6.6.17
Não toquem na minha Alfama
«Em "Zelig", o filme de Woody Allen, o protagonista é alguém extremamente inseguro. Para conseguir passar despercebido transforma-se na pessoa que está ao seu lado.
Os turistas, já se sabe, não conseguem ser como Zelig: não se transformam em lisboetas ou portuenses para passar despercebidos. Nota-se a sua presença. Para mais quando, de um momento para o outro, os turistas se somam a cada vez mais expatriados e os centros das principais cidades portuguesas se transformam em "resorts" urbanos. O turismo é, não o duvidamos, um oxigénio precioso para a nossa economia. Uma verdadeira galinha dos ovos de ouro que cacareja no meio de um mundo inseguro. Não admira que o turismo se tenha tornado um dos motores da nossa recuperação económica. Mas, no meio da euforia, convém não voar como Ícaro e colocar os pés na terra. O turismo não pode ser a desculpa para afastar lisboetas e portuenses do centro das suas cidades. Não é a pontapé: é com preços de arrendamento que vão tornar, a curto prazo, Lisboa e Porto cidades onde só vivem turistas e expatriados. Os portugueses irão emigrar para os arredores. Mas, com os rendimentos que auferem, e o défice de transportes existente (a começar pelo lamentável metropolitano lisboeta), um dia destes não haverá quem faça os serviços no centro. Como aconteceu em Londres quando, devido a isso, polícias e enfermeiros, deixaram de querer trabalhar na cidade. Porque não era rentável.
A Marcha de Alfama deste ano coloca, de uma forma irónica, o dedo na ferida. "Não toquem na minha Alfama", original do concurso de 1950, vai voltar este ano. Não é um apelo ao fim do turismo. É um alerta. Se a cultura bairrista de zonas de Lisboa for riscada pelos interesses imobiliários reinantes, um dia destes a diferenciação e a cultura local, que atrai turistas e expatriados, evapora-se. Murcha, como os manjericos. O turismo, já o dissemos, é ouro. Não se queira inverter Midas e transformá-lo em chumbo.»
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5.6.17
Transportes «fora da caixa» (15)
«O» táxi de Aracataca / «Maconde». Colômbia (2012).
Em honra do 50º aniversário de «Cem anos de solidão», hoje a imagem tinha de vir de Aracataca / Maconde…
. Dica (561)
«When the terror attacks happened I was in Borough Market, drinking with friends. Even while it was happening, I felt angry with Theresa May.»
. Mais olhos do que barriga?
Algo me diz que isto não vai acabar bem.
. 05.06.1967 - «Cien años de soledad»
Faz hoje cinquenta anos que foi lançada, na Argentina, aquela que viria a ser uma das grandes obras literárias da segunda metade do século XX: Cem anos de solidão, que Gabriel García Márquez escreveu no México, entre 1965 e 1956, e que teve uma primeira edição de oito mil exemplares, que esgotou rapidamente. São muitos os textos publicados nos últimos dias para assinalar a data, um deles na Revista do Expresso do último Sábado (só acessível a assinantes, pelo menos por enquanto).
García Márquez nasceu em Aracataca e lá viveu parte da infância, em casa dos avós, que o marcaram profundamente. De uma família desafogada, não aprovaram o casamento da filha com um simples telegrafista e exigiram guardar a custódia do neto.
Com dez anos, foi viver com os pais e só regressou a Aracataca com a mãe, em 1950, numa tentativa falhada de vender a casa da família, entretanto vazia. Terá sido o choque que teve ao ver o estado lamentável em que encontrou a sua querida terra natal, que esteve na origem da obra que viria a torná-lo célebre. Chamou-lhe «Maconde» e criou a família Buendía.
Guardadas as devidas proporções, não terá ficado muito mais orgulhoso de Aracataca quando lá voltou pela última vez, em 2007, para uma tripla comemoração: dos seus 80 anos, do 40º aniversário da publicação de Cem anos de solidão e do 25º da atribuição do Nobel da Literatura. Nem gostaria de saber que ainda há dois ou três dias os seus conterrâneos estiveram envolvidos em graves distúrbios quando se manifestavam contra permanentes cortes da distribuição de electricidade.
Estive em Aracataca / Maconde há cinco anos e também a vi feia e desmazelada, sem honrar como devia o que de mais importante deu ao mundo (quando a Colômbia gasta fortunas, por exemplo, em iluminações faraónicas das suas grandes cidades).
Aracataca salva-se pela moradia em que «Gabo» nasceu, actualmente transformada num pequeno museu bem conservado, que justifica, sem dúvida, a deslocação e a visita. E pela «peregrinação» que significa passear pelas ruas onde brincou e que o viram crescer…
O Sol à volta de Trump
«Donald Trump acredita que o Sol gira à volta dos EUA. Ou melhor, que gira em volta da Torre Trump. E como, dentro desta, é possível criar um ambiente artificial, com ar condicionado, isso é igualmente possível em todo o mundo.
Não é, mas como Trump vive na Idade Média do pensamento, quando se acreditava que o Sol girava à volta da Terra, tudo é possível. Afinal os pequenos neurónios de Trump são uma espécie de bolas de "flippers": atiram-se e acertam onde calha. Sabe-se que a retirada dos Acordos de Paris é um logro. Desde logo económico. Porque, neste momento, as indústrias limpas nos EUA já geram o dobro dos empregos das ligadas ao carvão. Portanto a teimosia de Trump tem a ver com outras razões. Uma é acreditar que os EUA vivem sem o mundo. E que este não pode viver sem Washington. Outra é que tudo é um "negócio". Mas, como se sabe, neste planeta nem tudo é um "reality show" nem os acordos para construir uma Torre Trump. (…)
Há outra coisa mais grave ainda: a cerimónia de Trump foi digna de um congresso de Kim Jong-un. Havia na plateia aplausos e a seguir à declaração de Trump um ser qualquer veio dizer que ele era o guia redentor. Na Coreia do Norte não se faz melhor. O problema é que esta decisão de Trump é o reflexo de uma concepção ideológica mais vasta, onde o populismo e a pós-democracia se abraçam. Findo o contrato social sobram pessoas e ideias assim. Assustadoras.»
Fernando Sobral
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4.6.17
Transportes «fora da caixa» (14)
Nada mais adequado do que estes românticos barcos para um passeio no Rio Perfumado. Hue, Vietname (2009).
. Dica (560)
Democratize This (Michal Rozworski)
«Labour’s plans to pursue democratic models of ownership are the most radical aspect of Corbyn’s program.»
. 04.06.1989 – Tiananmen
Se os factos são conhecidos, é sempre bom tê-los presentes. Sobretudo em imagens, que falam por si e substituem muitas palavras. Ver aqui post do ano passado.
. Portugal: que fazer?
«A globalização tornou-se um jogo de Monopólio. Só há um vencedor. E, neste mundo de hegemonias variadas, há quem tente manter-se à tona de água.
É o caso de Portugal, país periférico, com as suas valias, mas que é um peso-pluma quando comparado com as poderosas potências que fazem os grandes jogos. Seja no mundo, seja na Europa. Portugal, sendo um país com características perfeitas de porto franco (aqui chegam culturas variadas, como se vê com este "boom" do turismo), que tem condições para ser um pequeno paraíso neste universo de confusões e contradições, vive subjugado: por uma dívida que o torna refém de uma Europa que, até aqui, bebeu na ideologia da austeridade que satisfazia sobretudo as pretensões da Alemanha e da elite de Bruxelas, e pelas suas próprias debilidades, que começam por ter tido durante demasiado tempo uma elite extractiva sem visão de futuro. Neste momento vive um dos seus momentos de ruptura. Ainda amarrado à dívida, joga num tabuleiro onde é peão e outros reis e bispos. É o caso da luta contra as insalubres agências de "rating", sanguessugas de riqueza alheia e vozes de ideologias e interesses bem definidos. Não é um acaso a estratégia das "três grandes" do "rating" relativamente a Portugal. Só que, neste mundo de nivelamento ideológico, elas determinam as decisões. (…)
Seja como for, Portugal está refém destas motivações. Tal como as da Europa, que se tornou uma ortodoxia neo-liberal em termos económicos e financeiros. O mesmo Stiglitz disse no Estoril, com toda a razão: "(Os limites do défice, a dívida e a taxa de inflação) são números que são tratados como se tivessem sido dados por Deus, como se fosse uma violação das leis básicas da natureza quebrar essas regras". Presos ao euro, não poderemos sair delas. Para Stiglitz, o problema está na própria estrutura do euro. Então, que fazer? (…) É preciso pensamento estratégico. Algo que tem faltado entre nós.»
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