29.5.21

Marcelo não gostou

 


«Quando se comunica que se vem em bolha, é porque se vem em bolha. Senão não se diz que se vem em bolha. Diz-se vêm tantos, uns vêm em bolha, outros não. E depois tem de se explicar porque foi diferente. E tem de se ter a noção do exemplo que se dá", disse este sábado Marcelo Rebelo de Sousa.»
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Sinto-me a viver num ninho de cucos



 

Moro muito perto dos Pupilos do Exército, em Lisboa, e vejo da janela uns putos a disputar um desafio de futebol. Lá fora, com certeza porque há proibição de público, há vários pequenos grupos de pessoas que espreitam através de uma rede, certamente familiares dos ditos pupilos, alguns até empoleirados em tectos de automóveis.

Claro que não se trata de «Champions» de coisíssima nenhuma e deve estar quase a chegar a PSP para dispersar «o público» que está na rua.
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À espera do Diabo



 

«O conclave que esta semana juntou representantes da quase totalidade das subfamílias da Direita e da extrema-direita tem sido analisado, em vários quadrantes, de forma algo ligeira a partir de um facto incontestado: ali não se discutiram ideias que respondam aos grandes problemas com que se debate a economia e a sociedade portuguesas.

Todavia, puderam observar-se factos que merecem reflexão, não pelo impacto imediato que têm, mas sim pelos quadros perigosos que podem perspetivar.

Uns séculos atrás, num dos contextos políticos mais críticos que Portugal viveu ao longo da sua história, teve força a crença no miraculoso regresso de D. Sebastião. Como Deus não se mete nestas coisas jamais tivemos o Desejado, mas como obra do Diabo talvez a coisa possa acontecer. Neste encontro não faltou um candidato a desejado e não deixou de pairar na sala forte vontade de uma intervenção do mafarrico, que o faça regressar numa manhã de nevoeiro.

Realço cinco factos que nos evidenciam a situação política atual como mais complexa e difícil que aquela que tínhamos em 2015: i) na Direita tradicional uma parte está mais aberta à extrema-direita e outra já a integrou em dinâmicas partilhadas; ii) a evolução da situação política da União Europeia (UE) reforça este processo, e a União tem hoje problemas maiores que tinha naquela altura; iii) à Esquerda existe menos motivação e são menores as predisposições para compromissos entre as suas diferentes componentes; iv) os condicionalismos sociais, económicos, financeiros e orçamentais com que o país se depara são mais pesados; v) em 2015 iniciava-se uma nova governação com objetivos e metas programáticas para uma legislatura (mesmo que posteriormente se tenham mostrado insuficientes), o que criava dinâmica, quando hoje temos um Governo bastante desgastado, com vários membros a confirmarem o princípio de Peter e a confundirem governação com gestão de agendas do dia.

Quem conclui que a Direita não tem programa ou que "a realidade lhe retirou o programa" pode estar a laborar em dois erros convergentes. Primeiro, é mais que evidente a fidelidade programática da Direita às políticas de austeridade impostas na crise anterior e a sua predisposição para uma ofensiva contra os direitos e liberdades democráticas e contra o Estado na sua função de garante dos direitos sociais fundamentais: não o podem expor por agora porque os impactos da pandemia ainda estão muito vivos nas pessoas e mostraram a violência e a injustiça dessas políticas. Segundo, esta evidência pode evaporar-se rapidamente perante a inexistência de respostas do Governo nos planos do trabalho, do emprego, das políticas económicas e sociais, ou face a inversões de sentido súbitas por parte da UE, ou ainda, se houver um acentuar de desentendimentos à Esquerda.

Quase todas as análises concluem que o vazio de propostas que o encontro da Direita e da extrema-direita mostrou se consubstancia numa vitória de António Costa. Poderá ser, desde que o primeiro-ministro não se entregue ao papel de lebre na fábula de Esopo "A lebre e a tartaruga" e tome a sério a possibilidade de surgir uma intervenção do príncipe das trevas.

É indispensável que António Costa coloque o foco de toda a sua capacidade de análise e ação nas respostas aos problemas dos portugueses e não se deixe atrair demasiado por taticismos de gestão política.»

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28.5.21

Futebol e estupefacção



 

Ninguém previu, nenhuma autoridade responsável teve mesmo a certeza de que iríamos ver as imagens das ruas do Porto que as TVs nos mostram desde ontem, com multidões de ingleses que furaram todas as bolhas anunciadas, enchem ruas, esvaziam «finos» e provocam distúrbios? Ou estou enganada e tudo isto foi previsto e desejado para o PIB subir umas milésimas, mesmo que o Rt aumente algumas décimas?

E depois? Faz-se um inquérito para saber de quem foi a culpa.
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Ensino a distância


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Futebol

 

«Um dia, obviamente, os governos na Europa serão extensões dos clubes de futebol, votaremos em clubes, manifestações e conflitos serão em torno de clubes, talvez até paguemos impostos a clubes, haverá quem morra em frentes de guerra em nome de clubes, ruas terão nomes de heróis jogadores e presidentes treinadores, etc., etc.»

Miguel Vale de Almeida no Facebook
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28 de Maio de 1926 – Data a não ser esquecida

 


Recordo a data quase todos os anos, não só para preservar a memória, mas porque ela deixou marcas – talvez mais visíveis hoje do que há alguns anos.

Em 1926, um dia terrível e decisivo na nossa História marcou o fim da 1ª República e esteve na origem do Estado Novo. Todos os anos havia comemorações, mas duas ficaram na memória.

Foi num outro 28 de Maio, mais concretamente em 1936, no 10º aniversário da «Revolução Nacional», que Salazar proferiu um discurso que viria a ficar tristemente célebre: «Não discutimos a pátria...»





Ainda num outro aniversário – no 40º, em 1966 – o chefe do governo, então com 77 anos, viajou pela primeira vez de avião até ao Porto (entre os outros passageiros, acompanhado pela governanta) para assistir às celebrações que tiveram lugar em Braga.

Fez então um discurso que ficou célebre sobretudo pela expectativa que criou e que deixou o país suspenso - lembro-me como se fosse hoje!. Vale a pena ver a partir do minuto 30:44:

«Neste lindo dia de Maio, na velha cidade de Braga (…), ao celebrar-se o 40º ano do 28 de Maio (…), eis um belo momento para pôr ponto nos trinta e oito anos que levo feitos de amargurado Governo.» Depois de uma interrupção provocada por muitos gritos de protesto da assistência, continuou: «Só não me permito a mim próprio nem o gesto nem o propósito, porque, no estado de desvairo em que se encontra o mundo, tal acto seria tido como seguro sinal de alteração da política seguida em defesa da integridade pátria e arriscar-se-ia a prejudicar a situação definitivamente conquistada além-mar pelos muito milhares de heróis anónimos que ali se batem. É então mais que justo que os recordemos e saudemos daqui».





E ficou – até que uma cadeira cumpriu a sua missão histórica.
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Multitasking? Limitem-se a sorrir e acenar

 


«Sempre que uma característica intrinsecamente feminina começa a ter muita publicidade, já sei que, algures, vai acabar mal para mim. À conta da aparente superior capacidade das mulheres para suportar a dor, há muito desmentida, negaram-me o exercício do meu direito fundamental a um parto sem sofrimento. Esqueci-me do primeiro mandamento na administração da epidural: contorcer-se de dores logo à entrada da maternidade, com um ar de ataque de histerismo iminente se não nos derem algo nos próximos segundos. Em pleno século XXI, aterrei no século XIX — porque, lá está, temos todas uma experiência milenar do programa.

Há agora quem nos queira impingir o multitasking — uma competência inata para realizar diferentes atividades em simultâneo. Os homens, coitados, devido ao seu passado de caçadores e guerreiros, lá vão desempenhando uma série de tarefas ao longo do dia, mas só uma de cada vez. Em contrapartida, as mulheres, que ficavam na aldeia com um bebé em cada braço, desenvolveram uma aptidão natural para prestar atenção a várias coisas ao mesmo tempo. Talento que, afiançam-nos, herdamos todas à nascença.

Os estudiosos do evolucionismo garantem não se tratar de um mito, apesar de reconhecerem o condão da sociedade em aproveitar as qualidades femininas para nos esmifrar. Talvez esteja na hora de tirar as devidas ilações e agradecer bem-educadamente, mas declinar firmemente o elogio. Sabendo que vai acabar connosco a dar a sopa com uma mão, enviar um e-mail com a outra e balançar um bebé a chorar com o pé direito enquanto recitamos a tabuada com o mais velho, mais vale prevenir do que remediar — ao reparar no nosso pé esquerdo livre, alguém ainda se vai lembrar de o aproveitar para nos pedir a confeção de uma deliciosa e nutritiva refeição.

Não estou a denunciar um necessário complô do heteropatriarcado contra as mulheres. Antes do advento do GPS, quantos homens acabaram perdidos à custa do seu inato sentido de orientação? Um digno herdeiro dos caçadores e guerreiros só precisa do mapa para ir do ponto A ao ponto B. Jamais abrirá a janela para pedir ajuda, mesmo que acabe em Espanha a encher o depósito. Quantos têm em casa uma estante da IKEA torta por abandono das instruções a meio? Quando se trata, na realidade, de uma questão de geografia: só os portadores de genes escandinavos estão em situação de arriscar a montagem de um carrinho Råskog sem seguir todos os passos preestabelecidos — sim, há estudos a suportar esta afirmação.

Ao ouvir muito barulho a propósito de uma competência inerente ao género feminino, aconselha-se imediato ceticismo. Podem louvar à vontade a minha vocação para fazer tudo ao mesmo tempo, vou manter que só dou conta de um recado de cada vez — e com dificuldade. Caso insistam, estou em posse de vários estudos a demonstrar como homens e mulheres são igualmente improdutivos quando obrigados ao multitasking.

O mito pode, inclusive, pôr em risco a vida em sentido literal — e também tenho estudos a comprová-lo. Como a obstetra que assistiu ao parto acima descrito só acalmou com a chegada de uma parteira, cheguei a duvidar se não seria ortopedista. Perante a minha perplexidade, explicou que, sozinha, não conseguia concentrar-se devidamente na sua função principal e verificar se era necessário realizar um ato médico. Tivesse ela acreditado piamente que era capaz de fazer um parto enquanto mantinha um olho no monitor cardíaco fetal e algo podia, de facto, acabar a correr mal.»

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27.5.21

Holigans: o Porto já está assim


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Mia Couto

 

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Ainda sobre a MEL

 


«A terceira convenção do Movimento Europa e Liberdade que se realizou nos últimos dias foi excelente para separar o essencial do acessório. À primeira vista, estiveram lá representados projetos políticos com diferenças importantes entre si: do liberalismo na economia e nos costumes ao reacionarismo saudosista do Estado Novo e do passado colonial, da democracia cristã ao novo radicalismo trauliteiro. Na prática, porém, uma e só uma preocupação animou esta convenção: o regresso da direita ao poder. (...) Que não haja dúvidas: independentemente das diferenças mais ou menos superficiais em torno de outras questões, é mais o que une do que o que separa. E o que une é a sua natureza de classe: menos redistribuição do rendimento e mais abertura de mais esferas da vida social (saúde, educação, pensões,…) à rendibilidade privada. (...) Acima de tudo o facto de, sempre que necessário, a direita tirar as luvas e unir-se em torno da sua matriz fundamental: a salvaguarda e aprofundamento do privilégio.»
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Por este Rio abaixo



 

«Há qualquer coisa de trágico – e ao mesmo tempo de quase comovente — em Rui Rio. Aceita aparecer no chamado “congresso das direitas” contente por não haver uma tabuleta a dizer “congresso das direitas”, porque como não é de direita não iria conseguir entrar; repete o mesmo discurso sobre dívida, défice, crescimento e exportações que tem há anos (recusando sugestões para que o discurso do PSD deixe de estar centrado nas finanças); anuncia que o seu programa para salvar Portugal passa por um acordo com o PS e que o tal programa — que é o de sempre, reforma do sistema político e do sistema da justiça — é impossível. “O PS não quer reformar nada”: foi o único momento, o das críticas ao PS e não o enunciado do programa, em que o congresso das direitas acedeu a aplaudi-lo. Depois, diz que já tomou a vacina da Astrazeneca, está muito bem e vai-se embora. Passos Coelho, o fantasma presente na sala, acompanha com carinho o sucessor à saída, numa quase metáfora do que pode ser o futuro do PSD, a avaliar pelo saudosismo passista presente na velha FIL.

Sentado na primeira fila, para onde saltou rapidamente depois de na terça-feira ter começado por sentar-se cá mais atrás, Passos Coelho foi um catalisador do sentimento de orfandade existente no PSD, expresso em aplausos e homenagens ao antigo líder enquanto o nome de Rui Rio ou era omitido ou atacado.

No fim de contas, a convenção serviu para sinalizar que Passos Coelho é um unificador das várias direitas na órbita do PSD — e a sua disciplinada presença dentro da sala quase do princípio ao fim funcionou como um cartaz. A reunião serviu também para institucionalizar o partido da extrema-direita, o Chega, e ajudar a Iniciativa Liberal a percorrer o seu caminho — pelo menos enquanto D. Sebastião não se levantar da primeira fila da assistência e decidir subir ao palco. Com André Ventura a declarar querer ser “Governo” e a ameaçar que a direita não voltaria ao poder sem o Chega (e assinava também o seguro de vida do PS e de António Costa) os presentes entusiasmavam-se e aplaudiam.

Foi também um palco excelente para mostrar um Paulo Portas moderadíssimo, candidatável a Belém e contra a democracia transformada em “gritaria" (longe vão os tempos do CDS do triunvirato Manuel Monteiro/Paulo Portas/O Independente e a sua específica gritaria numa época sem redes sociais). Da presença obnóxia de militantes do PS num encontro para discutir a reconfiguração das direitas, útil só o conselho de Henrique Neto: “Esta reunião tem por trás de si o desejo de substituir um Governo de esquerda por um Governo de centro-direita. É preciso ver quem está em condições de liderar. Eu, se fosse ao dr. Rui Rio, limitava-me a pôr numa folha de papel dez causas e propunha-as ao centro-direita do país”. Até há causas, mas são impossíveis.

Discurso inteligente e a sair da estranha amálgama que pairou na “reconfiguração das direitas" foi o de Miguel Poiares Maduro a estabelecer as fronteiras que Rui Rio não quis fazer, contra os que “entendem que a necessidade de oferecer uma alternativa se sobrepõe à qualidade dessa alternativa”. Não é o seu caso: “De pouco serve unir todo o espaço não socialista se as diferenças no seu seio forem tão ou mais graves do que as que o separam do outro lado”.

Quanto ao resto, é de lembrar o papel patriótico dos “founding fathers” da direita portuguesa quando integraram os saudosistas do Estado Novo nos seus partidos — o PSD “socialista” de Sá Carneiro e o CDS centrista de Freitas do Amaral. A adesão ao regime deposto sempre existiu — “O que era preciso era outro Salazar” sempre foi um elemento do vox populi — e continua a aparecer em eventos da direita, mesmo que poeticamente. A historiadora Fátima Bonifácio encerrou a sua intervenção a citar Fernando Pessoa sobre o ditador: “A sua simplicidade dura e fria pareceu qualquer coisa de bronze e fundamental”. Tinha dito.»

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