10.1.26

Tintim 87

 


Tintim apareceu pela primeira vez no suplemento juvenil Petit Vingtième do jornal belga Le Vingtieme Siecle (doze «caixas» em duas páginas), com Tintim envolvido numa aventura de ida à União Soviética, com partida de Berlim.


Depois, nasceu o mito que conhecemos, com o herói que alimentou a nossa imaginação e que acompanhou, e acompanha, multidões do mundo inteiro «dos 7 aos 77». Mais de 200 milhões de exemplares em 70 línguas diferentes.
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O senhor que roubava malas

 


Júlio Pomar

 


Chegaria hoje aos 100!

O país das Julianas e dos Julianos

 


«Este é um artigo muito desagradável de escrever, mas o mundo e Portugal são o que são e mais vale olhar de frente do que fazer de conta. A Juliana é a célebre personagem de Eça de Queiroz n'O Primo Basílio, a criada que, descobrindo a relação adúltera da patroa, faz chantagem com ela sob a ameaça da denúncia. É uma das personagens mais completas de Eça, que a descreve através de várias personagens do romance com aquilo que hoje podemos considerar rigor, indo mais longe do que a repulsa face à personagem, mas percebendo os mecanismos sociais que moldam o seu carácter e a sua atitude. É um retrato no qual as relações patroa-criada, beleza-fealdade e medo-ambição mostram o enorme poder dos que não têm poder, muito para além da maldade, que por si só tiraria força à personagem, mas a vingança, a denúncia, a alteração de poder que significam a chantagem.

O problema é que em Portugal há muitas “Julianas/os”, por muitas razões, algumas culturais, mas acima de tudo sociais. A vingança pela denúncia, seja pela informação anónima (algumas vezes assinada) à PIDE ou à Legião, ou hoje ao Ministério Público ou aos jornais, ou pela carta anónima, é demasiado comum para não a podermos pôr de parte numa análise ao “carácter” dos portugueses.

Claro que há aqui uma linha difícil de traçar com a denúncia cívica, o whistleblowing, mas quem já leu centenas de denúncias durante os 48 anos da ditadura percebe que nada tem de cívico, sendo pura vingança pessoal. É preciso ter em conta que estas denúncias tinham consequências, levando ao despedimento, à prisão e à tortura, o amigo, o vizinho, o trabalhador, o companheiro de emprego, e a proximidade era a regra. Como a Juliana era a criada de servir da casa, e vivia por baixo do poder da patroa adúltera, mais proximidade do que a que havia era difícil. Foi aliás essa proximidade que a levou a perceber a relação da patroa com o primo, e a roubar as cartas que lhe serviam de prova para a chantagem.

Para quem trabalha sobre a história da ditadura e consulta muitos documentos originais, esta é uma realidade bastante generalizada e penosa para quem a confronta. Nas denúncias políticas, há vários níveis de actuação, e as “informações” recolhidas num taberneiro, que são muito comuns na Legião Portuguesa, vêm claramente “de baixo” e são muitas vezes inventadas ou imaginárias, e aí a ganância também tem um papel. As informações que as câmaras recebiam são muito parecidas com as da Legião, e infelizmente muitas foram apressadamente deitadas ao lixo já em democracia. A que ilustra este artigo provém de um conjunto de dossiers que foi mandado deitar fora a uma funcionária e que foi salvo pelo Arquivo Ephemera. São páginas sobre páginas de denúncias que se percebem virem de gente próxima, familiares desavindos por heranças, agravos pessoais, ajustes de contas no emprego, ou pura e simplesmente vontade de fazer a vida negra a um vizinho. Não há qualquer motivação ideológica ou política, e quando se percebe que há zelo de um qualquer membro da União Nacional, a denúncia tem pouco que ver com o combate ao comunismo, por exemplo, mas sim com a vontade pessoal do “bufo” de obter uma promoção ou apenas uma “simpatia” que acabe por ser rentável.

As denúncias à PIDE, as mais perigosas, têm também este componente “de baixo”, mas muitas vêm “de cima”, de gabinetes de ministros, de donos e patrões das grandes empresas privadas, de zelosos defensores da ditadura na estrutura do Estado, o que significa professores, funcionários públicos, estudantes, nobres e ricos, que nunca admitiriam misturar-se com os pides, a não ser na denúncia. Não estou a referir um outro tabu complicado da nossa história recente, o “falar na cadeia”, mas a produção a que se dedicavam pessoas de fora do aparelho repressivo. Como o estudante liceal que, em vésperas do 25 de Abril, entrou pela PIDE dentro, procurou um inspector com quem negociou um salário e mesmo a gestão desse salário numa conta bancária pelo inspector que o passou a controlar, e se preparou para fazer um relatório para denunciar os seus amigos de política e do liceu quando o 25 de Abril surgiu.

O problema é que não foi meia dúzia de “Julianas/os”, mas muitas centenas de denunciantes, e que hoje também se dedicam à mesma tarefa nas redes sociais e nas cartas anónimas aos jornais. A maioria daquilo que se apresenta com pomposas palavras como “jornalismo de investigação” chegou na caixa de correio ou em mensagens electrónicas para jornalistas escolhidos a dedo.

Na verdade, a cultura tóxica da denúncia continua por aí pujante, sempre com os mesmos motivos, a mesma combinação de vingança e ganância, que nos últimos cem anos é uma marca de identidade do pior dos portugueses. E não vai mudar tão cedo.»


9.1.26

Assim se resolve o problema do INEM

 


De desacordo em desacordo, mas…

 


«A intervenção dos EUA na Venezuela mudou a agenda da reunião do Conselho de Estado, que se reúne esta sexta-feira, tornou-se tema da campanha presidencial e mostrou mais uma rutura no ‘centrão’ nas políticas de soberania e diplomacia. (…)

Governo e PS mostraram discursos muito diferentes na reação à intervenção na Venezuela, com o Chega a estar mais próximo da reação do Executivo. O Governo, sobretudo pela voz do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, encontrou aspetos “benignos” na ação de Trump. (…)

“Os fins não justificam os meios”, escreveu, também logo no sábado, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, manifestando que “condena qualquer intervenção na Venezuela à margem da ONU e do Direito Internacional”.»


09.01.1908 – Simone de Beauvoir

 


Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir chegaria hoje a uns improváveis 118 anos.

Tudo já foi escrito sobre esta escritora, intelectual, activista política e feminista, mas vale talvez a pena recordar o papel decisivo de uma das suas obras – Le Deuxième Sexe –, publicada em 1949. Esteve longe de ser um manifesto militante ou arauto de movimentos feministas que, em França, só viriam a surgir quase duas décadas mais tarde, já que as mentalidades não estavam preparadas para a problemática da libertação da mulher tal como Simone de Beauvoir a abordou, nem para a crueza da sua linguagem.

As reacções não se fizeram esperar, tanto à esquerda (onde o problema da mulher estava fora de todas as listas de prioridades), como, naturalmente, à direita. François Mauriac escreveu: «Nous avons littérairement atteint les limites de l’abject», Albert Camus acusou Beauvoir de «déshonorer le mâle français».

Para a compreensão e a consagração da obra foi decisivo o sucesso nos Estados Unidos, onde foi publicada em 1953. O movimento feminista, em que Betty Friedman e Kate Millet eram já referências, estava aí suficientemente avançado para a receber. Efeito boomerang: Le Deuxième Sexe «regressou» à Europa no fim da década de 50, com um outro estatuto, quase bíblico, e teve a partir de então uma longa época de glória.

Simone de Beauvoir nunca provocou grandes empatias e foi sempre objecto de discussões sem fim sobre a sua importância relativa quando comparada com a de Sartre. Mas, goste-se ou não, estava no centro do Olimpo que Paris era então – quando, no Café de Flore, toda a gente vivia envolta em fumo e Juliette Greco cantava «Il n’y a plus d’après».


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O melhor não-candidato

 


«Quem está desencantado com a política deve fazer uma reflexão profunda e ajustar as suas expectativas. Uma coisa é o eleitor ser exigente; outra é ser mimado. Nas próximas eleições presidenciais, os cidadãos terão à sua disposição, no boletim de voto, 14 nomes. Desses, só 11 tiveram as suas candidaturas aprovadas pelo Tribunal Constitucional. Ou seja, vai ser possível escolher candidatos que são mesmo candidatos e candidatos que o não são. O velho lamento dos eleitores rabugentos, que sempre se queixaram de não sentirem identificação com nenhum dos candidatos, perde razão de ser porque agora, além dos candidatos, podem escolher não-candidatos. Se não se identificarem com qualquer dos candidatos e também não encontrarem uma única pessoa válida entre os não-candidatos, é perfeitamente legítima a suspeita de que o problema talvez seja deles.

Como sempre, no nosso país as boas iniciativas são vistas com desconfiança. Em vez de inspirar alegria por oferecer maior possibilidade de escolha, a inclusão dos nomes dos não-candidatos no boletim foi alvo de azedos reparos. Para quê, perguntam os críticos, juntar o nome de gente que não tem a mínima hipótese de ser eleita, à lista dos candidatos oficiais? Trata-se de um péssimo argumento. Entre os candidatos oficiais também há muitos que não têm a mínima hipótese de conseguir a eleição. Porque é que o sr. José António de Jesus Cardoso, que está no boletim apesar de não ser candidato, teria menos direito a figurar na lista do que André Ventura — que, de acordo com todas as sondagens, também não tem qualquer hipótese de ser Presidente da República, uma vez que perde com qualquer outro candidato numa hipotética segunda volta?

A razão para o boletim ter 14 nomes em vez dos 11 que foram aprovados é surpreendente: o boletim foi impresso com demasiada antecedência. Talvez seja a primeira vez que, em Portugal, o Estado faz uma coisa com antecedência, em vez de a deixar para o último minuto. Em lugar de haver boletins a menos, porque só começaram a ser impressos na véspera, há boletins com candidatos a mais, porque foram impressos há semanas. O facto de ambos os métodos merecerem críticas pode deixar o Estado confuso, e até magoado. Faça o que fizer, ninguém aprecia. E por isso pode decidir-se por, para a próxima, não imprimir boletim algum. O que poderá, enfim, merecer elogios, dado haver, ao que parece, um número crescente de pessoas para as quais isto de haver eleições é uma fonte de chatices perfeitamente evitáveis.»


Montenegro 2022 / Montenegro 2025

 


8.1.26

08.01.1969 – Primeira «Conversa em Família» de Marcelo Caetano

 


Há 57 anos, Marcelo Caetano dirigiu a primeira das dezasseis «Conversas» ao país.

Não é por saudosismo, mas para memória histórica, que deixo aqui os vídeos da primeira e da última «Conversa». Esta teve lugar em 28.03.1974, já depois do golpe falhado das Caldas. Ele não sabia – e nós também não – que nunca mais teríamos aqueles cinzentos e sinistros serões na sua companhia.





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Catarina no debate dos 11

 


Eu voto Catarina

 


Sem hesitações nem estados de alma. Mas vejo, com muita tristeza, que muitos amigos e amigas que sempre votaram em candidatos inspirados no Bloco (ou na CDU), se precipitam agora na primeira volta, aparentemente cheios medo, de que não haja uma etiqueta de esquerda em Belém. Porque António José Seguro foi, e será, uma etiqueta. Ou não se lembram do passado? Alguem disse uma vez que «O voto útil é o nome artístico do bloco central» É isso.