19.9.17

19.09.1975 – Na posse do último Governo Provisório




No dia 19 de Setembro de 1975, tomou posse o VI (e último) Governo Provisório. Chefiado por Pinheiro de Azevedo, durou até 23 de Julho de 1976, data em que entrou em funções o I Governo Constitucional.

Na imagem, um excerto do discurso do primeiro-ministro, no acto da tomada de posse do novo governo (*). Delicioso – no mínimo. Comentários para quê...

(*) Na íntegra, aqui.
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Dica (631)



The Euro’s Narrow Path (Barry Eichengreen) 
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Entretanto na Birmânia




Aung San Suu Kyi falou ontem sobre o drama dos rohingyas, como tinha anunciado. Quem quiser que lhe atire a primeira pedra, o que não é o meu caso: muito provavelmente está a fazer o que pode neste momento, num país a léguas de ser espelho das «nossas» democracias e onde ganhar eleições não significa varrer do poder real os sinistros militares, nem alterar a mentalidade de um povo massacrado durante uma eternidade. 
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Os geringonçólogos



«No tempo da União Soviética, que deus tenha, havia uma trupe de analistas encartados que se reconheciam como “sovietólogos”. Competia-lhes a tarefa árdua de olharem à lupa para as fotos, que a televisão era pouca, e de colecionarem boatos para poderem chegar à conclusão de que o secretário-geral estava com azia, se fosse o caso, ou outra infâmia qualquer. Da influência de casos desse tipo nos misteriosos destinos do planeta reza a história.

Suponho que, perante o inesperado, é assim que reagem as sociedades perfeitas e os seus mestres de cerimónias. Querem saber e, se não sabem, querem adivinhar. Se for coisa de Ficheiros Secretos, se for eco da Cidade Proibida de Pequim, se for boato da mansão de Futungo de Belas em Luanda, até se for de tumulto no parlamento de Brasília, é esta classe de analistas que é chamada ao palácio para traduzir os sinais, os hieróglifos e as entoações. Sinal dos tempos, agora dedicam-se a Trump e a outras surpresas, e não lhes faltará assunto.

Mas se o desconhecido se instala entre nós, como um vírus, e não à distância de um telejornal, então o cordão sanitário é um desespero: os que mandam têm que compreender ou pelo menos classificar, os de baixo devem ser alertados e prevenidos. É o caso da ameaça da “geringonça”, que não é só uma mazela, é mesmo uma ameaça à moral e aos bons costumes.

Calhou-nos portanto a sorte de ter que viver com esta casta especial, especializadíssima, que é a dos peritos em decifrar o tom de voz, a catadura, a posição da mão, o andar, a cor da roupa, a gravata e até, em desespero de causa, a palavra desta gente que arrombou a porta do palácio. São os geringonçólogos.

Habituados ao debate político, os geringonçólogos no entanto abominam a troca de razões; desgostosos dos silêncios oficiais, no entanto aborrecem a discussão pública sobre dossiers e questões; irritados com negociações de gabinete, no entanto indignam-se com a transparência, a que preferem a fuga de informação.

Sendo profissão de sucesso, a carreira de “geringonçólogo” atrai variadas espécies: tudólogos, mas também jornalistas-comentadores, incluindo ideólogos e, além deles, os engraçados, que são os meus preferidos, se tiver voto na matéria. Em todo o caso, a sentença é pesada: os partidos da esquerda vêm de um “resultado pífio” (isto é editorial), “não se levam a sério”, atravessa-se-lhes uma “alegria tonta” (isto também é editorial) ou elaboram “fantasias” avulsas (este é de ontem). Como não compreender que não sejam ouvidos, “ou melhor, ouvimos, mas não lhes damos valor”?

Como não compreender que mulheres que dirigem uma destas esquerdas sejam umas “alucinadas” ou até umas “patas”, em todo o caso perigos públicos, “mais daeshistas do que o Daesh”. O mais moderado destes escritores manifesta a sua tristeza pelas “propostas nalguns casos delirantes” desta gentalha.

Miguel Pinheiro, o director do Observador, cujas posições já tinham brilhado em algum canal de televisão e se não me engano na Sábado, tudo pilares do jornalismo mais isento, resolveu escrever que essas geringoncistas “gritam muito, e berram muito, e protestam muito, para que, no meio do ruído, ninguém perceba isso”. Outro director enfuna as velas e intima: “O que pensam Mariana Mortágua, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa da vergonha que vem nas viagens pagas para se obter um contrato do Estado? Não pensam nada porque foram os agora seus (nessa oitava maravilha do mundo que se denomina geringonça) que apanharam o avião, comeram e dormiram de borla e agora, apanhados, põem o futuro à disposição. Mariana, Catarina e Jerónimo não têm vergonha”. Azar dos Távoras, Pedro Mota Soares foi forçado a esclarecer, compungido, como tinha autorizado viagens, já para não detalhar a viagem do primeiro-ministro Cavaco Silva sob hospitalidade da Nestlé – e há pelo menos um partido de que não se encontra nenhum nome em viagens deste jaez.

O meu argumento é que nada disso importa. O fluxo de insinuações e de intimações já não é jornalismo, é a canibalização do espaço público para ajustes de contas, para ensaios de carreiras, para praxes ideológicas e para luta de interesses. Mas há uma ideia, e ela resume todo o sucesso da geringonça e da sua relação de forças com a direita e entre si: os geringoncistas já só têm uma agenda, que o PS tenha maioria absoluta. Tudo se resume agora ao apelo da alma, oh céus, venha pelo menos o poder total de António Costa para que se encoraje a afastar a geringonça, de qualquer modo com Passos e Cristas já se perdeu a esperança, resta Cavaco mas quem lhe liga, mais vale perdidos por cem do que perdidos por mil.»

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18.9.17

Dica (630)




«Si democracia es el gobierno del pueblo (demos), plutocracia es el de los más ricos (ploutos). Esta sencilla aclaración etimológica permite decir hoy con toda justicia, a la vista de los hechos de los últimos años, que esta Unión Europea está descaradamente al servicio de la minoría que detenta el poder económico en Europa. Una sociedad gobernada o controlada por la minoría de los miembros más ricos que apenas son unos cinco millones de personas. Contra más de 500 millones.» 
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Problemas de ricos




Houve muitas sanitas entupidas em Portugal, com papeis suspeitos, quando se temia que a PIDE tocasse à campainha ao amanhecer. Mas com notas de 500 euros, só mesmo na Suíça! 
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Ei-las, as sondagens sobre Lisboa



E salta a primeira, da Universidade Católica:

J. Medina 41% (pode perder a maioria absoluta – 7 a 9 vereadores)
A. Cristas 17% (3 a 4 v.)
T. L. Coelho 16% (3 a 4 v)
J. Ferreira 8% (1 a 2 v.)
R. Robles 8% (1 a 2 v.)

Seriam excelentes resultados, na minha opinião: não existência de maioria absoluta, Medina a precisar da esquerda. Mas a procissão ainda vai no adro e anuncia-se uma nova sondagem (talvez para hoje), com valores diferentes.

(Daqui)
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O miasma andré ventura



«O candidato do PSD para Loures aproveita tudo, até insultos, para propaganda. Mas será de recusar dizer-lhe o nome só porque ele sofre de andré ventura? A Organização Mundial da Saúde tem-se confrontado com o problema das doenças e o nome delas, porque este pode induzir em erro. Por exemplo, um vírus ficou conhecido como gripe suína mesmo não sendo disseminado por porcos. Ora, o candidato do PSD para Loures é notoriamente um andré ventura, até o anuncia nos cartazes. Como a OMS aconselha que as doenças sejam nomeadas em termos descritivos, "miasma andré ventura", no caso estudado, parece-me adequado. Já chamar André Ventura a André Ventura, talvez seja generalizador e até racista -- pode haver pedaços dele que não estejam contaminados de andré ventura. Mas o mais importante é conhecer os truques do vírus. Há dias, no debate da TVI, ele disse: "Sim, Judite de Sousa, tenho medo." Ora, a jornalista não lhe tinha perguntado por medo. O miasma disse-o a despropósito, porque tem fisgado inocular o medo, não como nas vacinas, em doses ínfimas para combater a doença, mas em doses cavalares para a difundir. Depois, interrompeu uma adversária e, quando ela protestou, disse: "Não me interrompa." Sem vergonha nenhuma, convencido de ser tempo que chegue cá a desfaçatez em debates políticos do "chefe do Ocidente", como ele chamou dias depois a um outro miasma, esse, grande e americano. Todos os pequenitos agentes infecciosos sonham pertencer a uma pandemia.»

Ferreira Fernandes
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17.9.17

Dica (629)




«Os 200 milhões que o Governo tem avançado não permitem cumprir estes objetivos. Só o desdobramento do segundo e terceiro escalões em outros dois adicionais custaria cerca de 440 milhões, corrigido o efeito nos escalões mais elevados.(…) Se for necessário compensar financeiramente esta escolha, há alternativas. Nomeadamente o aumento da derrama de IRC sobre as empresas com mais lucro.» 
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Alexandre O’Neill para o fim da tarde



Balada da ameixa seca

Vai à mercearia e compra ameixa seca.
P’ra o intestino a ameixa é levada da breca!

O mal do Ocidente – quem há que não o sinta? –
É não ter a tripa sempre limpa.

Com seus altos valores, o Ocidente
Dá por demais ao dente, dá por demais ao dente.

Põe-me os olhos nos povos que só comem arroz:
Dão melhores guerrilheiros do que nós.

Um saquitel de arroz, uma viciclet’,
Arma na bandoleira – e lá vai o viet.

«Noss’povo», ao contrário, come o que apanha à mão.
Até parece fome de muita geração!

E larga, já comido, o corpo em qualquer canto.
Sonha Terceiro Mundo e é Europa, entretanto.

Encostado ao sobreiro ou ao ficheiro,
«Noss’povo» já nada tem de marinheiro.

Sua tripa, represa, é trabalhosa.
Sua prosápia já só é má prosa.

Portugal-do-casqueiro à Europa-das-latas
Manda cortiça, vinho, diplomatas.

Espera contrapartidas: sol-e-vistas
É cartaz que atrai muitos turistas.

Mas com a ameixa seca – coisa pouca! –
É que pode acordar sem amargos de boca.

Vai à mercearia e compra ameixa seca.
P’ra o intestino a ameixa é levada da breca!

Alexandre O’Neill, 1981
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Garantem-me que a imagem não é manipulada




... mas custa a crer. 
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Aung San Suu Kyi, de Cinderela da paz a Madrasta Malvada



Pelo mundo inteiro, e compreensivelmente, aponta-se o dedo a Aung San Suu Kyi pelo seu silêncio em relação aos acontecimentos de que está a ser vítima a minoria rohingya na Birmânia (a própria falará sobre o tema na terça-feira). A realidade não é simples, nem a preto e branco, e começam a ser divulgadas declarações que o sublinham.

«O silêncio a que Desmond Tutu se refere na carta aberta [que dirigiu a Aung San Suu Kyi] tem um nome: rohingya. Um nome que nem a líder da Birmânia nem o discurso oficial de todo o país autoriza que se diga em voz alta: rohingya, a minoria étnica que vive na zona Norte do actual estado birmanês de Rakhine, na fronteira com o Bangladesh, e que é tratada pelas autoridades como um grupo de cidadãos de 4.ª categoria – apesar de viverem há séculos naquela zona, os rohingya são considerados imigrantes do Bangladesh, não fazem parte da gigantesca lista de 155 minorias étnicas reconhecidas oficialmente na Birmânia e nem sequer são tratados pelo nome que o resto do mundo se habituou a ouvir nos últimos meses.

A maioria é muçulmana, num país onde os budistas dominam a paisagem, mas o muro de ódio que se ergueu entre os rohingya e o resto da Birmânia é muito mais nacionalista do que religioso – há muito que a maioria do país preferia que os quase 800 mil rohingya desaparecessem do mapa, se possível para o Bangladesh e de preferência para sempre.

A situação dos rohingya é tão dramática que é comum ouvir responsáveis das Nações Unidas e de organizações de defesa dos direitos humanos a referirem-se a eles como a minoria mais perseguida do mundo. Na Birmânia, são imigrantes do Bangladesh que devia voltar para terra deles; no Bangladesh, onde já estão mais de 300 mil refugiados, o plano do Governo passa por enviá-los para uma pequena ilha no Golfo de Bengala, a 60 quilómetros da costa, que fica debaixo de água entre Junho e Setembro por causa das monções e não tem uma única estrada.

A provação dos rohingya não é de agora, e é por isso que muitos admiradores da coragem e da integridade de Aung San Suu Kyi esperavam que a Nobel da Paz lhes desse a dignidade que reclamam assim que chegasse ao poder. Mas, um ano e meio depois de a antiga activista pró-democracia ter começado a governar o país, a situação dos rohingya só tem piorado – e a mistura de silêncios e de avales indirectos com que a conselheira de Estado tem comentado as operações do Exército birmanês no estado de Rakhine já fez com que muitos dos seus antigos admiradores tenham começado a pedir que lhe tirem o Nobel da Paz. (…)

O pensamento dos seus novos detractores é simples e linear: como a antiga activista foi elevada na Birmânia e no Ocidente à categoria de combatente pela democracia e pelos direitos humanos – o que lhe valeu os prémio Sakharov e Nobel da Paz, entre muitas outras distinções –, então o mínimo que se pode esperar dela é que seja uma voz forte contra a ofensiva do Exército birmanês na região onde vive a maioria dos rohingya. Como isso não aconteceu – e como entretanto a Comissão de Direitos Humanos da ONU e organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch afirmam que está em curso uma limpeza étnica a roçar o genocídio contra os rohingya –, o compromisso de Suu Kyi com os valores que lhe deram notoriedade em todo o mundo está a ser posto em causa. Por causa dessa pressão internacional, a líder birmanesa decidiu não ir à reunião da Assembleia-Geral da ONU, que começa esta segunda-feira – em vez disso, vai ficar na Birmânia a preparar uma comunicação ao país sobre direitos humanos.

Mas o silêncio de Suu Kyi em relação aos rohingya pode ser mais complicado do que parece à primeira vista, diz Gwen Robinson, especialista em política da Birmânia na universidade tailandesa de Chulalongkorn. Num texto publicado no diário Nikkei Asian Review, com o título Mitos e realidades por trás da crise em Rakhine, Robinson diz que a líder birmanesa está entre a espada e a parede, num país onde os militares continuam a exercer o seu próprio poder, e onde a maioria da população vacila entre a total indiferença e o ódio em relação aos rohingya.

“Internamente, com o ressentimento popular contra os rohingya enraizado na história conturbada da Birmânia, até o silêncio de Suu Kyi perante os excessos militares é visto como uma posição favorável à odiada minoria, enquanto internacionalmente esse silêncio tem sido retratado como uma concordância com a campanha dos militares”, diz a especialista. Segundo Gwen Robinson, Suu Kyi não tem qualquer tipo de ascendente sobre a forte e enraizada máquina militar da Birmânia e “tem medo de perturbar o equilíbrio de poder” e de “dar uma imagem de fraqueza dentro do país” – por outras palavras, uma posição forte contra os ataques do Exército birmanês no estado de Rakhine poderia precipitar um novo golpe de Estado militar, e o regresso à estaca zero para um país que começa a dar os primeiros passos em direcção à democracia.

É este também o ponto de vista defendido por outro Nobel da Paz, o timorense José Ramos-Horta, num texto assinado em conjunto com a australiana Janelle Saffin, sua antiga conselheira. “Ninguém está acima de culpas pelas violações dos direitos humanos que estão a ser cometidos no estado birmanês de Rakhine. Mas, ao apontar apenas o dedo à conselheira de Estado, Aung San Suu Kyi, a comunidade internacional está a permitir que os generais da Birmânia – que levaram o país à desgraça ao longo de décadas – fiquem em segundo plano a assistirem ao escalar da crise.”

Num artigo em que sublinham a fragilidade do processo democrático na Birmânia – com uma Constituição de 2008 que mantém os civis afastados das decisões ligadas à Defesa –, Ramos-Horta e Saffin condenam as atrocidades, acusam os líderes militares e pedem tempo para a Suu Kyi: “Dito de forma simples, criar uma cultura de respeito pelos direitos humanos e pelo primado da lei – há muito ignorado e violado na Birmânia – não vai acontecer de um dia para o outro.”»

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