns de Davos e dos Conselhos Europeus.

Com um horizonte de gerações de miséria pela frente para pagar a dívida, a Grécia votou no Syriza contra a troika. Esperar ou exigir que o Syriza, eleito com um mandato expresso para mudar de agulha, continuasse a “honrar” o que o Governo anterior acordara com a troika, era o mesmo que dizer que Bruxelas não reconhece qualquer efeito ou legitimidade à vontade manifestada pelos povos da União — excepto se forem suficientemente grandes para poderem causar estragos gerais. Para desconforto dos trogloditas da direita, o Governo do Syriza não propôs nada de radical, nada do género “não pagamos, ponto final”. Pelo contrário, fez propostas que, além de justas e mais do que justificadas, são exequíveis e de interesse comum — desde que o interesse comum seja a defesa da Europa, coisa que eu há muito duvido que seja o interesse estratégico alemão. Esta mensagem, já entendida por muita gente que se desabituara de pensar “out of the box”, não chegou ainda, nem chegará, à actual maioria. Não só porque no horizonte há eleições e não é altura para começar a reconhecer que tudo esteve errado, mas também porque eles foram formatados assim e nada é mais penoso à ignorância do que a dúvida.

Há duas maneiras de um país endividado conseguir condições para pagar a dívida: ou pelo crescimento económico, gerando receitas sobrantes para tal, ou pelo empobrecimento, canalizando todos os recursos (mais impostos, menos prestações sociais, privatizações a qualquer preço), para, antes de tudo mais, pagar aos credores. Este último caminho foi o que a Alemanha impôs como castigo aos países do Sul, foi o que a troika executou e foi o que o Governo português entusiasticamente subscreveu (Passos chegou a fazer o elogio do empobrecimento e até houve um secretário de Estado que fez a apologia da emigração). Aqui e na Grécia conhecemos os resultados trágicos desta ‘solução’. O pior de tudo ainda, aquilo que demonstra como a solução estava errada, é que depois de fazer a economia regredir a padrões de há anos ou décadas, nem a dívida parou de aumentar nem se alterou nada de substancial na estrutura da despesa pública, de modo a evitar que, tal como Portas prometeu, o Estado português nunca mais se veja em situação de falência. Tudo foi um tremendo erro económico, resultante de uma irresponsável arrogância ideológica. É por isso que nem Passos, nem Portas, nem Cavaco Silva (que lhes deu sempre uma indecente cobertura política) podem admitir que a Grécia obtenha o que quer que seja. Detesto os palavrões políticos, mas não encontro outra forma de classificar esta atitude senão como uma posição antipatriótica, ditada pela mais mesquinha das razões.» 
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Incompetente, mentiroso, ou as duas coisas

O tempo das chamas



«O consenso é, nas sociedades, na política, na economia ou na cultura, uma pequena acalmia antes das tempestades. A paz na Europa, construída após a sangrenta II Guerra Mundial, fez-se em torno de consensos: a democracia política e o Estado social.

Agora todo esse equilíbrio parece estar em perigo. Sente-se o fim de um ciclo para o início de outro. A destruição das classes médias pela austeridade e pelo fim do crescimento económico sem fim ameaça a democracia política. Os extremos políticos ganham fôlego. Nas margens da Europa o fanatismo ganha militantes sem fim. No centro da Europa a linha que separa a paz da guerra lembra o que sucedeu antes da I e da II Guerra Mundial: uma pequena faísca pode degenerar num incêndio. (...)

A substituição das ideologias pelo consenso económico-financeiro fingiu ter terminado com a ideia de conflito. As ideias foram substituídas por interesses. As palavras foram substituídas por números. Como se as sociedades e os cidadãos se adaptassem a tudo. Os políticos tornaram-se contabilistas e assistiram impávidos ao fim da política como a religião do nosso tempo (especialmente depois da Revolução francesa) e ao renascer da religião como política, onde o deserto de valores e a implosão do Estado fazem regressar as regras primárias de segurança: a família, o clã, o território. (...)

A política é um teatro: e a essência da dramaturgia, como dizia Aristóteles, é o conflito. Quanto maior e mais intenso for o drama, maior e mais intenso é o espectáculo. Estamos a viver isso. É difícil que os povos do Sul continuem a acreditar neste modelo. Em que o euro amarra e desfaz todas as possibilidades de fuga.

Um continente que oferecia bons empregos, com bons direitos sociais e boas pensões, não vai oferecer à próxima geração nada disto. Sem futuro, que sobra aos povos? Os Estados de bem-estar da Europa (que chegaram a Portugal ou Espanha muito tarde) têm contas crescentes porque as suas populações envelheceram. Sem crescimento económico constante isto é impossível de manter. A austeridade veio aliás quebrar definitivamente essa ligação. O fim de um ciclo está defronte dos nossos olhos.»

Fernando Sobral

13.2.15

Um país a passo de caracol



... ou de caranguejo, se se preferir. 
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15 de Fevereiro – Apoio à luta do povo grego



No dia 15 de Fevereiro, em resposta ao apelo lançado pela Grécia, por toda a Europa se convocam manifestações em solidariedade com o povo grego e em repúdio pela arrogância e a hostilidade reveladas pelas instituições europeias.

É tempo de sair à rua e enviar um sinal claro de que estamos todos no mesmo barco e não aceitamos a miséria que nos querem impor.

Porque a nossa luta é internacional, aqui e agora, somos todos gregos.

Braga
15h30
Arcada
Evento Facebook

Lisboa
15:00 Largo de Camões ---> Largo Jean Monnet
Evento Facebook

Portimão
15:30
Câmara Municipal de Portimão
Evento Facebook

Porto
15:30
Praça da Batalha
Evento Facebook

Viseu
SÁBADO, 14 de Fevereiro, 15:00
Avenida da Europa
Evento Facebook

Lido por aí (234)

Querida Grécia,



«Escrevo esta carta sem ser segundo as regras do novo acordo ortográfico porque sei que vocês também gostam de não respeitar as regras. (...)

Escrevo-lhe para pedir desculpa pelo nosso Presidente, pelo nosso Governo e por um sujeito de pavilhões auriculares extensíveis que trabalha para a televisão do Estado. Sei que o que peço é demasiado. Sei que não me pode perdoar tudo, mas podemos negociar. (...)

Gostava muito que nos perdoasse, pelo menos, metade das coisas horríveis que o nosso PM tem dito sobre si. Mas se acha que as declarações do nosso PM ofendem a sua pátria, lembre-se que ele usa um pin com a nossa bandeira. Como é que acha que nós nos sentimos?! Se ele não usasse o maldito pin, talvez passasse por PM da Baviera e não tínhamos de sofrer tanta vergonha.

Quanto ao nosso Presidente, eu podia usar a desculpa de que ele já não está em condições, mas não quero enganar ninguém. Ele sempre foi assim. É uma pessoa horrível, mas somos nós que temos de viver com ele desde pequeninos, Querida Grécia.(...)

Por isso peço, Querida Grécia, que nos perdoe pelo menos 80% dos disparates que o nosso Presidente diz. O resto, não peço que nos desculpe. Espero que esqueça com o tempo. Prometo que vamos tentar esquecê-lo primeiro.

Com os melhores cumprimentos,

P.S.: Pare de me enviar iogurtes, Querida Grécia. Sou lacto-intolerante e isso não é negociável.»
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12.2.15

Neste país pouco original do medo


Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1: 

Ah o medo vai ter tudo, tudo (Penso no que o medo vai ter e tenho medo que é justamente o que o medo quer) O medo vai ter tudo, quase tudo e, cada um por seu caminho, havemos todos de chegar, quase todos, a ratos.

Alexandre O’Neill escreveu o «Poema pouco original do medo» quando vivíamos em ditadura e o medo das autoridades era o meio de controlo exercido sobre nós desde crianças. Em 25 de Abril de 1974, acreditámo-nos livres desse medo. Em democracia, poderíamos vigiar e prevenir os abusos de poder. Mas pouco mais de 30 anos tinham passado quando um jovem negro, morador na Amadora, me disse que a filha, então de uns três anos de idade, tinha esse medo que julgáramos banido para sempre: medo de homens fardados. De polícias.

O que na semana passada aconteceu na Cova da Moura justifica o medo da menina. E perturba-me mais do que antes do 25 de Abril de 1974, porque a violência de Estado era então feita contra mim, contra todos nós. E hoje é em nosso nome, da nossa segurança, do nosso medo, que essa violência é aplicada.

Um medo criado, em grande parte, pelo abuso das palavras. Em 2005, um incidente em Carcavelos agigantou-se em arrastão. Dez anos depois, a entrada de meia dúzia de jovens desarmados numa esquadra torna-se uma «invasão». São palavras criadas pelo medo que todos os dias nos é incutido sobre o outro, o de outra cor, de outra religião, de outro modo de vida. Medo. Sem medo, que polícia não se cobriria de ridículo ao tratar a entrada de seis jovens desarmados na sua esquadra como uma invasão? Que jornalistas dariam crédito a essa versão? Sem medo, como se explicaria o abuso das palavras e da força contra cidadãos, por parte daqueles mesmos que deviam protegê-los dos abusos? A esta hora já terá tido lugar, frente ao Parlamento, uma manifestação de protesto contra esse medo que se vive na Cova da Moura e em outros bairros do país. O medo dos moradores agredidos, e o medo dos agentes, que os transforma em agressores. Gostaria que fôssemos muitos a dizer alto que não aceitamos a violência policial nem o racismo, a recusar que essa violência e esse racismo sejam exercidas em nosso nome. A recusarmos ter medo e transformar-nos em ratos ou nesses eunucos que, como cantava Zeca Afonso, «quando os pais são feitos em torresmos, não matam os tiranos, pedem mais».




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Tristes figuras...



António José Teixeira, no Expresso diário de 12.02.2015 (excerto):

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Em tempo de «selfies»



Riacrdo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«De todas as fotografias contemporâneas, a mais perigosa é a selfie – ou, em português, a propriazinha. A selfie é o equivalente moderno da PIDE. Também persegue, tortura e mata. A PIDE contava com umas dezenas de inspectores pouco espertos e alguns bufos diligentes. As selfies contam com milhões de utilizadores pouco espertos e o facebook, o instagram e o twitter. Uma selfie, para os meus leitores do século XX, é uma fotografia que uma pessoa tira a si mesma, em geral com um telefone. A PIDE, para os meus leitores do século XXI, era a polícia política do Estado Novo. Há quem morra a tirar selfies em posições perigosas. Há quem seja torturado durante anos pela memória de uma selfie irreflectida. (…)
Freud estava distraído – provavelmente, a fotografar os próprios pés junto de uma piscina.

Na íntegra AQUI
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Maratona 2.0


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