7.8.19

Greves e greves



Não é fácil, mas há que manter a cabeça fria.

Ontem, ao ouvir na RTP 3 uma «especialista em Direito do Trabalho» meter no mesmo saco de «greves inorgânicas» perigosas a dos motoristas e as da Autoeuropa e dos Estivadores, percebi como se está em situação derrapante. As greves não são boas ou más por se integrarem ou não nos esquemas a que nos habituámos e temos de viver com os novos modelos – que vieram para ficar.

Além disso, começa-se a ver sinais inquietantes de ameaça ao próprio direito à greve quando se diz que esta só deve afectar patrões (ou Estado). Claro que a força de qualquer greve se mede, não só mas também, pelo impacto nos utentes dos serviços afectados. Embora com limites, evidentemente.

Estou com isto a apoiar o doutor Pardal e afins? Obviamente que não. Mas quando se condena algo, há que não deitar fora a criança com a água do banho.
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Zeca Afonso é património cultural



«Tive a oportunidade de assinar a petição solicitando a declaração da obra de Zeca Afonso como de interesse nacional, nos termos da Lei n.º 107/2001, de 8 de Setembro, a Lei de Bases do Património Cultural.

O sentido político da sua obra liga-nos, a todos os que reivindicamos, ontem e hoje, a liberdade de expressão e o não sermos prejudicados por ela, o combate pelos direitos que nos são inalienáveis, de dignidade humana e de participação cívica.

Zeca Afonso exerceu a sua arte e o seu ativismo em condições de grande dificuldade, no quadro do Estado Novo. A sua música, os seus poemas, inspiraram a Oposição ao regime repressivo, iluminaram o 25 de Abril de 1974 e os primeiros anos da Democracia. À data da sua morte, em 1987, deixou-nos um legado que nos liga às raízes populares da música portuguesa, à diáspora e às inspirações musicais africanas, a sonoridades e ritmos que inspiram novos caminhos musicais, quebrando fronteiras entre erudito e popular, chegando aos pequenos lugares e às grandes salas, gerando registos musicais que se tornaram património da Cultura Portuguesa. Um património que se junta, com a obra de Adriano Correia de Oliveira e José Mário Branco, entre outros, na casa comum da Música de Intervenção.

A verdade é que não precisamos de nenhum carimbo oficial do Estado para saber que a obra de Zeca Afonso é património cultural. Todavia, o reconhecimento e a proteção estatal são importantes, para proteção da integridade da obra e da sua divulgação.

No passado dia 2 de Agosto – em que José Afonso faria 90 anos – ouvi declarações da ministra da Cultura, a propósito da entrega, pela Associação José Afonso, da petição a favor da declaração do interesse nacional da sua obra. Ela dizia que não seria possível classificá-la, até se encontrar os masters das gravações dos seus discos (aparentemente, desaparecidos, na sequência da falência da Movieplay, a editora discográfica que as detinha). A razão invocada é que sem objeto material identificável – neste caso, os masters – que possa ser circunscrito como património material móvel, para efeito dos procedimentos de inventariação e classificação, a classificação não é possível.

Ora o que me ocorre é dizer que tanto ela como o responsável pela instalação do Arquivo Nacional do Som, que sobre essa matéria também se pronunciou, têm uma visão limitada do quadro cultural e jurídico, porque partem de um pressuposto errado. Partem do pressuposto de que é preciso aceder aos masters para poder exercer um procedimento classificatório por parte do Estado. Esse pressuposto é correto, para efeito de classificação de património cultural móvel.

Conheço bem a matéria, tive a oportunidade de tomar a iniciativa de regulação do património cultural móvel, através do decreto-lei n.º 148/2015, de 4 de Agosto, e de atualização da regulação do património cultural imaterial, através do decreto-lei n.º 149/2015, também de 4 de Agosto.

Parece-me importante tratar a questão da classificação da obra de Zeca Afonso à luz da sua consideração como património imaterial, independentemente da susceptibilidade da sua classificação como património móvel e das questões autorais associadas.

A obra de Zeca Afonso não se circunscreve a uma fita magnética, a um disco, a um conjunto de discos. A sua obra é um valor no domínio do intangível. Para efeitos de classificação, veja-se o que diz o artigo 1.º do decreto-lei de 2015 sobre património imaterial: “(…) entende -se por ‘património cultural imaterial’ as manifestações culturais expressas em práticas, representações, conhecimentos e aptidões, de caráter tradicional, independentemente da sua origem popular ou erudita, que as comunidades, os grupos e os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural, e que, sendo transmitidas de geração em geração, são constantemente recriadas pelas comunidades e grupos em função do seu meio, da sua interação com a natureza e da sua história, incutindo-lhes um sentimento de identidade coletiva.” Entre as manifestações de património cultural imaterial inclui-se “Expressões artísticas e manifestações de carácter performativo”.

Seja, autonomamente, como nome maior da Cultura Portuguesa, reconhecido pela comunidade nacional como parte integrante do nosso património cultural, seja no quadro da declaração da Música de Intervenção como património cultural imaterial, destacando-se Zeca Afonso como sua figura cimeira, considero haver cabimento para que se avance com um processo no sentido da sua inventariação e classificação como património cultural imaterial, dando-lhe a correspondente proteção e reconhecimento.

Tal procedimento também seria possível, por exemplo, para a obra de Fernão Mendes Pinto e da literatura de viagens do século XVI, de Fernando Pessoa e da geração do primeiro Modernismo literário, de Lourdes de Castro e do grupo de artistas visuais KWY na década de 60.

Para efeito de abertura deste procedimento, deverão os serviços da Direção-Geral do Património Cultural “abrir” o sentido interpretativo do diploma de classificação de património cultural imaterial. Assim, não se limitando à noção de caráter tradicional da obra – que segue os critérios da UNESCO –, é importante que atentem na noção de reconhecimento como parte integrante do património cultural das expressões artísticas, que também integra o diploma. Sendo que se tem orientado a classificação do património imaterial para um conceito de obra coletiva sem rosto que perpassa gerações, será importante, em casos específicos, contextualizando e conjugando o sentido coletivo, reconhecer o papel determinante de dados protagonistas. Esta abertura do procedimento classificatório terá um efeito pedagógico de grande impacto, permitindo ver e conhecer a uma nova luz, nas escolas e na sociedade, o trabalho dos artistas e escritores, consolidando e dinamizando a cultura portuguesa. A classificação da obra de Zeca Afonso como património imaterial será um passo decisivo neste caminho.»

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6.8.19

CTT versão 2.0


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Direita sem tino



Se estes julgam que vão longe com patetices destas, estão enganados e ainda bem. Talvez haja mais silêncio na cidade, isso sim!
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06.08.1945 – Hiroshima 8:15 a.m.




É um ritual: republico este post quase todos os anos. Ter ido a Hiroshima marcou-me para sempre.

Se eu apenas pudesse guardar duas fotografias, dos milhares que fui tirando por esse mundo fora, escolheria estas. De má qualidade, sem dúvida, mas que me recordam dois objectos expostos no Museu de Hiroshima, que nunca mais esquecerei. Numa, um relógio que parou à hora exacta em que a bomba explodiu. A outra fala por si.

Foi há 74 anos.



Parque Memorial da Paz de Hiroshima - algumas imagens:




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5.8.19

Poesia matemática




Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Millôr Fernandes
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A EMEL ainda não se lembrou disto



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A carnificina americana



«O procurador de El Paso disse que vai investigar a matança como um acto de “terrorismo doméstico”. É evidentemente terrorismo o que se passou em El Paso e poucas horas depois em Dayton. Os investigadores suspeitam também de um crime de ódio – um manifesto atribuído ao atirador diz que quer acabar com os imigrantes.

As carnificinas são comuns nos Estados Unidos, onde a poderosa associação americana em defesa do uso livre de porte de arma ganhou ainda mais força desde que Donald Trump chegou ao poder. Ainda este ano, o presidente assinou uma lei que flexibilizava o acesso a armas a pessoas com doenças mentais. Curiosamente, a Casa Branca recusou-se a revelar a foto oficial desse acordo.

Na América, mata-se mais do que no Iémen. Isto não nasceu com Trump e são co-responsáveis todos os antigos presidentes que nunca conseguiram enfrentar a poderosa corporação pelo uso livre de armas. Mas o discurso de ódio contra as minorias, de que Trump tem feito uso e abuso, é um poderoso incentivo a estas e a novas carnificinas. Beto O’Rourke, um dos candidatos a candidato à nomeação pelo Partido Democrata, dizia ontem que Trump era “um supremacista branco”. Cory Booker, outro candidato democrata, concorda que Trump é um supremacista branco e pede-lhe responsabilidades no massacre. Sim, só um supremacista branco se teria dirigido a quatro congressistas não-brancas, como fez Trump no mês passado, dizendo-lhes “voltem para a vossa terra”. Todo o discurso de Trump é um incitamento aos crimes de ódio. Trump é co-responsável pela chacina deste fim-de-semana.

Mas não é o único responsável: o Congresso americano que se recusa a enfrentar o poderoso lobby das armas é também responsável pela carnificina. No século XXI, os Estados Unidos da América mantêm em vigor leis do tempo do Faroeste e encaram, pelas omissões contínuas que se mantêm, as mortes como uma coisa natural, exactamente como no Velho Oeste. Elisabeth Warren, uma das pré-candidatas do Partido Democrata, pediu “acção urgente para acabar com a epidemia da violência das armas”. Não especificou que acção urgente é essa. Bernie Sanders foi mais longe e apelou ao congresso: “Depois de cada tragédia, intimidado pelo poder da NRA, o Congresso não faz nada. Isso tem que mudar”.

Enquanto isto, o supremacista branco deu as condolências às famílias, via Twitter, e ainda não apareceu em público. Deverá estar a jogar golfe. Afinal, em Maio, num comício, interrogou a assistência sobre o que é que se podia fazer para parar os imigrantes na fronteira com o México. Um dos presentes disse: “Fuzilem-nos”. Trump riu-se. Está gravado em vídeo, para a história.»

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4.8.19

PSD?


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Isto é terrível!



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UK


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O CDS e a (des)educação



«Não é preciso ler livros como Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia ou Educação: Prática da Liberdade, do enorme Paulo Freire, para perceber o papel fundamental da educação. As sociedades diferem, os contextos também, mas é inevitável não pôr em causa, em nenhuma sociedade ou contexto, a educação. Lembrei-me muito destes ensinamentos de Paulo Freire a propósito da inenarrável proposta apresentada pelo CDS na última semana. Entrar a "preços de mercado" em universidades públicas para quem não tiver notas suficientemente altas é a proposta.

Não se trata de notícia falsa, mas parece. Ou isso ou falta de vergonha na cara. Equiparar a escola pública e a universidade pública à lógica do privado é uma ideia totalmente fora do quadro constitucional e um ataque direto a uma democracia que se queira inclusiva, e é seguramente uma aberração sob qualquer ponto de vista. O CDS, que sempre defendeu que devia ser a meritocracia a vingar em todos os setores da sociedade, parece sofrer de amnésia seletiva. O que esta proposta demonstra é que o CDS entrou no "vale tudo", antes fosse efeito da silly season.

Sabemos que a verdadeira intenção do CDS é ir contaminando todo o setor público até que dele pouco reste. Tem-no tentado fazer na saúde, na segurança social e, claro está, na educação. Mas a diferença na educação é que, até agora, as propostas passavam por esvaziar a escola pública por via do subfinanciamento ou pela desconsideração dos profissionais da educação, ao mesmo tempo que propunham desviar os dinheiros públicos para o setor privado. Esta proposta agora apresentada vai uns passos mais à frente. Mantém-se a sempre inalterável intenção de subverter a escola pública à lógica dos privados, mas a incoerência com o que o próprio partido vem defendido é de tal ordem que roça o insulto.

Uma das dimensões das desigualdades sociais em qualquer sociedade é que existem fatores de opressão que prevalecem nas vidas quotidianas. Os que têm mais recursos acabam por ter vantagem sobre as classes populares. Quem viveu a realidade da pobreza ou de poucos recursos sabe bem o que isso é, da mesma forma como sabe que a escola pública ou a saúde pública a funcionarem no seu sentido pleno são dos melhores antídotos a essa opressão. A escola pública no seu verdadeiro sentido promove princípios como a autonomia e a liberdade. É na escola pública que podem encontrar-se as ferramentas necessárias para o desenvolvimento da consciência social. É na escola pública que reside um dos maiores garantes para a igualdade. Deturpar estes princípios pela via da introdução de corredores abertos para quem tem mais recursos, pela simples razão de ter mais recursos, é a anulação da própria democracia. O CDS provou, mais uma vez, com esta proposta que anda longe de encontrar-se. Insistir na divisão de um país é um caminho perigoso e não serve a ninguém.»

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