2.1.21

Maria José Morgado

 



Sempre polémica, mas a merecer ser ouvida.
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Presidenciais - Debates



 RTP1, 21h


Na TVI24, 22h, João Ferreira / André Ventura
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Porque não mudar as empresas para onde o trabalho infantil é legal?




 

«Sim, falta responder à pergunta que Christina Hoff Sommers faz no vídeo There is no gender wage gap e que inspirou esta mini-série de coffee breaks sobre desigualdade salarial: se os salários são a maior despesa das empresas e se as mulheres ganham menos, porque é que as empresas não contratam só mulheres? 

A pergunta é dita como prova de que não existe desigualdade salarial e é repetida no Ocidente como se fosse um slogan publicitário. 

Hoff Sommers sabe que a pergunta é absurda, puramente retórica e que parte de uma premissa irreal. O que está ela a propor? Que as empresas passem a rejeitar todos os candidatos homens e se regresse a um século XIX ao contrário, com os homens em casa e as mulheres no mercado de trabalho? Que as empresas contratem mulheres com menos mérito, menos talento, menos experiência só porque são mulheres e ponham de lado os homens só porque são homens? O mínimo que se pode dizer é que seria sexista, discriminatório e ilegal. Não faz sentido e Hoff Sommers sabe-o muito bem. 

Perguntar porque é que as empresas não contratam só mulheres, disse-me um amigo, “é como perguntar: ‘E se fizéssemos isso no Dia de São Nunca à Tarde ou quando as galinhas tiverem dentes?’”. São perguntas sem resposta. 

Caro leitor, se testar o modelo de Hoff Sommers verá que é evidente quão absurda é a proposta. Façamos a experiência: porque é que as empresas, cujo interesse é terem lucro, não se mudam todas para a China, onde os salários são mais baixos? Tem lógica, mas não faz sentido. Ah, já sei: a China é longe e a mudança exigiria dinheiro. Ok. Então porque é que as empresas, cujo interesse é terem lucro, não se mudam todas para os paraísos fiscais, onde se pagam menos impostos, e há tantas aqui tão perto? 

Outra hipótese, mais próxima ainda da lógica de Sommers: porque é que as empresas, cujo interesse é terem lucro, não se mudam todas para países onde as crianças trabalham e ganham dois dólares por dia? Vale um vídeo, não lhe parece? 

Por favor, imagine um vídeo com cinco minutos, produzido por uma equipa de bons designers, no qual cada uma das ideias seguintes surge escrita num slide ou é dita em voz off: só em África há 72 milhões de crianças que trabalham; em dezenas de países o trabalho infantil é legal e as empresas podem contratar crianças à vontade e não precisam de fazer nada às escondidas; as crianças recebem menos do que os adultos e quando morrem são substituídas por outras crianças; não é sequer preciso pagar segurança social; as crianças são trabalhadores flexíveis — trabalham na agricultura, na indústria e nos serviços — e muitas fazem trabalhos perigosos, sobretudo relacionados com máquinas e químicos; é mesmo prático e as empresas podem escolher à vontade. O que poupavam as empresas! Tantos e tantos euros. E há imensas crianças no mundo. Devem ser burras as empresas. Podiam ir todas para África, para a América Latina ou para a Ásia e poupar milhões, mas teimam em continuar nos EUA e na Europa. Só na Índia há dez milhões de crianças dos cinco aos 14 anos que trabalham. É um mundo de oportunidades. Se preferirem, as empresas podem ficar por aqui. Porque não vão todas as empresas portuguesas para a Bulgária ou para a Moldova? São dois exemplos, mas se procurar, verá que até na Europa a escolha é grande. 

Levemos a lógica de Sommers ao extremo (caro leitor, por favor continue a imaginar um vídeo com bom design): se os salários são a maior despesa das empresas, se as crianças ganham menos do que os adultos e se há 152 milhões de crianças que trabalham, porque é que as empresas não se mudam todas para os países onde o trabalho infantil é comum? Além do mais, 19 milhões delas têm entre 5 e 11 anos, são ainda mais baratas! 

Só há duas explicações possíveis para as empresas não irem para a África, Ásia, América Latina e Europa de Leste, onde poderiam poupar dinheiro contratando crianças: os empresários são tolos ou o trabalho infantil não existe, é um mito. 

Caro leitor: se foi picado pelo bicho Hoff Sommers, experimente aplicar o modelo. O mais provável é concluir que as empresas — felizmente — têm os pés na terra e não são geridas como se estivessem num filme de ficção científica. 

Sommers foi professora de filosofia em duas universidades americanas. Conhece os “juízes indeterminados” de Emmanuel Kant — é quando se nega uma possibilidade sem afirmar uma possibilidade real. Que fique claro: a pergunta do seu vídeo é absurda, irreal e errada do ponto de vista ético, legal e — lamento dizer — até retórico. 

Série “Coffee break” sobre desigualdade salarial: 
  • As mulheres histéricas
  • É difícil explicar que a Terra é redonda
  • O vídeo da professora Hoff Sommers é falso
  • A desigualdade salarial é um mito? 6 argumentos
  • O trabalho e o mito da bravura dos homens
  • Nunca viu desigualdade salarial? A TAP dispensou cinco grávidas

      Bárbara Reis
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1.1.21

Antes que o dia acabe

 


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Memórias imperdíveis

 


Um dos rituais imperdíveis de cada primeiro dia do ano era ouvir o discurso que o presidente da República dirigia ao país, se bem me lembro por volta da hora do almoço. Nunca desiludia.
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O novo (a)normal

 


Concerto de Ano Novo em Viena – teatro vazio, palmas a distância por telemóvel.


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Entramos em 2021 sem um dos bons

 




Carlos do Carmo (1939-2021)
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31.12.20

Bom Ano

 

Pensar a longo prazo.
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Auckland 2021

 



Já lá vão muitas horas desde que os neozelandeses festejaram a chegada do novo ano com bons motivos para o fazerem – sem máscara, porque já não precisam.
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Será que Marcelo precisa destes apoiantes?

 


Bom sinal! Haja alguma esperança de que Marcelo precise mesmo de muitos apoios… 

Ler notícia AQUI.
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31.12.1968 / 01.01.1969 – Uma vigília contra a Guerra Colonial

 

(Cabeçalho da convocatória para a Vigília)


Em 31 de Dezembro de 1968, cerca de cento e cinquenta católicos entraram na igreja de S. Domingos, em Lisboa, e nela permaneceram toda a noite, naquela que terá sido a primeira afirmação colectiva de católicos contra a Guerra Colonial, numa actividade formalmente «disciplinada». Com efeito, o papa Paulo VI decretara, em 8 de Dezembro, que o primeiro dia de cada ano civil passasse a ser comemorado pela Igreja como Dia Mundial pela Paz e, alguns dias depois, os bispos portugueses tinham seguido o apelo do papa em nota pastoral colectiva. 

Assim sendo, nada melhor do que tirar partido de uma oportunidade única: depois da missa presidida pelo cardeal Cerejeira, quatro delegados do numeroso grupo de participantes comunicaram-lhe que ficariam na igreja, explicando-lhe, resumidamente, o que pretendiam com a vigília: 

«1º – Tomar consciência de que a comunidade cristã portuguesa não pode celebrar um “dia da paz” desconhecendo, camuflando ou silenciando a guerra em que estamos envolvidos nos territórios de África. 
2º – Exprimir a nossa angústia e preocupação de cristãos frente a um tabu que se criou na sociedade portuguesa, que inibe as pessoas de se pronunciarem livremente sobre a guerra nos territórios de África.
3º – Assumir publicamente, como cristãos, um compromisso de procura efectiva da Paz frente à guerra de África.» 

Entregaram-lhe também um longo comunicado que tinha sido distribuído aos participantes, no qual, entre muitos outros aspectos, era sublinhado o facto de a nota pastoral dos bispos portugueses, acima referida, tomar expressamente partido pelas posições do governo que estavam na origem da própria guerra, ao falar de «povos ultramarinos que integram a Nação Portuguesa». 

Apesar de algumas objecções, o cardeal não se opôs a que permanecessem na igreja, ressalvando «a necessidade de uma atitude de aceitação da pluralidade de posições». Pluralidade não houve nenhuma: até às 5:30, foram discutidos todos os temas previstos e conhecidos vários testemunhos, orais ou escritos, sobre situações de guerra na Guiné, Angola e Moçambique. 

Hoje tudo isto parece trivial, mas estava então bem longe de o ser. Aliás, seguiu-se uma guerra de comunicados entre Cerejeira e os participantes na vigília, que seria fastidioso analisar aqui. Mas vale a pena referir que, com data de 8 de Janeiro, uma nota do Patriarcado denunciou «o carácter tendencioso da reunião», terminando com um parágrafo suficientemente esclarecedor para dispensar comentários: 

«Manifestações como esta que acabam por causar grave prejuízo à causa da Igreja e da verdadeira Paz, pelo clima de confusão, indisciplina e revolta que alimentam, são condenáveis; e é de lamentar que apareçam comprometidos com elas alguns membros do clero que, por vocação e missão deveriam ser, não os contestadores da palavra dos seus Bispos, mas os seus leais transmissores». 

A PIDE esteve presente (há disso notícia em processo na Torre do Tombo), mas não houve qualquer intervenção policial. Alguns jornais (Capital e Diário Popular) noticiaram o evento, mas sem se referirem ao tema da Guerra Colonial – terão provavelmente tentado sem que a censura deixasse passar… A imprensa estrangeira, nomeadamente algumas revistas e jornais franceses, deram grande relevo ao acontecimento. E foi forte a repercussão nos meios católicos. 

Para quem esteve presente em S. Domingos, como foi o meu caso, essa noite ficará para sempre ligada à Cantata da Paz, hoje tão conhecida, mas que poucos identificam com a sua origem. Com versos propositadamente escritos para essa noite por Sophia de Mello Breyner, e com música de Francisco Fernandes, foi então estreada por Francisco Fanhais. (Quantas vezes a terá cantado depois disso, nem ele certamente o saberá…) 



P.S. – Quatro anos mais tarde realizou-se uma outra vigília pela paz na Capela do Rato, com consequências bem mais gravosas porque envolveu uma greve de fome, prisões e despedimentos da função pública.


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(Também publicado em esquerda.net.)
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30.12.20

Marcelo Rebelo de Sousa, criador de passados (2)

 


Durante a pré-campanha para as presidenciais de 2016, contei uma pequena história em que Marcelo Rebelo de Sousa estve envolvido alguns anos antes e na qual também participei. Se a retomo hoje é porque me retorço toda quando leio sondagens que lhe dão previsões de percentagens de votação estratosféricas em 24 de Janeiro: confirmam que ainda não se percebeu que se trata de alguém cujo primeiríssimo objectivo é sempre ficar bem na fotografia, seja esta presente, futura ou mesmo passada, custe o que custar. E o problema é que não sabemos o que isso nos pode vir a custar-nos num futuro próximo. 

No episódio que resumo, pretendeu criar um passado com laivos de antifascismo, que pode reduzir-se a duas das frases que declarou a uma jornalista: «Penso que nasci para a PIDE aos 16 anos», «Fulano de tal [eu], que tem ideias perigosas, (…) estava a distribuir propaganda subversiva no dia x às tantas horas». Não se saiu lá muito bem, já que a memória de todos os que o conheceram na juventude ainda estava bem viva, mas continuou o seu caminho… 

O texto em causa encontra-se AQUI.
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