10.3.21

Uma questão de ponto de vista

 

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Costa determinou o segundo mandato de Marcelo, oferecendo-lhe todo o poder sobre o Governo

 


«Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse para o seu segundo mandato. Definiu as suas prioridades. Mas vivemos um tempo de tal incerteza que as suas prioridades não podem ser determinadas por ele. Não sabemos quanto tempo durará esta pandemia e até onde nos levará a crise sanitária. Não sabemos, por isso mesmo, a profundidade do impacto social, económico e até político da crise. Nem sequer sabemos que Europa sairá desta pandemia. Serão as prioridades que determinarão Marcelo, não o oposto.

Há, no entanto, condições prévias que já definem e continuarão a definir o comportamento do Presidente da República. E foram quase todas determinadas por decisões táticas de António Costa. A maior condicionante política ao comportamento de Marcelo numa crise de dimensões e duração incerta é a desproporção de força entre o Governo e o Presidente.

Quando António Costa optou por não ter uma solução de maioria parlamentar, não negociando com o Bloco de Esquerda essa possibilidade (bem aliviado deve estar o BE, neste momento), com a desculpa esfarrapada de que essa solução teria de incluir um PCP que recusava acordos escritos, pensou que teria quatro anos de prosperidade económica e folga orçamental. Que poderia gerir alianças de geometria variável e chantagens em cada crise. Se há coisa que um político deve saber é que a previsão é uma arte estranha ao seu ofício. A importância de estar prevenido para o pior é a única certeza que pode ter. Hoje, no meio de uma crise pandémica, Costa depende da continuação da crise da direita para sobreviver.

Estando numa situação de fragilidade política, António Costa decidiu apoiar informalmente a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Mário Soares foi reeleito com 70% no mandado de um governo de maioria absoluta do PSD. Por isso, o Cavaco deu-se ao luxo de apoiar a sua reeleição. Soares nada podia fazer, a não ser dar alento, como deu, a uma esquerda há seis anos na oposição. Costa deu-se ao luxo de apoiar informalmente a reeleição de um Presidente de direita quando governa em minoria.

Julgava estar, com este apoio, a comprar um escudo. A não ser que seja o único político português que acredita na lealdade de Marcelo (Marcelo não acredita na de Costa, seguramente), saberá que esse escudo durará enquanto a direita não se reorganizar e enquanto interessar ao Presidente manter Costa em São Bento. E, mesmo até lá, será um escudo pesado. É evidente que Marcelo venceria as eleições sem o apoio de Costa. Até é provável que o vencesse à primeira, com menos votos da esquerda e mais da direita. Mas dificilmente teria a votação que teve. O que quer dizer que dificilmente teria a força que tem.

Quer a larguíssima votação que deu ao Presidente um poder reforçado, quer a fragilidade da solução governativa resultam de decisões de Costa. E têm origem no mesmo problema: um olhar que é sempre de curto ou médio prazo.

Enquanto a direita não conseguir arrumar a sua casa, não é provável que Marcelo tenha choques com o Governo. E não é provável, porque não precisa de o fazer. Perante uma crise pandémica, social e económica, com um governo minoritário e que tenderá a desgastar-se depois da fase pandémica, o Presidente tem 60% dos votos para redefinir os seus poderes. E já o começou a fazer.

Quando Marcelo anuncia datas e critérios para o desconfinamento, que são poderes executivos, até pode estar a ajudar o Governo, preparando o caminho para uma solução faseada e muito cautelosa. Mas está a alargar a sua influência, como não acontecia desde o tempo de Ramalho Eanes, quando eram outros os poderes. Fá-lo em proteção de um governo frágil, fá-lo-á para limitar todas as escolhas desse governo frágil, quando isso for do seu interesse. Quando Costa fez todas as opções táticas que o tornaram totalmente dependente do Presidente da República, definiu o que será o segundo mandato de Marcelo. O seu protetor poderá vir a ser o seu carrasco.

Nota: não tenho qualquer razão para acreditar na desculpa sem conteúdo dada pelo gabinete de Cavaco Silva para não ter ido à sessão de cumprimentos do seu sucessor. Foi mais uma de muitas demonstrações de desrespeito e deselegância institucional, comuns no ex-Presidente. Mas não deixei de me divertir com a afirmação, dias antes, de que vivemos numa “democracia amordaçada”. Para quem se lembra como as cargas policiais eram a forma banal de lidar com manifestações, fosse de polícias, de estudantes ou de utentes da ponte sobre Tejo, ouvir isto de Cavaco Silva é hilariante.»

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9.3.21

Eu bem digo que isto anda confuso!



 

Camilo Lourenço quer que eu compre uma liquidificadora, Joana Carneiro anda de cabelos ao vento a esforçar-se para me vender 5G via Vodafone e Marcelo está no Norte em cerimónias religiosas no dia em que toma posse como PR de uma República laica. Tirem-me deste filme!
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Desconfinamento?

 

@André Ruivo

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Não mostrem isto ao PAN

 



«Nos Estados Unidos, há santuários de animais que disponibilizam abraços de vacas para quem sente falta de afecto. Sessões custam 75 dólares (cerca de 63 euros).» « Abraçar vacas também é popular nos Países Baixos.»

#eunãoqueroumavacacáemcasa
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Pandemia económica

 


«O mercado laboral está a sofrer um sério revés desde o início do ano. Os dados indicam que, depois da evolução relativamente favorável em 2020, a taxa de desemprego em Portugal está a destoar pela negativa no conjunto dos países da Zona Euro no arranque de 2021, tendo mesmo sofrido o agravamento mais acentuado em janeiro entre todos os países da região.

Segundo o Eurostat, a taxa de desemprego em Portugal avançou de 6,8% em dezembro para 7,2% em janeiro. Apesar desta deterioração, Portugal conseguiu uma evolução muito mais favorável na taxa de desemprego no conjunto do ano passado. Claro está que esta situação está "mascarada" por um desemprego subestimado, devido aos apoios concedidos às empresas e trabalhadores. A verdade é que, perante os números mais recentes, o mercado laboral mostra sintomas de que estes apoios podem ser altamente insuficientes, receando-se uma escalada enorme do desemprego quando voltarmos à nova normalidade. A terceira vaga da pandemia atingiu-nos muito mais do que a segunda e isso terá consequências enormes na recuperação económica. As restrições à mobilidade, a bem da saúde dos portugueses, tiveram um efeito perverso e um duro golpe no tecido produtivo. Após um ano de resistência, o sofrimento das empresas e famílias mais expostas está a ser levado ao extremo. Cada vez são mais as lojas, hotéis e restaurantes que terão muitas dificuldades em voltar a abrir as portas.

Perante este cenário, fica claro que o Governo deve intensificar os apoios, não só para defender os postos de trabalho, mas também para estimular o consumo interno. Para isso, há que dar um forte apoio ao setor privado - como está a ser feito pelo resto da Europa -, mesmo para empresas em falência devido à pandemia. É que, perante esta situação, o risco aumenta em empresas exauridas, com pouca força para retomar a atividade. Logo agora que alguma luz no horizonte se aproxima com a dissipação da terceira vaga e o avanço da vacinação.»

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8.3.21

O drama dos aeroportos

 


Se não resolverem o problema da localização de aeroportos, poderemos sempre viajar em caravanas como esta.
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Sempre neste dia

 

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Portugal e direito a voto das mulheres

 


Quanto a direito ao voto feminino, em Portugal foi assim:

Tudo começou com o decreto 19.692, de 5 de Maio de 1931. Mas com excepções, como a de Carolina Beatriz Ângelo (na foto) que foi a primeira mulher portuguesa a exercer o direito de voto (nas constituintes de 28.05.1911), concedido por sentença judicial, após exigência da condição de chefe de família, dada a sua viuvez.


Em 1933 e em 1946 foram levantadas algumas restrições, mas só quase no fim de 1968, já durante o marcelismo, é que acabaram por ser removidas quaisquer discriminações para a eleição de deputados à Assembleia Nacional. (Depois do 25 de Abril, o direito universal de voto passou a aplicar-se também às eleições presidenciais e autárquicas.)


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7.3.21

Pedro Nuno Santos e o PS

 


Eu sei que o texto é reservado a assinantes e é muito longo. Deixo aqui um dos últimos parágrafos:

«Pedro Nuno Santos acabaria a palestra aos jovens socialistas com mais uma crítica à ala centrista do PS: "Ouvimos os estrategas da nossa área política a dizer que é no centro que se ganham eleições. Não nego isso. O erro no raciocínio é a conclusão: alguns pensam que para ganhar o centro temos de ceder no nosso programa, da esquerda para a direita. Mas o centro ganha-se mostrando a esse eleitorado que a nossa resposta é a que melhor responde aos anseios e desafios. O centro ganha-se à esquerda.
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Já alguém o mandou hoje para a terra dele?



 

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O que se sente e o que se pensa

 


«Uma boa conversa pode ser tão importante quanto a comida, a bebida, o exercício ou o amor. É uma das grandes necessidades humanas. À minha volta, aqueles que estão confinados em família, queixam-se da obrigatoriedade da proximidade extrema e permanente a que se encontram sujeitos. Alguns dos que estão sozinhos dizem que até os lábios secam. Podem passar-se dias em que não falam com ninguém, para além das momentâneas comunicações digitais. Outros argumentam que mantém a sanidade tendo conversas imaginárias consigo próprios.

Há um provérbio de inspiração árabe que aconselha a não falar, se o que vai ser dito não for mais bonito que o silêncio. É uma noção algo romântica porque existem silêncios que podem funcionar como autênticos socos, conseguindo ser tão ou mais agressivos do que as palavras. A nossa realidade é a linguagem, mas a nossa realidade são também as emboscadas dessa linguagem. Principalmente quando o espaço público respira conflitualidade como acontece no presente.

Vivemos um tempo onde impera a experiência emocional individual e a capacidade de escutar se perdeu. A Internet por vezes consegue ser um espaço comunicativo de acção comum, mas tende a desintegrar-se em espaços expositivos do eu. Há sede de atenção e afirmação. Há quem tenha prazer em provocar discórdia, seja impenetrável à crítica, como se concordar com o outro fosse perturbador. Muitas vezes não se quer debater, apenas sentenciar. Identificam-se fragilidades alheias, mas não se retribui, de forma produtiva, com nenhuma ideia ou desafio como alternativa. Ainda assim não vale a pena fugir-se do conflito, até porque ao fazê-lo procuram-se apenas refúgios de semelhança. E assim privamo-nos de entender, negociar e experimentar, pondo-nos em contacto com a nossa diferença e dos outros, como é inevitável que aconteça. Sem nos expormos às tensões, maior será a dificuldade em alcançar formas de coabitação, seja entre países, cidades, bairros ou em relações a dois.

Por norma diz-se que para resolver discórdias o melhor é separar os juízos das reacções emocionais. É difícil. A informação emocional tende a ser mais veloz do que a cortical. A impulsividade vai à frente da racionalidade. Como os choques tendem a emergir quando alguém nos põe em causa ou aos nossos interesses, por norma vêm acompanhados de emoções de animosidade. E a beligerância e a irascibilidade não são boa companhia para emitir veredictos. Quando estamos zangados as possibilidades de serem pronunciadas sentenças terríveis, das quais muitas vezes depois nos arrependemos, aumentam exponencialmente.

Justificamos essas acções com o que se sentia naquele instante, mas esquece-se o óbvio. No calor de um episódio virulento, o que se pensa não é o mesmo que se sente. A diferença é imensa. Em alvoroço não há a faculdade de estabelecer equilíbrio. Todos conhecemos o poder tranquilizador ou incendiário das palavras, tal como sabemos que as mesmas coisas podem ser ditas de muitas maneiras, causando efeitos diferentes. Pode-se ser crítico e construtivo ao mesmo tempo, sem danificar a auto-estima de ninguém. Nessas alturas de tensão mais vale respirar fundo, ou seja, dar tempo aos canais da racionalidade para alcançar os circuitos emocionais para os abrandar. O sentimento é subjugado pelo momento, acorrentado ao escrutínio do aqui e agora, e em cenários de antagonismo oferece resumos amplificados da situação. Daí a distinção crucial entre dizer o que se sente e dizer o que se pensa.

Da mesma forma é preciso auscultar as abertas para falar, escutar e estar calado. O silêncio pode ser conclusão, espera, cumplicidade, questionamento ou menosprezo. Existe uma multiplicidade discursiva em que se decide não dizer uma única palavra. Mas a grande questão é saber quando nos refugiamos nas palavras ou no silêncio que a vida nos oferece. A inteligência discursiva, ou o início de uma bela conversa, deve ser isso. Escolher as palavras ou os silêncios que cada momento exige.»

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