2.11.24

Que belas casas!

 


Uma série de casas espelhadas, Arte Nova, todas com quatro andares. Antuérpia, Bélgica, 1913.
Arquitecto: Jacques De Weerdt (provável).

Daqui.

2 de Novembro no cinema: Visconti e Pasolini

 


Luchino Visconti poderia chegar hoje a uns mais que improváveis 118 anos, mas, infelizmente, morreu antes de completar 70. Foi sempre um dos meus realizadores de eleição e seria grande a tentação de recordar aqui muitos dos seus filmes. Limito-me a três, mais do que trivialmente óbvios.

Rocco e os seus irmãos (1960):





O Leoprado (1963)




Morte em Veneza (1971):




E foi também num 2 de Novembro, de 1975, que morreu Pier Paolo Pasolini. Com uma vida atribulada e mais do que polémica, e uma morte trágica, deixou-nos alguns belíssimos filmes, entre os quais «O Evangelho segundo S. Mateus», de 1964, certamente aquele que mais me marcou e de que me recordo melhor.

A surpresa generalizada com que este foi recebido quando apareceu, de um Pasolini marxista, ateu e anticlerical (até condenado anteriormente por blasfémia), mereceu-lhe o seguinte comentário: «Se sabem que sou um descrente, conhecem-me melhor do que eu próprio. Posso ser um descrente, mas sou-o com a nostalgia de não ter uma crença». O filme foi «dedicado à querida, alegre e familiar memória do papa João XXIII» que morreu antes de poder vê-lo.

Um belo Cristo, mais revolucionário do que pastor, que provocou a ira de alguns críticos e o entusiasmo de muitos outros.


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02.11.1919 – Jorge de Sena

 


Trump e a doença americana

 


«Os EUA são um grande país, mas estão doentes por dentro. Bastante doentes. Trump acaba de dizer que a “estúpida” e “pouco inteligente” (o insulto preparatório para coisas mais graves que ele hoje diz) Liz Cheney é uma belicista que devia experimentar ter várias armas a disparar contra a cara dela. O Politico, um site noticioso, interpretou essas armas a disparar como sendo um pelotão de fuzilamento, o que é talvez institucionalizar aquilo que é na frase de Trump um fuzilamento “informal”, chamemos-lhe assim, um assassínio.

Vai acontecer alguma coisa? Duvido, ele diz coisas destas todos os dias, e não perde, que se saiba, metade dos americanos como eleitores, nem que a máquina de minimização da importância do que ele diz funcione em pleno, até em Portugal, nas mais altas esferas do poder. Na direcção do PSD, no CDS e no Chega, há quem esteja “hesitante” se devia votar em Trump. O que significa que, se votassem, votariam.

É a doença dos EUA – sim, porque votar em Trump significa ser cego, surdo e mudo, cruel e violento, e não me venham com o aumento dos custos da mercearia, porque o voto em Trump transporta muitas outras coisas, e quem vota sabe.

Tudo isto é um bom exemplo de várias coisas que são muitas vezes polémicas no trabalho da história, no seu duplo sentido, no modo como funciona aquilo a que chamamos história; e nos debates dos historiadores sobre esse movimento dos acontecimentos a que chamamos história. As polémicas, já com séculos, sobre o modo como funciona a causa-efeito na história, sobre o papel dos ciclos económicos, sobre se os indivíduos — seja Napoleão, Hitler ou Trump, sejam as personagens carismáticas em geral (no sentido genuíno da muito abastardada classificação de carisma) — têm no movimento da história, ou se ela deve ser interpretada essencialmente por aquilo a que os marxistas chamam “infra-estrutura”. De Taine a Marx, isto sempre se discutiu.

Trump parece ser um exemplo de como os indivíduos moldam a história introduzindo um factor subjectivo na sua interpretação, e reforçando o papel do acaso na evolução da história. Não são “forças impessoais”, sejam as da teoria marxista da história, sejam outras interpretações hegelianas da existência de uma seta direccional, que define cada momento como uma etapa face a um fim último, que seria a “sociedade sem classes” ou, em autores cristãos como Teilhard de Chardin, o “ponto ómega”, ou seja, o fim do mundo e o julgamento final. A história terminaria aí, mas o sentido teleológico interpreta cada momento como um passo à frente ou atrás em direcção a esse fim. Quando Trotsky foi colocado no “caixote do lixo da história”, essa noção de que haveria um “lixo” tinha que ver com a distinção que todas as teorias com origem em Hegel implicam: há os que estão no curso do sentido da história e os que já perderam esse caminho para o futuro.

Em história, não acredito em qualquer sentido, muito menos “progressista” do seu curso. Considero que o factor do acaso é preponderante, e isso faz-me aceitar o papel das personalidades como “criadoras” da história. Sem elas, a história teria outra direcção, do mesmo modo como acontecimentos ocasionais que surgem de repente têm o mesmo efeito. A pandemia da covid-19 é um bom exemplo. Podemos saber, porque a história está cheia de pandemias, o que as causa e como funcionam socialmente, mas não sabemos quando aparecem e como a sociedade reage a elas.

O que torna Trump parecido com Augusto, Napoleão ou Hitler não é a comunidade de ideias, algumas sim, outras não, em tempos muito diferentes, mas a sua capacidade intuitiva de criar, de mudar os termos da sua evolução pela sua própria acção, de ser carismático.

As personagens carismáticas nunca foram boas para as democracias. Os gregos, que sabiam disso, exilavam à força, “ostracizavam”, os generais que ganhavam as batalhas e se tornavam famosos; logo, perigosos para a igualdade do povo que no Pnyx votava tudo, da guerra e da paz à justiça. As democracias actuais não “ostracizam” ninguém, mas também não deviam permitir que alguém que é um criminoso, que despreza as leis e a Constituição, que corrompe e é corrompido pela vaidade pelos inimigos da democracia como Putin tenha condições para se candidatar. Reparem que eu, como extremista da Primeira Emenda, não me refiro às suas declarações, mas aos seus actos.

A complacência com os crimes de Trump, o medo que ele inspira, os poderosos apoios interesseiros que fecham os olhos a tudo para ganhar dinheiro e poder manietaram a justiça americana e permitiram-lhe uma impunidade que ninguém deveria ter. Trump, que é contra a democracia, beneficiou das fragilidades da democracia, usando três coisas: a manipulação da política-espectáculo, hoje uma das maiores ameaças à democracia; o dinheiro para pagar uma litigância infinita e para corromper testemunhas e processos; e o medo da retaliação e vingança que ele promete como quem respira. Na minha interpretação da história, Trump é o mais importante, e o seu carisma “cria” os seus seguidores. Podemos interpretar mil e uma coisas sobre o que lhe dá apoiantes, mas, antes disso, está perceber porque aceitam tudo o que ele diz e faz, e isso está antes, modela os acontecimentos, cria o movimento MAGA.

Estou a escrever este artigo na Trumplândia, e não é preciso ir muito longe para ver o medo. Nas campanhas eleitorais anteriores, os jardins em frente às casas estavam cheios de cartazes apoiando um ou outro candidato. Agora, nada. Há medo de vandalismo, de todos os lados. Medo de americanos contra americanos.»


Alguma dúvida?

 


1.11.24

«Pão por Deus»

 


Em 1 de Novembro de 1756, exactamente um ano depois do terramoto que destruiu grande parte de Lisboa, a população, paupérrima, aproveitou a data para lançar, por toda a cidade, um grande peditório. Batia-se às portas e pedia-se: «Pão, por Deus».

Camilo Mortágua

 


«Com 90 anos, morreu agora Camilo Mortágua.

Camilo Mortágua, pai da atual líder do Bloco de Esquerda, foi um valente lutador contra a ditadura, participou no assalto ao navio mercante “Santa Maria”, no desvio do avião da TAP de Casablanca para Lisboa, no assalto ao Banco de Portugal, na Figueira da Foz, bem como em outras ações revolucionárias com as quais, como português e democrata, me sinto perfeitamente solidário e cuja execução lhe agradeço e louvo - e que isto fique aqui escrito, preto-no-branco, porque é preciso não ter medo de dizer as palavras justas.

Só uma ditadura que foi culpada por imensos mortos, por uma criminosa guerra colonial, por décadas de perseguições, torturas e prisões que arrasta no seu inapagável cadastro histórico, com a PIDE e a censura cobardemente a seu lado como mão executora, teve o desplante de qualificar como crimes comuns alguns atos justamente praticados, como hoje está mais do que provado, para enfraquecer o regime que iria cair de podre e de ridículo perante a História no dia 25 de Abril. E aproveito o ensejo para prestar também homenagem a essa outra figura de homem de bem que se chamou Hermínio da Palma Inácio, igualmente diabolizado pelos caluniadores anti-democratas.

Alguma direita portuguesa, que nunca conseguiu fazer o exorcismo do Estado Novo, vive ainda uma orfandade envergonhada desses tempos, disfarçada na proclamação da “honestidade” de Salazar, nas acusações comprovadamente falsas sobre um indevido uso das verbas do assalto na Figueira da Foz, numa miserável equiparação das ações da LUAR a delitos comuns - não tendo vergonha de recorrer precisamente à mesma linguagem que a PIDE utilizava. Aqui pelas redes sociais, como se irá ver nas caixas de comentários nos próximos dias, há ainda muito quem se sinta solidário com a narrativa da António Maria Cardoso. Gente que nunca entenderá que também foi graças a lutadores como Camilo Mortágua que hoje usufrui da liberdade que lhe permite escrever, com total liberdade e impunidade, aquilo que escreve. Como dizia o outro, "eles não sabem nem sonham".»

Francisco Seixas da Costa no Facebook.

Lisboa era assim até 01.11.1755

 


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O nacionalismo português é o pior, ou seja, o melhor

 


«O principal problema que se coloca aos nacionalistas portugueses é, provavelmente, o facto de o nacionalismo português ser de tão má qualidade. Noutros países, os nacionalistas são em maior número, têm mais influência, chegam a ganhar eleições. Em Portugal, no entanto, ninguém liga aos nacionalistas. A sua defesa dos portugueses não seduz os portugueses, o que é estranho. Em princípio, o amor a Portugal contaria com o amor de Portugal. Nos congressos internacionais de nacionalistas, imagino que os nacionalistas portugueses sejam populares. Os nacionalistas estrangeiros, que estão, como todos os nacionalistas, convencidos da sua superioridade, olham para os nacionalistas portugueses e confirmam-na. Mas, em território português, não deve ser fácil ser nacionalista. Os seus encontros de confraternização atraem menos gente do que um Varzim-Rio Ave — e com justiça, uma vez que o Dérbi do Mar costuma proporcionar bons espectáculos. O amor exacerbado a Portugal repele os portugueses. A culpa não é, evidentemente, de Portugal. É um país de qualidade muito razoável, com um clima convidativo, gastronomia excelente e uma língua belíssima. O problema é dos nacionalistas, que são fracos. Julgo que o natacionalismo, a crença de que a natação é superior aos outros desportos, consegue reunir mais adeptos do que o nacionalismo. Curiosamente, o facto de Portugal produzir nacionalistas pífios é um bom motivo de orgulho no país.

Nos últimos tempos, os nacionalistas portugueses têm andado entretidos a, em nome dos seus egrégios avós, interromper lançamentos de livros e cancelar colóquios. Não sei o que é que D. Nuno Álvares Pereira acharia destas actividades, mas não tenho a certeza de que ficasse propriamente orgulhoso. Vencer uma batalha contra um exército castelhano quatro vezes maior é uma coisa, fazer algazarra no lançamento da obra “O Pedro Gosta do Afonso” é outra. São proezas de dimensão ligeiramente diferente. Prova disso é o facto de, até agora, não serem ainda conhecidos planos para a edificação de um mosteiro comemorativo da interrupção do lançamento da obra “O Pedro Gosta do Afonso”. É muito evidente que os nacionalistas portugueses não querem trabalhar. Entre projectos de verdadeiro pendor nacionalista — como, por exemplo, reconquistar Olivença — e epopeias inconsequentes, como o cancelamento de obscuros colóquios, a escolha deles é clara. E é nessa altura, na verdade, que os nacionalistas portugueses prestam a maior homenagem ao país. Entre o heróico mas trabalhoso e o fácil mas inútil, eles escolhem sempre o fácil e inútil. Como qualquer bom português. Continuem a iluminar o caminho, rapazes.»