12.10.12

Nobel da Paz?



Ontem, estive umas horas longe de TVs e da net e, quando regressei a casa, percebi que tinha sido vítima de um «napalm fiscal». 

Há pouco, li que o Nobel da Paz 2012 foi atribuído à União Europeia. Durante uns segundos, julguei tratar-se de um título do Inimigo Público ou da Imprensa Falsa, mas as fontes contradizem-me: o discurso feito em Oslo está disponível num site oficial, que não me parece ter sido objecto de ataques de hackers. 

Comentários? Já li entretanto umas dezenas, mas escolho este deixado por um leitor de El País: «Merece: está a destruir-se sem uma bomba, sem um tiro, sem um tanque, pacificamente, mas com efectividade máxima.»  

Para já, é tudo. Good morning and good luck, camaradas! 
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Nous sommes tous des portugais





José Gusmão, 1:30 de hoje, no Facebook: 

«Não me está a apetecer contar os muitos detalhes tristes desta noite, mas partilho convosco um belo momento: quando eu e o Ricardo Sá Ferreira estávamos à espera no autocarro para sair da prisão, um polícia entrou no autocarro e disse que "os portugueses ficam!". Toda a gente (nós os dois incluídos) pensou que isso queria dizer que continuávamos detidos (na realidade, saímos a pé). Mas nesse momento, quando o polícia perguntou "há portugueses aqui?", levantaram-se uns 20 braços de gente a dizer "je suis portugais, je suis portugais!". E alguém disse a frase inevitável: "Nous sommes tous des portugais". Nem tudo está podre no reino da Europa...» 
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11.10.12

IRS


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Miss Povo 2012



Mais um texto de Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje. Impagável, como (quase) sempre.

«Quando o ministro das Finanças anunciou que o povo português era o melhor do mundo, vários cidadãos caíram nos braços uns dos outros a chorar. (...) Suecos, americanos, alemães, franceses e todos os outros povos do mundo ficaram a saber que têm de se esforçar um pouco mais. (...) 

Do ponto de vista económico, fazem todo o sentido os incentivos do Governo à emigração: qualquer país procura exportar o seu maior activo. Quando se diz que Portugal não é forte na produção de bens transaccionáveis, tal não é verdade. Produzimos povo muito bom (o melhor do mundo, aliás) e exportamo-lo cada vez mais.» 

Na íntegra AQUI.
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Roma, 11/10/1962 – Um Concílio



O Vaticano II teve início exactamente há 50 anos e durou cerca de três. Hoje, a imprensa mundial assinala o facto com relatos, testemunhos e apreciações.

Por vários motivos e em diversas instâncias, já escrevi sobre esta importantíssima fase da Igreja católica, que vivi intensamente, e participei num debate sobre o tema há cerca de um ano. Retomo muito resumidamente algo do que penso.

A grande esperança que o Concílio trouxe ao mundo católico foi que se estivesse a viver o início de uma nova era em que a primazia do «povo de Deus» vencesse a rigidez de uma estrutura hierárquica, rígida e esclerosada, onde tudo chegava do topo à base em perfeita harmonia, por uma correia de transmissão sem falhas nem desobediências. Ou, por outras palavras em que melhor nos entendemos, para a que a Igreja se tornasse uma instituição verdadeiramente «democrática».

Com a ajuda das características pessoais do «bom papa» João XXIII, e com as pressões de teólogos altamente qualificados, quase tudo foi posto em causa e, a páginas tantas, era de crer que não ficaria pedra sobre pedra: desde contestação de dogmas nunca vista, a modos de actuação com séculos de existência. Esses teólogos (entre os quais Ratzinger, o actual papa…) agruparam-se numa revista internacional de teologia – a Concilium – cuja versão portuguesa foi editada pela Moraes e que teve um papel decisivo, primeiro para a dita esperança e bem depressa para a grande desilusão de muitos que rapidamente bateram com a porta (entre os quais eu própria). 

Em 1966, João Bénard da Costa escreveu um texto que, durante muito tempo, foi uma referência do que acabo de dizer, reflectindo ainda a fase da esperança mas já com uma grande carga de dúvidas: «A Igreja e o fim dos constantinismos». Foi publicado em O Tempo e o Modo (nº 37, Abril de 1966), embora tenha sido preparado precisamente para uma das sessões ligadas à revista Concilium e está online para os mais curiosos. Nele é citado Hans Küng, precisamente a propósito dessa era pós-conciliar: «Será a realização de uma grande esperança ou será uma grande decepção. A realização duma pequena esperança – dada a gravidade da situação mundial e as necessidades da cristandade – seria uma decepção». E foi. 

Para mim, é desde então absolutamente claro o que em tempos resumi simplisticamente neste termos: «Com a distância que o tempo cria, parece hoje evidente que o Concílio não desiludiu por acaso ou por engano. O que se passou foi que a Igreja, ao mais alto nível, recuou, num sábio exercício de sobrevivência. A pesada pirâmide sobreviveu a um terramoto – abanou, mas não ruiu. A grande diferença em relação ao que se passou muito mais tarde numa outra pirâmide, a da União Soviética, foi que a Igreja resistiu quando percebeu que estava ameaçada. Durante o Concílio, também ela arriscou uma glasnost, uma abertura à sua maneira. Iniciou então um tímido aggiornamento, mas travou-o a tempo de não deixar que ele se transformasse em perestroika. Por isso se deu a debandada de muitos, com maiores ou menores angústias existenciais. A estrutura não cedeu – cederam eles.»

Ratzinger, o actual Bento XVI, foi um dos que mais rapidamente percebeu tudo isto e que tomou em mão, com outros, as rédeas do recuo. Talvez para evitar uma implosão. E assim chegou a papa. 
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A Europa revolta-se?



Através da ATTAC Andaluzia, cheguei a mais um importante texto de Vicenç Navarro : Rebelión en Europa contra el neoliberalismo. 

Dois excertos: 

«Como era de esperar, as classes desses países [onde estão presentes troikas] estão a revoltar-se contra políticas que, na sua grande maioria, estão a ser impostas ao público sem um mandato popular, já que não faziam parte do programa eleitoral dos partidos que estão no poder. Daí que a legitimidade de governos e instituições que regem a zona euro e a União Europeia sejam cada vez mais posta em causa. A atracção pela Europa, que era generalizada nos países do Sul (a maioria tinha sofrido ditaduras fascistas ou fascistóides durante muitos anos), está a desaparecer muito rapidamente. E até a conveniência do euro como moeda comum está a ser questionada. Várias sondagens, que têm aparecido nos principais meios de comunicação europeus, mostram que uma percentagem da população, que vai crescendo de ano para ano, considera que a entrada no euro é responsável pela perda de poder de compra. (...)

O que há a fazer é parar o endividamento, renegociando uma dívida que tem beneficiado a banca e os seus acionistas e ninguém mais. Não se pode avançar com um sistema financeiro que funciona para tão poucos, à custa do sacrifício de tantos. A banca privada perdeu a sua função social, que é fornecer crédito e, se não o faz, a sua existência não tem lógica. A dimensão do sector financeiro numa economia deve ser substancialmente reduzida, através de uma série de medidas que incluam uma carga tributária muito maior para a banca (sem afectar as poupanças dos cidadãos comuns), incidindo sobretudo nos grande depósitos e transações e nas atividades especulativas. » 

Na íntegra AQUI.
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10.10.12

Sensação de déjà vu



«Podem e devem fazer-se esses sacrifícios?
Eu reputo-os imprescindíveis; direi mais, eles têm de fazer-se: a nós só compete escolher a forma de fazê-los. (...)
Mas não tenhamos ilusões; as reduções de serviços e despesas importam restrições na vida privada, sofrimentos, portanto. Teremos de sofrer em vencimentos diminuídos, em aumentos de impostos, em carestia de vida. Sacrifícios, e grandes, temos nós já feito até hoje, e infelizmente perdidos para a nossa salvação; façamo-los agora com finalidade definida, integrados em plano de conjunto, e serão sacrifícios salutares.
É a ascensão dolorosa dum calvário. Repito: é a ascensão dolorosa dum calvário. No cimo podem morrer os homens, mas redimem-se as pátrias!»

António de Oliveira Salazar, 9 de Junho de 1928 
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A austeridade excessiva pode prejudicar terrivelmente a democracia



Só para francófonos (hélas!...): vale a pena ler o relato do diálogo que Jorge Sampaio manteve ontem, na internet, com leitores de Le Monde, sobre a democracia no mundo e em especial na Europa. 
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No Sábado, Praça de Espanha



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Três ex-presidentes da República e um outro



Num mesmo dia, o de ontem, os três ex-presidentes da República eleitos em democracia pronunciaram-se, directa ou indirectamente, em registos diferentes mas todos especialmente preocupados e críticos, sobre o estado actual do país e da sua democracia. Goste-se, ou nem por isso, de todos ou de nenhum deles, trata-se de um facto importante pelo seu significado. 

Ramalho Eanes deu uma entrevista à Rádio Renascença, Mário Soares publicou um extenso artigo no Diário de Notícias, Jorge Sampaio respondeu a perguntas de internautas, numa iniciativa de Le Monde.

Três citações que ilustram o tom e o estilo de cada um: 

Ramalho Eanes: «O Estado não pode gastar muito menos do que aquilo que gasta, em áreas consideradas fundamentais num estado social.» 

Mário Soares: «Quando os governantes manifestam medo do Povo - e fogem dele - algo vai muito mal. (...) É próprio de uma Ditadura.». 

Jorge Sampaio: «Devo dizer que a austeridade pela austeridade, a austeridade excessiva, pode prejudicar terrivelmente a democracia. Porquê? Porque a democracia precisa de esperança. E se não se vê a luz ao fundo do túnel, a esperança vai-se.»

Ontem, o pior presidente português eleito em democracia, o actual, não disse nada. É verdade que já tem feito algumas declarações dispersas sobre excessos de austeridade. Mas ainda ecoam nas nossas cabeças os ecos do discurso inócuo, incolor e inodoro que fez no dia 5 de Outubro. Podia ter sido feito por algum dos seus três predecessores? Não creio. 
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Portugal, 10/10/2012