6.7.25

O herói e a rotunda

 


«Como um doente de malária, Portugal sofre de acessos periódicos: uma febre de desespero que, no seu delírio, lhe evoca invariavelmente a miragem de um redentor. Com o Estado em chagas e a política num pântano, a nação, farta de uma liberdade desordeira, deixa de querer um governante: implora por um Licurgo. É o eterno e patético fantasma sebastianista: a busca por um homem de farda, de queixo firme e — pormenor essencial — de biografia convenientemente curta, que venha finalmente oferecer o mais simples dos pactos – a troca da liberdade, essa tarefa insuportável, pelo alívio da obediência cega. (…)

A Presidência da República é, para um homem de ação, o mais gélido dos mausoléus: a um executor, exige que se torne pregador; a um comandante, oferece um púlpito para homilias. A sua marcha para Belém, agora iniciada, irá reduzi-lo rapidamente à condição de um busto de gesso constitucional — com o dever de inaugurar rotundas e de sorrir para fotografias ao lado de autarcas pressurosos —, forçado a comentar a desgraça em vez de a poder travar, e condenado a presidir, com a dignidade possível, à lenta decomposição do país que um dia fantasiou poder salvar com um golpe de leme. É o mais triste dos fins para um herói: a nota de rodapé na página da história que sonhou escrever em maiúsculas.»


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