16.3.19

16.03.1974 – O falhanço das Caldas



Há 45 anos, o golpe falhado das Caldas foi um passo importante para a queda da ditadura.

Em 2014, por ocasião do 40º aniversário dos acontecimentos, o Diário de Notícias ocupou duas páginas com vários textos sobre «A coluna rebelde que Spínola e Costa Gomes impediram de ocupar o Aeroporto de Lisboa». Excertos:

«A imagem que ficou na memória dos portugueses sobre a intentona tentada pelo Regimento de
Infantaria N. º 5 das Caldas da Rainha no dia 16 de Março de 1974 foi a de uma coluna militar que ficou parada às portas de Lisboa. Ilustrava perfeitamente o golpe militar frustrado, que só teria o seu epílogo a 25 de Abril, e que logo deu origem a uma anedota bastante popular. A de que os camiões com 200 militares que iriam ocupar o Aeroporto de Lisboa teriam parado às portas de Lisboa porque o então presidente da República, Américo Tomás, ameaçou que o primeiro a chegar à capital seria obrigado a casar com a sua filha. (...)
A anteceder o 16 de Março tinham-se verificado mais dois factos políticos que fizeram o presidente do Conselho hesitar: a 22 de fevereiro dera-se o lançamento do livro Portugal e o Futuro, do general Spínola, que defendia uma solução política e não militar para a guerra no Ultramar; a 14 de março, o Governo demitira os generais Spínola e Costa Gomes dos cargos de chefe e vice- chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, devido à ausência no evento em que as chefias militares se solidarizavam com Caetano, numa cerimónia definida como representativa da “Brigada do reumático”.
A demissão dos dois generais espoletou a Intentona das Caldas e criou esse acto militar falhado.»

A nota oficiosa difundida pelo governo foi esta:

«Na madrugada de Sexta-feira para Sábado, alguns oficiais em serviço no Regimento de Infantaria 5, aquartelado nas Caldas da Rainha, capitaneados por outros que nele se introduziram, insubordinaram-se, prendendo o comandante, o segundo comandante e três majores e fazendo em seguida sair uma Companhia autotransportada que tomou a direcção de Lisboa.

O governo tinha já conhecimento de que se preparava um movimento de características e finalidades mal definidas, e fácil foi verificar que as tentativas realizadas por alguns elementos para sublevar outras unidades não tinham tido êxito.

Para interceptar a marcha da coluna vinda das Caldas foram imediatamente colocadas à entrada de Lisboa forças de Artilharia 1, de Cavalaria 7 e da GNR. Ao chegar perto do local onde estas forças estavam dispostas e verificando que na cidade não tinha qualquer apoio, a coluna rebelde inverteu a marcha e regressou ao quartel das Caldas da Rainha, que foi imediatamente cercado por Unidades da Região Militar de Tomar.

Após terem recebido a intimação para se entregarem, os oficiais insubordinados renderam-se sem resistência, tendo imediatamente o quartel sido ocupado pelas forças fiéis, e restabelecendo-se logo o comando legítimo. Reina a ordem em todo o País.»

Alguns dias depois (em 22 de Março), na sua última «Conversa em Família», foi assim que Marcelo Caetano se referiu ao golpe das Caldas:


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Vasco Pulido (?)Valente(?)



Anda uma pessoa umas décadas por este planeta para ler um cronista do reino, que escreve isto num jornal de referência. Até chega a Hitler e a Estaline, não faz o caso por menos.


(Vasco Pulido Valente, Público, 16.03.2019)
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Na continuação do dia de ontem


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Ao nosso lado



José Pacheco Pereira no Público de hoje:

«Em que países da Europa é que seria hoje possível fazer um processo por “sedição”? Dois: ¬a Rússia e a Espanha. Neste momento estão a ser julgados em Madrid um conjunto de dirigentes políticos catalães eleitos, com funções na Catalunha durante o movimento pela independência, por “rebelião, sedição e peculato”. A acusação de “peculato” é ridícula, destina-se apenas ao esfregar das mãos dos seus adversários, dizendo que eles “roubaram” alguma coisa, quando a acusação diz respeito ao uso de dinheiros públicos, geridos pelo governo legítimo da Catalunha, para organizar os processos de referendo. Aliás, os argumentos jurídicos são a maneira neste caso de deixarmos de ver o essencial: estes homens foram eleitos para fazerem o que fizeram, contam com o apoio dos catalães e conduziram um processo pacífico destinado a garantir a independência da região da Catalunha, algo que não é alheio a direitos e garantias do próprio estatuto catalão e dos compromissos para a sua revisão. É um processo político puro, e os presos catalães são presos políticos puros.

A outra coisa do domínio do político é o silêncio cúmplice de toda a União Europeia, que não mexe uma palha perante o que se está a passar em Madrid, onde a comunicação social se comporta como partidária do “espanholismo” mais radical e mobiliza os seus leitores, ouvintes e telespectadores para exigirem a condenação dos catalães, como se de criminosos de delito comum se tratassem. Este silêncio cúmplice é mais uma pedra no abandono de valores da União, que se mobiliza para todas as causas longínquas e oculta as que estão bem dentro dela.

E não adianta vir com a demagogia de comparar o “nacionalismo” catalão com a onda nacionalista que atravessa a Europa, xenófoba, hostil às liberdades, populista, sobre a qual as autoridades europeias mostraram sempre grande complacência. O movimento independentista catalão é até o único exemplo, juntamente com o nacionalismo escocês, de um movimento pacífico, moderado, cosmopolita, com enorme apoio popular, mas sem nenhuma das perversões do nacionalismo basco do passado, nem do irlandês, nem, registe-se, do nacionalismo espanhol, uma das correntes políticas mais agressivas de Espanha, como, aliás, se vai ver em breve nas próximas eleições.

Mas, já o escrevi e repito, nós, nesta matéria, somos uma vergonha. Estamos ao lado da Espanha, cujo nacionalismo tememos ao longo de toda a nossa história, com raros momentos de descanso, e apenas de descanso porque a Espanha estava fraca, e fazemos de conta que somos os três macaquinhos de mão a fechar a boca, os olhos e os ouvidos. Os presos políticos estão lá e nós caladinhos a pensar que não é connosco.

Somos capazes de juntar umas dezenas de pessoas para causas remotas e obscuras – e quase sempre bem –, mas quanto a Espanha ou ficamos apáticos e indiferentes, ou, o que é pior, alinhamos com o coro espanholista. Esse coro vai varrer o PSOE e vai trazer o PP e o neo-PP, os Cidadãos, o Vox e muitos grupos junto dos quais o nosso Chega é um pacífico menino. O espanholismo dos dias de hoje, posterior à tentativa catalã, é genuinamente franquista, mergulha fundo na trágica história de Espanha do século XX.

Portugal e os portugueses não podem ter esta indiferença face à sorte dos nossos irmãos catalães a quem devemos também uma parte da nossa independência nos idos de 1640. A causa catalã está a passar momentos difíceis, mas só a cegueira é que pode pensar que vai desaparecer. Se os presos políticos catalães forem condenados, então aquilo que já é hoje o principal bloqueio da política espanhola, ancorando-a à direita, tornar-se-á uma fonte conflitual muito séria em toda a Espanha, onde a reivindicação nacionalista no País Basco, na Galiza e noutros locais vai mobilizar uma nova geração de desespero, e o desespero é mau conselheiro. Para Portugal, a doença espanhola vai chegar com um pólo espanholista agressivo aqui ao lado que irá condicionar a política portuguesa. E vai ter na nossa direita radical, na alt-right nacional que começa a organizar-se como grupo de pressão face aos partidos políticos que acha que saíram da linha, como o PSD, um apoio entusiástico.

Com a memória ainda fresca do passado recente da troika-Passos-Portas, não teriam por si próprios muita importância, porque a nostalgia de um passado escuro não chega para mobilizar para o futuro, mas o apoio de uma Espanha muito à direita pode ser um factor de desequilíbrio. Também por nós, deveríamos olhar para esse grupo de homens corajosos que estão a ser perseguidos e julgados em Espanha com um olhar mais solidário e comprometido.»
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15.3.19

Alterações climáticas – E amanhã?



É evidente que os milhares e milhares de jovens que saíram à rua por esse mundo fora não esperam milagres e sabem que não acordarão amanhã num universo diferente.

Mas, desde que comecei a ver multidões e cartazes, não consigo deixar de pensar que não é possível dizer-se apenas que o dia de hoje ficará como um marco histórico. Seria importante – e agora passo para o nível do país – que algo acontecesse, que fosse anunciada e concretizada uma medida, mesmo que modesta mas realista, expressamente ligada ao que hoje se passou – com um agradecimento de quem manda.

Lirismo da minha parte? Talvez. Mas não se pode simplesmente virar a página e desiludir as gerações que vão pegar amanhã no país. Respect.
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Greve climática – Em Portugal foi assim


Lisboa:


Porto:


Braga:


Etc.,etc., etc. - 36 localidades.

Dezenas de imagens: “Pára de negar, a Terra está a morrer”: as imagens da greve climática em Portugal.
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Christchurch



Estive há dois anos na cidade de que hoje se fala pelas piores razões: ataques terroristas, no segundo país mais seguro deste triste mundo, mataram dezenas de pessoas.

Christchurch é a segunda cidade da Nova Zelândia em termos de população, só ultrapassada por Auckland: tem cerca de 440.000 habitantes, um pouco mais do que a capital Wellington, e foi a principal vítima de um terrível terramoto que teve lugar em 22 de Fevereiro de 2011. Este arrasou-a, quase todos os edifícios com alguma altura ruíram ou foram tão afectados que foi necessário deitar abaixo o que restava ou reforçar o que era possível salvar. Todo o centro urbano é ainda um enorme estaleiro, mas é notável o que já foi feito ou refeito em poucos anos.

Morreram 185 pessoas e existe em plena cidade uma espécie de memorial com o mesmo número de cadeiras, pintadas de branco. Não sei se não lhe juntarão mais umas dezenas, em homenagem às vítimas de hoje.
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A justiça climática é a luta pelo destino da Humanidade



«Hoje é um dia histórico, com uma das maiores mobilizações globais de sempre, sobre qualquer tema que seja. É a maior mobilização de jovens e a maior mobilização pela justiça climática que alguma vez aconteceu. Todas as pessoas que mobilizaram, que convocaram e que hoje se juntam e se encontram nas ruas de mais de mil cidades por todo o mundo devem saber que fazem parte de um momento extraordinário. Começa uma nova História da justiça climática.

Durante as últimas três décadas, milhares de pessoas por todo o mundo empurraram um comboio pesado, o comboio da inércia, o comboio da conformação, o comboio do sistema, à procura de soluções e vontade política para resgatar a civilização. Muito mais grave do que a meia dúzia de negacionistas de alterações climáticas (com desproporcionado impacto mediático), foram mesmo os arquitectos das políticas dos últimos anos os grandes responsáveis por vivermos numa emergência climática sem paralelo na História da Humanidade.

De nada serviram Barack Obamas, Justin Trudeaus ou Uniões Europeias a gritar o seu empenho no combate às alterações climáticas, de nada nos serviram as tintas verdes com que empresas destruidoras como a BP ou a Volkswagen se foram pintando porque, apesar de andarmos há décadas à procura de acordos para cortar as emissões de gases com efeito de estufa, 2018 foi o ano com o mais alto nível de emissões alguma vez registado. Nesse contexto de enorme frustração, de enorme contradição, empurrámos, contra o senso comum, contra a política banal, contra a TINA (There Is No Alternative), assistimos ao colapso em Copenhaga, exigimos que não houvesse mais explorações de petróleo, gás e carvão, se queríamos salvar o futuro da civilização. Às costas, levávamos a Ciência, a vontade e a certeza de que isto não podia acabar assim, que a Humanidade não podia ser só isto.

O desprezo pelos jovens, o desprezo pelas pessoas comuns, foi convertendo superficialmente milhares de milhões em cínicos, em hipócritas, em seres amorfos e autocentrados. O poder retirado pela economia e pela política às populações foi criando um espírito de derrota, de impotência, de conformação a tudo o que viesse de cima, à ordem e à obediência. Apesar de haver sempre quem resistisse, esse espírito imperou durante muito tempo. Chegados a um dia como hoje percebemos como era superficial esse espírito, e especialmente superficial a análise de que isso se poderia manter.

A temperatura média global nas últimas três décadas só tem comparação com o período interglacial do Eemiano, há mais de 115 mil anos. Haveria nessa altura, quanto muito, alguns milhões de seres humanos (menos do que os dedos de uma mão). O centro da Europa era uma savana, o Reno e o Tamisa tinham hipopótamos e crocodilos. O nível médio do mar era seis a nove metros mais alto do que hoje. Os cinco anos mais quentes desde que há registos são os últimos cinco (2016, 2015, 2017, 2018, 2014). Devido à queima massiva de gases com efeito de estufa que começou na Revolução Industrial e que disparou a partir do final da Segunda Guerra Mundial, criámos um clima em que nunca vivemos antes, diferente daquele em que foi possível inventar a agricultura, a escrita, a civilização. O capitalismo industrial fóssil acabou com o Holoceno, o período geológico dos últimos 12 mil anos que permitiu que a nossa espécie de instalasse e proliferasse por todo o planeta.

Mas a inacção garante-nos uma degradação muito maior do que esta, e cada dia, cada semana, cada mês em que a máquina industrial fóssil se mantém em produção máxima agrava o nosso futuro. Cada momento em que a máquina industrial fóssil se mantém em produção ficam em causa a viabilidade dos territórios em que habitamos hoje, a sua capacidade de nos continuar a sustentar, quer pela redução da capacidade de produção alimentar e da disponibilidade de água, quer pelos fenómenos climáticos extremos e a subida do nível médio do mar. A reacção perante este estado de coisas é uma manifestação de autoprotecção. Não estamos a defender a Terra, nós somos parte da Terra e estamos a defender-nos a nós mesmos.

Nomeada para o Prémio Nobel da Paz, Greta Thunberg, a jovem sueca de 16 anos que disse exactamente isto na cara das lideranças mundiais na Polónia, foi o ponto de apoio e a sua greve, todas as sextas-feiras frente ao Parlamento da Suécia, foi a inspiração para a greve mundial climática. Mais tarde, o colectivo que convocou esta greve diria em carta aberta publicada no The Guardian: “Vamos mudar o destino da Humanidade.” Não é menos do que isto o que precisa de acontecer. Esta chamada à acção colectiva retira o derrotista enfoque na acção individual que vigorou nas últimas décadas. Só faremos isto em conjunto, pela acção persistente e decidida de milhões de pessoas. Tentar reduzir o que acontece neste 15 de Março de 2019 a uma chamada para pequenas acções individuais ou locais é perverter o que está a acontecer: “Vamos mudar o destino da Humanidade.”

Tudo irá mudar nas nossas economias e nas nossas sociedades. Se não formos nós a organizar estas mudanças, será o novo clima, sem qualquer contemporização. Vivemos neste momento dentro do arranha-céus em chamas do capitalismo global e todos os alarmes estão a tocar. Não existe nenhum bombeiro mágico para apagar as chamas. Está na hora de sair e construir uma nova casa para a Humanidade.»

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14.3.19

Viva a Padeira de Aljubarrota, acreditem...



«Se uma mulher que estiver em Espanha sem documentação decidir entregar o seu filho para a adoção, passa a ficar protegida da deportação, ainda que por tempo limitado (podendo ainda, no futuro, vir a ser mandada para o seu país de origem, apesar de já ter abdicado do filho).»
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Ser intelectualmente chiquérrimo



… é, nas redes sociais, dizer-se que raramente se vê canais portugueses de TV. O pior é que se é apanhado numa curva: percebe-se facilmente que muitos dos que o afirmam vêem mesmo e que não é pouco. Pobre país!
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14.03.1975 – O tempora, o mores


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Coincidências



«Em 1911, um pacato farmacêutico londrino, Mr. Godfrey, foi morto num assalto por três ladrões chamados Green, Berry e Hill. Ele morava no bairro Greenberry Hill.

Em 1958, cansado das discussões de arma em punho entre os pais, o filho do casal sobe ao telhado do prédio e atira-se para a morte. Quando o corpo em queda passa o andar onde mora, um tiro, disparado pela mãe na direção do pai, atinge-o. O suicídio torna-se homicídio. Enquanto o filho é transportado para o cemitério, a mãe e o pai, considerado cúmplice, são levados para a prisão.

Quem viu, sabe que estas histórias são contadas na abertura do filme Magnólia, de Paul Thomas Anderson, de 1999. No final, o narrador diz "eu quero acreditar que tudo isto é obra do acaso".

No Brasil, a quinta maior nação do mundo, as últimas horas também foram marcadas por coincidências. E o tamanho do país vem ao caso porque, caro leitor, quais são as probabilidades de numa extensão de terra de mais de 8500 quilómetros quadrados, o autor dos disparos que mataram Marielle Franco e o seu motorista Anderson Gomes morar a poucos metros do presidente da República no condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, zona sul do Rio de Janeiro?

Sendo vizinhos e tendo descendentes mais ou menos da mesma idade já não será tão surpreendente que, como confirmou o delegado do caso, Giniton Lages, um filho do segundo tenha namorado uma filha do primeiro.

Já antes, as investigações tinham chegado à conclusão de que a execução, pelo modus operandi, era obra de milícias, os grupos paramilitares compostos por militares reformados que atuam de forma mafiosa no vácuo entre a polícia e o tráfico. Cruzando informações, os delegados identificaram mesmo as impressões digitais da maior e mais perigosa de todas as milícias, o Escritório do Crime. Sucede que, por coincidência, o filho mais velho do presidente homenageou Adriano Nóbrega, o líder do "escritório", em sessão da Assembleia Legislativa do Rio de há uns anos. No seu gabinete, aliás, empregava como funcionários a mãe e a mulher de Nóbrega. E o seu assessor principal, envolvido num caso de corrupção que atormenta o governo, quando precisou de escapar do escrutínio das autoridades recorreu ao bairro onde o Escritório do Crime opera para se refugiar.

Além do vizinho do presidente, o outro suspeito de estar no carro de onde saíram os disparos que mataram Marielle e Anderson exibia, orgulhoso, uma fotografia nas redes sociais dele com o hoje chefe de Estado, então ainda na pele de candidato. Embora sujeita a perícia, pela data de publicação a foto será de três dias antes da primeira volta das últimas eleições, menos de sete meses após o crime. Argumenta o presidente que, sobretudo no papel de candidato, deixou-se fotografar com milhares de polícias. Entre eles, portanto, o acusado de matar Marielle.

Na véspera da detenção dos dois suspeitos, o presidente envolvera-se noutra controvérsia, em princípio muito distante do crime. Servindo-se de fake news, acusara uma repórter do jornal O Estado de S. Paulo de, numa conversa gravada, ter dito que visava arruinar o governo ao investigar o caso daquele tal assessor principal do filho mais velho do presidente envolvido num caso de corrupção. No tweet em que disseminava a informação falsa, o chefe de Estado ia mais longe e revelava que Constança Rezende, o nome da jornalista, é filha de Chico Otávio, repórter de O Globo. Otávio é o repórter que vem ocupando-se do assassínio de Marielle no seu jornal e que, no dia das detenções, horas depois da acusação presidencial via Twitter, trazia informação detalhada sobre a investigação e o passado criminoso do autor dos disparos - e vizinho do presidente - e do seu cúmplice - que se fotografou com o ainda candidato a presidente.

Como diz o narrador em Magnólia, o povo brasileiro, dos apoiantes aos opositores do presidente, quer acreditar que tudo isto é obra do acaso. Só uma revelação, talvez em forma de chuva de sapos no final da história, esclarecerá se é ou não.»

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