8.7.23

Edifícios

 


Edifício Arte Nova com janelas de vidro e terraço no telhado. Cannes, França, fim do século XIX.

Daqui.
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José Mattoso

 


Quem sou eu para falar deste homem que hoje morreu e do qual tantos vão escrever – e tanto.

Mas quando se tem uma vida já longa, é normal que ela se tenha cruzado com muitas outras e foi o meu caso com a de José Mattoso: estudámos ao mesmo tempo em Lovaina, ele História e eu Filosofia. Se nunca fomos íntimos, a verdade é que éramos então pouco mais do que uma meia dúzia de estudantes portugueses naquela magnífica Universidade e que nos encontrávamos de vez em quando.

Foi num desses encontros que surgiu a decisão de irmos assistir à Missa do Galo no mosteiro beneditino em que JM vivia porque era então monge da respectiva Ordem. E por mais anos que viva, nunca esquecerei a beleza do gregoriano cantado por umas dezenas de homens. Inigualável, única. De JM, é o que escolho para guardar no baú da minha memória.
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Edgar Morin

 


Chega hoje aos 102.

Conheci-o numa das suas primeiras vindas a Portugal nos idos de 60, sempre presente num mundo a que eu também pertencia. Lembro-me de muitas reuniões e colóquios, e até de termos assistido, na TV e em grande grupo, a um decisivo desafio de futebol. Também, de ter convivido com ele no Algarve, em casa de amigos muito próximos onde se refugiara para escrever.

Continuo a lê-lo no Twitter. Há três dias, por exemplo, escreveu isto: «Tudo o que é explicável não é necessariamente justificável».
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O gueto

 


«Começo por citar o artigo de abertura do Le Monde de hoje: "Alguns milhares de adolescentes e jovens adultos, saídos dos bairros populares, na maior parte entre os 14 e os 20 anos, fizeram vacilar a República provocando os mais graves motins urbanos de sempre na França moderna."

É um fenómeno de muitas dimensões mas vou centrar-me no "problema gueto", que está na origem do "mal francês". Para uma abordagem mais global, ler a última newsletter de Teresa de Sousa.

Anota o mesmo artigo: "A ‘guetização’ dos bairros mais pobres é conhecida desde há 20 anos, mesmo se uma parte dos sociólogos e das autoridades sempre tenha recusado o termo", geralmente em nome da França republicana.

O gueto está na raiz da segregação social e ética sofrida pelos habitantes dos bairros populares. Escreve o sociólogo François Dubet: "As escolas e os estabelecimentos sociais são percebidos como estrangeiros ao bairro. Apesar das políticas locais, apesar do empenho dos trabalhadores sociais e dos professores, os habitantes sentem-se postos à margem por causa das suas origens, da sua cultura, da sua religião e da sua residência: o bairro exclui-os e encerra-os, ao mesmo tempo que os protege. (…) Os jovens destes bairros têm o sentimento de serem prisioneiros de um destino social e racial congelado." Pouco importa que a discriminação fosse muito mais forte e visível há meio século. Hoje, as discriminações são vividas como intoleráveis. E, mais ainda, quando é difícil sair do gueto.

A discriminação é real e mede-se: "Sabemos que um jovem de origem estrangeira que vivam num bairro de reputação difícil tem muito menos oportunidades. Estes jovens acumulam uma série de indicadores negativos, do desemprego ao fracasso escolar. As políticas urbanísticas não reduziram a segregação social e étnica. Os habitantes dos bairros ‘prioritários’ continuam a ser os mais pobres e precários, de imigrantes ou saídos da imigração" (Dubet).

Guetos e guetos

O termo guetto tem origem nos bairros judaicos do Norte de Itália. Os guetos de Veneza surgiram após a expulsão dos judeus de Espanha. O termo generalizou-se depois. O sociólogo americano Louis Wirth estudou os bairros de imigrantes nos anos 1940. Considerou-os uma "formação social que permite a um grupo que acaba de se instalar recentemente amortecer o choque migratório". Neste sentido, o gueto americano era uma via e uma etapa de integração na sociedade.

O historiador Pap Ndiaye, actual ministro da Educação francês, estudou o bairro judaico de Chicago e divergiu de Wirth: "O gueto não é apenas um lugar em que as pessoas se agregam para absorver um choque imigratório. É, mais precisamente, um novelo etno-racial em que os habitantes estão verdadeiramente ‘encurralados’ e sofrem formas de segregação e discriminação."

Les Blancs sont partis (Os brancos partiram) é o título de um livro recente do jornalista Arthur Frayer-Laleix, especialista em imigração e que percorreu os bairros mais pobres de França. O título da longa reportagem parece paradoxal, mas são palavras "pronunciadas com tristeza" por alguns marroquinos, argelinos, marfinenses, malianos ou senegaleses, que apontam a realidade crua das periferias francesas, a emergência de uma "separação racial" sem apartheid. "A luta contra os guetos deveria ser uma grande causa nacional", declara Frayer-Laleix.

A brutalidade da polícia e certos comportamentos racistas não são a origem dos fenómenos. São um detonador de explosões. Um tiro, um morto e o incêndio dos bairros. Também as redes sociais não são causas: são multiplicadores das reacções.

Qual o efeito da ‘guetização’? Os pobres e os imigrantes são condenados a viver em conjunto e, inclusive, formam-se guetos dentro dos guetos. Depois surge uma espécie de violência niilista que leva à destruição dos equipamentos sociais dos próprios bairros.

Volto a Dubet: "Nenhum motim tem uma verdadeira tradução política. Tudo se passa como se os bairros populares estivessem num vazio político, como se a raivas e as revoltas não desembocassem em nenhum processo político. Nas democracias os movimentos sociais e os partidos políticos têm um papel essencial: transformar as emoções em acções organizadas, em reivindicações, em projectos. As revoltas operárias tornaram-se sindicatos e partidos de esquerda. Sem eles, apenas teria havido violência e silêncio. Os motins das periferias são um problema social porque não desembocam na emergência de um actor."

Lembra Dubet: "O contraste com as antigas periferias vermelhas é impressionante: as aglomerações do pós-guerra não eram ricas, mas eram enquadradas por partidos, sindicatos e trabalhadores da educação popular." Tudo isto desapareceu. Tudo se parece reduzir-se ao epifenómeno: o confronto de manifestantes e polícias.

O vazio conduz a uma completa ruptura entre os habitantes, sobretudo os jovens, e os eleitos, autárquicos e políticos. "Esta experiência é tão violenta que leva os jovens a destruir tudo que os pode ligar à sociedade – as bibliotecas, as escolas, os centros sociais." Os símbolos do Estado são o alvo.

A situação, com todas as suas diferenças, pode ser mais aguda nos Estados Unidos e na França. Seria, no entanto, sábio que cidades e países onde proliferam novos guetos, em vez de o silenciar, levassem o fenómeno a sério: um gueto não é um problema de polícia.»

Jorge Almeida Fernandes
Newsletter do Público, 07.07.2023
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Macron a ver se dá a volta à França

 

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7.7.23

Mais um vaso

 


Vaso de porcelana pintada, Rozenburg Pottery and Porcelain Factory, Haia, 1903.
Pintor: Samuel Schellink.

Daqui.
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Marcelo – Até fiquei preocupada

 


Eu até desconhecia o que era Fortimel, mas fui ao Google e fiquei a saber que «é especialmente formulado para a gestão nutricional da malnutrição associada a doença». Ui!..
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Nem mais

 

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As Jornadas Mundiais da Juventude: religião ou política?

 


«Em 1985, a Organização das Nações Unidas criou o Ano Mundial da Juventude. É neste contexto que o Papa João Paulo II (canonizado/santo em 2014) criou a primeira Giornata Mondiale della Gioventù. O objetivo era divulgar a doutrina católica (verdades de fé), propagar os ensinamentos da Igreja Católica entre os jovens e estabelecer e reforçar pontes de amizade entre povos e culturas.

Na verdade, devido ao contínuo processo de secularização (perda da importância da religião na vida quotidiana), a estratégia é atrair os jovens (garante do futuro) para a Igreja, revitalizando a religiosidade deste importante segmento da sociedade.

Do ponto de vista dos jovens, é um momento privilegiado de encontro com o Papa, convívio, vivências e experiências religiosas e espirituais. Durante o evento acontecem: catequeses, confissões, adorações, vigílias, missas, momentos de oração e conferências sobre temas relacionados com a juventude. Segundo o site oficial da JMJ-2023, “é um encontro dos jovens de todo o mundo com o Papa. É, simultaneamente, uma peregrinação, uma festa da juventude, uma expressão da Igreja universal e um momento forte de evangelização do mundo juvenil”.

Façamos agora uma viagem histórica sobre a realização das Jornadas, realçando tempo (cronológico) e espaço (geográfico):

1. A primeira edição foi realizada, em março de 1986, justamente em Roma, sede da Igreja Católica.

2. Buenos Aires, Argentina, em abril de 1987, em pleno governo de Raúl Alfonsín, que tinha restaurado a democracia no país, após a sangrenta ditadura militar (1976-1983).

3. Santiago de Compostela, Espanha, em agosto de 1989, um dos mais destacados locais de peregrinação do mundo católico.

4. Częstochowa (Virgem Negra), em agosto de 1991, um importante santuário mariano e destino de peregrinação. Este evento teve um forte valor simbólico e político. João Paulo II, que teve um papel político crucial na queda do regime comunista em 1989 (com a queda do Muro de Berlim), escolheu o seu país natal (Polónia) para a realização da Jornada. A intenção era reestabelecer a ponte entre o mundo católico (ocidental) e os (novos) países ex-comunistas, marcadamente de orientação ideológica e política anti-religião.

5. Denver, Colorado, em agosto de 1993. A escolha para sediar a Jornada foi apoiada por Bill Clinton, recém-empossado Presidente dos Estados Unidos, um país ainda maioritariamente protestante, mas com expressivo aumento dos católicos. Clinton esteve pessoalmente com o Papa no evento.

6. Manila, em janeiro de 1995, no governo do militar Fidel Ramos. Filipinas é o único país asiático predominantemente católico (80% da população), mas que estava a sofrer um avanço do Islamismo, vindo da Indonésia e da Malásia.

7. Paris, em agosto de 1997. Realizada no governo do católico Jacques Chirac, na ainda predominante França católica, mas com expressivo avanço do Islamismo, através da imigração.

8. Roma, em agosto de 2000. A escolha do retorno prende-se com o evento mundial Jubileu 2000 (celebração do nascimento de Jesus).

9. Toronto, em julho de 20o2, no católico Canadá. Como recompensa pela realização do evento, o Papa apoiou a criação, em 2003, do Salt+Light Catholic Media Foundation, um importante meio de divulgação da doutrina da Igreja Católica, mas também com grande capacidade de influência e poder político.

10. A católica Colónia, em agosto de 2005. Após a morte do Papa João Paulo II, o alemão Joseph Ratzinger, recém-eleito como Bento XVI, quis fazer a sua primeira Weltjugendtag no seu próprio país.

11. Sydney, em julho de 2008, na Austrália de maioria católica. Foi o primeiro (e único evento) realizado na Oceânia.

12. Madrid, em agosto de 2011, segunda vez realizada na católica Espanha, berço da Opus Dei (1928), o influente ramo económico e político da Igreja Católica.

13. Rio de Janeiro, em julho de 2013, no país com o maior número de católicos do mundo, mas com um fortíssimo crescimento do segmento evangélico. Com a renúncia de Bento XVI, o evento foi conduzido pelo Papa Francisco.

14. Cracóvia, em julho de 2016, cidade de João Paulo II, razão do retorno do evento na católica Polónia.

15. Cidade do Panamá, em janeiro de 2019, no ainda católico Panamá, mas, à semelhança do Brasil, com expressivo crescimento do segmento evangélico. Este evento foi muito importante para Portugal: diante do Cardeal-Patriarca de Lisboa (D. Manuel Clemente), do então Presidente da Câmara de Lisboa (Fernando Medina) e do Presidente Marcelo, o Papa Francisco anunciou Lisboa como sede da próxima Jornada Mundial da Juventude, em agosto de 2023.

Na verdade, a "surpresa" foi uma encenação televisiva, pois a realização do evento em Portugal (de Fátima) tinha sido previamente negociada pelo catolicíssimo Presidente, provavelmente na sua visita ao Papa, em março de 2016, logo a seguir à posse do primeiro mandato. Além disso, foi no Panamá, no âmbito desse evento religioso-espiritual, que Marcelo, unindo religião e política, anunciou a sua recandidatura para Presidente, o que veio a concretizar-se em 2021. Em Portugal, desde a sua fundação, religião/Igreja Católica e política andam sempre de mãos dadas.» (O realce é eu.)

Donizete Rodrigues
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