3.10.21

Não gosto muito de te ver ao Sol, Leãozinho

 


«Pedro Nuno Santos resolveu dar uma nova vida à bela música de Caetano Veloso, Leãozinho. Não basta chegar-se ao Governo entronizado por Mário Centeno para, de seguida, se continuar a usar a mesma receita de sucesso sine die. Portugal ora tem uma divida escondida, ora tem uma dívida de investimento por fazer. Centeno havia sido perito nessa estratégia: gastar pouco, gastar cada vez menos, não pagar. Em 2015 compreendia-se: precisávamos de nos credibilizar junto das agências de rating. Bom, ok, essa estratégia precisava de uma consolidação. Tempo. E assim se passaram quatro anos até termos chegado ao momento de magia: o superavit orçamental de 2019. Entretanto, surge a pandemia e as contas foram por água abaixo. Agora regressamos à (dura) realidade. Voltaram as cativações e outros esquemas. O Estado não falha no SNS nem nas prestações sociais de apoio covid, mas quanto ao resto, é a discricionariedade habitual das Finanças. E é aqui que entra a CP e Pedro Nuno Santos.

Num país decente, a notícia de que apenas nos dois meses de Verão tinham sido suprimidos dois mil comboios, obrigaria a um abalo político. Isso não acontece porque quem usa os comboios não tem voz na sociedade. A supressão de comboios deveu-se a greves, falta de maquinistas, mas também em 10% por avarias no material circulante. Ora, sabemos que o eterno caos da CP fez mais pela rodovia que o famoso ónus das ""estradas a mais". Só quem não tem mesmo alternativa quotidiana apanha o incerto comboio. Mas há que mudar este paradigma. E isso exige coerência.

O ministro das Infraestruturas disse finalmente esta semana à imprensa o que tem dito dentro do Governo: o faz-de-conta tem de acabar. Porque se a CP continuar a funcionar intermitentemente, então por favor poupem o dinheiro e ofereçam um carro elétrico a cada família. As estradas já cá estão e é capaz de ficar mais barato.

A pergunta, subjacente às críticas de pedro Nuno Santos, é cristalina: pode uma empresa como a CP chegar a Outubro sem o plano de atividade aprovado? As Finanças fazem sistematicamente isto para não se comprometerem porque, quando aprovam, têm de enviar o dinheiro (e mesmo assim, demora, demora...). Mais: ao aprovarem os planos de atividades, dão cobertura legal às despesas. Já se os colocarem durante meses na gaveta, como sucedeu agora, sabem que os administradores ficam bloqueados e sem legitimidade para contratar investimentos.

Ora o método das Finanças tem um preço, ainda que ele não entre diretamente no défice: a produtividade e saúde dos milhares de portugueses que vivem na incerteza do comboio aparecer ou não à hora certa. E isto multiplica-se em tudo o que envolve empresas públicas, ministérios e pagamentos do Estado. Viver por dentro desta sistemática desorçamentação provoca uma frustração permanente - e o presidente da CP decidiu bater com a porta para não continuar entalado pela máquina compressora que é gerir uma empresa dependente do ministro do Terreiro do Paço.

Isto é igualmente verdade nos fundos comunitários. Há associações empresariais que estão à espera de pagamentos devidos em... 2015. Entretanto, chegou a "bazuca", o "Portugal 2030", mas o Governo não agiliza a máquina de candidaturas na economia porque só se foca nas que permitem exibir obra política para 2023.

Dr. Leão, sabemos que não vai ser o senhor, como tecnocrata, a acabar com este faz-de-conta. Mas António Costa tem de tentar a coerência. As cativações, ostracizações e outros "ões" são apenas desorçamentações da realidade. Portanto, paguem o que devem. Limpem o passivo. Há melhor momento que este?»

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