24.8.19

Costa na aldeia de Astérix



«Portugal é “uma espécie de aldeia de Astérix da estabilidade”, afirma António Costa na entrevista de hoje ao Expresso. Não é uma mera presunção de oásis, é uma proposta de concentração de votos, por oposição à dispersão eleitoral de outros países. Para o PS, as eleições vão disputar-se à esquerda, o que leva o seu secretário-geral a uma afirmação simples: votem PS, mas se não votarem PS, votem PCP. Costa não tem apenas medo de que o céu de uma crise internacional lhe caia sobre a cabeça, receia uma subida forte do BE. Por isso, descredibiliza-o sem subtilezas. E se desqualifica o BE, nem qualifica a direita: em dez páginas de entrevista, o PSD é nomeado três vezes, o CDS apenas uma. A campanha começou hoje.

Ao contrário de uma entrevista de televisão, que tem mais audiência direta, mais imediatez, é mais rápida e tem menos edição de jornalistas (é, tipicamente, em direto), numa entrevista de jornal há mais tempo para aprofundar, explanar, confrontar. Nos mesmos três anos de mandato em que Marcelo não deu uma só entrevista ao Expresso (por falta de timing? De coragem?), Costa deu três. Todas em agosto. Todas como anúncio político dos seus argumentos para o ano que se seguia. Assim é a entrevista anual publicada hoje: se bem lida, ela revela o essencial de uma argumentação política em vésperas de eleições. Haverá aumentos para a função pública, não há compromissos para pensões; não haverá cedências às carreiras especiais mas os professores terão melhorias na carreira; a economia (não se ria) cresceu em contraciclo com outros países mas, se piorar (não chore), será por causas externas; o camião de investimento público financiado por fundos comunitários suportará o crescimento dos próximos anos, etc.

Mas é no quadro partidário que a entrevista se centra. E se a entrevista ignora, e nisso humilha, a direita, ela é dedicadíssima a elogiar Jerónimo de Sousa e a rebaixar o Bloco de Esquerda.

Se o PCP tem maturidade institucional e é um partido de massas, o Bloco, subentende-se, é um partido com a “angústia de ser notícia todos os dias ao meio-dia”; se o PCP é gente de bem a quem basta apertar a mão, o Bloco, supõe-se, é o contrário disso, diz uma coisa em privado e outra em público, e mais apetece a Costa apertar-lhe o pescoço. Costa não confia nem gosta do BE, que na prática parece qualificar como um partido superficial e populista. É dele que Costa tem medo. Porque, como aqui já foi escrito há algumas semanas, as próximas eleições irão repor o voto útil de uma forma perversa, entre quem, à esquerda, quiser dar mais força ao PS e quem quiser controlar-lhe o poder votando noutros partidos. Segundo as sondagens, é o Bloco que parece estar a capitalizar esse efeito de voto útil à esquerda, de quem não quer dar ao PS uma maioria absoluta. Sim, a maioria absoluta não está entre o PS e o PSD, está entre o PS e o BE. Consciente desse efeito, Costa ataca o Bloco e tenta reencaminhar o voto útil para o PCP.

Não é amor à primeira vista, é acordo político à segunda eleição. A ideia alimentada pelo próprio Jerónimo de Sousa de que a ‘geringonça’ nasceu na noite das eleições em 2015 é uma fábula, pois é evidente que ela já estava pré-negociada entre Jerónimo e Costa antes das eleições, tanto que o Expresso a noticiou em manchete uma semana antes. É especulação mas não é loucura admitir que agora já estará também pré-negociado um acordo entre ambos.

Com um PS fraco e um Bloco forte, há risco de ingovernabilidade e mesmo de formação de Governo, como acontece em Espanha com o Podemos, afirma Costa. É um argumento político de peso, na mesma resposta em que surge a imagem pop da aldeia de Astérix. Costa é o chefe da aldeia, que se passeia no escudo carregado por dois pajens. Um deles, mais baixo, às vezes amua e deixa-o cair. Costa não quer depender deste apoio volúvel: elegeu o Bloco de Esquerda como alvo. O Bloco usará isso a seu favor. E quanto a Rio e a Cristas, é melhor que montem uns campozinhos romanos à volta da aldeia, nem que seja para aparecerem na imagem. E nos boletins de voto.»

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