2.12.09

That's the difference

Este país não existe



















«O espírito empreendedor e "prà-frentex" dos portugueses nunca deixará de me surpreender.
Anuncia o jornal "i" que uma tal Agência Piaget para o Desenvolvimento tem em curso um "Projecto Check-!n" que se propõe evitar que os "junkies" lusos consumam drogas degeneradas.
Assim, se você, leitor consumidor de drogas, tiver dúvidas sobre a honestidade do seu "dealer" e desconfiar que o ecstasy que ele lhe vendeu está marado, só tem que mandar uma amostra para a Agência Piaget (gosto da ideia de meter Piaget no negócio epistemológico da transparência no mundo da droga) que, de imediato, submeterá o produto a Cromatografia de Camada Fina e o esclarecerá se a coisa vem com o princípio activo recomendado (o MDMA) ou, pelo contrário, com m-ccp, "que provoca mal-estar generalizado e dores de cabeça".
Eu que, quanto a drogas, me fico pelo Telejornal da RTP, que habitualmente me provoca "mal-estar generalizado e dores de cabeça", estou a pensar enviar à Agência Piaget amostras de umas notícias de abertura para apurar até que ponto ando a consumir informação ou algum princípio activo (ou fim activo) suspeito.»

Manuel António Pina, no JN de hoje (na íntegra porque o link só funciona durante 24 horas).

Se fosse assim tão fácil - ou se o ridículo matasse, como preferirem

1.12.09

E o balão já tão longe



Interrompo os relatos sobre as desgraças birmanesas, já que hoje é dia de festa (...), para recordar que eu fui fazer turismo! Um dos pontos altos da viagem foi certamente um passeio de balão, em Bagan. Esplendoroso o nascer do Sol e o silêncio, magnífica a vista de milhares de pagodes budistas (terão chegado a ser mais de 4.400), implantados numa área equivalente à da ilha de Manhattan.


Em 1975, a cidade foi arrasada por um fortíssimo tremor de terra, muitos monumentos tiveram de ser recuperados e outros estão ainda em ruínas. A UNESCO colaborou na reconstrução durante alguns anos, mas acabou por abandonar o projecto quando o governo birmanês se intrometeu, com verdadeiras barbaridades. Um exemplo: este chão…

Restaurados continuamos
















Nem sei se os portugueses deixaram de ir a Espanha no 5 de Outubro e no 1º de Dezembro – feriados que nuestros hermanos sempre teimaram em não festejar -, mas julgo que não e que se ouvirá muito portinhol por estas dias na Sierra Nevada.

Há umas décadas era uma espécie de peregrinação. A meio da semana só dava para atravessar a fronteira do Caia (com passaporte, claro, e autorização do marido e/ou do Ministério de que se dependia) e ir até Badajoz, então pouco mais que uma vila à qual Elvas podia quase pedir meças. Regressava-se com quilos de caramelos (Solano, sim), cintos, porta-moedas e brinquedos para o Natal.

Quando, como este ano, dava para fim-de-semana alargado, quem podia «esticava» até Madrid, com paragem obrigatória em Talavera de la Reina, seguida de um festival de portugueses nas escadas dos Preciados. Era o consumismo possível - só para alguns, muito poucos, é certo.

Mas se nos dissessem então que, em 2009, um rei de Espanha viria festejar o 1º de Dezembro em Portugal, numa espécie de palácio de barbies ou casino rasca de Las Vegas (porque o Estoril-Sol era feio?...), esfregaríamos os olhos para tentar acreditar. Enfim, espero que pelo menos tenha trazido caramelos – mas El Triunfo, que são bem melhores.

30.11.09

A linguagem que não engana



Estes e outros «princípios», num jornal distribuído numa das viagens de avião que fiz na Birmânia. Quem tiver lido o que aqui escrevi ontem não estranhará certamente o fraseado típico de todas as ditaduras.

Elucidativos também «os objectivos» abaixo enunciados (clicar na imagem para ler). Num país em que a esmagadora maioria da população é paupérrima, são especialmente chocantes os «Quatro objectivos sociais»:
* Elevar o moral e a moralidade de toda a nação.
* Elevar o prestígio nacional e a integridade, a preservação e a defesa da herança cultural e do carácter nacional.
* Elevar o dinamismo do espírito patriótico.
* Elevar os níveis de saúde, aptidões e educação de toda a nação.

Só um exemplo para se medir como estas afirmações são escandalosas: numa longa viagem de avião, um amigo meu veio a conversar com um médico inglês, já reformado, que regressava de três semanas de voluntariado na Birmânia, chocadíssimo com o número de povoações sem qualquer tipo de assistência médica disponível a uma distância de utilização viável. E nas cidades onde existem hospitais públicos, os médicos forçam sistematicamente os doentes a transitarem para os seus consultórios privados.

É a corrupção generalizada, neste domínio como em muitos outros: por exemplo, só se consegue um passaporte ou um cartão de telemóvel praticamente pelo dobro do preço oficial. Como no resto do mundo? Não: aqui joga-se num outro campeonato.

Mas é a fé que remove montanhas…

A propósito da crise do Dubai e não só














Carlos Santos em A Regra do Jogo:

«A solidariedade existente nos EAU é um factor de vergonha para a ditadura do PEC e do BCE na UEM. A Irlanda sofreu uma crise descomunal em 2008, expondo todos os erros de um modelo económico que muitos queriam importar para Portugal, Nem a UE, nem o BCE foram particularmente generosos com a Irlanda. (…)
É nestas questões, e não no circo, como o desempenho do futebol português na Europa, ou na eleição de Ronaldo como o melhor do mundo, que se vê que há filhos e enteados para a UE. E isso é assassino para a sua credibilidade. Parece que enquanto houver dinheiro para a Champions League, está tudo bem...»


P.S. – Tenho deixado passar a oportunidade de saudar A Regra do Jogo, um blogue politicamente alinhado com o qual discordo em muito, mas que se destaca pela qualidade e pela serenidade com que os assuntos são abordados.

29.11.09

Agendas trocadas


















Quando ontem cheguei a Portugal, percebi que Vasco Lourenço e Cavaco Silva andavam a trocar recados sobre a ausência do presidente da República na homenagem a Melo Antunes, realizada na Fundação Gulbenkian. O primeiro lamentava que o segundo tivesse recusado presidir ao Colóquio, o segundo veio referir dificuldades de agenda e explicar que a culpa era da comissão organizadora chefiada pelo primeiro. Adiante: estiveram na Gulbenkian os três (ex-)PR's que tiveram algo a ver com Melo Antunes.

Pouco sei do que se passou durante os dois dias, mas também deve ter havido por lá recados e agendas trocadas. Mas seria capaz de apostar que ninguém disse o que Mª Manuela Cruzeiro escreveu uns dias antes:
«Revisitá-lo a estes anos de distância é cada vez mais um acto de resistência: resistência, antes de tudo, ao esquecimento, à amnésia e à reescrita da história. Resistência à quietude endémica e passiva, ao pântano moral e cívico em que vivemos. Resistência a um país de espinha partida e de mentalidade medíocre, sem dignidade, sem projecto nem ambição, por mais que o negue a nova geração de “pragmáticos” que nos governa.»

(M.M.Cruzeiro é autora deste livro)

Um país parado e sem esperança















Dez dias de turismo são menos do que pouco para conhecer seja o que for, mas o suficiente para se perceber que, na Birmânia, se está perante um caso especial.

Ao contrário do que acontece em países vizinhos como o Vietname, o Cambodja ou o Laos, a ditadura aqui nem sequer é ditada por uma qualquer ideologia, mas reduz-se pura e simplesmente a um poder férreo de militares sobre 56 milhões de pessoas, tendo como único objectivo o seu próprio enriquecimento e o luxo em que vivem as famílias e os respectivos amigos - à custa de uma corrupção generalizada e sem vergonha, enquanto a esmagadora maioria do povo vive num estado de pobreza extrema, visível em todos os detalhes, sem empregos, em cidades mais do que degradadas e desordenadas, onde nem sequer se vêem os enxames de motoretas já célebres no Sudoeste asiático porque uma simples bicicleta é quase um luxo. Tudo isto num país riquíssimo em recursos naturais (gás, madeiras de várias espécies, pedras preciosas de primeira qualidade, etc., etc.) que são vendidos para todo o mundo porque é evidente que o boicote dos Estados não atinge as algibeiras dos comerciantes.

Em 2005, a capital política passou a ser Nay Pyi Taw, onde está a ser construído um misterioso conjunto de túneis com a ajuda da Coreia do Norte (um dos três grandes amigos do país, juntamente com a China e com a Rússia). A sua utilização futura dá lugar a um sem número de especulações.

Haverá eleições em 2010, mas ninguém parece ter qualquer tipo de esperança quanto ao desfecho das mesmas. Mesmo que viessem a libertar Aung San Suu Kyi («a senhora», como é sempre carinhosamente referida), antes da data prevista e a tempo de concorrer, e mesmo na hipótese praticamente absurda de ela as vencer, nunca poderia vir a estar à frente do país, já que a constituição foi alterada e obriga agora a que o chefe supremo da nação seja um militar. Ninguém se atreve a prever quando e como será o fim de um regime terrível que dura desde 1988 e que oprime milhões de pessoas que exibem um misto de resignação, grande dignidade e amabilidade fora do comum.

Tudo isto feito «em nome» do budismo que os políticos dizem professar e protegem de facto, que mais não seja porque a conservação dos pagodes (templos e estupas) parece ser a única realidade digna de atenção – e de dinheiro. Falarei disso mais tarde.

28.11.09

Agora é que não tenho qualquer espécie de dúvida

Já aterrei, já estou no meu país.

Ainda em regresso lento


Este blogue esteve a descansar durante dez dias porque os senhores que mandam na Birmânia barraram o acesso à plataforma em que ele funciona – será de facto, como já tinha lido, «o pior sítio para se ser blogger»…

Em termos de correio electrónico, não há qualquer hipótese de aceder ao Yahoo ou ao Hotmail. Quanto ao Gmail, tudo passa obrigatoriamente por um servidor local (através de um url modificado). O que se passa nesse servidor não sei, mas dizem-me que alguns dos meus mails chegavam cá com aparência estranha - por exemplo com manchas amarelas no texto!

Devo dizer que estes foram os únicos sinais ditatoriais que senti como turista em dez dias de Birmânia, mas vi muitos mais. Irei contando porque me impressionou muito este país – parado, onde não se sente esperança.