20.11.21

As ruas

 


Como era linda a Rua Braamcamp! Lisboa,1950.
Fotografia de Judah Benoliel- AML
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Quando os governos faziam greve

 


Na madrugada de 20 de Novembro de 1975 a Presidência do Conselho de Ministros emitiu um comunicado explicando que o VI Governo Provisório tinha decidido «suspender o exercício da sua actividade», até estarem garantidas condições para o exercício da mesma.

À tarde teve lugar uma grande manifestação em Belém, com muitos milhares de participantes, convocada pelas Comissões de Trabalhadores da Cintura Industrial de Lisboa e apoiada pela Intersindical, PCP e FUR.

Mais informação e um vídeo AQUI, num post de 2013.
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Lisboa das alforrecas

 


Mas que ideia peregrina foi esta de festejar o Natal de Lisboa com alforrecas?
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Líderes “olhem para o que eu faço e não para o que eu digo” precisam-se

 


«No dia 24 de setembro, Mia Amor Mottley, a primeira-ministra dos Barbados, proferiu um discurso notável nas Nações Unidas. Com palavras fortes, questionou todos, incluindo ela própria, sobre até quando, ou quantas mais vezes, se iam encontrar para proferir os discursos de sempre, com mensagens mais ou menos relevantes, mas sem qualquer consequência ou qualquer ação concreta e eficaz.

O discurso da senhora Mottley não se focava num assunto em particular, mas numa panóplia de assuntos de que todos já ouvimos falar vezes sem conta, mas relativamente aos quais nunca vemos nada de facto a acontecer. Entre as muitas perguntas feitas por Mottley saliento duas a título de exemplo, mas aconselho a todos que as oiçam na íntegra: “Quantas mais mortes terão que existir ou mais variantes terão de surgir para que haja um plano concertado de vacinação global no mundo, em vez de um armazenamento de vacinas em excesso pelos países mais desenvolvidos?” ou “Quantos graus terão que subir na temperatura global do nosso planeta para que acabemos com os combustíveis fósseis?”

Depois das muitas perguntas elencadas, a resposta não se fez esperar, e essa é sem dúvida um dos vários pontos altos do exercício feito por Mia Amor Mottley. “Nós temos os meios para providenciar vacinas para todos os adultos do planeta, nós temos os meios para investir de forma a proteger as populações mais vulneráveis do globo das alterações climáticas, mas escolhemos não o fazer.” Ou seja, por outras palavras e para que fique bem claro, nós proferimos discursos em que nos mostramos preocupados com os mais diversos problemas, criamos cimeiras ad nauseam para fazermos crer que estamos mesmo muito preocupados com essas questões em concreto, mas no momento da ação escolhemos nada fazer, ou pior ainda, fazer muito poucochinho para nos convencermos de que fazemos o melhor possível. Dessa forma, vivemos num permanente “olhem para o que eu digo, não olhem para o que eu faço”, um constante clima de hipocrisia.

Esta forma de estar, esta escolha de muito dizer mas nada fazer, é feita pelos nossos líderes, por aqueles que nós escolhemos para nos representarem, mas que vivem numa constante atitude de duplicidade. E isto foi terrivelmente visível na recente cimeira do clima COP26. Desde 1995, em Berlim, que se realizam anualmente estas cimeiras porque, há mais de duas décadas que estamos cientes de que temos um problema grave, muito grave mesmo, provavelmente o maior e o mais urgente problema que alguma vez enfrentámos como Humanidade. Também sabemos e é frequentemente afirmado nos mais diversos discursos, que o problema cresce a olhos vistos a cada dia que passa, e que muito pouco se faz para o resolver. E, no entanto, tivemos líderes que se reuniram para esta cimeira sem ter em atenção as suas ações individuais, a usar formas de transporte altamente poluentes, a participar em refeições com enorme desperdício. Mas, acima de tudo, tivemos líderes que se dão por satisfeitos com um consenso que resulta apenas numa ação tão ínfima que nos devia envergonhar a todos.

Mais uma vez, nas palavras da senhora Mottley, “precisamos de liderança global, porque os nossos problemas são globais, moral, porque temos de fazer o correto, e estratégica, porque não podemos resolver todos os problemas do mundo, mas devemos resolver aqueles dentro do nosso alcance imediatamente”. Eu acrescento: precisamos de líderes que liderem pelo exemplo e que ajam de acordo com as suas palavras. E para isso, pelo menos nos países onde a democracia prevalece, devemos exigir compromissos firmes dos nossos líderes, penalizando nas urnas os que dizem muito, mas pouco ou nada fazem!»

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19.11.21

A batata

 


Da série «O ciclo da batata», Lisboa, anos 50.
Fotografia de Artur Pastor.
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Dois anos sem José Mário Branco

 

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PSD e PS no labirinto eleitoral

 


«Eis a avenida pela qual Marcelo pode sair vitorioso destas eleições antecipadas. Com um Parlamento que tivesse quase a mesma composição do atual, seria o primeiro Presidente a não ver confirmada pelo povo a necessidade de lhe devolver a palavra, entregando-lhe de volta um novo quadro político. Mas aparecem cada vez mais vozes no PSD e no PS a defender uma outra interpretação de uma eventual repetição de resultados eleitorais, defendendo a tese da viabilização recíproca entre PS e PSD, que o próprio Marcelo inscreveu na fundamentação da necessidade de dissolução.

Falta saber se o autor da ideia de geringonça, António Costa, se converte agora à tese de bloco central implícito, que também já defendeu no passado, que viabilizou os governos de Guterres e que expressamente arredou na escolha por não viabilizar um governo do PSD e na busca de uma maioria à esquerda.

Pode, pois, o povo votar da mesma maneira em janeiro e acordar com um governo diferente. A única garantia de que isso não aconteceria seria a clarificação por António Costa de que entenderia a manutenção da relação de forças como um voto na solução de governo ancorado à esquerda. Uma garantia que António Costa não quis dar na entrevista a António José Teixeirana RTP. Uma questão que a campanha eleitoral esclarecerá.»

Paulo Pedroso no Facebook
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Uma Europa para além do arame farpado

 


«A confrontação que está a ocorrer na fronteira entre a Bielorrússia e a Polónia é preocupante, mas não pode ser analisada a preto e branco. É uma crise complexa, que levanta toda uma série de questões. Estamos perante problemas humanitários, migratórios, securitários, geopolíticos, éticos, ou seja, face a uma constelação de desafios que precisam de ser debatidos de modo sereno, frontal e completo.

Como pano de fundo, temos duas grandes problemáticas. A primeira é sobre a democracia. A segunda centra-se na pobreza extrema, num mundo profundamente desigual e que os conflitos, a pandemia e as mudanças climáticas tornam ainda mais dissemelhante e fraturado.

Mas, antes de tudo, é preciso pensar nas pessoas que estão agora encurraladas na terra-de-ninguém, entre o arame farpado polaco e as matracas das unidades especiais bielorrussas. Não se sabe quantos milhares são - as estimativas não são fiáveis. Sabe-se, porém, que incluem gente frágil, muitas crianças, e que passam fome e frio, e sofrem humilhações e violências constantes. São, além disso, alvos permanentes de notícias falsas que os agentes bielorrussos fazem constantemente circular, de modo a manter vivas as ilusões dos migrantes.

Alexander Lukashenko, o senhor da Bielorrússia, está claramente a aproveitar-se da miséria de certos povos. Mas o nosso lado não pode ficar indiferente perante o sofrimento de quem se deixou manipular, gente que vive em contextos tão complicados que qualquer promessa, por mais irrealista que possa ser, traz sempre um fio de esperança. E que lança massas de pessoas nos caminhos minados das migrações ilegais.

A fronteira com a Bielorrússia separa o espaço europeu de um regime autocrático, em que vale tudo o que possa manter o ditador no poder. Lukashenko é hoje a nossa preocupação mais imediata, mas não é caso único na vizinhança. Se olharmos à nossa volta, e nos fixarmos em quem representa uma ameaça potencial ou real mais próxima, temos um ramalhete que inclui igualmente os líderes da Rússia e da Turquia. Não quero acrescentar a esta lista alguns políticos marroquinos, mas recomendaria que se não perdesse de vista esse nosso vizinho do norte de África, que já mostrou que sabe utilizar as migrações massivas como arma de arremesso político.

É verdade que também temos, no interior da UE, quem desestabilize a construção europeia. Mas isso é matéria para uma outra reflexão.

Falemos agora de democracia. A UE precisa de formular uma doutrina que defina como se deve relacionar com vizinhos não democráticos, sobretudo quando surgem situações de hostilidade aberta, como agora acontece. No quadro atual, fica-se com o sentimento de que as democracias tendem a perder perante os Estados fora-da-lei. É, por isso, necessário fixar com clareza qual deve ser a resposta adequada às agressões de natureza híbrida, levadas a cabo à tangente da linha vermelha dos conflitos armados entre Estados, sem, todavia, a ultrapassar. Um primeiro passo deverá consistir numa resposta firme e inequívoca. Inclui a adoção de sanções de modo mais célere, multifacetado e mais centrado nas personagens que contam. Um outro meio será o de fazer um maior uso do sistema multilateral. Isso permitirá levar para a agenda internacional ações como a que Lukashenko mandou executar, à custa do desespero dos curdos do Iraque, dos sírios e de outros povos do Médio Oriente.

Quanto às disparidades que existem entre uma Europa rica e toda uma série de países pobres, o efeito de atração é inevitável. As migrações em massa do sul para o norte serão um dos fenómenos mais marcantes desta e das décadas seguintes. A UE não pode fingir que não vê a tendência. É inaceitável deixar uma matéria dessa importância ao critério de cada Estado membro. A questão deve ser tratada em comum. E o assunto tem de se tornar numa das principais linhas de debate da Conferência sobre o Futuro da Europa. É aliás tempo de dizer aos cidadãos que essa conferência está a decorrer e fazer que estes nela participem.»

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18.11.21

Era tão bom, não era

 

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Oposição católica ao Estado Novo

 


Há três dias, tive uma conversa conduzida por Fernando Rosas e Mariana Carneiro sobre este tema. Recordei a oposição dos católicos à ditadura, não só mas sobretudo desde o início dos anos 60 do século passado, a actividade intensa que foi desenvolvida no âmbito das múltiplas organizações e publicações que se interligavam e agiam em diversas plataformas: legais, semilegais e clandestinas. Embora a conversa tenha sido longa muito ficou por dizer, mas os eventuais interessados podem ouvi-la AQUI.
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Seriam 78

 

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Quem quer ser professor?

 


«O estudo que o Ministério da Educação apresentou nesta quarta-feira é um murro no estômago: em dez anos, 39% dos professores vão reformar-se. Precisaremos de mais de 34 mil profissionais, no mínimo, até ao ano lectivo 2030/31, já contando que também haverá uma redução do número de alunos nas escolas, fruto da quebra de natalidade dos últimos anos. No ensino pré-escolar, o cenário é tão grave quanto isto: seis em cada dez educadores actualmente no activo estarão aposentados em 2030.

Se causa indignação que nesta altura do ano, dois meses depois do arranque das aulas, ainda haja alunos sem professor, o cenário traçado por uma equipa de investigadores da Nova SBE, em parceria com a Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, é este: se nada for feito, não só faltarão cada vez mais docentes como não está garantida a qualidade dos mesmos.

Como aqui escrevemos recentemente, este é o maior problema da Educação. Na apresentação do estudo, percebeu-se que o plano para o atacar passa essencialmente por alargar a base de recrutamento. Como são cada vez menos os jovens a escolher estudar especificamente para vir a dar aulas, vai ser revista a lista de cursos que conferem habilitação própria para a docência. Vão também rever-se as regras para que diplomados de outras áreas, que não as do ensino, se possam converter mais rapidamente em professores profissionalizados.

É um caminho possível — seguramente dará origem a debate nos próximos tempos, porque há quem entenda que há riscos de se baixar a fasquia da qualidade —, e está em linha com as soluções que estão a ser encontradas noutros países europeus. Mas para atrair diplomados de outras áreas é preciso muito mais.

É preciso que a profissão seja atractiva. Que quem está nas escolas não seja esmagado pela burocracia e pelo cansaço e se sinta valorizado. É preciso que haja condições efectivas para ensinar, nomeadamente em zonas mais desfavorecidas e com mais problemas sociais. E que se combata a indisciplina. E se dê liberdade às escolas para construir projectos aliciantes. Por fim, face à dimensão da escassez que já existe em certas regiões, são precisos incentivos para fixar docentes em alguns locais (como existem para os médicos).

Se isto não for feito, e no plano apresentado não se vislumbram essas medidas, corremos o risco de o número de interessados em seguir esta carreira, mesmo provenientes de outras áreas de formação, não ser suficiente para suprir de forma sustentada as necessidades futuras.»

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