28.6.25

Perfume

 


Frasco de perfume em vidro soprado, rolha de vidro prensado. Museu Lalique. Cerca de 1914.
René Lalique.

Daqui.

Sócrates e Google

 


Mr. Bezos, I presume

 


A Esquerda vale mais

 


«O somatório dos votos que o conjunto de forças políticas da Esquerda obteve nas últimas eleições legislativas não espelha toda a sua influência na sociedade. O sentimento de deceção, que levou centenas de milhares de cidadãos, até há pouco tempo seus eleitores, a abster-se ou a apoiarem forças da extrema-direita e da Direita com programas neoliberais, ainda poderá ser revertido.

É possível estancar a perda de influência social e encetar recuperação. A Esquerda é bem plural, mas dialoga pouco, e pesa bastante a parte que opta pela cedência à Direita, fazendo de conta que existiria democracia sem uma Esquerda forte. Acrescem os engulhos do contexto europeu e internacional onde imperam compromissos belicistas que subjugam a economia e matam o social.

As dificuldades não podem pear-nos. É necessário que a Esquerda interprete a nova era em que estamos. Ela não emergiu agora. Na última década do século passado era claro que as instituições e poderes que nos trouxeram até aqui estavam esgotados (o velho equilíbrio geopolítico e geoestratégico tinha-se estilhaçado) e que os novos poderes fátuos impunham as suas regras sem serem responsabilizáveis: desde o plano político ao económico/financeiro e ao tecnológico e científico.

As análises aos resultados das eleições legislativas partem de leituras económicas do mainstream centradas em indicadores quantitativos, quando os problemas que levam as pessoas a sentirem-se desprotegidas têm um somatório de causas e impactos. Os problemas com a habitação, a imigração, o SNS, a Escola Pública, carecem de interpretações sociológicas e políticas. Estes bloqueios têm conexões intrincadas e configuram um país novo: não terão resposta num quadro em que mais de 90% do investimento público vem de fundos comunitários.

Grande parte das pessoas zangaram-se porque tiveram expectativas justas defraudadas no ciclo político 2015/2024. O Governo da “geringonça” teve grande apoio nos planos social e económico, desde a sua formação até 2019, e mesmo depois. O problema foi que o “programa comum” era minimalista e António Costa e o PS foram possuídos pela soberba política. As forças à sua esquerda ficaram presas na armadilha.

Agora, vai o PS continuar a olhar à esquerda como quem olha para processionárias? E vão estas forças tratar a experiência positiva como erro? Só a ação convergente para uma política social transformadora e boas relações evitarão o desastre. São precisas lideranças que aprendam a lidar com a mudança de expectativas e tirem à extrema-direita a bandeira do combate ao status quo.

Neste quadro, as próximas eleições autárquicas são de grande relevância. É em torno delas que os grandes coletivos mais se mobilizam. É nelas que se podem mais facilmente identificar oportunistas e forjar aproximações sem perda de identidades específicas. Em Lisboa, em 1989, viveu-se uma experiência boa, porque trabalhada com rigor e responsabilidade.»


27.6.25

Vírgulas?

 


Spinumviva, ainda

 


«Primeiro-ministro recorreu para o Tribunal Constitucional contra o pedido da Entidade da Transparência. Recurso tem "natureza confidencial" e não deverá ser julgado antes das férias judiciais.»

Expresso, 27.06.2025

António Vitorino

 


«Desperto, ainda trémulo de café por fazer, e deparo-me com a notícia de sempre: António Vitorino não será candidato à Presidência da República. Uma vez mais, o país é brindado com este ato de não-intenção, este ritual sibilino de recusa que se repete, com zelo quase litúrgico, em todos os atos eleitorais, quaisquer que eles sejam. Presidenciais, autárquicas, europeias, legislativas ou eleição da mesa do condomínio: lá está Vitorino, recusando com gravidade o que ninguém ousou sugerir com entusiasmo.

Já não é uma notícia, é um género literário. Há sonetos, haikus e “António Vitorino recusa ser candidato”. Publicações sazonais, previsíveis como o equinócio, reconfortantes como um pudim flan, e ligeiramente mais cómicas. Há quem colecione selos, o nosso jornalismo coleciona negativas vitorinianas. Brevemente, nas bancas: “As 100 melhores vezes em que António Vitorino disse que não”.

E atenção: considero-o um homem sério, inteligente e competente. É precisamente isso que torna tudo ainda mais delicioso. Um estratega da recusa. Um mestre da abdicação antecipada. Um atleta do “não, obrigado”.

É comovente. Uma espécie de Dom Quixote da abstenção, que investe com brio contraintenções vagas e convites implícitos. Um Cincinnatus que abandona o arado sem nunca ter estado nas imediações de um campo. Um cavalheiro do renascimento que, ao entrar num salão, saía logo de seguida, por puro pudor republicano.

Eu, por mim, fico expectante pela próxima renúncia pública. Talvez anuncie que não será campeão olímpico dos 100 metros. Ou que, ponderadas todas as circunstâncias, não aceitará ser Patriarca de Lisboa. Ou que, em consciência, prefere não assumir o comando da Frota Estelar. Seja como for, manter-se-á firme. O homem que, com nobreza clássica e precisão suíça, insiste em não ser aquilo que, com total dignidade, não tenciona vir a ser.»

Luís Galego no Facebook.

A nova Guernica

 



Um despedimento na RTP que nos deve preocupar a todos

 


«Há dias, um estudo da Reuters revelou que a RTP era o órgão de comunicação em que os portugueses mais confiam, à frente de todos os outros canais, rádios e jornais. Este reconhecimento não é por acaso.

Foi um longo caminho desde que, no final do cavaquismo, a informação da RTP era percecionada como pouco isenta e bastante governamentalizada. Com a emergência dos canais privados, o país passou a conhecer televisões libertas de tutelas políticas. Entretanto, as dinâmicas comunicacionais transformaram-se e os serviços públicos de media assumiram uma relevância que era impensável. Portugal acompanhou essa tendência e hoje a RTP é vista como um espaço de informação sóbrio e rigoroso.

Depois de sucessivos programas eleitorais do PSD advogarem a privatização da estação pública, na fase final do Governo Passos, já com Poiares Maduro como ministro e perante um impasse que se arrastava, decidiu-se manter a RTP pública e criar um Conselho Geral Independente, capaz de desgovernamentalizar a empresa e protegê-la da captura política. O Governo deixou de nomear a administração, a mudança veio para ficar e, atualmente, a tutela da RTP é distante em matérias sensíveis (sei do que falo, pois tutelei a comunicação social quando fui ministro).

Hoje, a RTP pode ter problemas de audiências, dificuldades de financiamento e padece de algum anacronismo organizativo, mas é uma empresa fulcral, pelo papel regulador que desempenha, garantindo uma oferta informativa contrastante e na qual os portugueses confiam. Uma RTP independente e que pratica um jornalismo rigoroso não é, por isso, uma empresa que agrade ao poder político, que muitas vezes alimenta uma nostalgia do tempo em que os ministros da tutela articulavam alinhamentos do telejornal.

Ao longo do último ano, Montenegro não se inibiu de criticar a comunicação social, e a RTP em particular. Começou por se mostrar muito impressionado com os jornalistas que faziam perguntas “sopradas para um auricular”. Perante as primeiras notícias que levaram à exoneração do secretário de Estado que criara uma empresa imobiliária, o Observador noticiou que “no núcleo duro do Governo se suspeitava de uma estratégia concertada de alguns órgãos de comunicação social, em especial a RTP”, que revelava uma “atitude hostil”.

Em campanha, recordamos a indignação de Montenegro ao reagir a uma questão sobre a Spinumviva, acusando a RTP “de estar empenhadíssima” no caso. A pergunta fora feita por um repórter da SIC. Depois, ao contrário dos outros líderes partidários, recusou-se a dar uma entrevista ao canal público. Entretanto, no novo Governo, a comunicação social passou a estar sob tutela do ministro da Presidência – ou seja, o centro político do executivo, responsável pela comunicação do Governo, passa também a tutelar a RTP.

Esta semana, a administração da RTP decidiu demitir o diretor de Informação, António José Teixeira, entretanto substituído por Vítor Gonçalves. Declaro que sou amigo de António José Teixeira, considero Vítor Gonçalves um ótimo profissional e trabalhei com ambos. Acontece que, após a sucessão de ataques de que a RTP foi alvo, vindos diretamente do centro do poder, é um sinal errado exonerar o seu diretor de Informação.

As coisas são como são, perante este historial e na ressaca da tomada de posse de um novo Governo, esta substituição deve preocupar todos aqueles que defendem um jornalismo independente e incómodo. Afinal, vislumbra-se na decisão a concretização do desejo de Montenegro de “termos uma comunicação social mais tranquila e não tão ofegante”.»


26.6.25

Muito original

 


Vaso de vidro Arte Nova, esmaltado. Cerca de 1900.
Ernest Baptiste Léveillé.


Daqui.

Salvador Allende nasceu num 26 de Junho



... há 117 anos, em Valparaíso, no Chile. Afirmou, bem antes de 11 de Setembro de 1973, que estava a cumprir um mandato dado pelo povo e que só sairia do palácio depois de o cumprir. Ou que o faria «com os pés para diante, num pijama de madeira». Assim aconteceu. 

O seu último discurso:



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26.06.1963 – «Ich bin ein Berliner»

 


Frase proferida por John F. Kennedy em Berlim Ocidental, há 61 anos, quase dois depois de o Muro ter dividido a cidade, num discurso que foi considerado um dos momentos mais importantes da Guerra Fria. 




Poucos meses depois, Kennedy foi assassinado em Dallas.
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