8.6.24

Continuemos no azul

 


Vaso «Lebres» em vidro azul eléctrico com patine branca. 1923.
René Lalique.


Daqui.

Sónia Braga

 


Não consigo deixar de estranhar, nem entranhar, que a eterna Gabriela chegue hoje aos 74.


Estão a reflectir?

 


Paula Rego

 


Dois anos sem ela.

Dia de cão

 


«Por sair ao Domingo, este espaço está sujeito à maldição dos períodos de reflexão eleitoral. Ainda há pouco mais de um ano, tal sucedeu com as presidenciais e eu derramei por aqui meia dose de queixumes e outro tanto mau feitio. E embora a autocitação costume ser vista como uma variante benigna de onanismo, seja-me consentido algum recurso a ela.

A reflexão imposta por lei é o produto directo e linear de uma transição democrática. Ao cabo de quase meio século de cidadania mutilada, o seu pleno exercício, pelos cidadãos em tirocínio que nós éramos, parecia aconselhar medidas dessas. Mas, trinta e tal anos e dezenas de votações depois, a sua subsistência é a manifestação de um puro paternalismo de Estado. "O Estado legislador já não protege o cidadão. Protege, sim, o estado administrador contra algumas maçadas técnicas." Cada um devia "ser dono e senhor do período de reflexão de que carece (se é que carece de algum)", porque o dispositivo, "concebido para defesa do repouso intelectual dos eleitores, só parece já salvaguardar o repouso físico dos candidatos".

Ora, porque assim não é, o dia de reflexão torna-se estranho, enevoado e penoso de viver. Há uma bruma anómala à nossa volta e parece que nos movemos numa second life onde cada olhar é um espanto e cada passo uma aventura. De manhã, no café, primam pela ausência os amigos e vizinhos mais político-dependentes. E os demais avatares que pontuam a esplanada são seres desconhecidos, translúcidos e dotados de sorrisos lentos e mãos que mexem como num espaço sem gravidade. É assim nas Amoreiras velhas, uma amável aldeia urbana, logo pela manhã. Mas é assim também em Campo de Ourique, cidade na cidade, bairro onde nasci e ao qual muito me liga ainda. (Por vezes, nem sei ao certo em qual moro. Em qualquer deles vem-me à mente uma frase provocatória do Lee Marvin/Liberty Valance, no clássico de John Ford: "Home is where I hang my hat", que eu peço licença para traduzir por "Eu moro onde penduro o meu chapéu").

É nesse ambiente equívoco, feito de trocas de olhares entre gente vagamente conhecida, que se gera uma forma bizarra de cerimónia cívica, por força da qual ninguém diz nada que remotamente evoque as eleições iminentes. Como se a opinião de um pudesse lesar, ou contagiar, o outro. Ou o juízo deste, que na véspera teria sido de seu inteiro direito, fosse hoje um abuso ou uma agressão. A meio do dia, já quase preferimos não conhecer ninguém. É certo que, quando eu nasci, também não conhecia cá ninguém. Mas, demasiadas décadas depois, um exercício de quase regresso ao útero materno violenta uma vida inteira de direitos adquiridos. É maçador, embaraçoso - enfim, em sentido próprio, um atraso de vida.

Ignoro que remédio lhe dão os mais destemidos. Por mim, recolho às vantagens práticas de uma resposta tímida e timorata à situação: recolho a casa. Onde não terei serenidade psicológica para ler, nem vertigem activista para escrever. Olharei bovinamente para a televisão, na esperança (sempre) vã de ver passar, por entre as pálpebras a meia haste, o relance de um candidato, a sombra de um eleitor ou, ao menos, o olhar cúmplice de um "pivot" de telejornal a transmitir-me qualquer coisa que se assemelhe, já não a solidariedade, mas pelo menos a um pouco de compreensão. Em vez disso, porém, serei bombardeado com desastres de viação, fogos frustrados, crimes passionais e patetices ditas "sociais" de "celebridades" que o não são. Com sorte, terei talvez o comendador Berardo a explicar mais uma iniciativa altruísta. Ou até um dirigente da oposição a dizer que exige ao poder o que não pode dar e um governante a dar-me aquilo que já é meu. Depois, terei minuciosas e por vezes ininteligíveis notícias sobre acontecimentos políticos, mas da Europa e do Mundo, onde a maldição não chega. E, logo que se tenha dado despacho a quase vinte minutos de electrodomésticos, automóveis, detergentes, telemóveis e supermercados, servir-me-ão os eventos do mundo admirável da época das transferências no futebol nacional.

Está escrito, vai ser assim. E, pelos vistos, até que a morte nos separe.»

Nuno Brederode Santos
Diário de Notícias, 15.07.2007

7.6.24

Jarras

 


Jarra para flores, de vidro opala transparente com suporte de metal. Birmingham, 1903-1910.
Vidreiro: John Walsh.

Daqui.

Ursula von der Leyen: um discurso terrível

 




𝐐𝐮𝐞 𝐝𝐢𝐬𝐜𝐮𝐫𝐬𝐨 𝐭𝐞𝐫𝐫í𝐯𝐞𝐥, 𝐨𝐧𝐭𝐞𝐦 𝐧𝐨 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐨, 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐮𝐦𝐚 𝐦𝐚𝐧𝐢𝐟𝐞𝐬𝐭𝐚çã𝐨 𝐝𝐞 𝐚𝐩𝐨𝐢𝐨 à 𝐏𝐚𝐥𝐞𝐬𝐭𝐢𝐧𝐚 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐫𝐨𝐦𝐩𝐞𝐮 𝐨 𝐬𝐞𝐮 𝐝𝐢𝐬𝐜𝐮𝐫𝐬𝐨 𝐧𝐮𝐦 𝐜𝐨𝐦í𝐜𝐢𝐨 𝐝𝐚 𝐀𝐃. 𝐍ã𝐨 𝐚𝐜𝐡𝐨𝐮 𝐦𝐞𝐥𝐡𝐨𝐫 𝐚𝐫𝐠𝐮𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐝𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐜𝐨𝐦𝐩𝐚𝐫𝐚𝐫 𝐚 𝐑ú𝐬𝐬𝐢𝐚 𝐚 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥 𝐞𝐦 𝐭𝐞𝐫𝐦𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐥𝐢𝐛𝐞𝐫𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐝𝐞 𝐦𝐚𝐧𝐢𝐟𝐞𝐬𝐭𝐚çã𝐨!

Chega: cenas de uma campanha

 


O Ministério Público nunca desperdiça uma campanha eleitoral

 


«A dois dias do fecho da campanha para as europeias surge a notícia de que foram realizadas buscas pela Polícia Judiciária (PJ) em torno do “caso das gémeas”. O trabalho esforçado da investigação criminal decidiu centrar-se no gabinete do ex-secretário de Estado do PS, Lacerda Sales, e no Hospital de Santa Maria.

Não desvalorizo o caso, nem a investigação, mas pergunto-me sobre a estranha agenda de atuação do Ministério Público. É que nos dias que correm sabemos que há três coisas que são garantidas quando temos eleições em Portugal: discursos enfadonhos (check); uma ameaça ao Chega, que lhe permite o discurso de vitimização (check); e buscas do Ministério Público (MP) em torno de processos e figuras ligadas ao PS (check).

Quanto às buscas, já nem consigo fingir qualquer surpresa. A história dos últimos anos do MP deixa cada vez menos espaço para interpretações ou ambiguidade. Em linguagem de investigação diria que os indícios se acumulam.

Sabemos que há anos que o MP arrasta uma investigação sobre a Câmara Municipal de Lisboa, onde achou por bem envolver figuras do PS, porque eram referidas em conversas de dirigentes do PSD. O resultado prático de quase 7 anos de investigação da “operação Tutti-frutti” sobre os dirigentes do PS são, contudo, escassos. De tempos a tempos, o MP coloca algumas notícias nos jornais que nada esclarecem. E a investigação tende a avançar ritmada pelo calendário eleitoral, porque é quase sempre em véspera de eleições que se realizam mais algumas buscas.

Mais recentemente, o MP brindou-nos com a “operação Influencer”, que foi colapsando por indecente e má figura aos olhos de todo o país. Mas que fez cair um primeiro-ministro, levou à demissão do governo e conduziu a eleições que deram uma vitória à direita.

Agora, nas vésperas de europeias, a Polícia Judiciária volta a realizar buscas em torno do PS. Curiosamente, nada é dito sobre eventuais investigações em torno da Presidência da República, onde o “caso”, como todos sabemos, teve a sua origem.

Dir-se-á que esta atenção especial do MP devota ao PS se deve ao facto de os socialistas terem governado por longo tempo e de as suspeitas e indícios terem de ser investigados. Acresce o óbvio: o caso Sócrates e a recente condenação de Manuel Pinho mostram à saciedade a permeabilidade de governantes socialistas à captura do Estado por interesses privados.

Não tenho qualquer discordância. Pelo contrário: as minhas expectativas são até mais ambiciosas em relação ao MP. O que me parece estranho é que outras responsabilidades governativas e outros indícios não mereçam a mesma atenção da PJ e do MP.

Estou entre aqueles que ainda aguarda serenamente que as investigações sobre a privatização da TAP em 2015, em que se suspeita que a compra pelo investidor privado tenha sido feita com o dinheiro da própria TAP, chegue a alguma conclusão. Sou daquelas que gostaria também de saber como é que a privatização da Groundforce, paga supostamente pelo privado com a própria receita operacional da empresa, foi negociada. Gostaria de ser esclarecida como é que a concessão dos aeroportos à Vinci foi tão negligentemente negociada, com custos brutais para o Estado Português como o Tribunal de Contas recentemente demonstrou. Valia igualmente a pena que soubesse mais sobre o famoso contrato secreto de venda do BES a um “fundo abutre” e da negociação que Sérgio Silva Monteiro, ex-secretário de Estado do governo de Passos Coelho, conduziu já sob a tutela de Centeno e António Costa e que tanto custou aos cofres públicos. Sou paciente, mas noto o silêncio ruidoso do MP em negócios que venderam por tuta e meia empresas que são agora “galinhas dos ovos de ouro” para os privados, prejudicando o Estado e os contribuintes portugueses em milhares de milhões de euros. Por outro lado, gostava ainda de saber se já temos algumas conclusões ou avanços na investigação sobre o financiamento do Chega, que na última campanha eleitoral não conseguia explicar as verbas avultadas que lhe têm chegado aos bolsos. Gostava de saber também se André Ventura não incorreu num conflito de interesses ao estar numa comissão parlamentar de inquérito em que um dos seus financiadores partidários tinha um interesse direto. Não me assusto com investigações, quero mesmo mais investigação. Só me inquieto com a sua aparente seletividade.

A sensação de instrumentalização política da investigação criminal já não pode ser ignorada e os riscos que esta dúvida implica para o regime democrático são brutais. O MP está em risco de ser visto como um ator político interveniente no combate político, com interesses ilegítimos que não a justiça e a legalidade, e com um alvo partidário a abater. O combate à corrupção perde a legitimidade e a confiança, que são condições centrais na investigação criminal. O Ministério Público é hoje um grave problema do regime democrático.»


Catarina Martins – O outro lado

 



6.6.24

Perfumes

 


Frasco de perfume de cristal gravado com ácido azul. Cerca de 1900.
Val Saint Lambert.

Daqui.

06.06.1968 – Maurice Béjart expulso de Portugal

 


Há 56 anos, dois dias depois do assassinato de Robert Kennedy, Maurice Béjart deu um concerto no Coliseu de Lisboa. No final do espectáculo, veio ao palco para afirmar que Robert Kennedy fora “vítima de violência e de fascismo” e para pedir um minuto de silêncio “contra todas as formas de violência e de ditadura”.

Com a maior parte dos espectadores de pé, renovaram-se os aplausos, com mais força e mais entusiasmo: lutávamos, mas tínhamos quem nos ajudasse na nossa luta. Informado do sucedido, Salazar proibiu os espectáculos seguintes e ordenou que Béjart saísse imediatamente de Portugal.

Para ler um resumo detalhado dos acontecimentos, num excerto de um livro que publiquei em 2007, clicar AQUI.