4.9.07

Pesquisas brasileiras

Quem tem blogues e percorre um qualquer sitemeter, sabe que o número de pesquisas googlianas feitas a partir do Brasil cresce exponencialmente.

Há verdadeiras ideias fixas. Não há dia em que não cheguem a este blogue à procura de «Hiroshima e Nagasaki» e, sobretudo, de «animais africanos». É uma verdadeira obsessão.

Mas as mais curiosas são as perguntas do tipo «o que devo pensar sobre o mundo».


Hoje alguém tentou saber tudo sobre:
«assim sob qualquer ângulo que se está a considerar a situação»

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3.9.07

São dez, podiam ser muitos mais

Correspondendo ao convite do Rui Bebiano, aqui vai a lista de dez livros que não mudaram em nada a minha vida.

Para variar e para evitar repetições sistemáticas, restrinjo-me a autores portugueses.

* José Saramago, As Pequenas Memórias (2006) e alguns outros do mesmo autor.
* António Lobo Antunes, Eu Hei-de Amar uma Pedra (2004) e muitos outros do mesmo autor.
* Álvaro Cunhal, Rumo à Vitória (1964) e todos os outros do mesmo autor.
* Zita Seabra, Foi Assim (2007).
* Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas (1851), por ser leitura liceal obrigatória e prematura.
* Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868), pela mesma razão.
* Miguel Torga, Bichos (1940).
* Lídia Jorge, Combateremos a Sombra (2007).
* Inês Pedrosa, Fazes-me Falta (2002), porque nunca me faz falta ler esta autora.
* António Damásio, O Erro de Descartes (1994).

E que haja mais cinco a continuar a cadeia:
Fernando Redondo, Raimundo Narciso, Cristina, Carlos Almeida e Ana Cláudia Vicente.

É a «rentrée» em todo o seu esplendor...


2.9.07

O tempo das grisalhas

Nos Estados Unidos, a causa feminista comprou uma nova batalha – as mulheres devem assumir os cabelos brancos. Grisalhas ao ataque parece ser uma das recentes palavras de ordem das baby boomers que, entretanto, já chegaram à casa dos 50’s.

A Time acaba de publicar um artigo sobre o assunto: The War Over Going Gray.

Se é verdade que as mulheres vão atingindo lugares de topo nas diversas instâncias, públicas ou empresariais, aparentemente continua a ser inaceitável que não tentem parecer eternamente jovens. E, nesse contexto, os cabelos podem ser escuros, encarniçados ou louros – mas nem brancos, nem grisalhos.

A autora do artigo recolhe vários testemunhos. Há quem afirme categoricamente que pintar o cabelo é indispensável para subir na carreira. Uma obstetra explica que as pessoas gostam de médicos com maturidade mas de aspecto convencional; que os seus colegas homens são mais respeitados quando grisalhos, mas que as mulheres ficam com um ar considerado «alternativo».

É verdade que o hábito de pintar cabelos vem da Antiguidade, mas a sua massificação, nos Estados Unidos, data apenas da década de 50 do século XX. Até aí, quem o fazia era considerada «aventureira».

Vai-se instalando agora a tendência inversa, por uma questão de princípio – uma nova forma de afirmação de poder por parte das mulheres. E, neste momento, já se vê muitas mais com o cabelo grisalho ou branco do que há alguns anos.

Sem considerar que se trate de uma questão de primeira importância (ou fracturante...), acho-a pertinente. Por que razão é que metade da humanidade se sente forçada a fingir o que não é (mais nova, neste caso) para competir com a outra metade? Claro que cada um pode – e deve – adoptar o visual com que se sente melhor, tendo em conta os seus próprios gostos e condicionalismos pessoais. Mas para competir com o sexo oposto? Ou para o «conquistar»? Até quando?

Por outro lado, como se vai vivendo cada vez até mais tarde, talvez seja tempo de ganhar algum sentido do ridículo. Cabeças negras, ruivas ou louríssimas em corpos que por cá andam há demasiadas décadas é contra-natura e chega por vezes a ser um pouco obsceno...

Há também homens que pintam o cabelo? Certamente, nomeadamente no mundo do espectáculo. Mas, de um modo geral, troça-se dos outros que o fazem. Se Cavaco ou Sócrates aparecessem amanhã sem cãs seriam abertura de telejornais durante vinte minutos. (Aliás, admira-me que Vítor Constâncio escape ao gozo.)

Quanto a mim, estou na crista da onda: sem ter qualquer conhecimento destas movimentações feministo-americanas, assumi a minha cabeleira totalmente branca há dois ou três meses. E sinto-me bem. Às vezes acerta-se...



Os políticos que compramos


Daniel Sampaio na Púbica de hoje:

«Os nossos dirigentes repetem frases ditadas pelos conselheiros de imagem, onde as emoções são escondidas (...) e as promessas são feitas em estilo sincopado (...).

Os resultados estão à vista: as "qualidades" vendidas como decisivas para o êxito e repetidas até à exaustão para convencer eleitores desprevenidos, acabam por se virar contra os próprios (...).

Na realidade não conhecemos a personalidade dos nossos políticos, nem sabemos bem as suas ideias: mostram o que lhes recomendam, escondem quem são. O problema é que a verdade vem sempre ao de cima (...).»

1.9.07

Canções na memória (XIII)



Old Friends / Bookends (Simon & Garfunkel, 1968)

Old friends
Sat on their park bench
Like bookends.
A newspaper blown though the grass
Falls on the round toes
Of the high shoes
Of the old friends.

Old friends,
Winter companions,
The old men
Lost in their overcoats,
Waiting for the sunset.
The sounds of the city,
Sifting through trees,
Settle like dust
On the shoulders
Of the old friends.

Can you imagine us
Years from today,
Sharing a park bench quietly?
How terribly strange
To be seventy.
Old friends,
Memory brushes the same years
Silently sharing the same fears

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Time it was,
And what a time it was,
It was,
A time of innocence,
A time of confidences.

Long ago,
It must be
I have a photograph,
Preserve your memories,
They're all that's left you.



31.8.07

Futuro impressionista

Claude Monet - Impression, soleil levant

«De que é que Portugal precisa mais?
Rigor e organização do trabalho. Portugal vive numa atitude relativamente impressionista face ao futuro»,

afirmou Seixas da Costa, embaixador de Portugal no Brasil, ao DE.

É uma excelente imagem. Não planificamos a sério. Contentamo-nos, normalmente, com umas tantas pinceladas, com belos efeitos, de contornos pouco nítidos – e que «seja o que Deus quiser» (*).
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(*) Que fique claro: gosto muito da pintura impressionista!


30.8.07

Júdice – Vocação: Mandatário


Em entrevista ao Diário Económico de hoje, José Liguel Júdice responde a António José Teixeira:

«Está de regresso à política, depois de ter sido mandatário de António Costa?
Não. Tenho uma enorme experiência como mandatário… Creio mesmo que vou formar uma sociedade especializada! Já fui mandatário de Durão Barroso, Maria José Nogueira Pinto e de António Costa, candidatos de três partidos diferentes, o que me garante uma grande abrangência. Se ficar no ‘mercado’ não sei se no futuro não vou querer ser mandatário de um candidato do PCP ou do BE…»


E mais adiante:

«Como é que se define politicamente?
Em matéria política vou ao supermercado e compro o que me apetece. Não aceito menu, não gosto de comer ementa única. Sou muito contraditório, como a maior parte dos portugueses.»


Ficamos entendidos. E aconselha-se consulta à DECO: é que há supermercados mais baratos do que outros.

29.8.07

Em jeito de homenagem a New Orleans

No 2º aniversário da passagem do furacão Katrina


Louis Armstrong
Colocado por alternativa
When The Saints Go Marching In (Louis Armstrong, 1959)



28.8.07

Bananas e Plátanos (2)

Um dos maiores fascínios da blogosfera é atirar-nos para divagações nunca antes imaginadas. Quem me diria que eu viria a escrever, uma linha que fosse, sobre diferenças entre bananas e plátanos!

E, no entanto, vi-me envolvida numa simpática cavaqueira que já envolveu, entre posts e comentários, pelo menos sete textos (este será o oitavo...) de Um,Dois,Três,Quatro blogues!

Toalha ao chão da minha parte. Só quis dizer que no Panamá, numa pequena empresa de exportação de bananas, me explicaram que, ao contrário do que sucede na Europa, na América Latina são usadas as duas expressões – pelos hispânicos e pelos brasileiros. Neologismos, talvez, mas não tenho nada contra.

Portanto, para concluir e para satisfazer toda a gente, concedo que, do outro lado do Atlântico, comi bananas (cruas) e plátanos (fritos). Cá só como bananas.

SIC N, Jornal das Nove


O novo estilo de Mário Crespo quando entrevista alguns dos seus convidados


26.8.07

As cartas de Madre Teresa

A revista Time publicou há dois dias um longo artigo sobre um conjunto de textos de Madre Teresa de Calcutá (MTC), agora reunidos em livro que será lançado no dia 6 de Setembro, nos Estados Unidos: Mother Teresa: Come Be My Light.

Trata-se de cartas que a religiosa escreveu a superiores e a confessores e nas quais relata como, ao longo dos últimos cinquenta anos da sua vida, viveu praticamente sempre em profunda crise de fé, indo ao ponto de pôr em causa a própria existência de Deus.

São já conhecidos muitos excertos desses textos. Alguns exemplos:
«É tão dolorosa esta dor desconhecida – não tenho qualquer fé.»
«Quanto a mim, o silêncio e o vazio são tão grandes que olho e não vejo, escuto e não oiço.»
«Às vezes, sinto a terrível perda de Deus. Sinto que Deus não é Deus e que ele não existe realmente.»
«O sorriso é uma máscara ou um manto que cobre tudo.»


Porta-vozes da Igreja já vieram dizer que nada disto fará parar o processo de canonização de MTC – nada de extraordinário.

O que me choca – e muito – é saber-se que MTC sempre desejou que estes seus estados de alma se mantivessem secretos e que, publicamente, nunca deixou de dar testemunho de uma fé inabalável, nomeadamente no discurso que proferiu quando recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1979. Mais: ela pediu expressamente que estas cartas fossem destruídas. Tinha ou não direito a que este seu desejo fosse respeitado?

O reverendo Brian Kolodiejchuk, que tem a missão de reunir elementos a favor da canonização, considera que estes textos são importantes porque reforçam a evidência do espírito de sacrifício a favor dos mais desfavorecidos (mesmo sem o «conforto» da fé). E dá esta justificação extraordinária que pode ser ouvida no pequeno vídeo da BBC que insiro no fim deste post:

«As vidas dos santos são pessoais mas não são privadas»
.

Vale tudo. O marketing do livro está feito. Só falta que o seu lançamento aconteça no Second Life, com autógrafos de um avatar de MTC.