29.1.25

Porque se irrita Moedas com uma boa notícia para Lisboa?

 


«Segundo o Comando Metropolitano, a criminalidade no concelho de Lisboa teve, no ano passado, a segunda maior redução dos últimos dez anos. Caiu 12,6%. Já os crimes graves e violentos diminuíram 10,4%. São os números mais baixos da década, se excetuarmos os anos de pandemia. Apesar de forma menos acentuada, as descidas foram acompanhadas pelo resto da Área Metropolitana.

Não conheço qualquer presidente de Câmara que não celebrasse esta notícia. Na realidade, faria dela o maior alarde possível. Porque a perceção de insegurança tem efeitos nefastos na forma como os cidadãos vivem a cidade e na sua intranquilidade. Porque afeta o turismo, área que o presidente da Câmara de Lisboa parece querer proteger, até com algum excesso. Porque a segurança é uma das mais relevantes vantagens de contexto que o país e Lisboa têm para atrair algum tipo de investimento externo. Vejam como Isaltino Morais tem feito tudo para vender a imagem de serenidade no seu concelho.

Só que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa é Carlos Moedas. E, em vez de celebrar o que ele próprio reconheceu ser uma boa notícia, ficou tão irritado que quase teve uma apoplexia em direto.

Se a PSP diz que o crime diminuiu, Moedas diz que é mais violento. Se a PSP diz que a criminalidade grave e violenta diminuiu, Moedas diz que a forma como é praticada é pior (até diz que nunca antes não havia assaltos com uma faca, mostrando que vive há pouco tempo na cidade). Se a PSP diz que a criminalidade diminuiu no concelho, Moedas diz que aumentou em Santa Maioria Maior. Se a PSP diz que “os dados não correspondem à perceção de insegurança”, Moedas diz que ele vai aos bairros e os conhece, ficando-se com a sensação que acha que a PSP não sabe do que fala.

O resto da intervenção foi digna de um demagogo incendiário, mandando os jornalistas falar com as famílias das mulheres violadas em vez de olharem para números. Acusa outros de politizarem a segurança quando é evidente, até por esta estranhíssima reação a uma boa notícia, que não pretende outra coisa.

Porque está Carlos Moedas tão empenhado em contrariar qualquer dado que diminua a perceção de insegurança, mesmo com sacrifício para os interesses da cidade? Porque sabe que a segurança é um debate mais fácil para a direita. Sabe que tem todos os condimentos emocionais para ofuscar o que lhe pode correr pior. As suas declarações destemperadas procuravam, aliás, uma reação da sua nova opositora, para que ela se estreasse no terreno onde ele quer fazer o combate.

Carlos Moedas quer passar meses a discutir segurança. Assim, não se fala de habitação, do estado da Carris, do lixo... Não se debate o seu mandato. Ontem, como foi notado, a manchete sobre o os números de segurança em Lisboa era acompanhada, na primeira página do DN, por outra notícia: “Tempo de espera para urgentes no Amadora-Sintra chegou às 34 horas”. A estratégia de Moedas tem paternidade: Luís Montenegro. Falamos da insegurança que não aumenta e esquecemos o que está a correr pior.»


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