13.1.21

Ventura é pechisbeque político



 

«O nosso Trump de bolso, André Ventura, é dado como habilidoso da política. Mas tal aura deve-se mais a basbaques que não param de lhe dar estatuto que (pelo menos ainda) não alcançou que à inexistente qualidade intrínseca da peça. 

Não tenho dúvida que o saudosismo do Estado Novo tem mercado eleitoral. Quer nas muito conservadoras elites do salazarismo, perdedoras no regime democrático, que dantes votavam no CDS. Quer (paradoxalmente) nos filhos das classes mais deserdadas do Estado Novo não apreciadoras de modernices – a falta de mundo e de escolaridade foi em todos os tempos e locais grande fonte de ilusões de superioridade nacionalista. Sucede em todas as democracias que destronaram ditaduras: há uma porção de pessoas que endeusam uma suposta era gloriosa passada. E é conhecida e estudada a propensão para o pensamento simplista, para a recusa da ambiguidade num mundo complexo, para as soluções fáceis de diabolizar um inimigo imaginário. 

No entanto também não tenho dúvidas que Ventura e o Chega são produtos políticos de qualidade duvidosa – e nem sequer só moralmente. São ambos pechisbeque político. Ventura é pouco mais que um imitador de Trump, ávido de atenção mediática como fim último da política, com tiradas cada vez mais indecorosas, e pretendendo criar uma realidade alternativa onde vivem encapsulados os seus indefetíveis. Sucede que Trump não foi excessivamente bem-sucedido – ganhou uma primeira eleição por uma conjunção de acasos infelizes e perdeu estrondosamente a segunda, com sucessão interminável de revezes e incompetências no entremeio. 

Ventura nesta campanha presidencial tem seguido o guião de Trump. No primeiro debate, com João Ferreira, interrompeu permanentemente e impediu que qualquer conversa existisse. Veio ainda reclamar que quer os votos bem contados – levantando, tal como Trump, espantalhos mentirosos sobre a fiabilidade dos resultados eleitorais. A falta de originalidade é gritante. 

Não é novo. Já há muito seguia os estratagemas trumpistas. A procura de polémicas com celebridades ou personagens do entretenimento e cultura, de forma a ganhar visibilidade. Já andou em despiques públicos com Filomena Cautela, Agir, José Castelo Branco. Tudo é uma encenação para enganar tolos com papas e bolos. Ventura até fala de si na terceira pessoa, assumindo implicitamente uma persona criada para o mercado político dos mais incautos. 

Há nisto uma vantagem para quem se lhe opõe: pode-se prever o que copiará a seguir. Além disso, Trump gerou uma quantidade avassaladora de anticorpos na sociedade americana que terminou com a derrota. Os anticorpos também se criam a cada encenação e palavra de Ventura, sempre ali ao nível do esgoto. As hostes democratas devem perceber isso e usar e agitar os ditos anticorpos. Votar contra a extrema-direita rasteira é um incentivo para muitos. 

Os temas de Ventura também vão de encontro aos fantasmas dos eleitores mais preconceituosos, em vez de falarem da realidade. Há esse perigo mortal, segundo as mulheres do Chega, que são as feministas. Nem se entende como as feministas não estão nas listas de organizações terroristas de todo o mundo. Por outro lado, o discurso securitário e punitivo é ridículo num dos países mais seguros e pacíficos do mundo – a nossa nódoa criminal é precisamente na violência doméstica. 

O RSI é uma prestação com valores irrisórios, tanto de dotação global como dos recebimentos individuais. Os poucos milhões que os ciganos recebem não valem mais que cinco minutos de atenção, sobretudo tendo em conta as grandes clientelas sanguessugas de impostos, algumas aliadas de Ventura. Mesmo os que consideram que os ciganos se excluem, ou se arrepiem com o tratamento dado às mulheres na comunidade (aqui incluo-me), terão de concordar que a forma de dar oportunidades às novas gerações é educá-las e não estigmatizar. 

Por muito que Ventura se esforce, e os trolls das redes sociais se multipliquem em insultos e contas falsas, a realidade impõe-se sempre à narrativa política fantasiosa. Não convence ninguém que vivemos numa crise de segurança pública pela inexistência de prisão perpétua (ou de cortar mãos a ladrões, inovação saudita recente de Ventura), os resultados das eleições são fraudulentos ou que pagamos muitos impostos por causa dos ciganos. Os problemas reais – os hospitais e centros de saúde, o emprego e o desemprego, transportes públicos, escolas – têm a mania irritante de se sobreporem às ameaças imaginárias. 

Ventura imita igualmente Trump na opacidade. O financiamento do Chega, em alguma parte já revelado em reportagens de Miguel Carvalho para a Visão, coloca o partido na mão de meia dúzia de empresários ricos. Não admira. Ventura passou rapidamente de antissistema para desejoso de ter tachos num eventual governo de direita. Não quer destruir nenhum sistema – quer que os seus o explorem. 

Inevitavelmente, este caldo apela a pessoas de fraca qualidade. Ou, na novilíngua de Ventura, de ‘pessoas de bem’. A mim essas ‘pessoas de bem’ do Chega costumam enviar-me mensagens com abundantes e carinhosos emojis em forma de fezes, a cada vez que critico o seu deus. Há semanas, uma encantadora senhora ‘de bem’ apoiante do Chega, certamente muito católica, desejou-me que morresse. 

Dentro do Chega, e segundo as reportagens que Pedro Coelho tem feito para a SIC, toda a gente se grava (e se denuncia mutuamente à comunicação social), os ódios são florescentes, já houve purgas e leis da rolha à boa maneira estalinista. O grande amigo de Ventura, Luc Mombito, envia mensagens insultuosas e sexualizadas a uma menor, de seguida justificando-se com o racismo que o tem como alvo – apesar de fazer parte do partido que diz não existir racismo em Portugal. 

Não fora o perigo real de abandalhamento e desgaste das instituições democráticas, até seria (em teoria, volto a ressalvar) divertido vermos tal grupo de deploráveis e impreparados num governo. Porque os produtos políticos tóxicos como o Chega (e o movimento trumpista) têm em si a génese da sua destruição. O ódio e o ressentimento que cultivam para os alvos de fora inevitavelmente contaminam o interior. Quando se cultiva ódio, o ódio espalha-se por todo o lado e vira-se contra os criadores. Vimos tal qual na permanente guerrilha dentro da Administração Trump. E a realidade alternativa que criam, para alienar eleitores, às tantas explode-lhes nas mãos. Para Ventura, como para Trump, o espalhafato mediático será uma maldição.» 

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12.1.21

Novo Estado de Emergência

 


«Projeto de diploma que modifica a declaração do estado de emergência, aprovada pelo Decreto do Presidente da República n.º 6-A/2021 de 6 de janeiro e a renova por quinze dias, até 30 de janeiro de 2021, permitindo adotar medidas necessárias à contenção da propagação da doença Covid-19.» 

Texto AQUI.
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Marcelo e os testes

 


«O Marcelo até nos resultados dos testes é catavento.»

Rui Rocha no Facebook
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Depois do desastre

 


«Referiu-se aqui o "feitiço" do Natal; parece agora mais apropriado falar de "maldição". 

Ninguém hoje nega que o disparo enorme dos contágios que atualmente nos assusta e põe em causa todo o sistema se deve à onda das compras e às reuniões de família e amigos. Fez-se a opção entre duas maneiras de morrer: ou numa cama de hospital ou numa letal consoada a dois. 

A sensibilidade social da quadra levou as autoridades a fazer uma aposta na sensatez das pessoas, que foi escandalosamente perdida. Fez-se batota com a covid, mas o vírus não brinca. 

Mantidas as regras, a soma das festas de fim de ano ao Natal teria resultado numa irremediável e impensável catástrofe nacional. O português médio continua a exigir um modo de vida muito próximo da velha normalidade, só desperta para o problema quando está deitado de borco numa cama com quatro enfermeiros à volta. Procura-se agora o nível adequado de confinamento para o futuro imediato. 

E mais uma vez se tende a ignorar o papel das escolas em toda a situação. Não que as escolas sejam lugares inseguros, mas o seu funcionamento presencial gera uma imensa movimentação de saídas e entradas, de levar e trazer, que foi - a não ser que alguém prove o contrário - responsável pelo primeiro sobressalto dos números, verificado a partir da segunda metade de setembro, não só em Portugal, mas em toda a Europa. 

Pelo menos no Ensino Superior e nos últimos anos do Secundário, a passagem ao ensino online é uma medida razoável e adequada à travagem do alastramento da infeção.» 

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11.1.21

Museus em confinamento

 

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Polígrafo dixit

 


«Quando se falou sobre o Orçamento do Estado de 2021, João Ferreira criticou o BE. “Reconheço insuficiências na resposta do Orçamento, já o disse várias vezes. Agora eu valorizo muito aqueles que não desistem a meio de nenhum combate. E valorizo que tenha sido possível, por intervenção nomeadamente do PCP, incluir no Orçamento do Estado investimento no Serviço Nacional de Saúde em contratação de mais profissionais, em contratação de mais meios e equipamentos, na construção de infraestruturas, algumas delas aguardadas há muito tempo”, disse. 

Na resposta, Marisa Matias contrapôs com os números dos médicos: “Eu, tal como o João Ferreira, também não gosto nada de quem desiste nem a meio, nem no fim. E por isso é que eu disse e repito que se toda a esquerda tivesse sido firme, nós podíamos já neste momento ter parte desses problemas resolvidos no Serviço Nacional de Saúde. É isto que eu quero dizer, porque nós chegámos agora ao final do ano de 2020 com menos 961 médicos no Serviço Nacional de Saúde.”»
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O preço de um Natal

 

«Estamos a pagar o preço da decisão política de dar o Natal às famílias. O que isto conseguiu foi que algumas famílias passassem o seu último Natal juntas, porque se permitiu aligeirar as medidas numa das piores alturas do ano, o Inverno.» 

Philip Fortuna, médico intensivista do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central
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Envelhecer assim

 


«Os velhos estão a morrer. E nem todos de corona. Este final de ano levou mais uns tantos, entre eles o Carlos do Carmo, o príncipe na cidade. Sobra uma mágoa seca, tão seca como aquele fado sem música que o Carlos cantou junto ao caixão do José Cardoso Pires, há muitos anos, e que foi a comovente despedida. Na Biblioteca das Galveias, a biblioteca pública onde José Saramago se refugiava a ler os clássicos enquanto trabalhava num emprego diminutivo, sabendo que havia mais na vida do que gastar as horas sem pensar. A voz do Carlos do Carmo ecoou no silêncio, cantou o fado sem um tremor, num desgosto limpo. Houve quem abandonasse a sala para chorar fora dali. Aquela emoção não podia ser quebrada com choraminguice. Só com a voz. O heroísmo da voz. 

A safra deste ano dá-nos certeza de que uma geração ilustre não dobrou o cabo das tormentas. E viveu o último ano da vida numa clausura de pestíferos. Entramos em janeiro, um mês cruel para os velhos, um mês duro e metálico, um mês escarpado e que corta a pele como aço, um mês gelado e indiferente, com medo. Não há pior modo de entrar no ano novo. Toda a gente, naquela altura da vida a que se convenciona chamar “de certa idade”, tem medo. Pode não tomar todas as precauções, por incúria, por bravata, por desatenção ou por falso sentido de segurança, isto não me acontece a mim, mas o medo está lá, acoitado como um animal selvagem na caverna, à espera. Não há sentimento mais fácil de detetar do que o medo. Não são precisas palavras, o medo lê-se no corpo, e lê-se com clareza no corpo dos velhos. 

Esta semana, ao visitar um hospital encontrei uma sala de espera cheia de velhos, homens e mulheres, uns mais novos, nos setentas, outros mais velhos, depois dos setentas. Os mais novos estavam sozinhos, e pela posição do corpo nas cadeiras via-se que não estavam confortáveis. O corpo torcido, virado para dentro, procurando ocultar-se. O corpo desconfiado e obrigado a distância. Ninguém falava, agora não podemos falar, o vírus não gosta da mudez e temos de contrariar o vírus. Este e os outros, os do inverno, os da gripe, os rinovírus, esse cardápio de doenças do frio que foram remetidas para plano secundário. 

Os mais velhos estavam acompanhados. À minha frente, um homem muito velho seguia com uma mulher mais jovem, mas não jovem, que lhe segurava o braço e vigiava o passo. O velhote caminhava em passinhos trémulos, como uma criança a aprender a andar. Caminhava curvado, e notava-se que a altura do esplendor da vida não tinha sido aquela, tinha sido mais alto, a velhice obrigava-o a curvar-se como um prédio empenado. Os passos eram pequenos, um bocadinho de cada vez, e atravessar a sala tornava-se uma viagem de minutos. A mulher devia ser a filha, a criança que ele educou e da qual cuidou e que agora foi chamada a fazer o mesmo por aquele pai-criança, aquele pai destituído de poder ou controlo sobre o mundo. A inversão é clara, e inevitável. Um velho tem tantas coisas de criança, incluindo a impaciência e a lágrima fácil. Depois de anos de repressão das emoções por uma cultura que não as aprecia, os velhos choram com facilidade. Mesmo que finjam que não choram. Uma parte dessas lágrimas acresce ao conjunto de indignidades da velhice, o olho húmido perpétuo, outra parte deve ter a ver com a desinibição, e uma terceira com a certeza de que tudo se torna tão difícil com a idade, desde descascar uma laranja a desrolhar uma água das pedras. Os ossos perderam a força e a pele engelhada recusa ficar com tudo a cargo. O corpo deixa de responder às mais pequenas coisas, numa teimosia que obriga a pedir ajuda para atravessar dois metros quadrados. 

O poeta T. S. Eliot tem um poema enigmático, “The Love Song of J. Alfred Prufrock”, de 1917, poema do tempo da guerra e da peste, em que Prufrock pergunta se ousará perturbar o universo, se ousará comer um pêssego. E sabe que ao envelhecer enrolará a dobra das calças. “I grow old… I grow old…/ I shall wear the bottom of my trousers rolled.” Tantas interpretações críticas sobre esta “Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”. Para mim, e este é o poema preferido, o que aprendi de cor desde que o li a primeira vez, nunca houve outra interpretação. O poema da despedida, o poema do fim das coisas, do fim do amor e do amor do corpo, o poema da memória dilatada pela lucidez, o poema da vida medida em colherinhas de café, a vida de alguém que ouviu o canto das sereias, que não foi o príncipe Hamlet nem estava destinado a ser, e que no monólogo da gloriosa introspeção consegue reduzir as perguntas a uma. Ousarei perturbar o universo? 

Ao contemplar os velhos do hospital, o medo dos corpos assustados com a novidade incompreensível da doença que gosta de atacar os velhos, os doentes, os pobres, os fracos, recitei o poema em pensamento. Os livros ainda dão consolo. O medo dos velhos, o medo daqueles olhinhos húmidos atrás das máscaras, analisando o espaço em volta e os perigos que o habitam, o medo dos monstros lunares e marcianos da ficção científica, o medo do que é estranho, é uma crueldade a acrescentar às outras. Não se trata já de enrolar as calças porque a altura diminui, ou de não conseguir comer um pêssego porque escorrega das mãos e os ossos não seguram os sólidos, trata-se de sobreviver à solidão a que este vírus condenou os velhos. A um terror vivido em solitário, atrás de vidros e de janelas e portas, atrás do escudo da proteção a que foram condenados. Conheço velhos que passaram a noite de Natal e a noite de fim de ano sozinhos nas casas. Muito pior do que ver um pêssego escapar das mãos. Pior quando a memória ainda segreda, foste em tempos uma pessoa inteira, tiveste poder sobre ti e sobre os outros, dominaste o mundo com a tua força, mediste a vida em colherinhas de café porque escolheste medi-la assim. E ouviste o canto das sereias. E sabes que não cantarão para ti, escreve Eliot. 

Já tivemos outras pestes. No tempo da tuberculose, os doentes refugiavam-se e pensavam em solidão enquanto o mundo lá fora continuava composto. A tuberculose produziu obras-primas da literatura, como “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, e produziu mestres da escrita como Albert Camus, que quando teve tuberculose em novo passou o tempo a ler e assim se fez escritor. Deste vírus, não sairá o génio das artes. A tecnologia instituiu outras formas de comunicação e de pensamento, ou aboliu o pensamento. O telemóvel de última geração não salvará os velhos. Já ninguém lê livros. E a idade não deixa ler. Na solidão das salas e das casas, a companhia que lhes resta, no cansaço do dia, é a televisão. No hospital, no consultório, na espera, lá está ela, a luz azul acesa com pessoas dentro que falam com uma felicidade fingida, infantil, para alegrar os velhos.» 

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10.1.21

Rações de Combate?



 

Como serão as Rações distribuídas actualmente a soldados portugueses? Espero que existam e que possam ser compradas por paisanos. É que me dava tanto jeito para o confinamento que aí vem, já que não quero mesmo cozinhar… 
Esta, dos franceses, não tem mau aspecto.
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Júlio Pomar – Seriam 94

 


«A Refeição do Menino»
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Marisa Matias versus Tiago Mayan


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Saudade e zaragatoas



 

«É uma mulher antiga. Queixa-se da manhã glacial em morno amarume, "Ai,senhor António, até sinto o frio a entrar nos ossos." Fosse António um operário a quem o fiscal de obras perguntasse "O que fazes, aqui?", não responderia "Estou a construir uma catedral". Diria, quem sabe, "Trabalho para ganhar o meu pão". A resignação diligente habilitou-o com razoável destreza a tirar um café quase perfeito e a discorrer sobre a forma ideal da chávena ou a desejável temperatura da máquina. Vai-se-lhe o olhar adiante do verbo, aconchegando a mulher que se despede em ângulo agudo, devido às cruzes, "O pior é a saudade dos abraços e das coisas boas que perdemos; se ao menos nos deixassem tirar o açaime...". 

A saudade de que ela fala não é a "realidade essencial" erguida "à altura duma religião", como a definiu Pascoaes, mas a soma de perdas, de pequenos prazeres escoados, a raspadinha de tantas privações. Poderia ordenar um cadáver esquisito das suas paciências em solitude com as palavras que correram no ecrã enquanto o vocabulário lhe minguava: discriminação, covid-19, pandemia, sem-abrigo, infodemia, zaragatoa, saudade. 

Saudade, a palavra do ano na votação promovida pela Porto Editora, alinha, em letra minúscula, os eclipses da alegria que legendam o rosto da mulher devolvida, em ângulo agudo, à invernada. Se, ao menos, pudesse "tirar o açaime". 

Já a palavra máscara nem sequer foi a votos mas é-lhe tão afrontosa, espécie de zaragatoa ao pensamento, aflição em folha-de-flandres como a dos atavios de escravidão descritos por Machado de Assis, no início do conto "Pai contra Mãe", nas Relíquias da Casa Velha: "Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham, penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras." 

Um século depois, Bia Bulcão, a atleta brasileira que estagiou em Portugal à espera de vaga nas Olimpíadas de Tóquio, entrevistada pelo jornal O Globo, fala com ironia das regras apertadas. "Na esgrima", diz ela, "já estamos acostumados, é sempre de máscara." 

E a mulher antiga, em ângulo agudo, a vida inteira sem aulas de esgrima: "Todos os dias agradeço a Deus esta depressão que me anima."» 

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