«O dado mais revelador da sondagem que revelou o Expresso está na idade. Entre os jovens adultos portugueses, André Ventura ultrapassa todos os outros candidatos somados, e o fenómeno repete-se nas democracias à nossa volta. Em Espanha, um em cada quatro jovens considera que um regime autoritário pode, em certas circunstâncias, servir melhor do que a democracia. A Europa assiste, com uma serenidade que talvez devesse inquietar, ao nascimento de uma geração criada na ideia de liberdade e que, ainda assim, olha para as instituições com o cansaço precoce de quem sente que a vida ficou aquém do prometido.
Os sinais acumulam-se há anos, mas a política tratou esta fadiga como uma irritação passageira. Para milhares de jovens, a realidade foi outra: salários que não acompanham o custo de existir, casas que se transformaram num luxo, carreiras que se confundem com estágios sem horizonte, serviços públicos que falham exatamente nos momentos em que deviam proteger. A democracia, neste quadro, deixou de ser o espaço da construção para se tornar o cenário da espera por melhorias, por estabilidade, por um futuro que tarda. E, enquanto espera, a juventude procura um pulso que lhe devolva a sensação de que alguém está a agarrar o país com firmeza suficiente para romper a imobilidade. É neste intervalo, entre a lentidão da política e a urgência da vida, que os discursos radicais encontram tracção.
A erosão da memória ajuda a explicar o resto. Portugal habituou-se a tratar o passado como superfície limpa, sem as rugosidades que definem uma ditadura. A censura, a polícia política, a ausência de eleições livres, deslizaram para o território das notas de rodapé. E basta um pequeno exercício para perceber a distância: 1985 está hoje tão longe quanto 1945 estava em 1985. Para a geração que agora vota, a liberdade foi herdada como cenário garantido; só que, quando a memória perde textura, o presente torna-se mais vulnerável à fantasia de uma ordem que nunca existiu, mas que se imagina suficiente para resolver tudo o que falhou entretanto.
Nas redes sociais, multiplicam-se narrativas que recuperam figuras e regimes sem qualquer ligação viva com a sua realidade histórica. No nosso país vizinho, a imagem de Franco reaparece com a desenvoltura de um D. Sebastião digital, convocado por influenciadores que o descrevem como administrador prudente e patriota competente, apesar de nunca terem vivido um único dia sob o seu regime. Em Portugal, a palavra ordem, por contraposição à “bandalheira dos últimos cinquenta anos” (alguém pediu já a Ventura que esclareça exactamente o que quer dizer com isto?), percorre o mesmo circuito emocional, esvaziada de contexto, convertida num símbolo de eficiência e autoridade que o passado nunca ofereceu. Não é que a história esteja a regressar. A explicação do fenómeno acaba na projeção de um desejo. Uma versão simplificada de um tempo que, por não ser lembrado, se permite reimaginar.
O resultado está à vista. Uma parte da juventude aproxima-se da direita radical porque procura um ritmo político que corresponda ao ritmo da vida. Procura clareza num país que perdeu a capacidade de a oferecer. Procura, acima de tudo, a sensação de que é possível mudar alguma coisa. E depressa. A questão que se coloca à democracia, mais do que compreender os factores da desilusão, é a de saber se ainda tem meios para a contrariar antes que a impaciência se transforme num programa de poder eleito. É que as democracias envelhecem quando deixam de produzir sentido, quando delegam no passado a tarefa de justificar o presente. E é precisamente nesse intervalo que uma geração inteira começa a procurar, noutros lugares, a clareza que já não encontra aqui. O risco é que os jovens deixem de encontrar na liberdade uma promessa que lhes fale ao ritmo dos dias.
O resto, quando acontecer, será apenas consequência.»

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