29.4.14

A resolução da crise entregue ao acaso?



Sem surpresa, discordo globalmente de um texto de opinião de Joaquim Aguiar, hoje publicado no Negócios. Discordo dele há décadas mas nunca deixo de o ler (*). 

Mas realço, colocando no contexto, esta frase lapidar: « se não se rejeitar o que produziu a crise, esta será cada vez mais grave, até que a força do absurdo entregue ao acaso a resolução da crise».

«É natural que se multipliquem os protestos contra a situação. Mas se não se rejeitar o que produziu a crise, esta será cada vez mais grave, até que a força do absurdo entregue ao acaso a resolução da crise. A origem da situação está no sistema político, onde os candidatos seduzem os eleitores com as promessas que lhes apresentam e os eleitores se deixam iludir acreditando que essas promessas são realistas e realizáveis. (...) Os que protestam contra a situação estão, de facto, a protestar contra os candidatos (que seduziram pela ilusão) e contra os eleitores (que se deixaram seduzir pela ilusão).»

Creio que a frase em questão retrata bem o estado de espírito, inconsciente ou não, de uma parte significativa dos portugueses: a esperança de que um providencial acaso venha em breve salvá-los e que a tal força de um absurdo que não entendem ganhe a batalha contra ventos e marés, sem que se sintam obrigados a grandes esforços ou aventuras para nela participarem. Porque nem todos os fados acabam em tragédia e «isto há-de ir». Entretanto, vão protestando e votando (pouco) sem grandes riscos, esmagadoramente nos mesmos, porque «são todos iguais mas ainda assim..». E continuam a jogar na raspadinha. 

 (*) O link pode só funcionar mais tarde.
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