24.5.25

23.05.2020 – Maria Velho da Costa

 


Cinco anos sem esta extraordinária escritora.

Imigração

 


A desesperança, a solidão e a ignorância que alimentam o Chega

 


«Há muito tempo que falo do papel do ressentimento na vida política actual, sem grande sucesso. Agora parece que as coisas estão a mudar. Não era uma categoria muito referida, em particular quando coloco o ressentimento como tendo substituído a “luta de classes” ou, se se quiser, o conflito social. Parece que agora mesmo Ventura usa essa classificação para se referir aos seus resultados eleitorais.
 
O ressentimento é uma atitude vista como negativa, em particular quando falamos das suas manifestações individuais. Mas o ressentimento é também uma atitude social, presente em todos os movimentos de protesto, à esquerda e à direita, e traduz a sensação de perda, de desesperança, de impotência, de que ninguém nos ouve, de revolta perante casos reais ou imaginários de malfeitorias dos “outros”, começando no vizinho e acabando no Presidente, ou de exclusão e desigualdade e injustiça. É um poderoso sentimento que no passado sempre existiu, mas que encontrava expressão na luta social, em manifestações, protestos, sindicatos, grupos e partidos que funcionavam como mediadores e, nesse sentido, se integravam nos mecanismos de funcionamento das democracias.

O mapa eleitoral do Chega é muito parecido em várias partes do país com o do PCP, e há uma coisa em comum que facilita esta semelhança. Trata-se de zonas onde antes o ressentimento dava votos ao PCP, e agora a mesma raiva face à vida dá votos ao Chega.

A maioria das pessoas não tem a vida que desejaria ter. A esperança torna-se rapidamente desesperança. Não é de agora, pode-se quase dizer que é de sempre, mas agora há vários mecanismos de massa que dão densidade a essa desesperança e que facilitam que ela tenha uma expressão política no populismo. O predomínio do Pathos, face ao Logos e ao Ethos, cria um mundo impregnado de emoção, muitas vezes superficial, mas muito eficaz face ao fracasso do ensino, em permitir um vocabulário que não seja gutural, e a uma ignorância cada vez mais institucionalizada numa forma agressiva. Eu não li esse livro, nem vi esse filme, mas li um post que fala dele e, por isso, posso também dar a minha opinião, que tem o mesmo valor da desses “intelectuais” da “bolha”, ou de gente que passou a vida toda a estudar esse assunto.
 
Todo o mundo televisivo transformado em reality shows e a imprensa tablóide desaguam nas chamadas redes sociais, que são um grande polarizador deste sentimento de esperanças traídas, de uma forma que as radicaliza e as torna um espelho de antagonismos.

É um dos mecanismos que maior erosão traz às democracias porque é interior, não vem do confronto entre a tirania e a democracia, dissolve os mecanismos de intermediação e representação, cria um pseudo-igualitarismo e permite que se veja, se leia, se entenda apenas aquilo que funciona como um espelho das nossas opiniões e sensações. É um muito eficaz mecanismo de polarização e radicalização, gera o confronto entre “nós” e “eles” e dá à companheira da desesperança, a solidão, uma impressão de força.

Este é o terreno ideal para a manipulação das massas. Todos os serviços de informação dos regimes totalitários sabem isso, sabem como manipular as pessoas, sabem como condicionar eleições, como atacar um político ou um partido e promover outro. Há também empresas que o sabem fazer e fazem-no para os seus clientes, para acabar com o restaurante que compete com o “meu”, para arrasar um hotel, para colocar na moda um produto ou tirar da moda outro. Esta densificação da desesperança, da solidão diante de um ecrã, da falsa sensação de companhia e de que, como escrevo no Facebook ou no X, ou faço um meme numa rede social, a minha voz passou a ter um valor que eu não tenho ao meu lado, no emprego, no namoro, no café. E é fácil encontrar no “outro” a culpa do meu insucesso.

Esta densificação do ressentimento acaba por ser um processo que acompanha vários movimentos de democratização, traduzidos no consumo de massas, no acesso ao ensino, numa vida de facto melhor do ponto de vista material, tudo factores muito positivos que tiveram o papel de aumentar as expectativas e as exigências. Mas os efeitos perversos desses processos criaram sociedades com novas formas de solidão, um individualismo triste, um psicologismo “mental”, acompanhado de uma incapacidade de acção colectiva, e mais ignorante. A ignorância das “gerações mais bem preparadas” é também nova face à antiga ignorância, que sabia que precisava de saber mais. A de hoje acha que meia dúzia de memes chega para conhecer tudo, opinar sobre tudo e que não é preciso ler livros.

Orwell, no 1984, sabia como isto funcionava e dependia da cultura no sentido lato, e mostrava como o Big Brother reduzia todos os anos o número de palavras circulantes, porque quem não tem capacidade expressiva não fala bem e é incapaz de traduzir raciocínios complexos, vive imerso num psicologismo superficial e é mais fácil de mandar.

Desesperança, solidão e ignorância são a chave.

(Para outra altura fica a análise de como a esquerda não percebeu nada do que se estava a passar, e se deixou distrair pelas chamadas “causas fracturantes”, numa guerra cultural que perdeu e alimentou o adversário, num elitismo radical chic em que abandonou os “seus”.)»

23.5.25

José Luís Carneiro?

 


23.05.1934 - Bonnie & Clyde

 


Bonnie Parker e Clyde Barrow morreram há 91 anos. Ela tinha apenas 23 anos, ele 25, mas, apesar de curtas, as suas vidas foram atribuladíssimas, recheadas de assaltos e assassinatos, até que eles próprios foram abatidos numa emboscada, numa estrada deserta, algures no estado da Louisiana – cravados de balas, cerca de cinquenta para cada um, segundo consta. 



Ficaram imortalizados no imaginário da história do crime norte-americano como Bonnie & Clyde e foram trazidos para o nosso por um magnífico filme de Arthur Penn (1967), com «som» de Serge Gainsbourg, e, também, por uma inesquecível balada cantada por Giorgie Fame. 




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Georges Moustaki

 


Georges Moustaki nasceu em Alexandria, de pais judeus gregos, e morreu em Nice, com 79 anos, em 23 de Maio de 2013.

Em 1951 foi para Paris, trabalhou primeiro como jornalista, mas foi como barman que entrou no mundo da música, onde personalidades como Georges Brassens o influenciaram decisivamente (ao ponto de lhe ter «roubado» o nome, já que nascera como Giuseppe e não como Georges…) Para Édith Piaf escreveu Milord e com ela viveu um curto romance. «Brassens était mon maître, Piaf était ma maîtresse» - terá um dia sintetizado.

Algumas «preciosidades» entre muitas:






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A culpa é

 


«A culpa é da conjuntura. Existe uma vaga de extrema-direita por todo o mundo que é irresistível e há que esperar que passe. Embora o factor Trump tenha sido apontado como causa para as recentes vitórias de partidos de esquerda no Canadá e na Austrália. Deve ter sido um milagre. Líderes políticos de esquerda que conseguem persuadir o povo de que as suas propostas são as melhores é inconcebível neste momento, porque a vaga é irresistível. Apesar de há apenas três anos se falar da mexicanização do regime, porque o PS e a esquerda iam obviamente eternizar-se no poder, sem alternativa, como o Partido Revolucionário Institucional, que governou o México entre 1929 e 2000.

A culpa é do povo, que é racista. Embora 75% do povo não vote no Chega. E Ventura tenha o maior índice de rejeição de todos os líderes partidários. Mas é racista, o povo. Apesar de, há dois anos, ter dado maioria absoluta ao PS. Foi uma grande massa de racistas que, após a madura ponderação de que só racistas são capazes, resolveu dar a maioria dos lugares do Parlamento ao Partido Socialista.

A culpa é dos imigrantes. São muitos e vêm de países exóticos. Embora tenham vindo porque há trabalhos que os portugueses não querem fazer, designadamente no turismo, que tem contribuído para os superavits. Mas, se é certo que a economia portuguesa precisa de imigrantes, devíamos ter optado por estrangeiros europeus, que são mais parecidos connosco. Até porque o que não falta por aí são espanhóis, franceses, italianos, alemães, ingleses, belgas, austríacos, dinamarqueses, suecos, noruegueses, finlandeses e holandeses ansiosos para virem trabalhar na nossa restauração a troco do salário mínimo.

A culpa não é certamente dos baixos salários. A dificuldade de pagar a renda e a conta do supermercado gera uma alegria de viver que deixa as pessoas com uma boa disposição solar.

A culpa não é certamente da comunicação social. Filmar durante horas as traseiras de uma ambulância enquanto ela se encaminha para o hospital é informação em qualquer parte do mundo.

A culpa não é certamente do Presidente da República. Três eleições legislativas costumam decorrer no espaço de 12 anos. Concentrá-las num período de apenas quatro anos não produz qualquer efeito negativo, designadamente o de transmitir a ideia de que, em democracia, os governos são tão frágeis que não resistem ao chumbo de um orçamento, ou a um parágrafo do qual nunca mais ninguém ouviu falar.

A culpa não é certamente de vários factores. Há-de ser só um. Só temos de descobrir qual é. Parece-me fácil. Boa sorte para todos nós.»


22.5.25

Um pouco mais de azul (31)

 




Antes que anoiteça

 

«Para os mais distraídos é preciso explicar, devagarinho, que o regime saído do 25 de Abril de 1974 e consolidado a 25 de Abril de 75, com a eleição da Assembleia Constituinte, e a aprovação da Constituição da República e as primeiras eleições legislativas, em 1976, terminou ontem. A partir de agora, o bom povo português decidiu permitir à maioria de Direita que elegeu o direito de rever a Constituição de 1976, como quiser e lhe der na gana, podendo acabar com o Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública, a Segurança Social, tal como existem. E muitas outras garantias constitucionais. Abençoado seja o bom povo português e, sobretudo, todos aqueles que, com o seu voto, permitiram a possibilidade de alterar a natureza do regime e que, ainda, pensam que daqui para a frente vão viver melhor. Que assim seja, apesar de haver nos meus olhos ironias e cansaços, mas não vou cruzar os braços, nem vou por aí!»

Tomás Vasques no Facebook

Charles Aznavour – seriam 101

 


Nasceu e morreu em Paris, francês mas de origem arménia e terá sempre a «nacionalidade» dos seus pais emigrantes. É um ícone nacional, não só pelo seu êxito como cantor, mas também e talvez sobretudo, pela sua acção após o terramoto de 1988. 

Em 7 de Dezembro de 1988, às 11:41, a terra tremeu, causando dezenas de milhares de mortos e centenas de milhares de sem abrigo. Aznavour percorreu o país pouco depois, criou uma Fundação específica para o efeito, que reuniu mais de 150 milhões de dólares, tem estátuas (vi uma em Gyumri, a cidade mais arrasada em 1988 e onde a temperatura chega a atingir 45º negativos) e o governo doou-lhe uma casa que avistei em Yerevan, onde funciona a referida Fundação. Os arménios não esquecem.

Ficam aqui dois vídeos relacionados com a Arménia e «La Bohème», a canção preferida por Aznavour, como repetiu dois dias antes de morrer:






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Júlio Pomar

 


Deixou-nos há sete anos, mas herdámos uma grande obra.

E a cerca sanitária?

 


«Agora é que isto vai aquecer. Ainda bem que o Chega é um partido de direita, porque, agora, a mesma direita (designada não radical), sempre tão condescendente e indecisa em sancionar os extremismos e manifestos neofascistas actuais, por receio de perda de eleitorado, e refém de si mesma e dos seus fantasmas, terá de conviver (o que implica a família política alargada – conservadores, sociais-democratas, democratas-cristãos, neoconservadores, neoliberais) com um partido que é, em si mesmo, uma ameaça à democracia, à seriedade e à lisura políticas.

Agora, sim, eles não vão ter medo. O estilo caceteiro, boçal e populista do Chega inundará o Parlamento e o país (“Portugal é nosso”, cantam) de indecência política e terá todo o terreno livre para a provocação e desumanidade: “Chora, Pedro”, gritam, ainda a quente. “Eles ainda não viram nada”, asseverou Ventura. Os comentadores chamam a isto direita radical. Outros, extrema-direita. Continuamos a usar pinças nas palavras.

“O Chega derrotou o PS de Mário Soares, matou o PCP de Álvaro Cunhal, varreu do mapa o BE”, declara a jactância de Ventura. Não se poupará em palavras e novas ameaças: a História corre a seu favor.

Numa altura destas, a vitória de Montenegro soa a presente envenenado. Com questões judiciais em curso a envolvê-lo pessoalmente, resta saber em que é que isso não será uma fragilidade que permita ao Chega (e a outros) abrir uma nova crise política ou torná-la um espectro.

“Esta vitória é do povo português”, disse ainda o mesmo Ventura. Vamos lá a ver: é a vitória deles, dos que votaram Chega. O povo é muito mais do que esta gente e está em mais lados. Mas é a derrota de toda a outra direita que se pôs a jeito. E a derrota da esquerda, adormecida entre querelas sobre NATO, Ucrânia, direitos individuais e questões das minorias, quando deveria procurar uma ampla frente que distinga, de uma vez por todas, esquerda de direita, o que assenta na justiça social, na igualdade, na defesa dos sistemas públicos e na defesa de uma expressão sensata das ideias. Elementar.

Sem cairmos na falácia irresponsável de rotular o eleitorado do Chega como gente não recomendável (não é possível, perante números desta dimensão), fica a certeza de que um dos “D” de Abril, "Desenvolver", não foi logrado: não se tratava apenas de betão, estradas, pontes, parques das nações. Era necessário edificar uma massa humana dotada de valores humanistas, conhecedora, informada, educada. Isso falhou. Vemo-lo até nas escolas, em que alunos, de herança económico-social precária, em especial dos cursos profissionais e sem cultura política e qualquer atitude crítica, tecem loas ao partido de Ventura, sem saber porquê. Convém também compreender como o voto, a Sul, migrou do PCP para o PS e daí para o Chega.

Agora, sim, a direita terá de se confrontar consigo mesma e com a tibieza (ideológica) de ter claudicado em forjar uma cerca sanitária conjunta para fazer face ao Chega. Teve imenso tempo para o fazer e pode dizer-se que colaborou com esta força política. Apostada em usar esse partido como trunfo para esvaziar a esquerda, incluindo o PS, não percebeu que o cancro alastra a todo o corpo.

E numa situação em que uns reclamam a sua parte no assalto ao poder e outros a sua exclusividade e sobrevivência, a gestão do caso Spinumviva pode engendrar compromissos insidiosos (como acontece entre forças que se repudiam, mas respeitam) e, num caso assim, é a Constituição (e, portanto, o Estado social) que estará em risco, como, aliás, em tom rapace, avançou já Cotrim de Figueiredo na noite eleitoral. Parece que já vimos este filme em algum lado. É de ficarmos preocupados?»