17.6.23

Jarras

 


Jarra de vidro dourado Mont Joye, cerca de 1904.
François-Théodore Legras.


Daqui.
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Fernando Medina

 

«Fernando Medina foi durante muitos meses uma alegada próxima vítima – mas nada disso aconteceu. Foi eficaz na comissão de inquérito, o suficiente para que a opinião pública o possa isolar do caso da indemnização, atribuída pela TAP na altura sob tutela de Pedro Nuno Santos e Hugo Mendes, numa época em que Medina nem estava no Governo.

António Costa disse que tiraria conclusões políticas depois do fim da comissão de inquérito. O PÚBLICO já escreveu que Costa não queria remodelar já. Mas depois dos episódios alarmantes que envolveram João Galamba e o SIS (em que este invocou o conselho do gabinete do próprio primeiro-ministro), quem sai com a imagem mais abalada de todo o processo de inquérito é a pessoa que foi escolhida para suceder ao responsável político máximo pela indemnização a Alexandra Reis, Pedro Nuno Santos.»

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Indo ele a caminho da Moldávia…

 


… parou na Hungria para ir à bola com o seu sinistro colega Orbán.

«O primeiro-ministro terá viajado num voo da Força Aérea, mais concretamente num Falcon 50, e seguiu, no final do jogo, para a Moldávia onde tinha agenda logo na manhã seguinte.»

Que António Costa gosta de futebol é sabido, que quisesse ir dar abraços a Mourinho é lá com ele, que não tenha comprado um bilhete na Easyjet, mas usado para tal o Falcon, é que me parece mais complicado: já vi políticos amplamente criticados por usarem o carro oficial para levarem os filhos à creche.

Ainda por cima, a paragem em Budapeste nem constava na agenda da ida do PM à Moldávia: foi PRIVADA, portanto. Displicência é isto.

(Observador, 16.06.2023)
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Pedro Nuno Santos e a importância de assumir os erros e a verdade

 


«“Há verdades que são mais inverosímeis do que a mentira, mas não vou passar a mentir só porque ela parece mais credível do que a verdade.” Esta declaração feita por Pedro Nuno Santos, na quinta-feira, na comissão parlamentar de inquérito à gestão pública da TAP, é a mais importante declaração política do ex-ministro das Infra-Estruturas e da Habitação, no que se refere à sua credibilização política e ao seu futuro político no país e no PS.

Por mais absurdo que possa parecer o seu esquecimento de que autorizara o pagamento de meio milhão de euros à ex-administradora da TAP Alexandra Reis – “Não tinha memória, no final de um ano, daquela mensagem e da minha participação sobre o montante e a autorização” –, por muito que haja quem nunca vá acreditar que isto aconteceu assim, o facto é que a forma como Pedro Nuno Santos assumiu o erro que cometeu e assumiu a razão por que se demitiu são actos de coragem e seriedade políticas, que mostram que tem o caminho aberto para recuperar o seu papel na política portuguesa.

Perante a pergunta do líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, sobre porque se demitira, o ex-ministro assumiu: “Porque, objectivamente, este processo não correu bem. Há responsáveis políticos e sou eu. De alguma forma, aconteceu sob a nossa égide, e o responsável sou eu. Havia uma indemnização elevada que as pessoas rejeitavam. Não era possível explicar que podia sair mais caro não permitir do que permitir, e a conclusão era que tínhamos de nos demitir.”

A comissão parlamentar de inquérito à gestão pública da TAP irá agora produzir um relatório que será aprovado pela maioria absoluta do PS e que terá as conclusões que a bancada socialista quiser que nele constem, mas, para o país, há uma conclusão que sai da audição de Pedro Nuno Santos: a de que a seriedade na assunção de responsabilidades na política é um factor maior para que os políticos sejam levados a sério pelos eleitores. Mesmo quando essa seriedade revele traços de absurdo como acontece neste caso que envolve Pedro Nuno Santos.

É certo que, nas oito horas de audição, o ex-ministro pode parecer ter fugido a algumas questões e tenha distribuído responsabilidades por muitos. A saber: era Alexandra Reis que tinha de ter a iniciativa de devolver a indemnização quando entrou na NAV – “Essa não é a minha função. Eu não sabia que Alexandra Reis não estava a cumprir. Isso é uma responsabilidade do gestor público.” E até lembrou que a sua nomeação passou pela Cresap.

É claro que Pedro Nuno Santos não quis responsabilizar-se pelo enquadramento jurídico da indemnização, apenas aceitou o valor da indemnização – “Também não é verdade que soubesse de tudo, não acompanhei processo e não conhecia enquadramento jurídico que sustentasse o valor a que se chegou.”

Aliás, é para a TAP que remete a responsabilidade dessa negociação formal das condições da saída de Alexandra Reis da administração, ao assumir que autorizara a presidente executiva da administração da TAP, Christine Ourmières-Widener, a negociar o processo de fim de contrato.

É igualmente verdade que se escudou no facto de ter delegado competências sobre a tutela da TAP no então secretário de Estado, Hugo Mendes. Fê-lo, por exemplo, quando justificou que, se não tinha agenda para receber Manuel Beja, ele deveria contactar o secretário de Estado.

Mas, para além da evidente qualidade e do estofo político que tem, Pedro Nuno Santos demonstrou características que um dirigente, um líder, tem de ter. Convicção e determinação na defesa das suas opiniões e acções, e também que é leal aos seus. Sublinhe-se a forma como se referiu aos dois membros das suas antigas equipas governativas, Hugo Mendes e Frederico Pinheiro.

Fê-lo ao comentar a resposta por email de Hugo Mendes à ex-presidente executiva da TAP, em que aconselha a alteração de um voo de Moçambique para Lisboa para satisfazer um pedido da agência de viagens que tratava das viagens do Presidente da República. “Tenho uma relação com o secretário de Estado para lá daquele email. É um email que não podia ter acontecido, e ele acha o mesmo. Ele é muito mais do que aquele email. Aquele email não o define. Enquanto ministro, faço uma avaliação sobre o todo e não sobre um momento.”

Fê-lo também em relação a Frederico Pinheiro, o ex-assessor que foi demitido pelo ministro das Infra-Estruturas, João Galamba: “Se eu não estivesse satisfeito com o seu trabalho, não teria trabalhado comigo tantos anos. A avaliação que faço é muito positiva: é inteligente, trabalhador e respeitador – pelo que vi no contacto comigo e com os outros. É uma avaliação positiva, muito positiva, aliás.”

E fê-lo até em relação a Alexandra Reis: “Acho que a engenheira Alexandra Reis era um quadro da TAP. Competentíssima, trabalhadora, inteligente. Lamento muito o que lhe aconteceu. Será útil para quem quiser trabalhar com ela.”

Teve ainda a inteligência de não querer emitir “nenhuma opinião sobre a privatização da TAP” em curso, escusando-se, assim, a comentar directamente as opções e a gestão do actual Governo. Mas não deixou de elogiar a escolha de Luís Rodrigues para presidente do conselho de administração e também da comissão executiva da TAP.

E teve o especial cuidado de não beliscar António Costa, chegando mesmo a afirmar que tem ainda uma boa relação com ele e que “nunca” sentiu “falta de solidariedade do primeiro-ministro”. O mesmo primeiro-ministro com quem já vivera o episódio da iminência de demissão a propósito de ter avançado com o despacho para a construção do novo aeroporto no Montijo e em Alcochete, que António Costa o obrigou a revogar.

Pelo que se conclui da audição de quinta-feira, Pedro Nuno Santos pode seguramente ter futuro político, ainda que este caso fique para sempre como uma nódoa no seu currículo.»

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16.6.23

Casas

 


Casa Alegre de Sagrera, com vitrais modernistas, Terrassa, Barcelona. Fim do séc. XVIII, transformada no início dos séc. XX.
Arquitectos: Melcior Vinyals i Muñoz e Josep Puig i Cadafalch.

[Mais informação sobre a Casa aqui.]

Daqui.
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O cemitério (2)

 

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16.06.1996 – O dia em que David Mourão-Ferreira morreu

 


David Mourão-Ferreira morreu em 16 de Junho de 1996. Um dos nossos grandes poetas do século XX, ficcionista também, acidentalmente político como Secretário de Estado da Cultura, de 1976 a Janeiro de 1978 e em 1979, autor de alguns poemas imortalizados pelo fado na voz de Amália Rodrigues.

Dois poemas ditos pelo próprio, um cantado por Amália:








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Fotopátria pelo Presidente Marcelfie

 


«O Estado Novo ensinou-me a desconfiar dos patriotismos exaltados; o “patriota” importado Scolari — que treinava a Selecção enquanto fazia publicidade a uma empresa pública e achava que fazia parte dos costumes fugir aos impostos — deu-me mais um substancial abalo quando conseguiu pôr o país inteiro vestido com as horríveis cores da bandeira a proclamar-se nação valente e imortal. As cerimónias do 10 de Junho acrescentam-me habitualmente mais melancolia à versão oficial da história lusa, com as suas inescapáveis oportunidades de grandiloquentes discursos patrióticos. Imagino que seja assim um pouco por todo o lado, nos respectivos dias nacionais, mas duvido que algures se abuse tanto da invocação de um passado secular e grandioso por mares nunca de antes navegados ou coisa semelhante. Não que eu próprio não sinta orgulho nesse passado, porque sinto, e sem complexos neocoloniais — tudo visto localmente, tudo revisto nos livros e mesmo muito não podendo ser esquecido ou perdoado. Mas, simplesmente, já é tempo de deixarmos de viver à conta do fado das Descobertas, como fazia o Estado Novo, e percebermos que, tal como reza a anedota, nós não somos descendentes directos dos que partiram mas dos que ficaram.

Assim, quando leio que neste 10 de Junho, na Régua, após os seus banhos de selfies, o Presidente Marcelfie dirigiu-se à pátria e, perante o sentido aplauso do povo, disse coisas tão profundas como “todos os 10 de Junho sabemos que, por entre alegrias e tristezas, estamos a fazer Portugal” ou “somos dez milhões cá dentro mas valemos muito mais”, regressa-me este mal-estar que não sei se é um défice de patriotismo ou um excesso de cinismo. Porque eu, de verdade, não sei o que seja fazer Portugal nem entendo porque haveremos de achar que valemos mais do que valemos. A tal ridícula ideia de “fazer Portugal” aplica-se a quem: às poucas ilhas de excelência que conseguem inovar e fazer para além da mesquinhez resignada e eternamente insatisfeita ou àqueles que não vivem sem o favor, o subsídio, o apoio do Estado? Aos que podendo ser facilmente grandes cá dentro não têm medo de ser iguais aos melhores lá fora ou aos que preferem viver no conforto de serem os melhores da sua rua, infalíveis no auto-elogio e na cobrança à ingrata pátria onde se acolhem?

Remeto para a sondagem ao estado de espírito dos portugueses publicada na última edição do Expresso. Sem nenhuma surpresa, constatei que os portugueses se declaram largamente insatisfeitos. Com tudo: o país, o Governo, a economia, as instituições. Não confiam em nada nem ninguém, com excepção de alguma condescendência para com o Presidente das selfies e as Forças Armadas — o sector que o Presidente excluiu do rol de “ramos mortos” que é preciso cortar da árvore pátria, muito embora o que não faltem lá sejam escândalos de toda a ordem, com indisciplina, dinheiros desaparecidos, material desbaratado, armas roubadas. Ou seja, a fazer fé no que dizem, os portugueses não gostam do país que têm. E a culpa, já se sabe, é sempre “deles” — essa entidade difusa que quase sempre remete para o governo em funções, inevitavelmente formado por oportunistas e corruptos, mas que se estende a toda a classe política e quem quer que tenha poder. Se, num dia de semana e em horário de trabalho, encontramos um grupo de amigos com ar saudável e longe da idade de reforma, sentados num café a beber mínis, e lhes perguntamos como vai a vida e o país, é certo que desatarão a queixar-se de tudo e “deles” lá em cima. Porque, aparentemente, Portugal seria maravilhoso se ninguém o governasse e todas as reivindicações de cada grupo de interesses fosse satisfeito sem mais. Por isso, exercer a crítica política construtiva, denunciar e condenar os verdadeiros casos de corrupção, de tráfico de influências, de oportunismo político, é caminhar sobre gelo fino: porque cada um que cai, justamente condenado na opinião pública e nos tribunais, serve imediatamente para alimentar a tese de que “são todos iguais”. E não é inocentemente que essa “verdade” é estrategicamente soprada ao bom povo por quem espera vê-la ganhar caminho aos poucos até se transformar num incêndio que possa devorar a democracia.


15.6.23

Champanhe

 


Balde Arte Nova para manter o champanhe gelado – em prata, com uma mulher a formar uma pega do lado esquerdo e um nenúfar outra pega do lado direito. Cerca de 1910.
Albert Köhler & Cie (WMF).

Daqui.
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O cemitério

 


Libération, 15.06.2023
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Eduardo Galeano

 


Los hijos de los días
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O Carnaval dos descartáveis

 


«Vou ser optimista: os descartáveis têm os dias contados. Representaram um curtíssimo período de luxo e loucura que foi contra todos os séculos anteriores.

Passeio pela loja da esquina como se passeasse por um museu: olha, um pacote de quatro máquinas de barbear. Porquê quatro? Ora, porque, quando a lâmina se gasta, deita-se fora a máquina e vai-se buscar a próxima.

Lembro-me de ir ao Rossio encher o isqueiro. Havia outras tabacarias que faziam o mesmo serviço, mas eu preferia aquela, onde nunca se desperdiçava um jacto de gás. Também enchiam isqueiros de gasolina, substituíam pedras e, caso mesmo assim teimassem em não acender, faziam as reparações necessárias.

Como é que caímos na tentação dos isqueiros descartáveis? Será que a Bic ainda vai parar ao banco dos réus? Quem é que não sentia uma ponta de culpa, quando deitava fora uma esferográfica?

Se calhar, temos de aproveitar estes últimos anos de desperdício alegre e irrepetível. Nos países mais ricos do que o nosso, já há sapateiros como os que havia cá. Lentamente, as coisas voltam a ser reparadas – não pelos pobres, que não têm dinheiro para esses luxos, mas pelos ricos que querem impressionar os amigos.

Soube que a Apple ganhou um prémio de longevidade, porque os iPhones podem durar até sete anos. Sete anos! Sete anos não é nada. Mas já é considerado muito tempo.

Mas não podemos cair na tentação de achar que estamos perdidos. Já não estamos! Os tempos já viraram. Já há descartáveis proibidos e a lista dos tolerados diminui de dia para dia. As reparações estão a regressar.

E qualquer dia reaparecem os frigoríficos que duram 50 anos.

As pessoas pensam que os descartáveis são baratos, mas, se somarmos o que gastámos em descartáveis ao longo de uma vida, veremos que as boas canetas e outros objectos infinitamente renováveis, para além de darem mais prazer e de se poderem deixar aos filhos, acabam por sair mais baratos.

Para efemeridade, basta a efemeridade da alegria.»

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