19.12.15

Espanha – Sondagem desta noite



A divulgação de resultados de sondagens para as eleições de amanhã estão proibidas desde há alguns dias, mas continuaram a ser conhecidas via Andorra, num divertido «mercado de frutas». Hoje, às 22h, foi conhecida a última, mostrada na imagem.

(Claro que é necessário interpretar as peças de fruta. Por ordem decrescente: PP, Podemos, PSOE, Ciudadanos, Isq.Unida.) 
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Piaf, 100



Até os meios de comunicação portugueses referem que Édith Piaf nasceu em 19 de Dezembro de 1915, quando aposto que não é elevada a percentagem de portugueses que sabem que ela alguma vez existiu. Mas Piaf colou-se para sempre à pele da minha geração e de algumas outras, como tantos cantores sobretudo franceses, quando este país era quase tão sombrio como os vestidos pretos que ela nunca largou.

Acrescento uma nota pessoal: acabada de regressar de Portugal, onde tinha vivido a primeira parte da crise académica de 1962, eu vi-a e ouvi-a em Lovaina, no mesmo dia (vim a sabê-lo algumas horas mais tarde) em que 1.500 estudantes foram presos na Cantina da Cidade Universitária de Lisboa. Para mim, e certamente apenas para mim, ela ficou para sempre ligada a um acontecimento com o qual nada teve a ver.

O centenário é hoje muito celebrado, sobretudo em França. Vale muito a pena visitar este site de ina.fr para recordar muitas suas canções e dar uma olhadela ao Twitter (#EdithPiaf). Por aqui, ficam algumas das que não saem do meu baú.








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José Dias Coelho



Foi assassinado pela PIDE no dia 19 de Dezembro de 1961.


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Um activo tóxico



Excertos de um texto de José Pacheco Pereira no Público de hoje, no qual leio, finalmente, o que eu própria penso sobre o caso Sócrates depois da sua última prestação televisiva.

«Quando Sócrates passou para a mó de baixo e foi preso, os aduladores transformaram-se em acusadores e os mesmos, ou quase os mesmos, vão lá à trincheira funda onde ele está, e levam a pedra para o lapidar. Detesto isto e, depois de ter sido um dos mais duros críticos de Sócrates (quando, convém lembrar, os dirigentes do PSD de Passos e Relvas, o protegiam), fiquei bastante em silêncio quando bater-lhe se tornou “politicamente correcto”. Não gosto de bater em quem está vencido e perseguido. E Sócrates estava e está vencido (mesmo que ele e os seus fãs não acreditem) e era então perseguido. Penso que ele tem legítimas razões de queixa contra o modo como a Justiça o tratou, abusando dos seus poderes e actuando ad hominem, bem como contra a campanha na comunicação baseada em fugas de informação orientadas, misturando informação relevante com trivialidades interpretadas de modo persecutório.

Mas, atenção, quando José Sócrates liberto passa de novo ao “ataque” dando entrevistas de grande destaque, em que não só fala de política como dá continuidade e um alcance cada vez mais vasto à interpretação política do seu processo, assim como pretende responder a alguns factos de que é acusado, então deixa de ser o homem da mó de baixo, para se tornar um parceiro activo da vida política portuguesa, e, do meu ponto de vista, de forma tóxica e inaceitável na sua jactância e no insulto que faz nas suas “explicações” à inteligência de qualquer português. Isso significa que já não me sinto limitado pela minha reserva de ir bater num homem que estava coarctado de liberdade e com quem qualquer debate e crítica seria desigual e punitivo. Agora estamos de novo perante o “animal político” e esse “animal” quer morder-nos, pelo que penso ser necessário caçá-lo, sejam quais forem as conclusões do processo judicial —porque, do que ele diz, ele não está inocente. (...)

Há um enorme conjunto de factos que não são controversos, e que ele mesmo admite que são verdadeiros, que o acusam do ponto de vista do comportamento cívico que é exigível para quem pretende ter uma vida política sem limitações, que levantam legítimas suspeitas de práticas inaceitáveis num antigo primeiro-ministro, de infracções fiscais e, se se vier a provar em tribunal, de crimes. E as “respostas” que ele dá não só não convencem ninguém, o que em si poderia não pôr em causa a sua veracidade, mas são completamente implausíveis e não são, na maioria dos casos, sequer respostas. (...)

Nem vale a pena perder tempo para refutar a implausibilidade de alguém que vive por conta de um “amigo de infância”, que é um “grande empresário”, e que em tempo de vacas magras para todos, a começar pela maioria das empresas, tem dinheiro a rodos para “emprestar” ao amigo sem sequer anotar o valor total, como quem recebe não sabe quanto lhe é emprestado, que, vivendo de dinheiro emprestado pela banca e pelo amigo, vive uma vida faustosa — e pode-se dizer que o conceito de “faustoso” é dúbio num país pobre, mas neste caso é tudo menos dúbio — e não se percebe como lhes vai pagar, que tem uns empregos de lobbyista internacional e de consultadoria, que infelizmente não são únicos no nosso sistema político, mas nem por isso deixam de ser tributários da influência e dos conhecimentos.

Eu não sei se Sócrates é corrupto ou não e, seja qual for a minha convicção, ela em si não vale nada, e o tribunal o dirá, mas sei que em toda a sua vida política, como já o escrevi há muitos anos, sempre que se tropeça numa pedra, sai de lá José Sócrates. Foi assim com a licenciatura, com as marquises feitas sempre na terra do lado, com múltiplas decisões como ministro do Ambiente e depois primeiro-ministro, com a tentativa bem real de controlar a comunicação social usando os meios e a influência do Governo, com mil e uma coisas não explicadas e ou suportadas em mentiras. (...)

O que é tóxico em Sócrates é que a sua postura pública, e as cumplicidades que a suportam, representa objectivamente a indiferença nos partidos face a condutas reprováveis no sistema político português e explicam o crescente divórcio entre os portugueses e os partidos e a democracia, e isolam e estigmatizam a mais que necessária luta que é preciso ter contra a corrupção.» 
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18.12.15

Irresistível


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A primeira machadada no império – Índia, 1961



Foi na manhã de 17 de Dezembro de 1961 que tiveram início as operações militares que levaram à ocupação da cidade de Pangim, capital de Goa, na noite do dia seguinte. O «império português» levou então uma grande machadada com a anexação de parte do seu território pela União Indiana. Lembro-me bem da consternação, quase generalizada, que os acontecimentos provocaram no país, mesmo em meios da oposição. Houve algum tempo depois uma peregrinação a pé a Fátima (julgo que para que os céus nos devolvessem a «católica» Goa) e que o meu pai, ateu empedernido, me disse que me autorizava a ir. Mas não fui, não...

Os factos são conhecidos mas vale talvez a pena recordar o célebre discurso que Salazar fez na Assembleia Nacional, em 3 de Janeiro de 1962 (*). É um longo elogio (de 24 páginas A5) ao «pequeno país» que manteve o seu território «com sacrifícios ingentes», ignorados e combatidos por quase todos e, antes de mais, pela ONU, desde sempre objecto de um ódio muito especial.

Ficam algumas passagens a começar pela primeira frase do texto: «Não costumo escrever para a História e sinto ter de fazê-lo hoje, mas a Nação tem pleno direito de saber como e porque se encontra despojada do estado Português da Índia». Mais: «Não sei se seremos o primeiro país a abandonar as Nações Unidas, mas estaremos certamente entre os primeiros. E entretanto recusar-lhes-emos a colaboração que não seja do nosso interesse directo.» Há que perguntar se vamos no bom caminho «quando se confiam os destinos da comunidade internacional a maiorias que definem a política que os outros têm de pagar e de sofrer».

Amplamente conhecida é a frase que encerra o discurso: «Toda a Nação sente na sua carne e no seu espírito a tragédia que se tem vivido, e vivê-la no seu seio é ainda uma consolação, embora pequena, para quem desejara morrer com ela.»

(*) Estava afónico «com as emoções das últimas semanas» e quem o leu, de facto, foi Mário de Figueiredo. 
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Espanha, a três dias



A divulgação de sondagens está proibida desde terça-feira, but we always have Andorra.
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Lesados do BPNESANIF



«Lá vamos nós, outra vez. Agora é o Banif. Passamos de pátria de navegadores a país de socorros a náufragos da banca. Afinal, sobre a estabilidade do sistema financeiro, não era ao António Costa que o Cavaco tinha que pedir garantias. Era ao outro Costa.

Já sabemos que o BES não é o BPN, e que o Banif não vai ser o BES e não tem nada a ver com o BPN. Cada caso é um caso mas acabam todos na mesma: pagamos nós.

Eu estou farto de ter bancos. Começa a ser demasiado. Já salvava um "snack-bar" só para variar. Sempre bancos, acaba por ser dispendioso e monótono. Preferia tentar salvar o rinoceronte branco da extinção que o centauro do Banif. Nós somos a parte besta do símbolo do Banif. (...)

Para muitos não é surpresa. O Banif é mais uma prenda deixada pelos recém-separados PàF e pelo seu mordomo no Banco de Portugal. Agora divorciam-se e ninguém tem culpa. Acho que o país não aguenta mais uns lesados da banca. - "Vais à manif do Banif?" - "Não posso, tenho lesados do BES às oito". Não se pode viver assim.

Segundo as notícias, o Banif tinha interessados na compra, mas o anterior Governo não avançou com concurso. O Sérgio Monteiro não tem tempo para tudo. Era de esperar que o anterior Governo, de Passos e Portas, responsável, entre outros, pela reforma do Estado e pela venda do Novo Banco, tivesse deixado uma solução para o problema, como por exemplo, uma subscrição pública para ajudar na defesa dos lesados do Banif. Ou então, se calhar, a opção do ex-Governo foi deixar correr. Eles não nos pagam, "é dinheiro que está a render", como disse o ex-PM. Portanto, enquanto eles não nos pagarem é dinheiro que rende a bom juro. Só temos de esperar e ficamos ricos.»

João Quadros

17.12.15

Antes dos smartphones

Anestesia linguística



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«Toda a gente já percebeu que a vida, em inglês, é mais fácil. As coisas passam a ser outras coisas, embora continuem a ser as mesmas. (...)
Quem trabalha são os trabalhadores, e não há trabalhadores desde a Revolução Industrial. Há project managers, web designers, sales assistants e controllers. Esta gente não vai beber um copo a seguir ao trabalho. vai a um sunset. (...)
Ninguém dá crédito nem atenção a um grupo de pessoas que esteja a tentar começar um negócio, a ver se pega. Mas se o mesmo grupo de pessoas se dedicar a montar uma start-up, será convidada a integrar uma incubadora, com vista à formação de clusters estratégicos que contribuam para a federação de players.»

Na íntegra AQUI.
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Dica (186)



Os vistos e os escondidos. (Mariana Mortágua) 

«Os vistos gold são como os offshores. O problema não está no abuso, mas na sua existência, já que ambos os regimes foram criados para facilitar o abuso.» 
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Marcelo e Shirley Temple



«Muitos anos depois de ter sido uma das crianças-prodígio de Hollywood, Shirley Temple recordou um dos seus dias mais dramáticos: "Eu deixei de acreditar no Pai Natal quando tinha seis anos. A minha mãe levou-me a um centro comercial e ele pediu-me um autógrafo".

Shirley Temple era mais conhecida do que o Pai Natal, e os seus autógrafos eram ouro. Talvez esse seja o grande dilema de Marcelo Rebelo de Sousa: em Portugal é, segundo alguns, mais conhecido do que o Pai Natal e ninguém duvida que ele é o candidato com mais hipóteses de ocupar o posto de Presidente da República em Belém. Maria de Belém ou Sampaio da Nóvoa são menos conhecidos do que o Pai Natal ou Shirley Temple, mas isso também não lhes tira hipóteses. (...)

Vivem-se tempos bem diferentes de quando Shirley Temple cantava a inocente "On the Good Ship Lollipop": o Banif e o sector financeiro mostram dias tempestuosos e de insegurança. Aqueles que Maria Luís Albuquerque e Cavaco Silva diziam ser de sol e de "cofres cheios". A política está de volta. Mas as finanças não se foram embora.»

Fernando Sobral