31.3.18

Centros do mundo



Quando cheguei a Paris pela primeira vez, no fim da década de 50, não duvidei de que estava no centro do mundo. Ida de uma Lisboa aferrolhada, a beleza e a força da cidade, o encontro com a pátria cultural que já então era a sede dos meus sonhos de liberdade, tudo convergiu para me maravilhar.

Mais tarde, bem mais tarde, os tempos tinham mudado e, com alguma pena minha, Nova Iorque impôs-se e destronou Paris.

E assim cheguei ao século XXI, em que tenho viajado muito por todos os continentes. Que seria, que está a ser, um século asiático, tornou-se uma convicção mais do que trivial. Que reencontraria a China como a entrevi agora, sobretudo em Pequim (ainda não voltei a Xangai), foi um verdadeiro murro no estômago: nunca vi nada que, de longe ou de perto, se parecesse com uma tal demonstração urgente de poder, de força, de organização. Feliz e optimista com esta realidade? Claro que não, sabendo nós o que está subjacente e que não se vê, sem ponta de democracia no horizonte. Tudo isto pode implodir? Sim, mas nada leva a crer que aconteça, pelo menos tão cedo, estando o resto do planeta como está. O centro é agora aqui e já estende os seus tentáculos pelo mundo inteiro.

Por tudo isto, regresso a casa com uma ideia que não me sai da cabeça: preparemos os nossos filhos e os nossos netos para aprenderem a viver em sociedades pós-democráticas, porque é bem provável que elas sejam uma realidade por aí, talvez mais depressa do que possamos imaginar. Pessimismo? Olhem que não… 
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30.3.18

Pequim «antigo»



Trepei, e muito, para chegar à secção Mutianyu da MURALHA DA CHINA. Vi-a, mas à porta fiz uma vénia respeitosa e dispensei-me de entrar: tal como ir a Meca, há que entrar na Muralha uma vez na vida, a mais não se é obrigado.

Regressei, com prazer à PRAÇA TIANANMEN, o mausoléu de Mao, o Palácio dos Congressos e tudo o resto estão nos mesmos sítios, o que mudou foi que a vi praticamente vazia em 2004 e com magotes e mais magotes de gentes várias desta vez. E retive o silêncio da simpática guia que nos acompanhava com explicações em espanhol: várias vezes interrogada, foi dizendo que dos acontecimentos de 1989 «nada sabia», que nasceu e vivia então na Manchúria, que nada viu, que não se aprende na escola, que há muitos milhões de chineses que nunca ouviram falar desse não assunto. «Não sei nada, não posso saber, não insistam, por favor.»

Na CIDADE PROIBIDA não é fácil tirar fotografias sem dezenas de orientais em exercício de selfies, nem escapar a filas compactas para aceder aos locais mais procurados. Mas continua esplendorosa como sempre.

O Pequim antigo mantém-se igual a si próprio, a humanidade é que vai mudando ao longo dos séculos – e cada vez mais depressa nos tempos que correm. Em 2018, eu vi uma «outra» China.

Muralha da China em Mutianyu:



Praça Tiananmen: Mausoléu de Mao e Palácio dos Congressos:



Cidade Proibida:




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29.3.18

Pequim: esmagador



Um dia com acesso generalizado mas inútil à net, porque os chineses não brincam em serviço e a censura bloqueia não só o Facebook como o próprio Google e todos os seus derivados. Sensação curiosa…

Mas revi Pequim e, por mais que me tivessem avisado, nunca imaginei que crescesse tão vertiginosamente em 14 anos! Novíssimos blocos habitacionais gigantescos, onde cabem milhares de pessoas, muitíssimos arranha-céus sofisticados, um trânsito completamente diferente, onde 8 milhões de bicicletas foram substituídas (se não totalmente, tem-se a ideia de que quase…) por 8 milhões de automóveis, na sua maioria topo de gama, dezenas de viadutos em construção, milhões de novas árvores plantadas, multidões de turistas, mais de 90% asiáticos e dizem-me que sobretudo chineses, etc., etc., etc.

Se se tiver presente que tudo isto se passa numa cidade que caminha para 30 milhões de habitantes, com uma poluição assustadora, talvez chegue para dar que pensar. Uma coisa parece garantida: qualquer que seja a evolução deste país nas próximas décadas, todo o bater de asas de uma borboleta por aqui terá efeitos bem significativos por aí.



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27.3.18

A caminho de Pequim



Já lá devia estar, não fosse a persistência do nevoeiro no porto nas imediações de Seul, que nos fez partir 17 horas depois do que estava previsto.

A estadia na capital da China será um pouco encurtada, o que não me incomoda muito porque já lá estive há uns 14 anos. Mas tenho curiosidade em ver as diferenças, que serão certamente muitas. Espera-me calor (finalmente!) e muitíssima poluição. A ver vamos…

Depois será Xangai e… Lisboa. 
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26.3.18

Seul (II)



A capital da Coreia do Sul é uma grande e agradável cidade com 10 milhões de habitantes (um quinto da população do país), dividida pelo rio Han, cercada por montanhas, com avenidas largas e belos edifícios recentes, mas com um grau de poluição muito elevado, provocado por ventos vindos da China e pela actividade de fábricas locais.

Samsung, Hyundai, LG e KIA imperam e alimentam bem as exportações, embora a taxa de desemprego se mantenha alta (11%) e os jovens tenham dificuldade em vingar se não tiverem estudado numa das três melhores universidades do país. O esforço para lá chegar é grande e vale tudo em termos de competitividade…

A cidade fica apenas a 10 quilómetros da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias, mas dizem-me (sem que tenha percebido se se trata de um sentimento generalizado) que os coreanos do Sul não pretendem de todo um país unificado, já que teriam de suportar os custos de um Norte paupérrimo.

Muito conservadores em termos de costumes, mantêm um estatuto de grande submissão das mulheres e estas «vingam-se» recorrendo a cirurgias plásticas (90% fazem-no, segundo me disseram), nomeadamente para terem olhos mais abertos como as ocidentais! Aliás, a venda de cosméticos é rainha na rua de comércio mais concorrida da cidade, pobre em termos qualitativos, parecendo um grande aglomerado de lojas dos 300.

Muito mais haveria a dizer, mas realço o belíssimo Palácio Gyeongbok, acabado de construir em 1395, na era da Dinastia Joseon, com 495.000m² e 7.700 divisões distribuídas por muitos edifícios. Foi queimado e abandonado durante três séculos, reconstruído em 1867, de novo incendiado durante a ocupação japonesa e gradualmente restaurado. Magnífico!





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25.3.18

Seul (I)



Voos atrasados por razões climatéricas já tive muitos, não poder atracar num porto por causa de nevoeiro foi uma estreia.

Esta manhã não se via rigorosamente nada, nem sequer o mar quando se chegava à janela do meu camarote e o porto de Incheon, que serve Seul, foi obrigado a fechar durante umas horas. Acabou por abrir, mas tivemos um dia pesado para vermos o que estava previsto em menos tempo e em parte «Seul by night». Gostei da cidade, amanhã conto como foi, hoje já não dá…

Fica a fotografia de duas meninas coreanas, em traje regional como muitas outras que se passeiam assim pelas ruas, o que lhes dá direito a entradas gratuitas em museus e equivalentes. Com muitas selfies pelo caminho, obviamente. 
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24.3.18

Ilha Jeju



É a maior ilha da Coreia do Sul, situada no Estreito da Coreia, tem um estatuto de «província especial autónoma» e uma população de cerca de 600.000 habitantes. É em Jeju que se encontra o ponto mais alto do país: o Hallasan, um vulcão inactivo a 1.950 metros de altitude. Vive-se sobretudo do turismo e do cultivo de fruta (a laranja é rainha), o salário mínimo é 1.100 US $, mas dizem-me que é pouco para o nível geral dos preços.

Há muito para ver (e eu não vi as praias paradisíacas, embora acredite que existem...), mas destaco um excelente Museu de Folclore e História Natural, a célebre pedra Yong Du-am em forma de cabeça de dragão (na imagem deste «post»), de visita obrigatória; e, inevitavelmente como em cidade asiática que se preze, um belo mercado.

Amanhã… será Seul.







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23.3.18

Busan?



Podemos continuar escandalizados porque não europeus desconhecem cidades que consideramos importantes, mas é bom que nos habituemos a saber da existência de alguns dos novos centros do mundo.

É o caso de Busan, segunda cidade da Coreia do Sul, que já foi capital do país durante alguns anos durante a terrível Guerra da Coreia e que tem hoje 3,5 milhões de habitantes, um porto gigantesco (o 9º do mundo em termos de movimento e o 1º em número de contentores transaccionados), uma situação geoestratégica invejável no Sudeste da parte continental e um desenvolvimento turístico importante (sem tuc tucs…)

Percorri a cidade, vi muitas coisas, fui a um museu, mas realço o enorme Mercado do Peixe, onde se pode comprar um sem número de variedades do dito cujo e de marisco, mortas ou de preferência vivas, e levá-las para casa ou a um restaurante situado no andar de cima do Mercado, que o cozinhará imediatamente para o almoço.

Outros mundos, outras vidas… Está Sol, o mar acalmou e ficarei pela Coreia mais uns dias. Portugal está mesmo muito longe.

22.3.18

Nagasaki



A caminho da Coreia, Nagasaki fica tão perto que torna inevitável uma paragem. Se não é a primeira vez que aqui venho, foi com prazer que voltei a percorrer o mítico Parque da Paz (na imagem de topo, a belíssima Fonte da Paz) e que aproveitei para ir ao Museu da Bomba Atómica, que não conhecia, e a Dejima, uma ilha artificial que começou por alojar portugueses, mas que foi fundamentalmente aproveitada por holandeses como centro de comércio entre o Japão e o resto do mundo, durante séculos.

Amanhã, Coreia – do Sul, claro.


PARQUE DA PAZ:




MUSEU DA BOMBA ATÓMICA (relógio parado às 11:00am de 09.08.1945):


DEJIMA:


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21.3.18

Taipé (II)



Chiang Kai-shek é uma figura incontornável na História de Taiwan. Depois de longos anos de lutas e poderes, acaba por ser eleito presidente da República da China pelo parlamento em 1948 (posto que ocupava provisoriamente há cinco anos), tem um «reinado» de curta duração, acaba por se demitir em Janeiro de 1949 e por assistir à fundação da República Popular da China em 1 de Outubro do mesmo ano. Parte então para Taipé, declarada capital da República da China, da qual assume a presidência até morrer. Será seguido por dois milhões de pessoas, que deixam o continente e se instalam em Taiwan que assim viu a sua população crescer quase 40%. Até ao final dos anos 70, foram muitos os países que reconheceram Taiwan, mas até os EUA deixaram de o fazer em 1978. Actualmente, apenas 22 e a Santa Sé mantêm relações diplomáticas.

A presença de Chiang Kai-shek está perpetuada em Taipé por um Memorial erguido em honra do ex-presidente depois da sua morte em 1975. Local importante da cidade, foi inaugurado em 1980 e está inserido num grande parque com vários edifícios de estilos diferentes. O espaço tornou-se entretanto palco habitual de concentrações a favor da democracia e passou a ser designado como «Praça da Liberdade» desde 2007. 

20.3.18

Taipé (I)



Gostei desta cidade onde ainda estou. Capital de Taiwan desde 1894, tem quase 3 milhões de habitantes (7 se considerarmos a área metropolitana), um ar relativamente organizado, avenidas centrais cuidadas e floridas. É pena não ter chegado à fala com quem por aqui vive, a não ser com um patusco guia chinês convencido de que sabe falar espanhol e que acabou por rechear a visita de momentos hilariantes: não distinguia «dinastia» de «artisania» (a «artisania» Ming deve ter sido de facto importante…), entre «quilos» e «quilómetros» parecia não haver para ele grande diferença mas lá se ia interpretando, tendo-nos levado algum tempo a entender do que falava quando começou a dissertar sobre «puta» ao pensar em «buda».

Falarei de novo de Taipé e da sua história, limito-me hoje a tentar mostrar o belo TEMPLO DE LUNGSHAN, construído entre 1738 e 1740 por colonos da China. Destruído, total ou parcialmente, por terramotos, incêndios e tufões, bombardeado pelos americanos durante a II Guerra Mundial, foi sendo sempre reconstruído logo que possível e é hoje um importante centro de culto de budismo e de taoismo.





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