9.5.20

Quando pudermos voltar a chorar



«Era maio de 2020, os ténis deixados à porta, agora rotos da corrida intensa em tempo concentrado, simbolizam o “grande confinamento”. Ela apercebeu-se da velocidade vertiginosa da transformação brutal do mundo em 45 dias, a casa transformada num cemitério de recordações do passado, uma civilização extinta onde não era permitido chorar.

Resolveu fazer uma visita virtual ao museu Guggenheim de Veneza, lá está ele sobre o verde trémulo do canal, procura o quadro de Giorgio De Chirico, “A Torre Vermelha”. Mergulhar na sua pintura metafísica, as figuras como vazios misteriosos a carregar consigo um sentimento de solidão e silêncio, meias pessoas meias estátuas, a luz derramada sobre o largo como um raio-X, toda a atmosfera de melancolia e enigma. Não há passado nem futuro, a vida transformada numa abstração indizível, o fim de todos os desejos. Permanece a morbidez do nada, como agora.

A ditadura sanitária do vírus-terrorismo pode matar-nos. A ciência não é unívoca, não temos razões para acreditar cegamente em políticas sanitárias radicalizadas, há muitos outros cientistas a apontar-nos a racionalidade do caminho de conviver com o vírus e combatê-lo. A resposta não está na curva epidemiologista ou no índice de infeção, talvez na combinação regrada e integrada de uma política de saúde com a economia a funcionar, evitando a miséria sem precedentes, uma invencível desigualdade social, a catástrofe económica e social iminente. As dúvida fazem parte desta fase, e não são fonte de medo, de terror mas de escolhas de caminhos lógicos e não absurdos. A tecnologia só por si é a resposta mórbida, até porque uma APP saudável só seria eficaz com 100% da população rastreada, o que faz dela um instrumento estigmatizador. Só uma política humanizada poderá impedir que tudo se transforme em pó, cinza e recordações. Os infecciologistas ponderados afirmam que aprender a viver com o vírus faz parte da nossa condição humana, vamos adaptar-nos a ele e ele a nós, o aumento da infeção será aumento de imunidade, um dia, não o fim do mundo. Combater o vírus e simultaneamente trabalhar, ganhar a vida, ser gente, não são realidades inconciliáveis. A morte continuará a fazer parte da vida e como vimos durante o “grande confinamento” houve mais mortes não-covid, além da imersão verificada de todas as patologias da desigualdade e da pobreza.

O território proibido do jardim ao fim da tarde como extensão dos mistérios daquela pintura, a luminosidade demasiado intensa, as pessoas emolduradas em suspenso numa realidade impenetrável. Está muito calor, miúdas em biquíni e rapazes em tronco nu na relva, um homem a treinar com elásticos presos na árvore, impressionismos ou surrealismos, sempre marcados pela metafísica do nada. Procuramos um futuro aparentemente inatingível.

No dia em que compreendermos que temos que combater o vírus convivendo com ele, sem medo irracional, ficaremos infinitamente fortes, poderemos finalmente chorar, como seres racionais. Isto já não é um problema sanitário, mas de direitos humanos.»

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