23.6.21

Para respeitar “dever de neutralidade”???



 

SHAME ON US!

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A maré baixa da extrema-direita e os festejos precipitados

 


«Percebe-se a razão do seu medo. Desgastado pela sua indiferença por meio milhão de vítimas de Covid, Bolsonaro ficou recentemente sem vários dos seus aliados mais poderosos: Trump foi derrotado, Netanyahu caiu, Macri foi varrido na Argentina. Vem ainda pior: no Chile, as eleições para a Constituinte comprovaram o isolamento do governo de Piñera, o Peru foi “perdido” para um sindicalista, como o presidente brasileiro se queixou, Duque está confrontado com uma sublevação popular na Colômbia, a oposição de direita na Venezuela dividiu-se e não se ouviu falar mais dela. O mapa dos poderes da extrema-direita está a empalidecer, o que faz da disputa brasileira o centro da política na América Latina. Assim se compreende que os chefes da direita tradicional, a começar por Fernando Henrique Cardoso, pelos ex-aliados de Bolsonaro no “centrão” do parlamento e até por algumas lideranças neopentecostais, se distanciem deste desastre e procurem alternativas, mesmo que alguns já pareçam resignados à bipolarização que pode levar Lula de novo ao poder.

Na Europa, Orban está confrontado com uma convergência das oposições húngaras, o apoio ao governo da Eslovénia descambou de 56% para 26%, na Polónia o governo ensaia uma viragem económica em desespero de causa, em França Le Pen estagnou, em Itália Salvini é perseguido tanto pelo ascenso de outro partido de extrema-direita como pela recuperação do centro e da velha direita, que procuram recompor-se com Draghi, em Espanha o Vox perde para o Partido Popular.

O que há de comum entre todos estes casos de desgaste eleitoral é o exercício do poder. Sempre que puseram pé em governos, mesmo quando suportados por vagas xenófobas que garantiram a opacidade da sua autoridade, estas forças atacaram direitos fundamentais, condicionaram tribunais, fecharam jornais e televisões, proibiram atividades sindicais, perseguiram opositores, em alguns casos criaram milícias e, sempre, exponenciaram os discursos de ódio. Virou-se contra eles, como não podia deixar de ser. Nos casos de Trump e Bolsonaro, desprezaram a pandemia, multiplicaram o negacionismo genocida, promoveram curandices irresponsáveis, afastaram cientistas e correram a proteger privilégios económicos. Mas, sem exceção, foram todos atropelados pela realidade, provando que há uma diferença entre as tonitruantes promessas anti-sistema e os efeitos que são capazes de produzir na vida do dia a dia das populações. Vive-se pior com estes governos e essa é a prova dos factos.

Por isso, conhecer a realidade destas governações, a panóplia dos seus ministros e os jogos que movem tornou-se um instrumento essencial das lutas democráticas atuais. A bufonaria é deslumbrante, até ser vista; os bufões são esfuziantes, até serem percebidos; e a elevação de uma companhia de rufias e corruptos deixa danos profundos e duradouros, mas mostra quem eles são e o que fazem. Os heróis da extrema-direita, Bolsonaro, Trump, Salvini, Orban, Modi, mudaram a política mundial ao chegarem ao poder e têm desde então criado a sua própria desautorização.

Essa mudança ainda se prolonga e prolongará, não estamos livres dela. Le Pen beneficia do apodrecimento do poder de Macron, confirmando que o centro nunca é uma barreira contra o autoritarismo social da extrema-direita, e ainda tem pela frente uma campanha presidencial com maiores chances do que no passado. A radicalização da direita histórica espanhola é um efeito da contaminação pelo Vox e ficará, tudo nos nossos vizinhos será disputado ao som da memória e da linguagem da Guerra Civil do século passado. Bolsonaro, no seu desespero, tentará os militares, e Trump anda por aí. A semente está plantada.

No nosso caso, ainda só está a começar a festa. Moedas, em Lisboa, copia Ayuso, de Madrid; Rio compete com Ventura; Figueiredo organiza uma festa Covid; uma convenção junta os aristocratas da direita e o que resulta é uma polémica infindável sobre o saudosismo salazarista, e estão por verificar os efeitos duradouros de uma direita que deixou de disputar o centro e se limita a estralhaçar-se. Em todo o caso, a lei é implacável: se os partidos de direita se imitam, têm que se agredir para que alguma coisa os diferencie. O efeito é pesado, um espaço político com um partido de 20% e dois outros de 5% ou algo mais torna-se radicalmente inviável. Alguns concluirão que, assim sendo, Ventura é o melhor aliado de Costa e que Rio será somente uma ponte para Passos Coelho. Ora, muita água ainda passará debaixo das pontes até conhecermos o desenlace desta tragédia à direita, mas fica um aviso para as esquerdas: se há quem pense que basta esperar sentado para assistir ao espetáculo, é melhor perceber como o mundo tem mudado. Não tem sido para tornar a vida mais feliz.»

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22.6.21

Euro2020

 

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Azuis por fora, podres por dentro

 

Este texto sobre a manifestação do Movimento Zero, que teve lugar ontem em Lisboa, é de leitura absolutamente obrigatória, na íntegra.

«Tudo nesta concentração, obviamente, é extremista, como tudo no M0, desde que surgiu - lembremos que por "revolta" contra a decisão de tribunal que condenou oito agentes da PSP por terem sequestrado, agredido e insultado de forma racista jovens negros da Cova da Moura -, ressuma a uma corrente política que chama "regime" à democracia e diz querer "substituí-lo". Convinha que não só o governo e o PR como todas as forças democráticas tornassem claro que, se as legítimas aspirações dos agentes das forças de segurança merecem todo o respeito e atenção, este tipo de manifestação deve ser repudiado e quem nele participa sofrer consequências.»
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O laboratório francês



 

«Le feu qui semble éteint souvent dort sous la cendre (Corneille)

Marx, que considerava a Alemanha a pátria da filosofia (assim cantava Caetano Veloso: "só é possível filosofar em alemão"), atribuía à Inglaterra a primazia na economia e à França a vanguarda dos movimentos políticos. Alguém não menos inteligente, Jaime Gama, dizia há pouco que tínhamos que estar muito atentos às mudanças políticas em França, que encerrariam fortes indícios para o nosso futuro.

Vivi algum tempo em França e sou afrancesado desde pequenino. A oportunidade de passar os últimos quinze dias do mês de junho entre Paris e Estrasburgo levou-me a esse feliz reencontro, que é sempre encontro com uma parte de mim. Mas alguma coisa me inquietou.

Nunca vi os franceses tão céticos em relação ao universo das lutas políticas, tão desprendidos do seu famoso espírito "frondeur", que bem recentemente vimos florescer nos "gilets jaunes", tão indiferentes e de tal modo resignados que até a Sra. Le Pen ganhou um tom cordato e institucional que contrasta com o modo arruaceiro que é sempre apanágio e graça da extrema direita. É verdade que um mês antes dos acontecimentos de maio de 1968, o "Monde" publicava um editorial sob o título "A França aborrece-se"... Nunca se sabe o que poderá brotar de uma aparente passividade. Como dizia Corneille, o fogo que dorme sob as cinzas pode bem vir a surpreender-nos.

O deslizar tranquilo e sem surpresas de Macron para a direita e a (apenas tática?) inflexão de Marine Le Pen para um tom de seriedade e responsabilidade institucional, leva muitos franceses a desvalorizar a política de "frente republicana", que levava a esquerda a votar no candidato de direita mais bem posicionado para derrotar a extrema direita, e a considerar sem sobressalto a hipótese de uma vitória de Le Pen. A esquerda foi-se diluindo nas suas múltiplas cambiantes ideológicas, enquanto a direita democrática disputa o seu espaço político com um Macron enfraquecido. Macron tentou esvaziar o universo político francês das suas alternativas, sem conseguir simultaneamente mostrar-se como eficiente barreira a uma extrema direita que deixou (até quando?) de assustar eficazmente os franceses.

A preocupação que eu senti com a França prende-se com a ausência ali, não de um debate de ideias, que existe e é bem forte (tomáramos nós...), mas de uma ideia consistente de alternativa política. A nação que foi considerada a mais política da Europa deixou-se deslizar para um estranho estado de anomia, que nos faz recear, face às ameaças que nos rodeiam, um acentuar da impotência europeia, que a França, ainda assim, é das poucas a denunciar no seu discurso.

O regresso dos Estados Unidos às suas responsabilidades mundiais obriga ainda mais todos os que acreditam num papel próprio para a Europa a assumirem plenamente as responsabilidades que lhes cabem como europeus. Ora a indiferenciação política não favorece a vontade de assumir qualquer papel ou responsabilidade que seja.

Poderá o nosso futuro político vir inscrever-se na triste alternância entre uma direita tecnocrata e economicista e uma extrema direita um pouco mais polida e asseada? Quando voltei a Portugal, chocou-me certamente o tom rasteiro, deselegante e mal articulado de boa parte dos nossos debates; mas senti como uma bênção que eles continuassem a existir.»

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21.6.21

Solstício



O tempo passa depressa. Há 10 anos, vivi o dia mais longo da minha vida bem ao Norte, na belíssima cidade norueguesa de Bergen. O bom gosto chegou lá e instalou-se. As casas, o verde, a água, a luz, as cores do mercado – nada destoa, tudo parece ter sido inventado para se completar.
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Em jeito de solidariedade com o Brasil

 

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Os refugiados de hoje

 


… serão os médicos, professores, artistas, heróis no desporto, cientistas, etc., etc.

David Schneider no Twitter
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Reconstruir o tecido social

 


«Na sua intervenção, no dia 10 de junho, o presidente da República interrogou-se, em nome de todos os portugueses, nestes termos: "esta Terra" - o país que somos - "exige mais de nós? Que o não esqueçamos nos próximos anos, não nos limitando a remendar o tecido social ferido pela pandemia, reconstruamos esse tecido a pensar em 2030, 2040, 2050". É mesmo por aqui que vamos, senhor presidente?

Trata-se de um propósito positivamente transformador da vida dos portugueses, com duas exigências de partida: i) a sociedade portuguesa - começando pelo presidente - ser capaz de romper com a tolerância e condescendência face à pobreza; ii) não sermos embrenhados na discussão de soluções mágicas para daqui a décadas, como forma de escamotear os problemas do presente, que é contínuo.

A profunda relação entre o trabalho, o emprego e a proteção social está no cerne de qualquer estratégia para reconstrução do tecido social. É preciso valorizar o trabalho e criar mais e melhor emprego, o que passa por reforçar e qualificar o tecido produtivo e garantir os direitos sociais e laborais às pessoas. Nestes campos, há que pôr de lado as políticas de remendos e dar passos consistentes que rompam com posturas oportunistas ou tacanhas muito enraizadas na sociedade.

O tecido produtivo está deslaçado, não basta fazer-lhe chegar dinheiro. Se a economia for tratada apenas como negócio, alavancada por um forte pendor de importações e assente numa dimensão desproporcionada de serviços de baixo valor acrescentado e de baixos salários; se continuarmos com relações intersetoriais não entrosadas e desequilíbrios regionais sistémicos, não se geram bases para reconstruir o tecido social. Mude-se de agulha nas políticas económicas e assegure-se um sistema de relações laborais em condições de dar efetividade ao diálogo e à negociação coletiva.

O sistema de proteção de que precisamos exige compromissos de solidariedade social estruturada. Cidadãos persistentemente dependentes da caridade de outrem perdem a dignidade e a liberdade e são reprodutores de pobreza, em todo o espaço das suas relações sociais. É indispensável reforçar o sistema de segurança social. Isso depende, em primeiro lugar, do volume de emprego, do valor dos salários e da existência de vínculos laborais para todos os trabalhadores - portugueses e imigrantes. Na maioria das situações a precariedade só tem uma justificação: ser instrumento de redução da remuneração do trabalho. E um trabalhador que roda de emprego em emprego tende a usufruir de um salário cada vez menor.

Os setores políticos e económicos que aproveitaram a anterior crise para instabilizar as relações de trabalho e transferir, injustamente, riqueza e poder do trabalho para o capital gritam agora, sem vergonha, contra as instabilidades que resultariam de alterações à legislação laboral necessárias para criar um pouco mais de justiça. O governador do Banco de Portugal já veio, esta semana, alimentar o peditório: só sabe olhar trabalho e salários como variável de ajustamento.

Senhor governador, preocupe-se com o que é fundamental na sua missão: a supervisão do sistema financeiro e a sua sustentabilidade. Se o fizer com eficácia dará saúde à economia, ajudará a reduzir encargos do Estado e, seguramente, contribuirá para reconstruir o tecido social.»

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20.6.21

João Semedo

 


Seriam 70, hoje.
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Carta para Noah

 


«Escrevo-te esta carta para quando souberes ler. Não é provável que a venhas a encontrar. Mas imagina que um dia resolves pesquisar o ano de 2021, este mês de junho, e deparas com um episódio da tua vida. E opiniões, muitas opiniões. Entre elas estará a minha.

A minha profissão é ver crescer crianças como tu. E responder a perguntas. Está bem ou mal? Magro ou gordo? Alto ou baixo? Devia falar mais? Que lhe dou para comer? Dorme suficientemente? Porque se porta assim? Pode fazer isto? E aquilo?

Pois tu, caso não te lembres já, ou não te tenham voltado a falar disso, esta semana acordaste muito cedo, levantaste-te, e saíste pela porta da rua entreaberta. Dizem que foste atrás do teu pai. E desapareceste. Estiveste desaparecido um dia e meio.

A GNR montou um quartel general na praça da aldeia onde vives. Vieram pessoas participar nas buscas. Não se cansaram. Fizeram-no sob a coordenação de uma equipa profissional. Milhares de pessoas pensaram em ti com afeto, preocupação e esperança. Até que um casal te encontrou. E voltaste à tua família e ao teu cão.

Tenho duas fotografias tuas. Uma foi a que os teus pais publicaram para que te procurássemos. A outra é a que mostra um momento pouco após o teu achamento. Tu és um menino esperto e aventureiro. Vê-se bem. Também se vê que o teu pai gosta de ti e que os soldados da GNR desta vez estão satisfeitos, porque fizeram o seu trabalho.

Não sei mais nada da tua família. Nem tenho de saber. Basta-me que se tenham reunido. Mas quero que saibas que os teus pais são gente boa. Tu soubeste caminhar pelos baldios de Proença, pela lama e pelos trilhos, atravessaste a vau uma ribeira, talvez te tenhas alimentado e bebido água. Não te magoaste. Não foste atacado. Talvez não tenhas encontrado nenhum animal maior do que tu. Se sobreviveste foi porque os teus pais estiveram contigo, estes anos. E te viram crescer. E te ajudaram, quando precisaste. E agora, que te perdeste, eles estiveram à frente dos que te procuraram.

Tens de ter algum cuidado. Aprender melhor os caminhos de volta. Saber olhar para o sol. Marcar os trilhos. Levar mantimentos.

Mas podes contar connosco. Espero que nos encontres, muitas vezes. Porque nós precisamos das nossas crianças, todas. E precisamos tanto de alguns como tu, Noah.»

Luís Januário (pediatra) no Facebook
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O teu trabalho nas minhas mãos



 

«Se está a ler esta crónica através do seu smartphone, lamento informá-lo de que a probabilidade de ter o resultado da exploração de uma criança congolesa nas mãos é elevado. E sim, eu sei que o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil já passou, mas só hoje consegui ler o artigo The dark side of Congo’s cobalt rush que guardei, também no meu smartphone, há cerca de duas semanas. E caramba se alguma vez, especialmente este ano, é tarde para escrever sobre trabalho infantil.

Gostava de começar por vos apresentar Ziki, menino congolês que “conheci” durante a leitura e que, depois de perder os pais num acidente, foi enviado por uma tia para trabalhar numa mina de cobalto quando tinha cerca de quatro anos. A mesma idade do meu filho, que ainda ontem fez uma festa porque se conseguiu calçar sozinho. E se para nós é estranho que uma criança desta idade trabalhe, no Congo, o trabalho infantil nestas minas é uma espécie de prato do dia, apesar da sua proibição legal.

Aliás, nem sei se devia chamar “trabalho” ao que estas crianças fazem, porque cada relato que leio é mais assustador do que o anterior. Crianças que trabalham 12 horas diárias em minas caseiras inseguras, sem qualquer material de protecção individual, muitas vezes drogadas para não sentirem fome e a receberem uma remuneração entre o nada e o miserável, consoante aquilo que consigam produzir. Crianças a quem não são sequer fornecidos alimentos se não fizerem dinheiro suficiente para o patrão que as explora.