6.3.09

Magalhães, o «serial killer»














Para que alguém ou alguma coisa seja assassinado tem de estar vivo, certo? Ora ou me engano muito ou o gosto pela leitura nas escolas já está bem enterrado há umas belas décadas. Quem tem hoje trinta e poucos anos, nunca tocou num computador em salas de aula (cá, no Portugal dos Allgarves, porque «lá fora» já não era bem assim) e, no entanto, é bem possível que seja uma das gerações mais afastadas de livrarias e de bibliotecas.

Vem tudo isto a propósito da entrevista que António Barreto deu à revista LER que traz na capa uma frase que muito gente começou a gabar esta manhã, mesmo antes de ter tido tempo para ir ao quiosque comprar a revista: «O Magalhães é o maior assassino da leitura em Portugal.» Claro que o «sound byte» foi puxado para a capa porque o marketing é quem mais ordena, mas, mesmo devolvido ao contexto, revela que António Barreto tem uma mentalidade anti-tecnológica incorrecta e ineficaz. Ele concede que «todas as pessoas devem aprender a usar essas coisas», mas no fundo, no fundo, sente-se que continua a sonhar com os serões de Vila Real, onde lia ao borralho Steinbeck, Vercors e Júlio Diniz.

Mas esse mundo acabou, com Magalhães ou sem ele. E a criação de hábitos de leitura põe-se num outro plano ou, se se preferir, em paralelo – nunca em concorrência ou estará inevitavelmente votada ao fracasso.

8 comments:

Anónimo disse...

O que mais me incomoda, é o termo certo, nesta posição de António Barreto, bem assim como num artigo de Carlos Fiolhais há uns dias, sobre o copy paste que o magalhaes iria fomentar, é a constatação que para pessoas que eu admirava a lucidez, que o meu filho com o seu sony vaio não leia e/ou faça copy paste não parece haver problema, agora o pobrezinho que vai ter um magalhaes à borla, isso é que não, horror dos horrores, os pobrezinhos a fazerem o que estava reservado aos ricos, valha-nos deus, onde é que isto vai parar.
Eu até poderia ter algumas dúvidas sobre a introdução dos computadores na instrução primária, mas o facto é que eles já lá estão mas só para alguns, e se não fosse o magalhães assim continuaria.
O que me dói é ver pessoas que tinha por tolerantes, democratas, inteligentes, demonizarem a igualdade de acesso a instrumentos que goste-se ou não são cada vez mais indispensáveis.
Lembro-me de quando uma minha colega do liceu ia a minha casa para consultar a enciclopédia, era filha da porteira do lado, não havia dessas coisas na sua casa. Imagino que nesse tempo tb seriam contra algum plano governameental para dar uma enciclopédia a cada estudante.
Fico, realmente, triste.

Joana Lopes disse...

Totalmente de acordo consigo.
Eu nem pretendi aqui «aplaudir», ou deixar de aplaudir,todo o processo de distribuição do Magalhães, mas sim denunicar um certo tipo de obscurantismo que me pareceu ressaltar da entrevista de A. Barreto.

Anónimo disse...

O A.B. corre como um doido atrás da originalidade. Perde imenso tempo a pulir o ego.

JMG disse...

Deveria o Governo dar também um telemóvel aos meninos pobres que não o têm? Também é moderno, também está num "plano paralelo" ao da leitura. Poder-se-ia até arranjar uns aparelhos giros, montados por uma empresa em Alguidares de Baixo e com muitos jogos com erros de Português.

Joana Lopes disse...

Caro JMG, este post não tem nada a ver com dádivas ou não dádivas de Magalhães, mas sim com a convicção de que não é porque as crianças usam computadores que virão a ter menos hábitos de leitura.

JMG disse...

Cara Joana Lopes:
É a sua convicção e tem direito a ela. Eu tenho a convicção oposta. Não sei fazer a demonstração das razões pedagógicas que poderiam suportar a minha convicção. Tenho porém a certeza que se arranjariam ums peritos em pedagogia com a sua e outros tantos com a minha convicção. Há porém uma diferença inescapável: A minha convicção não custa dinheiro aos contribuintes nem financia a concorrência desleal entre empresas.

jpt disse...

a televisão também matou a leitura... e o cinema. e ...

JMG disse...

jpt:
Que eu saiba, não há cinema e televisão nas salas de aula da primária. Se houvesse, ajudava a matar o aprendizado da leitura, tal como o Magalhães.