4.11.07

«A Desilusão (?) de Deus»

Acabou de sair a tradução desta obra de Richard Dawkins (*), sobre a qual deixo aqui algumas brevíssimas considerações.

Começo pelo título. Traduzir delusion por desilusão parece-me, no mínimo, infeliz e enganador. Os espanhóis chamaram-lhe espejismo (talvez miragem em português), já vi franceses que optaram por délire. Até ilusão seria melhor – ou auto-ilusão como o próprio autor sugere (auto-illusion como alternativa a delusion).

Em dez capítulos, são abordados os argumentos a favor e contra o teísmo, as raízes da religião, as suas relações com a moral (no meu entender nos quatro capítulos mais interessantes), a persistência da religião e a promoção do ateísmo.

Confesso que tenho pouca empatia – para não dizer nenhuma – com obras deste cariz, de um ateísmo militante tão prosélito como o dos seus opositores crentes. Mas reconheço que se trata de um trabalho importante, embora pense que as quatrocentas e muitas páginas de darwinismo puro e duro darão sobretudo argumentos e muita informação a quem já está convencido.

Não creio que consigam converter ao evolucionismo os creacionistas convictos que Dawkins quer ajudar: «espíritos livres [que] não precisam senão de um pouco de incentivo para se libertarem completamente do vício da religião» (p. 19).

Tudo leva a crer que o autor pretende atingir sobretudo o público norte-americano. O que não será fácil, quando é o próprio Dawkins a recordar esta extraordinária declaração de George Bush (pai):
«Não, não acho que os ateus devam ser considerados cidadãos, nem que devam ser considerados patriotas. Esta é uma só nação, sob a protecção de Deus» (p. 70)

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(*) Richard Dawkins, A Desilusão de Deus, Casa das Letras, Lisboa, 2007, 468 p.

5 comments:

Raimundo Narciso disse...

Valha-me Nossa Senhora até já o Bush pai dizia coisas dessas?!
Se me não falha a memória o Robert Kenedy, e era um progressista, também estigmatizava (e metia no mesmo saco) assassinos, ladrões, comunistas (e talvez também homosexuais mas destes não tenho a certeza)

Anónimo disse...

Inteiramente de acordo consigo.

Joana Lopes disse...

Raimundo: é assim mesmo. Os americanos não estão com meias medidas.

Augusto: Bem-vindo aos Comentários e obrigada.

Anónimo disse...

O título português é escandalosamente burro e ignorante. Traduzir delusion por desilusão é escandaloso. Mas parece que não foi a tradutora (eram duas, aliás). Foi o editor português que quis impor Desilusão, soava-lhe melhor do que A Ilusão de Deus proposta pela tradutora... É de palmatória.

Miragem é de facto melhor, tal como ilusão, quimera, devaneio, engano, delírio.

Joana Lopes disse...

De facto as editoras impõem títulos porque sabem, ou julgam saber, os que vendem mais. Mas neste caso foi uma parvoíce ou pura ignorância....