10.8.24

Bichos há muitos (6

 


Reserva Nacional de Flamingos e Lagoas Altiplânicas (Miscanti e Miñiques), S. Pedro de Atacama, Chile, 2010.

A Reserva tem uma área total de 740 km quadrados e sete seções separadas. Uma dessas secções inclui as Lagoas Altiplânicas Miscanti e Miñiques, situadas a mais de 4.000 metros de altura, e abriga uma grande variedade de pássaros, incluindo o flamingo andino e o flamingo chileno.

É muito difícil, praticamente impossível, dar uma ideia da beleza de tudo isto, das cores, da limpidez do ar, da força do silêncio.

10.08.1912 - Jorge Amado

 


Faria hoje 112 e continuam, com toda a justiça, referências à sua vida, a muitos dos livros, às suas estadias em Portugal.

Outros lembrarão o essencial da sua obra, eu recordo o «acessório»: o que foi, entre nós, o retumbante sucesso de Gabriela, cravo e canela, a primeira de todas as telenovelas emitidas pela RTP, entre Maio e Novembro de 1977, com base na obra de JA com o mesmo nome. Companhia da hora do jantar, cinco dias por semana, em casa ou em cafés (eram muitas as famílias que ainda não tinham aparelhos próprios), era assunto generalizado de conversa, trouxe para a língua portuguesa termos e expressões brasileiras e transformou Sónia Braga num ídolo. 

A «Gabrielomania» fez parar literalmente o país: a Assembleia da República interrompeu os trabalhos pelo menos quanto foi emitido o último episódio (era vital saber se Gabriela ficava ou não com Nacib...).  

No dia seguinte à última emissão, o Diário de Lisboa discutiu o corte de trinta episódios, de que a telenovela terá sido objecto em Portugal.

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Elon, o grande Musketeiro

 


«Quem tem mais poder para desencadear uma guerra civil? O chefe de um Estado que, apesar de tudo, está sujeito às normas do direito internacional, ou o líder de uma rede social de grande expansão, como o X de Elon Musk, que basicamente não tem de prestar contas a ninguém? O sobressalto não é de resposta fácil, embora o responsável governamental do Reino Unido pela ligação às empresas de média e às gigantes tecnológicas, Peter Kyle, sugira que o verdadeiro poder de mudança possa ser mais efetivo no segundo caso.

Musk é, hoje, muito mais do que um bilionário. É um dos homens mais poderosos do planeta. E, não sendo um político, tem uma capacidade quase infinita de contaminar o pensamento de terceiros e o curso dos acontecimentos. Fê-lo no conflito Rússia-Ucrânia, como guru tecnológico, está a fazê-lo nas eleições norte-americanas, como financiador encapotado de Trump, e está de novo a fazê-lo como instigador das causas da direita radical, ao incendiar o debate em torno dos tumultos no Reino Unido, contribuindo para alimentar a tese de que a responsabilidade pela morte de três crianças, uma delas portuguesa, à facada, foi de um imigrante muçulmano, algo que já foi desmentido. Entre outras coisas, o também patrão da Tesla atirou-se ao Governo britânico (“a guerra civil é inevitável”, escreveu na rede social X) e partilhou uma notícia falsa onde se escrevia que o primeiro-ministro Keir Starmer estava a pensar enviar os agitadores para campos de detenção nas Falklands. Musk retirou a partilha do artigo falso meia hora depois, mas o “post” terá sido lido dois milhões de vezes.

O mosqueteiro da liberdade de expressão tornou-se num influenciador de largo espectro. Tolerado pela sua excentricidade, tem dobrado as regras do bom senso, aproveitando a bonomia das leis reguladoras e a ignorância de um exército que dispara atrás de um teclado. Até ver, tem ganho as primeiras batalhas da guerra.»


Não avia necessidade...

 



9.8.24

Bichos há muitos (5)

 


Burros, Perto de Gondar, Etiópia, 2013.

São mesmo um ícone do país, tão grande é a sua quantidade, tão importantes as funções que exercem como meio de transporte de mercadorias e de pessoas. Chegam mesmo a ser «ambulâncias», que levam doentes a quilómetros de distância.

Verdadeiros heróis num país onde se diz que «quem trabalha são as mulheres e os burros».

Mas quem é que falou em emergência?



Luís Vagas no Twitter.

Nagasaki para além da bomba

 



A acção da célebre ópera de Puccini, Madame Butterfly, passa-se em Nagasaki e relata uma relação trágica entre um oficial da marinha americano e Cio-Cio-San (butterlfy ou borboleta), uma gueixa de 15 anos.

Entre 1915 e 1920, o papel de Cio-Cio San foi interpretado por uma célebre cantora japonesa, Tamaki Miura, e há uma estátua sua, e outra de Puccini, no magnífico Jardim Glover que se situa numa colina sobre Nagasaki e ao qual se acede pelo maior e mais íngreme complexo de escadas rolantes, que alguma vez me foi dado ver e utilizar.

Aí se visita também a residência de Thomas Blake Glover, um empresário escocês que muito contribuiu para a modernização industrial do Japão - uma lindíssima casa de estilo ocidental, a mais antiga que resta naquele país.



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09.08.1945 - Nagasaki, 11:02 a.m.

 

(Museu da Bomba Atómica, Nagasaki)

Já tinha estado em Nagasaki, mas sem visitar o Museu da Bomba Atómica. Fi-lo há seis anos e este é o relógio parado na hora em que se deu a tragédia. 

Três dias depois de Hiroshima, os EUA lançaram, em Nagasaki, uma bomba que matou 80.000 pessoas. Em 15 de Agosto de 1945, o Japão rendeu-se – no chamado Dia V-J que esteve na origem ao fim da Segunda Guerra Mundial.




Hoje, Parque da Paz de Nagasaki:





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Tresanda a fim de regime

 


«Do bárbaro esfaquea¬mento de três crianças em Southport nasceu uma onda de boatos, a que hoje chamamos fake news por se assemelharem cada vez mais a verdades, tal a sofisticação industrial com que são produzidas. O alvo foram os muçulmanos, novos judeus da Europa, que podem ser insultados e coletivamente culpados sem o risco do degredo intelectual para onde justamente lançamos os antissemitas. Por imposição da lei, a identidade do agressor, menor de idade, foi protegida. Isso chegou para que se espalhasse que se tratava de um imigrante indocumentado requerente de asilo que constaria de uma lista de observação de terroristas islâmicos, mentira que atingiu rapidamente dezenas de milhões de reações nas redes. Para a campanha orquestrada de desinformação contribuíram figuras como Tommy Robinson, fundador da English Defence League, Andrew Tate, um influencer extremista, e Nigel Farage.

Da mentira viral nada espontânea nasceram manifestações violentas manipuladas pela extrema-direita, com ataques a mesquitas e fogo posto num hotel que abrigaria refugiados. Para travar a onda de desinformação, a identidade do criminoso de 17 anos foi divulgada. Filho de ruandeses, nasceu em Cardiff e não é muçulmano. No fim, a resposta do Governo trabalhista à violência foi propor a generalização do reconhecimento facial, fazendo avançar um pouco mais a política securitária tão ao gosto da extrema-direita, que tem uma vitória política, fruto da desordem que ela própria provocou. Brilhante!

Quem pense que há espontaneidade nestas ondas de desinformação deve prestar atenção ao bullying sobre Imane Khelif, uma pugilista que nasceu mulher — com útero e vagina — e sempre se identificou como tal. Tem apenas uma produção anormal de testosterona, no que não se distinguirá da baixa produção de ácido láctico de Michael Phelps ou da altura incomum de Manute Bol. A prova contra Khelif é o facto de ter sido desqualificada pela Associação Internacional de Boxe, que não é reconhecida pelo COI e é acusada de irregularidades desde que é liderada pelo russo Umar Kremlev — o regime de Putin empenhou-se nesta campanha. A provocadora mensagem da abertura dos Jogos Olímpicos não terá sido estranha a esta contraofensiva.

O poder da mentira não resulta apenas da “polarização das nossas sociedades”. Tem nomes e responsáveis que continuam a acumular poder. Enquanto a Europa e os EUA resistem militarmente a Putin, entregam as suas democracias a sinistros sociopatas como Elon Musk. Enquanto este deixa que o antigo Twitter sirva para a propagação do ódio, como aconteceu neste caso, anuncia que a “guerra civil é inevitável” no Reino Unido. Um presságio que é um desejo, porque a expansão do seu poder depende de democracias cada vez mais frágeis. Ainda assim, as culpas não se ficam pelas redes sociais. No Reino Unido, jornais como o “Daily Mail” trabalham há anos para a islamofobia e o racismo. O medo é um bom negócio.

As ondas de fake news não são desordenadas e caóticas. Não resultam da “polarização”, sendo a culpa de todos e de ninguém. Resultam de uma ofensiva organizada pela extrema-direita contra as democracias. Sim, há mentiras de todas as cores. A novidade são os poderosos instrumentos e a enorme quantidade de dinheiro ao serviço das mentiras de uma dessas cores. Não é por acaso que Trump escolheu um homem com fortes ligações a Silicon Valley para seu vice. Não é por acaso que Musk, que considera Kamala “literalmente uma comunista”, garantirá um forte apoio à campanha trumpista. O novo capital tem uma velha ideologia.

Com medo da acusação de censura, os governos não impõem às redes sociais as regras de responsabilização empresarial que se aplicam a todos os outros meios. Paralisada por dentro pelos seus inimigos, a democracia é mansa perante quem a ataca. Tivemos um bom exemplo doméstico há uma semana. Rui Fonseca e Castro, candidato de extrema-direita às eleições europeias, avisou que ia impedir o lançamento de um livro infantil sobre identidade de género, em Idanha-a-Nova. Assim o fez, na companhia de “gorilas” que entraram na sala a gritar “acabou!”, como se fossem a verdadeira autoridade e deixando claro para quem lhes queira seguir o exemplo que milícias políticas podem impor a lei. Ninguém foi apanhado de surpresa. O ex-juiz já o tinha feito no Porto e anunciou nas redes sociais quando e onde o voltaria a fazer. A GNR estava à espera, mas não o deteve. Preferiu tirar a autora da sala. Não só não travou o crime como, na prática, garantiu a sua eficácia. Como no Reino Unido, premiou-se o infrator. Porque a democracia sente-se fraca e teme os seus inimigos. Tresanda a fim de regime.»


8.8.24

Bichos há muitos (4)

 


O célebre Lonesome George (George Solitário). Ilha de Santa Cruz, Galápagos, Equador, 2004.

A tartaruga-das-galápagos-de-Pinta foi uma subespécie de tartaruga terrestre da ilha de Pinta, nas Galápagos. O último indivíduo conhecido foi um macho que morreu em 2012 (ainda o vi em 2004), na Ilha de Santa Cruz, sem deixar descendência. Teria entre 93 e 109 anos.

Foi considerado a criatura mais rara do mundo e tido como um símbolo dos esforços de conservação do ambiente, nas Galápagos e no mundo.

08.08.1937 – Dustin Hoffman



Faz hoje 87. Parece impossível, mas o calendário não perdoa.

Protagonizou dezenas de filmes, mas eu fixei sobretudo os da sua primeira fase. E se The Graduate (1967) não foi o seu primeiro filme, foi certamente aquele em que alcançou fama e que o lançou no mundo do cinema. Com ele, e com Rain Man, ganhou dois Óscares.

Mas não consigo separá-lo de um outro – Kramer vs. Kramer – que vi e revi algumas vezes.




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SNS: assim vamos

 


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