6.4.24

Outros mundos

 


Mercado flutuante no Vietname.

Daqui.
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Conselho bem útil nos tempos que correm

 

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06.04.2011 – Troika: recordações amargas

 

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As guerras culturais são um alimento da direita radical

 


«A primeira medida do Governo Montenegro foi mudar o símbolo da República que tinha sido feito por Eduardo Aires para o Governo Costa, por um anterior da “República Portuguesa” com as peças todas, a esfera armilar, os castelos, as quinas, etc.. A claque comunicacional mais inteligente do Governo veio com todo o seu afã dizer que nada disto “era importante” e que se estava a discutir “irrelevâncias” em vez das “coisas importantes”. Ou seja, queriam matar o assunto, o mais depressa possível, para começarem a fazer loas ao Governo.

Mas a decisão é mais importante do que possa parecer, para que seja conveniente minimizar. Ao escolher fazer isto em primeiro lugar, o Governo quis dar um sinal, um sinal de ruptura, um sinal ao Chega, um sinal sobre o local onde se quer colocar. E sinais e símbolos são muito mais eficazes e empáticos do que medidas governamentais, para dizer ao que se vem ou para onde se vai.

Esse sinal é um elemento de algo que a direita radical tem usado com eficácia contra o centro e a esquerda, uma “guerra cultural”. A direita portuguesa que vive muito da ignorância, e não tem espessura intelectual e cultural, aliás como muita da esquerda, precisa destes sinais para forjar uma identidade de combate, que tem um efeito de radicalização, arregimentação e distracção. Estas três palavras – radicalização, arregimentação e distracção – vão ser a chave de muita coisa. A autodesignação de “governo de combate” tem muito a ver com este programa de acção.

O peso da ignorância é muito grande nesta discussão, em que é interessante ver monárquicos (há na AD, não?), reaccionários, nacionalistas, saudosistas da fé e do império terçarem armas pela bandeira jacobina que desde a República é a portuguesa. Eu vivo bem com a nossa bandeira (e o hino também), não participo e sou crítico de qualquer revisão do passado “fracturante”, sei bem o que significa tudo o que está na bandeira, mas … se, num acto governamental como este, se faz vir ao de cima o que lá está para ir para a “guerra”, então vamos para a guerra. Não há para mim nenhum problema em aceitar a nossa bandeira verde-rubra com a tralha histórica no centro (e escolhi a palavra “tralha” para a guerra…), nem a interpretação legítima do Eduardo Aires que mantém a identidade nacional, reduzindo essa parte da bandeira a uma cor. Mas, quando se pretende colocar uma contra a outra, eu tenho de falar da tralha central. E não me esqueço da hipocrisia dos patriotas do futebol, única altura em que os portugueses andam de bandeirinha ao pescoço, mesmo que tenha pagodes em vez dos castelos.

Eu não me excito com o combate da nossa esquerda “fracturante”, que acho muitas vezes espelhar com o da direita radical, que quer eliminar fatias importantes da história portuguesa à luz das “guerras culturais” actuais. Sim, a nossa bandeira remete para a história dos “descobrimentos”, que foi uma aventura comercial, imperial e depois colonial e racista, e até antes disso para a chamada “reconquista”, que foi uma guerra de poder e território contra o islão combatente dos primeiros séculos da Hégira.

Está lá tudo na bandeira, porque a bandeira é um condensado histórico, mas uma coisa é lá estar, outra coisa é querer moldar o presente a uma visão épica da história nacional, que incorpore na nossa identidade nacional o império e a colonização, logo o olhar para os estrangeiros como os “outros”, e logo uma história impoluta feita de “descobrimentos” assépticos, motivados apenas pela curiosidade e pelo interesse científico, a “dar novos mundos ao mundo” sem mortos, violências e opressão racista. Aí os nossos novos nacionalistas da bandeirinha deviam ler mais Fernão Mendes Pinto e a História Trágico-Marítima, mas as modernices curriculares deixaram isso para trás.

O Chega, que sabe muito bem aquilo em que o Governo se meteu, quer mais, e o mais é o corolário natural do sinal primeiro do Governo: quer que nas escolas se ensine a vulgata do nacionalismo na versão Estado Novo e, valha a verdade, da I República. Como nos EUA, os “trumpistas” querem apagar a escravatura, interpretar a guerra civil como uma luta pelos “direitos dos estados”, e querer, em nome da luta contra o “wokismo”, considerar que são os brancos a identidade da América e retomar a bandeira da Confederação.

Eu considero-me um patriota, à luz de um dos grandes momentos do patriotismo nacional que é a fala que Camões coloca na voz forte do Velho do Restelo, e sinto-me “português” na minha língua, nos meus poemas e romances na grande tradição cultural portuguesa, nas paisagens da minha terra, e nos bons e maus momentos da minha história. Eu sei que nem tudo é bom e exemplar, mas foi o que foi no tempo que foi. De todo, o que não preciso é de colar o meu patriotismo à esfera armilar, nem às quinas, nem aos castelos, nem aos pagodes e bater no peito a gritar Portugal.»

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5.4.24

Regressam os vasos

 


Vaso "Écailles" azul turquesa, de vidro opalescente, 1932.
René Lalique.


Daqui.
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05.04.1976 - Repressão policial na Praça Tiananmen

 


Bem antes de 1989, em 5 de Abril de 1976, a célebre praça de Pequim foi palco de uma forte repressão policial, para impedir comemorações em honra de Zhou Enlai que morrera poucos meses antes.

Em Cisnes Selvagens, Jung Chang refere assim os incidentes:

«A 8 de Janeiro de 1976, faleceu o primeiro-ministro Zhou Enlai. Para mim e para muitos outros chineses, Zhou representara um governo relativamente liberal e são de espírito que se esforçava por fazer o país funcionar. Nos anos negros da revolução Cultural, Zhou tinha sido a nossa única e débil esperança. (…)
[Na Primavera] Em Beijing, centenas de milhares de cidadãos reuniram-se na Praça de Tiananmen durante dias seguidos, para honrar Zhou com coroas de flores especialmente preparadas, leitura de versos apaixonados e discursos. Através de simbolismos e numa linguagem que, apesar de codificada, toda a gente compreendia, deram largas ao seu ódio contra o Bando dos Quatro, e até contra Mao. Os protestos foram esmagados na noite de 5 de Abril, quando a polícia atacou a multidão, prendendo centenas de pessoas. Mao e o Bando dos quatro chamaram a este movimento “um levantamento contra-revolucionário do tipo húngaro”».

13 anos mais tarde, foi o que se sabe.

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Nova Ministra da Saúde?

 



«Ana Paula Martins, nova ministra da Saúde, foi responsável pelo encerramento, até hoje, da obstetrícia do Santa Maria, caso que levou a um conflito com os médicos e favoreceu o privado, como Catarina Martins aqui desmascara. Uma agenda escondida com o rabo de fora.
O Bloco não desiste do SNS, sabemos o que a ministra fez no verão passado.»
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É uma caverna portuguesa com certeza

 

João Fazenda

«Tal como muitos velhos da sua geração, a minha avó tinha uma solução para todos os problemas do mundo, que consistia em obrigar os vagabundos a pegar numa enxada. “Vagabundos” era a designação de todos os habitantes do planeta, com a excepção de mim e dela. Às vezes, só dela. Outras pessoas costumam fazer uma proposta ligeiramente diferente: isto só vai lá se os vagabundos pegarem numa G3. A ideia não é formulada nestes termos, claro. O que se diz é que o serviço militar obrigatório tem propriedades medicinais, uma vez que incute nos mancebos um sentido cívico superior ao que teriam se não passassem pela experiência edificante de viver alguns meses numa caserna. De acordo com esta perspectiva, o serviço militar obrigatório não serve para suprir uma necessidade do Estado, é um modo de completar a formação dos jovens. Trata-se de um benefício para o cidadão, que se transforma naquilo que se costuma designar por “um homenzinho”. As próprias forças armadas são entendidas como uma espécie de escuteiros profissionais, cujo objectivo é proporcionar aos recrutas uma temporada agradável, de alegre camaradagem e são convívio.

Os úteis ensinamentos transmitidos vão desde o “respeito pelo Outro”, sobretudo quando o Outro ocupa um lugar superior na hierarquia militar, até “saber fazer a cama”, actividade para a qual parece haver uma falta de talento grave entre as novas gerações. Como sempre, as opiniões dividem-se: umas pessoas são a favor do serviço militar obrigatório, outras são contra. A minha posição, como creio que também vem sendo hábito, é de invulgar sensatez: sou contra e a favor. Sou contra o facto de o Estado obrigar os jovens a prestar apenas serviço militar obrigatório; sou a favor de que os obrigue a prestar vários serviços obrigatórios. Não creio que haja razão para que limitemos o serviço obrigatório a actividades tuteladas pelo Ministério da Defesa. Reconheço que Portugal lida com um problema de escassez de militares, mas não é menos verdade que nos outros ministérios também existem áreas em que o país tem falta de efectivos. Sou a favor de um serviço educativo obrigatório, em que os jovens são destacados para trabalhar nas escolas (uma tarefa muitas vezes mais violenta e perigosa do que a recruta no exército). Sou a favor do serviço médico obrigatório, para colmatar a falta de profissionais de saúde. Sou sobretudo a favor de um serviço obrigatório nas áreas em que todos os dias ouço mais queixas acerca da escassez de bons profissionais: a canalização, a instalação eléctrica, a realização de pequenos consertos. E sou, evidentemente, a favor do serviço agrícola obrigatório, para que os jovens cidadãos tenham oportunidade de, cumprindo finalmente o sonho da minha avó, pegar numa enxada.»

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Logotipos? Este

 

4.4.24

Samarcanda – inesgotável

 


Mosaicos vitrificados azuis e caligrafia qu'ranica na cúpula da Mesquita Bibi-Khanym, Samarcanda, Uzbequistão.

Daqui.
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Um pouco mais de azul (6)

 



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04.04.1914 – Marguerite Duras

 


Marguerite Duras nasceu há 108 anos em Saigão, actual Ho Chi Minh. Foi uma das grandes escritoras do século XX francês, também realizadora e guionista de filmes, para além de resistente durante a Segunda Guerra Mundial como membro do Partido Comunista Francês.

É vasta a sua obra no domínio da literatura, de início identificada com a corrente do nouveau roman, mas destaco dois livros que nunca esquecerei: L'Amant (1984) e antes, bem antes, Moderato Cantabile de 1958.

Esta última obra viria a ser adaptada para cinema por Peter Brook, em 1960, e quem o viu terá certamente retido as interpretações de Jeanne Moreau e de Jean-Paul Belmondo. Inesquecível também, o guião que Marguerite Duras escreveu para que Alain Resnais realizasse Hiroshima mon amour. E quando há meia dúzia de anos fui ao Japão, e me passeei pelo local que foi vítima de uma das maiores tragédias da humanidade, não me saía da cabeça: «Tu n'as rien vu à Hiroshima!»




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