6.7.14

Racismo de hoje e de ontem



Ouvir Vincent Kompany, capitão da equipa da Bélgica no mundial de futebol, ler uma mensagem contra o racismo antes do jogo com a Argentina, acordou em mim memórias que têm décadas e que já referi algumas vezes.

Estudava eu em Lovaina quando os primeiros estudantes do Congo ainda belga (não muitos) frequentavam também a Universidade. Recém-chegada do cinzentíssimo Portugal de Salazar, conheci-os bem e aprendi muito com eles, diria mesmo que fiquei a dever-lhes a verdadeira compreensão do que era então o colonialismo. Talvez por isso nunca tenha esquecido esta espécie de lengalenga que tinham sido obrigados a decorar na escola primária, no coração de uma África tão negra como eles: «Nos ancêtres les gaulois étaient grands et étaient blonds».

Kompany nasceu em Bruxelas, no belíssimo bairro de Uccle, de pai congolês e mãe belga. Se é certo que a imagem de ontem revela, tristemente, que ainda são necessárias mensagens contra o racismo, ela mostra também que o capitão da equipa belga não é branco – realidade certamente inimaginável para os meus amigos, quando, ainda meninos, foram forçados a «orgulhar-se» dos antepassados loiros que nunca tiveram. 
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