10.2.18

Adolfo Mesquita Nunes



Não é só a declaração pública da sua orientação sexual que é de louvar, porque já não devia ser mas ainda é «útil»: é toda a entrevista que dá ao Expresso, que é excelente. Como seria bom que Portugal tivesse muitos políticos como ele, e não só pelo que hoje podemos ler!
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Dica (713)

PSD no seu labirinto



Se isto vier a acontecer, está mais o que comprovado que Costa é um homem não só com arte, mas também com sorte.

(Público, 10.02.2018)
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Experimentem olhar o mundo do trabalho à luz da Ricón e da Triumph



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«O debate sobre a “reversão” das leis laborais, ou da legislação do arrendamento, é um dos mais interessantes espelhos sobre como se movem as correntes mais profundas da vida pública portuguesa e mostra como ainda não nos emancipámos dos anos da troika e da grande vitória ideológica que a direita mais radical teve nesses anos. Tem pouco a ver com o discurso público, embora tenha a ver com a ideologia, e traduz o papel perverso que tem a “economia” no debate político. Um dia alguém varrerá a “economia” do posto de comando, para se perceber como atrás dela havia política, e quase só política, que não ousava apresentar-se como tal. Se deixássemos a herança da obsessão com a “economia” – e esse seria o momento em que sairíamos verdadeiramente dos anos de lixo da troika – e voltássemos ao governo da polis, com a enorme complexidade das suas pulsões, desejos, silêncios e falas, interesses e símbolos, ascensões e quedas, veríamos a quantidade de coisas que não discutimos, ou, melhor, que nem sequer ousamos enunciar, quanto mais discutir. E o tempo vai sempre passando.

Deveríamos olhar para os EUA, o grande laboratório da política dos nossos dias, para perceber como quase tudo pode mudar muito rapidamente, quando aparece alguém, Trump neste caso, que rompe as convenções do discurso em todos os azimutes e mostra como o populismo moderno é o grande perturbador, perante uma direita conservadora e uma esquerda muito comprometida com os interesses, que ainda não percebeu o que lhe caiu em cima. Pode-se fazer uma análise marxista sobre Trump e reduzi-lo aos estereótipos do poder do capital, e não compreender a subversão que ele trouxe à vida pública mundial. E quando mais precisávamos de encontrar uma resposta, que tem que ser igualmente inovadora porque lida com um mundo sem precedentes, encontramos apenas alguns fragmentos de resposta, seja a ideia de que com Trump tem que se ser intransigente e não complacente, a importância de um papel mais agressivo dos media no escrutínio da governação ou a exploração do grotesco da personagem que os cómicos dos programas da noite fazem sem qualquer cansaço das audiências. E, em todos estes casos, Trump reage à ferida porque lhe dói. Nessa matéria, estou como Churchill face a Hitler e não como Chamberlain, comparando atitudes e não personagens.

Se quisermos compreender o que se passa, temos que discutir muita coisa pouco tangível no domínio da economia, mas densa no plano político. Perder um emprego numa fábrica e abrir uma banca de estrada, como aconteceu a muitos operários de Detroit, pode não significar uma grande perda de rendimentos, mas significa a perda de um sentimento de dignidade pessoal e profissional, e do mundo da relação com os pares no trabalho. Os da “economia” dizem-nos que isso até é bom, e depois encontram-se com o reforço do populismo e, no caso dos EUA, o voto da classe operária branca no milionário com sanitas de ouro, e uma grande receptividade ao discurso do inimigo, neste caso os emigrantes.



9.2.18

Sacrifícios para a recuperação da CGD? Não, obrigada




«O Presidente da República disse, na semana passada, que a recuperação da Caixa Geral de Depósitos, que aumentou as taxas, “exige sacrifícios”. O Bloco de Esquerda responde, agora, que os portugueses já fizeram demasiados sacrifícios pela banca. (...)

O BE diz que a banca cobra por serviços que verdadeiramente não presta aos clientes e dá dois exemplos de “comissões bizarras”.

“O banco cobra uma comissão para ir buscar a prestação do crédito à habitação à nossa conta bancária. Não há nenhum serviço associado, o banco está simplesmente a retirar o dinheiro da prestação mensal do crédito à habitação, mas cobra uma comissão por esse serviço que, facilmente, se percebe que não faz qualquer sentido.”

“Da mesma forma, o banco cobra comissões elevadíssimas para passar uma declaração aos seus clientes de crédito bancário para dizer apenas que o crédito foi liquidado”, sublinha Mariana Mortágua.»
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Dica (712)




«O que se joga na despenalização da morte assistida não são conceitos nem princípios abstratos. É uma lei adequada a uma sociedade plural como a nossa felizmente é. E que, por isso mesmo, não imponha a ninguém que se prive das suas convicções fundamentais adotando uma abordagem do seu fim de vida que o/a violenta. O que a sociedade nos pede é que a lei corresponda com tolerância a essa pluralidade de caminhos para o respeito da dignidade de quem está a morrer com um sofrimento indizível. O que nos é exigido é que a lei responda com responsabilidade mas também com humanidade ao desafio que é o sofrimento que desrespeita tanta gente no processo de morrer.»
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O carrossel da competência



«Basta um singelo ábaco para contabilizar o carrossel. Ou, tecnocraticamente, a placa giratória. São sempre os mesmos. Ou quase. Notáveis, competentíssimos, indispensáveis. Economistas engenheirados ou vice-versa, financeiros de tecnologia de ponta, juristas alcandorados a gestores MBA, fiscalistas em regime offshore, egrégios sociólogos armados em tudólogos, diplomatas em fim de carreira e reformados pró-activos e sobretudo pró-influentes.

Os lugares são multifuncionais e, como agora sói dizer-se, customizados. Quer dizer, às vezes não são as pessoas para os cargos, antes são os cargos para as pessoas. Há de tudo, e sobretudo, com a plasticidade que convém aos curricula, à idade, ao estatuto, à proveniência partidária, à loja maçónica ou a outras referências das chamadas elites. Há os cargos sempre apetecíveis porque seguramente não executivos, ou seja, fazendo pouco, exibindo credenciais e, acima de tudo, recebendo uma prebenda bem aconchegada. É escolher entre presidente não executivo, administrador não executivo, presidente ou vogal (mas sempre consonante) de um qualquer denominado conselho geral, de supervisão, de auditoria, de vencimentos, de reestruturação, etc. Há depois a figura de presidente ou membro de uma boa assembleia-geral de accionistas supostamente tranquila e meramente formal, mas que dá uns trocos indexados a qualquer coisa, menos ao salário mínimo ou ao Indexante de Apoios Sociais. Por fim, há os sempre apetecíveis Conselhos Fiscais, onde pouco se fiscaliza que, para isso, há sempre o “operário” de serviço, o Revisor Oficial de Contas.

O universo também está bem delineado. Em primeiro lugar, as empresas ex-públicas, pois que algumas privatizações foram bem orientadas por “pequenos núcleos” entre o caderno da privatização e a “nova gestão”, e tanto melhor quando são monopólios ou fortes oligopólios de bens ou serviços para a comunidade pagadora. Depois, toda a parafernália de empresas (e, evidentemente, das suas holding e sub-holding) que têm de ter boa representação em certos corredores do poder e dos poderes. Há ainda e cada vez mais as que beneficiam do capital de contactos e relações com economias em desenvolvimento, onde é importante tratar a cleptocracia e a corrupção com bajulação e “sentido de Estado”.

Entre os ungidos do sistema nacional de elevadas competências, há vários grupos: os que a quem nunca se ouviu uma opinião frontal e corajosa sobre qualquer minudente assunto, os que passam o dia num notável equilíbrio entre os pingos da chuva, os que vão a tudo e a todos, proclamando tautologias com ar de sábio, os “talvezeiros” que são uma espécie de especialistas condicionais, os que sabem de tudo, desde mecatrónica a bitcoins e desde redes virtuais a rotas aéreas, os bem-falantes em inglês ainda que mal-falantes em português, os repatriados depois de tudo absorverem na xenofilia sempre sedutora, os que são “flexíveis” e têm dado provas de saber (sabiamente) mudar de opinião ou de acção, os que jamais levantarão qualquer problema incomodativo numa nova versão de “múmias paralíticas” no domínio da gestão, os que ascendem ao clube do estrelato vindo directamente de doutas sociedades de advogados e jurisconsultos, os ex-jotas encartados depois de cargos governativos. Há ainda os “papa cargos” em regime de colecção e dom de ubiquidade e os administradores independentes, raramente independentes administradores, mas que o convidante e o convidado fingem acreditar no reclamado estatuto de independência.

Administram tudo e não deixam nada. Bendita Pátria que de tais competências dispõe!»

António Bagão Félix
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Um carro no espaço



«A SpaceX, do multimilionário Elon Musk, lançou com sucesso o Falcon Heavy, o foguetão mais poderoso do mundo. A bordo vai um carro eléctrico da Tesla, com um manequim vestido de astronauta ao volante. Como vai com o braço de fora da janela do carro, julgo que o manequim foi feito em Portugal.

Foi necessária uma propulsão equivalente a 18 aviões Boeing 747 para pôr o foguetão no espaço. Se uma das razões desta viagem era uma campanha publicitária para o uso da energia limpa do carro eléctrico da Tesla, precisam de vender milhares de carros eléctricos só para compensar o que queimaram em combustível na viagem.

Importa referir que, antes de ter entrado nesta missão a Marte, o Tesla foi testado em ambientes extremos e no acesso ao parque de estacionamento do Corte Inglés. Já estou a imaginar o anúncio: "Vende-se Tesla impecável em segunda mão com 115 milhões de quilómetros."; "Já fui a Marte com isto e não me deu chatices nenhumas."

A fotografia do astronauta no descapotável com a Terra como fundo vai ser usada em milhares de piadas, montagens e palestras de motivação para as pessoas que têm de dar voltas e mais voltas para conseguir estacionar em Lisboa.

Até agora, a missão correu bem, mas para ter a certeza de que não havia perigo o Elon devia ter contratado a minha mãe. Sentavam-na na cadeira ao lado do manequim que está no volante do carro e ela faria aquilo que costuma fazer quando viaja comigo: "Vais muito depressa. Não vás tão depressa. Já vais a sessenta. Aquilo ali é uma curva, pareces um doido a guiar."

Estamos perante um momento histórico da conquista do espaço. Marte vai ser a grande obsessão e o destino do Homem nos próximos 20 anos. Em Marte, estão cerca de oitenta graus negativos, imaginem o que isto não daria em reportagens sobre o frio nos noticiários das nossas televisões. Elon Musk anunciou, em Setembro de 2016, que vai levar os primeiros 100 humanos a Marte em 2022 e que, até ao ano 2060, vai haver um milhão de pessoas a viver no Planeta Vermelho. Sinceramente, Marte, pelo que me apercebi das fotos do Curiosity, é um sítio sem interesse nenhum. Tem uma padaria portuguesa e pouco mais. Faz lembrar a minha viagem de finalistas ao Egipto, um dia inteiro a ver calhaus.

Importa também dizer que um ano em Marte tem 687 dias. Tenho a certeza de que, apesar de um ano em Marte ter 687 dias, acabávamos na mesma a comprar as prendas de Natal na véspera. Resta acrescentar que os dias têm 24,6 horas. Ou seja, 38 minutos a mais de um dia na Terra. Aposto que isto iria dar problemas com os sindicatos e a Autoeuropa.»

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