«Antes das últimas eleições, o Governo ainda se dedicava ao jogo do namoro duplo, ou à dupla chantagem, em que responsabilizava o PS e o Chega por qualquer chumbo das suas medidas ou aprovação do que não viesse do Executivo ou da bancada da AD, alimentando a narrativa inverosímil de uma aliança entre Pedro Nuno Santos e André Ventura. Eram as “coligações negativas”, um dos mais absurdos conceitos que a política nacional inventou. A AD, que ficara décimas acima do PS e que tinha a mais estreita maioria de Governo de sempre, deveria governar como se tivesse maioria absoluta. O caso Spinumviva, que em tempos de alguma exigência teria destruído a carreira de um primeiro-ministro, permitiu forçar uma crise política, com Montenegro a reforçar a sua posição e Ventura a tornar-se, formalmente, líder da oposição. Depois de meses de “não é não”, que já ninguém sabe exatamente o que quer dizer, as coisas clarificaram-se.
Desde então, todos os momentos legislativos essenciais resultaram de uma aliança estratégica entre a AD e o Chega (a que alguns chamam, com humor, “adega”). Essa aliança começou nos temas em que se supunha ser necessária uma distância higiénica, por envolverem direitos, liberdades e garantias, a resistência ao discurso xenófobo e, como Luís Montenegro afirmou, a definição de “quem somos”. Foi exatamente aí, nas leis de estrangeiros e da nacionalidade, que a AD estreitou de forma mais intensa e perfeita a sua aliança dissimulada com a extrema-direita. Se não há cordão sanitário nisto, ele não faz sentido em mais nada. Mesmo nestes casos, ou sobretudo neles, José Luís Carneiro tentou aproximar posições com Luís Montenegro e até com a sua versão cada vez mais radicalizada, que é António Leitão Amaro. Sempre sem resultado, porque o PSD quer mesmo é negociar com o Chega. Como escreveu Paulo Baldaia, o “PS pensa que está num ménage à trois e acaba sempre por descobrir que é apenas o pau de cabeleira”.
Não foi apenas (e não seria pouco) nestas questões mais sensíveis que se construiu uma aliança estratégica entre a AD e o Chega. Aconteceu na política fiscal e da habitação. Acontecerá, provavelmente, numa nova Lei de Bases da Saúde. Mais à frente, na Segurança Social. E vai acontecer na contrarreforma laboral, onde as cedências que a ministra finge fazer à UGT são aproximações aos pontos que o Chega contestou. É assim que a extrema-direita voltará a exibir a sua função de sempre: enquanto nos entretém com burcas e Bangladesh, serve para o Governo passar por cima dos sindicatos, saltando da concertação social para o Parlamento. O protesto mais vocal do Chega é, aliás, contra as greves. Representa a “revolta” do povo para ter o povo mansinho. Em tudo o que é estrutural Montenegro tem uma aliança de ferro com Ventura, que disfarça com umas escaramuças parlamentares inconsequentes. Deixa para o PS o dever de viabilizar o Orçamento do Estado (OE) para que o Chega possa ser oposição por um dia, berrando contra o sistema enquanto lhe dá a mão. Quem tinha dúvidas de que o “não é não” morreu (se é que alguma vez existiu) que olhe para Sintra, a segunda e mais multicultural autarquia, onde a AD ofereceu ao Chega o pelouro da segurança. Uma aliança com o beneplácito de Montenegro, que na campanha disse que o debate sobre as relações com o Chega era “politiquês”. Em Lisboa foi mais sonso e brutal, à Moedas: o Chega aprovou uma transferência tal de poderes para o presidente que ele fica livre de qualquer escrutínio. É tal a subserviência que os seus vereadores aprovaram um regimento que os silencia.
Primeiro, a direita normalizou a extrema-direita, garantindo que é para ela, e não para qualquer alternativa de poder ou oposição consequente, que vai o voto descontente. Agora, usa os representantes desse descontentamento para governar. Ao PS deixa a degradante tarefa de, uma vez por ano, pedir desculpa por existir, viabilizando um OE que resulta das grandes opções que a AD fez com o Chega. E este jogo cínico é suportado pela generalidade do comentário político, que continua a fingir que ainda existe um centro que converge para a estabilidade na alternância. Apenas contribuem para o esvaziamento desse centro. Todas as escolhas que Montenegro fez são legítimas. Ilegítimo é continuarem a vender-nos uma mentira. Há uma maioria estratégica de direita que na imigração, na fiscalidade, na habitação, na saúde ou no trabalho garante ao Governo a aplicação das suas políticas. Essa maioria que faz um intervalo durante a votação do Orçamento para que o Chega finja que é oposição e o PS mostre que não o consegue ser.»

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