24.2.15

David Mourão-Ferreira – 24 de Fevereiro de 1927



David Mourão-Ferreira faria hoje 88 anos. Um dos nossos grandes poetas do século XX, ficcionista também (quem não se recorda de Um amor feliz), acidentalmente político como Secretário de Estado da Cultura, de 1976 a Janeiro de 1978 e em 1979, autor de alguns poemas imortalizados pelo fado, na voz de Amália Rodrigues.

Dois poemas ditos pelo próprio:






Amália:




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Hoje no canal Arte, às 21:30

Grécia: Lista de Reformas enviada a Bruxelas

Temos política externa?



«Marilyn Monroe sabia do que falava: "Hollywood é um lugar onde te pagam 50.000 dólares por um beijo e 50 cêntimos pela tua alma".

Na União Europeia, acredita-se, o preço é mais variável. Na União Europeia ninguém, por certo, ofereceu 50 mil dólares ao Governo português por um beijo. Nem mesmo Angela Merkel, que antes de Passos Coelho chegar ao poder, gostava de sorrir ao lado de José Sócrates. (...)

A questão que se coloca é simples: tem Portugal uma política externa própria? Compreende-se que Passos Coelho não possa admitir que a acção da destruidora da UE na sociedade foi um atentado à nossa dignidade. Isso era dizer que o seu Governo tinha sido um atentado à dignidade dos portugueses. E que estava a defender interesses alheios e não os dos cidadãos que votam em Outubro. Tudo bem. Mas isso não explica a imagem que Portugal deixa no seio da UE, como voz sem alma.

Mas que se pode esperar de um país sem política externa? Não vamos à Expo'2015 por oito milhões de euros. É a imagem da nossa miséria.»

Fernando Sobral
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23.2.15

Dr. Marques Guedes, não em nosso nome



 (...)


Nicolau Santos, no Expresso diário de 23.02.2015.
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Zeca Afonso – 23 de Fevereiro de 1987



Quando Zeca Afonso nos deixou, em 23 de Fevereiro de 1987, já o país aturava Cavaco Silva como primeiro-ministro há mais de um ano e não sonhava que teria de o aguentar uma eternidade – até hoje. Bem jeito nos daria se o Zeca andasse ainda por cá a ajudar-nos no difícil tempo que passa, mas ficou na nossa memória com uma força que o tempo não apaga.

Pretexto para o recordarmos.






E um longo excerto desse espantoso concerto, no Coliseu de Lisboa, em 1983. Quem lá esteve nunca o esquecerá:

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Lido por aí (241)

Juncker veio confirmar o óbvio, mas...



«Num episódio de "Seinfeld" uma loja de gelados começa a fazer sucesso com gelados "light". As filas são enormes porque aquele produto não engorda. Seinfeld desconfia, manda analisar os gelados e chega à conclusão de que tinha 40% de gordura e, portanto, era uma falsificação.

Seinfeld denuncia a loja de gelados e aí acontece o que não esperava: os clientes revoltam-se contra ele porque arruinaram a sua felicidade. Jean-Claude Juncker veio, sacudindo as culpas para Durão Barroso e para outros, dizer que a troika "pecou contra a dignidade" dos gregos, dos portugueses e dos irlandeses. Ou seja, que os gelados fornecidos eram uma fraude. Mas, para surpresa de todos, os clientes revoltaram-se: desejam continuar a ingerir gordura maléfica porque isso lhes traz uma felicidade estranha que os comuns mortais desconhecem. (...)

A verdadeira batalha entre a Alemanha e a Grécia é sobre qual é o melhor caminho a seguir. Juncker veio confirmar o óbvio: a medicina falhou e os empréstimos servem sobretudo para pagar os juros. O fim desta batalha parece tétrico: a Europa acha que a dignidade é um jogo de roleta russa. Em quem acertará o tiro decisivo?»

Fernando Sobral

22.2.15

Estranho mundo, nosso mundo



Africanos na vedação que separa Marrocos do enclave Melilla, vigiados por um elemento da Guarda Nacional Espanhola. 

(Expresso diário de 20.02.2015)
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A Alemanha e o voto da Grécia


Excertos do artigo de opinião de Miguel Sousa Tavares, no Expresso de 21.02.2015:

«Wolfgang Schäuble é uma personagem condenada à história. Da sua cadeira de rodas, ele não vê de perto os milhares, milhões, de mutilados que a receita da troika causou em países como Portugal e a Grécia. Ele não está no aeroporto de Atenas ou no de Lisboa a ver partir para o exílio toda uma geração de jovens a quem o seu país não tem futuro para dar (mas cujos engenheiros, formados com o dinheiro dos contribuintes portugueses, a chancelerina Merkel, de visita a Portugal, declarou aceitar, "generosamente", receber na Alemanha). E quando o ministro alemão, numa operação mútua de marketing, se reúne com a nossa sorridente ministra das Finanças e proclama que o exemplo português é a prova de que a receita da troika funciona, omite dizer que ela nos custou 6,5% do PIB, 400.000 novos desempregados e 300.000 emigrantes, que nos fez vender em saldos e para estrangeiros todas as empresas estratégicas em que tanto havíamos investido ao longo de décadas e que, no final de todo esse brilhante ‘ajustamento’, a dívida pública passou de 90% para 130% do PIB. E também não conta aos contribuintes alemães que o grosso do empréstimo à Grécia serviu para salvar o investimento da banca alemã na venda de submarinos e outros luxos aos gregos, e quanto é que a Alemanha facturou já nos juros dos empréstimos a Portugal ou à Grécia. (...) A atitude actual da Alemanha em relação à Grécia — e que, para vergonha de todos, é a política da UE, socialistas incluídos — não é ditada por qualquer pensamento racional, mas apenas por um desejo mesquinho de punição e humilhação. Que não é digna da Alemanha e que prenuncia o fim da ideia de Europa, mais tarde ou mais cedo. (...)

A Grécia não votou apenas pelo fim da austeridade que os arruinou de vez, votou também, e mesmo que ingenuamente, pelo resgate de alguma noção mínima de dignidade nacional e por uma consequência mínima da vontade dos povos, expressa em eleições democráticas — que são a matriz da construção europeia. E, indirectamente, votou também para que a Europa saísse do colete de forças intelectual imposto pelos mercados e pela ditadura dos economistas académicos e começasse a discutir política.» 
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O suicídio político de uma ministra



«Não sugeri a alteração de uma única vírgula» 

Mas alguém acusou Maria Luís Albuquerque de sugerir alteração de vírgulas? Toma-nos por parvos? Sabe bem que não é isso que está em causa.

Bem antes da conferência de imprensa dada por Yanis Varoufakis (que teve início pelas 20:45, hora de Lisboa), já a SKAY TV grega tinha referido as pressões exercidas pelos ministros das Finanças espanhol e português durante a reunião do Eurogrupo (citada em The Guardian, às 19:31). E é a própria imprensa alemã a noticiar que MLA terá discutido a questão previamente com Schäuble.

Com este comportamento, e com o espectáculo indigno a que se prestou, na passada quarta-feira na Alemanha, alinhando numa tentativa para isolar a Grécia como «o mau aluno europeu», assistimos – assim o espero –, em directo e em duplicado, ao suicídio político de uma ministra. Claro que lhe restarão boas hipóteses de sucesso em instâncias internacionais. Alguma dúvida?
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O Mediterrâneo e o destino da Europa



«O destino da Europa escreve-se, por estes dias, no Mediterrâneo. Nas suas águas e nas suas margens. Mar de encruzilhadas políticas, económicas, culturais ou alimentícias, o Mediterrâneo assiste a um tumulto gigante. Seja na Grécia, seja na Líbia ou na Síria.

Enquanto os europeus estão apenas preocupados com o cumprimento das medidas de austeridade pela Grécia, do outro lado do mar os radicais do Estado Islâmico apontam a Roma, ocupando os territórios onde não há Estado, uma "cortesia" da NATO, da União Europeia e da NATO em defesa da "democracia". No mar buscam milhares de emigrantes um futuro em forma de terra prometida, a Europa. (...)

O Mediterrâneo foi uma zona de equilíbrios, mesmo quando as guerras o assolavam. Nas suas margens nasceram e cresceram algumas das civilizações fundamentais do mundo. Como dizia Fernand Braudel, o grande estudioso do Mediterrâneo, quando a vida não se equilibra, desaparece. O Mediterrâneo apesar de tudo sobreviveu, mesmo à ida de Vasco da Gama à Índia, que criou um novo circuito comercial, o que implicava a falência das rotas que lhe garantiam a riqueza. Mas o Mediterrâneo foi mais do que isso. Era a fronteira porosa entre as duas sedes da religião, Roma e Meca, onde nascem os anos zero: o do nascimento de Cristo e o da fuga de Maomé de Meca a Medina. Por isso a Grécia, país do euro e da NATO, é tão vital. Por isso, enfrentar de vez o problema do Estado Islâmico nas costas da Líbia é outro. (...)

Talvez seja o tempo de rupturas para que a Europa perceba realmente o que está em jogo. Para ser respeitada no mundo, para poder continuar a ser um foco de sonho (como referência do Iluminismo, das ideias, da ética democrática e da moral capitalista, do futuro), a Europa precisa de olhar para esta crise e utilizá-la como motor de uma profunda mudança interna. Onde devem existir regras, mas também discussão e não hegemonia de alguns face a quem quer ser "bom aluno" ou "mau aluno". Nunca, desde a II Guerra Mundial, a Europa esteve tão perto de ter de decidir o que quer ser no futuro. Ou, pior, não quer ser.»