Vida Justa no Facebook
11.1.25
A democracia e a ignorância agressiva
«Numa viagem recente aos EUA, quando das eleições presidenciais, ainda me pude surpreender (pouco) com o facto de que gente ilustrada, com títulos académicos, cargos de responsabilidade em empresas, apoiante de Trump, não só aceitava como repetia as mais absurdas teorias conspirativas do próprio Trump, e dos seus propagandistas, como Robert F. Kennedy, muitos dos quais são hoje os indicados para o seu governo. Muitas destas teorias conspirativas tinham directa relação com as eleições e o conteúdo da campanha de Trump, como a história de que os imigrantes haitianos comiam os animais de companhia, ou que os democratas controlavam a meteorologia, mas as coisas iam muito mais longe, para as vacinas contra a poliomielite, e continuam na mais recente implicação de que o Hezbollah, através do FBI, tinha estado por trás do golpe de 6 de Janeiro. Uma das teorias mais absurdas associava o número de abortos num estado com as tempestades ou com outros flagelos naturais.
Como é possível? Não só é como se tornou um elemento essencial para se perceber o que se está a passar na crise da democracia. A segunda pergunta, é se isto é apenas americano ou se é também português? E a resposta é sim, também é português. Basta percorrer as redes sociais, como o X e o Facebook, e os comentários não moderados que pululam por todo o lado e percebe-se que os mesmos mecanismos estão em actuação por cá, sem a “criatividade” americana, mas com o mesmo papel, a mesma irracionalidade, o mesmo conteúdo anticientífico e… a mesma ignorância agressiva.
Ignorância é a palavra-chave, não a ignorância antiga, a que vinha do analfabetismo e da escassa escolaridade, e que tinha também uma variante a que hoje podíamos chamar conspirativa, e ligada com formas de religiosidade popular, mas era autoconsciente de que era ignorância e que isso era mau. Tinha também uma parte da sociedade e da política que fazia todos os esforços para a diminuir e combater. Por exemplo, os republicanos e de um modo geral a tradição iluminista combatia o que considerava o obscurantismo religioso. Um dos instrumentos era a “educação popular” ou em França a escola pública laica. Ou, numa outra dimensão, autodidatismo.
A nova ignorância tem características muito diferentes. Não se reconhece como ignorância, o que faz toda a diferença, e considera-se um saber, um saber perseguido, feito da “revelação” daquilo que os poderosos, os intelectuais, a elite, o deep state, não querem que as pessoas comuns saibam e por isso é anti-intelectual e anticientífica. É uma ignorância que assenta em “enganados” e por isso tem um forte componente agressivo, “nós” não queremos que “eles” saibam e “eles” sabem muito bem porquê, porque a elite, a “bolha” quer continuar a mandar “neles”.
O forte conteúdo social e político desta forma de ignorância agressiva é evidente, e o seu papel no populismo essencial. Ela dá a quem não tem poder nenhum a falsa ideia de que o tem, porque não precisa de ler um livro para o comentar, não precisa de um argumento racional basta-lhe um meme, ou algo que seja viral, não precisa de esforço nem atenção, basta-lhe a sensação de empoderamento que vem do insulto e da vingança, e com um telemóvel em frente está sempre distraída, não precisa do mundo, nem de ter “mundo”. E não precisa de amigos, precisa de likes.
O problema para a democracia, como aliás para todas as instituições de mediação, sejam as famílias, a escola, as velhas igrejas, os partidos, os sindicatos, a comunicação social, o debate público, a academia, é que muitos mecanismos tecnológicos com forte impacto social estimulam essa ignorância e dão-lhe não só plataformas, mas também modos de actuação e eficácia, sem paralelo no passado.
Registe-se que não penso que seja o computador, a internet, os telemóveis que “geram” esta forma de ignorância agressiva. As tecnologias actuam pelo modo como as sociedades as usam, e tudo o que se passa com a emergência desta ignorância tem raízes na sociedade, no modo da economia, naquilo que antigamente se chamava “luta de classes”, nos que ganham e nos que perdem. Porque, não se tenha dúvida nenhuma, que muitos dos efeitos do uso das tecnologias tem dono e intenção, porque uma das coisas que vem com este pacote da ignorância é uma enorme capacidade de manipulação. Como sabem os serviços de informação, as empresas de marketing e publicidade, todos os poderes que as sabem usar.
Entre todos os lubrificantes desta ignorância agressiva o primeiro é o deslumbramento tecnológico, a ideia de que basta saber meia dúzia de operações num telemóvel, fazer procuras rudimentares na rede, e ler e escrever mensagens mais ou menos guturais, para não precisar de comprar jornais, ver qualquer coisa que demore mais de uma meia dúzia de minutos, e isso significa ser “moderno”. O segundo lubrificante é um falso igualitarismo: eu não preciso saber nada sobre o tempo, para me pronunciar sobre as alterações climáticas.
A capacidade de distinguir entre a verdade e a mentira (seja lá o que for a verdade, mas ela existe como procura), desaparece numa selva que coloca a conspiração ao nível do saber e por isso faz com muita eficácia escravos públicos dos demagogos e privados dos que fazem os algoritmos ou “plantam” estrategicamente “informações” para alimentar a vossa fome de distração e de fúria, ou seja, entre Trump e Putin.»
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10.1.25
Tintim 96
Tintim apareceu pela primeira vez no suplemento juvenil Petit Vingtième do jornal belga Le Vingtieme Siecle (doze «caixas» em duas páginas), com Tintim envolvido numa aventura de ida à União Soviética, com partida de Berlim.
Depois, nasceu o mito que conhecemos, com o herói que alimentou a nossa imaginação e que acompanhou, e acompanha, multidões do mundo inteiro «dos 7 aos 77». Mais de 200 milhões de exemplares em 70 línguas diferentes.
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A discussão sobre segurança que a direita não quer ter
«Acho que se está a falar mais na segurança em Portugal nestes últimos meses desde que a AD é Governo e o Chega elegeu 50 deputados do que durante todos os anos de democracia. Entre "sensações", "percepções", aumento da criminalidade violenta denunciado por políticos, mas que não aparece nas estatísticas (está a polícia a mentir e a ocultar algo tão grave?), o assunto ocupa o espaço público, não porque exista uma mudança social, mas porque há uma mudança política.
Assisti ao debate sobre segurança que decorreu esta semana na Assembleia da República, a pedido do Chega, e à vergonhosa manifestação de André Ventura na Assembleia da República a apelar aos gritos a que se "encoste à parede" os "gandulos que destroem autocarros", os imigrantes ilegais, "pedófilos que atacam crianças", os que "roubam e destroem" – num objectivo apelo à pena de morte, como já aqui assinalou João Miguel Tavares. No que João Miguel Tavares erra é quando dá a entender no seu texto que as manifestações do Chega anti-imigração e as manifestações que visam combatê-lo são iguais.
Aliás, Tavares chama à manifestação "Não nos encostem à parede", organizada por pessoas de várias cores políticas mas onde o PS está representado em força, uma manifestação do "Bloco e Companhia".
Um dia gostava de apresentar ao João Miguel Tavares o Eurico Brilhante Dias, um socialista da ala direita do PS que já foi secretário de Estado da Internacionalização e que é um dos organizadores da manifestação "Não nos encostem à parede". Isto para ver se os nossos cronistas de direita perdem a obsessão de reduzirem qualquer manifestação anti-Chega a iniciativas do Bloco.
Fora do radar do debate sobre segurança está a segurança das mulheres (a menos que tenham sido vítimas de ataques de imigrantes não brancos).
Esta quinta-feira, no Barreiro, uma mulher de 46 anos foi assassinada com uma tesoura pelo marido (segundo a Judiciária) em frente aos dois filhos menores, de seis e 14 anos. O "sistema" já sabia de episódios de violência doméstica, mas a queixa da vítima contra o marido, em 2022, acabou arquivada.
No ano passado, foram assassinadas 25 mulheres, 20 das quais vítimas de violência de género – dentro da família. As mortes por violência de género, segundo o Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR, estão a aumentar.
A segurança das mulheres não está na agenda política porque não faz parte da agenda do Chega. Entre os milhões de pessoas que Ventura quer "encostar à parede" não estão os homens que assassinam as mães dos seus filhos, em frente a eles.
Que o resto da direita embarque na teoria de que existe um problema de segurança no país, omitindo deliberadamente o problema maior da segurança das mulheres, é um triste sinal.
Ah, o assassino era "um homem calmo". Foi o que disse na televisão quem o conhecia. São sempre. Na volta, ainda era "um português de bem".»
Ana Sá Lopes
Newsletter do Público, 09.01.2025
9.1.25
09.01.1908 – Simone de Beauvoir
Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir chegaria hoje a uns improváveis 117 anos.
Tudo já foi escrito sobre esta escritora, intelectual, activista política e feminista, mas vale talvez a pena recordar o papel decisivo de uma das suas obras – Le Deuxième Sexe –, publicada em 1949. Esteve longe de ser um manifesto militante ou arauto de movimentos feministas que, em França, só viriam a surgir quase duas décadas mais tarde, já que as mentalidades não estavam preparadas para a problemática da libertação da mulher tal como Simone de Beauvoir a abordou, nem para a crueza da sua linguagem.
As reacções não se fizeram esperar, tanto à esquerda (onde o problema da mulher estava fora de todas as listas de prioridades), como, naturalmente, à direita. François Mauriac escreveu: «Nous avons littérairement atteint les limites de l’abject», Albert Camus acusou Beauvoir de «déshonorer le mâle français».
Para a compreensão e a consagração da obra foi decisivo o sucesso nos Estados Unidos, onde foi publicada em 1953. O movimento feminista, em que Betty Friedman e Kate Millet eram já referências, estava aí suficientemente avançado para a receber. Efeito boomerang: Le Deuxième Sexe «regressou» à Europa no fim da década de 50, com um outro estatuto, quase bíblico, e teve a partir de então uma longa época de glória.
Simone de Beauvoir nunca provocou grandes empatias e foi sempre objecto de discussões sem fim sobre a sua importância relativa quando comparada com a de Sartre. Mas, goste-se ou não, estava no centro do Olimpo que Paris era então – quando, no Café de Flore, toda a gente vivia envolta em fumo e Juliette Greco cantava «Il n’y a plus d’après».
Tudo já foi escrito sobre esta escritora, intelectual, activista política e feminista, mas vale talvez a pena recordar o papel decisivo de uma das suas obras – Le Deuxième Sexe –, publicada em 1949. Esteve longe de ser um manifesto militante ou arauto de movimentos feministas que, em França, só viriam a surgir quase duas décadas mais tarde, já que as mentalidades não estavam preparadas para a problemática da libertação da mulher tal como Simone de Beauvoir a abordou, nem para a crueza da sua linguagem.
As reacções não se fizeram esperar, tanto à esquerda (onde o problema da mulher estava fora de todas as listas de prioridades), como, naturalmente, à direita. François Mauriac escreveu: «Nous avons littérairement atteint les limites de l’abject», Albert Camus acusou Beauvoir de «déshonorer le mâle français».
Para a compreensão e a consagração da obra foi decisivo o sucesso nos Estados Unidos, onde foi publicada em 1953. O movimento feminista, em que Betty Friedman e Kate Millet eram já referências, estava aí suficientemente avançado para a receber. Efeito boomerang: Le Deuxième Sexe «regressou» à Europa no fim da década de 50, com um outro estatuto, quase bíblico, e teve a partir de então uma longa época de glória.
Simone de Beauvoir nunca provocou grandes empatias e foi sempre objecto de discussões sem fim sobre a sua importância relativa quando comparada com a de Sartre. Mas, goste-se ou não, estava no centro do Olimpo que Paris era então – quando, no Café de Flore, toda a gente vivia envolta em fumo e Juliette Greco cantava «Il n’y a plus d’après».
Gronelândia: Trump sabe isto tudo…
«Durante a Segunda Guerra Mundial, a Gronelândia se separou de fato, tanto social como economicamente, da Dinamarca, aproximando-se mais dos Estados Unidos e Canadá. Depois da guerra, o controle da ilha voltou à Dinamarca, retirando-se seu status colonial, e, apesar da Gronelândia continuar sendo parte do Reino da Dinamarca, é autónoma desde 1979. A ilha foi o primeiro território que deixou a União Europeia, se bem que possua o status de estado associado.» (Wikipédia)
Joan Baez, 84
Nasceu em 9 de Janeiro de 1941, cantou durante décadas em várias arenas, lembra-nos Wookstock, lutas pelos direitos dos negros, activismo contra a Guerra do Vietname, várias detenções como, por exemplo, em 1967 em Oakland, numa das dezenas de manifestações que tiveram lugar em cerca de 30 cidades dos Estados Unidos.
Ficam, para nunca esquecermos, algumas das suas interpretações:
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