28.6.22

Transportes noutros mundos (1)

 


Fiordes vistos do 15º andar de um navio. 
Doubtful Sound. Nova Zelândia (2017).
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Isto vai, camaradas

 


Ontem descobri a Anitta, hoje já fiquei a saber que existe a Prozis e que vai por lá uma tempestade que mete fuga de influencers e outros dramas. Que seria de mim sem as redes sociais!

O tempo nunca mais aquece para começarmos a ter reportagens sobre intoxicações com bacalhau à Brás.
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Do passado

 


(Não é tanto o passado que entristece, é o que acabou.)
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Encontrar os culpados

 


«Quando as coisas não correm bem, precisamos de encontrar culpados. Temos muito para onde nos virar agora. O mundo está profícuo em más notícias e na própria banalização do mal.

É um processo normalmente pouco isento. Cada um encontra os culpados que mais convêm à sua visão do mundo e, já agora, os que mais lhes convêm pessoalmente. Li há pouco que Pedro Sánchez, presidente do Governo da Espanha, perante a tragédia que matou 37 emigrantes em Melilla, afirmou que os culpados são os grupos/máfias que se dedicam ao tráfico humano.

É certo que estes têm responsabilidades. Mas é ofensivo elogiar as autoridades espanholas e marroquinas, condenando apenas a atuação destas máfias. Fica o assunto encerrado. Pois que fique em paz quem se conforma com essa análise de um problema que parece irresolúvel e que vai continuar a matar pessoas. Pessoas que estão mesmo dispostas a morrer para tentar uma vida melhor.

Para termos uma ideia do nível de sofrimento em que vivem, basta pensar nos riscos que estão dispostas a correr, muitas vezes trazendo consigo crianças. Apesar de não serem tratadas dessa forma, são pessoas iguais a nós; que amam igualmente os seus filhos. O que nos faria iniciar uma viagem com um filho nos braços, sabendo que não conseguíamos garantir a sua segurança?

A primeira vez que ouvi falar neste assunto foi numa conferência do Gonçalo Ribeiro Telles há quase vinte anos. O GRT previu o que temos vindo a assistir. Dizia que o nosso egoísmo nos impedia de ver a situação de miséria extrema em que viviam milhões de pessoas e que, mesmo que não fosse pelas razões altruístas de as querermos ajudar, devíamos fazê-lo pelas egoístas: é que um dia viriam em debandada para a Europa e o Mediterrâneo seria um cemitério se não os deixássemos entrar. Nisto tinha razão.

Temos à porta um cemitério. Podemos sacudir a água do capote, encontrar uns culpados que não nos comprometam e que nos excluam do problema. Mas a morte vai continuar.

O papel das autoridades marroquinas e espanholas não pode ser elogiado. Têm em mãos um problema que ninguém queria ter mas a vida é assim: irredutível. Não vai passar. Não se adivinham soluções fáceis e instantâneas, mas ninguém pode compactuar com a forma como isto está a ser gerido. O que estas autoridades estão a fazer envergonha-nos. E mata vidas, vidas que como todas as outras, têm o mesmo valor que as nossas.

E isto deve ser perguntado: será que a maioria dos portugueses reconhece na vida daquelas pessoas o mesmo valor que nas suas? Será que sabem que aquelas crianças são iguais às nossas? Porque somos tolerantes com esta chacina?

GRT dizia que a solução era ajudar as pessoas nos seus países de origem. Na altura, e antes de todos os conflitos que viemos a conhecer, preocupavam-no as dificuldades que tinham com a escassez de água e a ausência de desenvolvimento nas técnicas agrícolas. Também Angela Merkel, que revelou alguma coragem e humanidade na forma como lidou com o problema dos refugiados, falou na importância de melhorar as condições de vida destas pessoas mais perto dos seus países de origem. E acolheu muitos.

Escolho duas pessoas com as quais não me identifico politicamente. Ribeiro Telles foi também um grande ambientalista, talvez o maior, contrariando a ideia de que o verdadeiro ambientalismo só pode vir da esquerda. Lá está; devemos ser justos. E devemos ter essa preocupação acrescida quando as coisas não estão a correr bem. É impossível viver bem num mundo onde pessoas desesperadas morrem como tordos.

A União Europeia tem sido desastrosa em todas as intervenções que fez nestes países. Mesmo quando segue esta corrente de pensamento. A relação de desigualdade que está sempre implícita não ajuda. O Regulamento de Dublin marcou o princípio da não reciprocidade que caracteriza as relações entre os europeus e estes cidadãos. Somos todos cúmplices desta hipocrisia.

Certo é que é vergonhoso o que aconteceu e vergonhosas são também as palavras de Pedro Sánchez. Não vou dizer que é ele o culpado. De culpados estamos nós cheios. Escrevo quando também dos Estados Unidos chegam notícias miseráveis. E novamente neste caso os culpados amontoam-se: até a esquerda ativista, que não se conseguiu decidir entre Trump e Hillary, veio à berlinda. As pessoas ficam mais descansadas quando encontram causas para as coisas e culpados. É pena que não se deem muito ao trabalho nessa averiguação. É também graças a estes simplismos que o mundo não melhora.»

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27.6.22

Mas também há vírgulas assassinas

 

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Lorca

 

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Anita só há uma!

 


E só com um «t».
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O que estará Deus a pensar?

 


«O mundo está a ficar muito perigoso. Estão de volta os nacionalismos, muitos deles a reclamar o regresso de fronteiras que tínhamos esquecido, e está de volta a intolerância religiosa, alimentada por uma ignorância que é pasto para os fanáticos nas redes sociais e na vida real. A liberdade de decidir sobre a própria vida e o próprio corpo, até nos aspetos em que essas decisões em nada implicam com a vida dos outros, está a ser posta em causa pelos que não são capazes sequer de distinguir um direito de uma obrigação.

Talvez fosse bom começar por aí. O direito de duas pessoas do mesmo sexo casarem não obriga todos os homossexuais a casar. Nem sequer obriga ninguém a ir ao casamento, caso seja convidado. O direito à eutanásia não obriga todas as pessoas a optarem pelo suicídio medicamente assistido quando adoecem gravemente na velhice. O direito das pessoas transgénero assumirem uma identidade de género diferente do sexo com que nasceram não as obriga a mudar de sexo. O direito de todas as mulheres, em determinadas circunstâncias, interromperem voluntariamente a gravidez, não as obriga a abortar em nenhuma circunstância. Os que não são capazes de distinguir as coisas mais básicas, julgam-se capazes de decidir em nome de todos e fazem-no, tantas vezes, em nome de Deus. Estando certos de que Ele existe, arrogam-se o direito de garantir que Ele quer o que eles querem, mesmo quando o que eles querem faz dele um Deus violento, desumano e, portanto, desaconselhável.

Vejamos um exemplo flagrante de desconexão entre as criaturas e o criador. O direito a interromper a gravidez quando ela acontece fruto de uma violação não obriga todas as mulheres violadas a abortar. Mesmo nesta circunstância hedionda, as mulheres têm o direito de levar a gravidez até ao fim se esse for o seu desejo. Querer obrigar alguém a prolongar a gravidez nestas circunstâncias, como tentou fazer uma juíza no Brasil com uma criança de 11 anos ou querem fazer dirigentes políticos em vários Estados na América, é inaceitável. O que estará Deus a pensar destes crentes, nesta altura? Ninguém tem a resposta, mas eu arrisco dizer que não foi para esta gente que Ele desenhou o paraíso.

É provável que Deus esteja descrente nos seus crentes, divididos pelos profetas em que acreditam, criando a partir daí diferentes religiões monoteístas, onde ao longo dos séculos os homens se tornaram mais importantes que o Deus em que acreditam e, por isso, se subordinam a diferentes chefias. Foi pelos homens e nunca por Deus que os cristãos se dividiram em protestantes, ortodoxos e católicos, ou os muçulmanos distinguem entre xiitas e sunitas. E é em nome de religiões lideradas toda a vida por homens e que sempre trataram mal as mulheres, e que as remeteram para papéis secundários e submissos, que insistem em querer decidir o que elas podem ou não podem fazer com o seu corpo. O que estará Deus a pensar desta gente?»

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26.6.22

Salvador Allende nasceu num 26 de Junho

 


… há 114 anos.

O seu último discurso:



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25.06.1903 – George Orwell

 


George Orwell (pseudónimo de Eric Arthur Blair) faria hoje 119 anos. Nasceu em Motihari, nas Índias Orientais, onde ninguém deixa de reivindicar o facto quando a voz corrente o considera oriundo de Myanmar – reivindicação que ouvi mais de uma vez, quando andei por lá perto, a caminho do Butão. Mas, de facto, foi só em 1922 que Orwell chegou a Mandalay, em Burma, para frequentar a escola que o tornaria membro da Polícia Imperial Indiana naquela então colónia britânica. Manteve-se nessa função até 1927, ano em que contraiu dengue e regressou a Inglaterra.

Mais conhecida é o resto da vida que se seguiu como escritor, a participação na resistência durante a Guerra Civil de Espanha e a morte por tuberculose, em Londres, com 46 anos.

Uma citação bem actual, entre muitas possíveis:

«Uma sociedade torna-se totalitária quando a respectiva estrutura se torna manifestamente artificial, isto é, quando a respectiva classe dirigente perdeu a sua função mas consegue manter-se agarrada ao poder pela força ou pelo embuste. Uma sociedade assim, por muito tempo que persista, nunca pode dar-se ao luxo de se tornar tolerante ou intelectualmente estável. (…) Porém, para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não é obrigatório que vivamos num país totalitário.» (Livros & Cigarros)

Uma curta entrevista:


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Maria Velho da Costa

 


Chegaria hoje aos 84.
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Pela sua saúde, fique em casa

 


«Ao ouvirmos determinadas coisas da boca de alguns agentes políticos ficamos com aquela sensação de torpor típica dos domingos à tarde, em que comemos um pouco mais e acabamos por ficar menos reativos. A semana que passou foi pródiga em momentos anestesiantes e inconsequentes. Começámos por ouvir a ministra da Saúde (há quatro anos no cargo) a anunciar, com pompa, uma comissão para acompanhar a resposta das urgências de ginecologia e obstetrícia, a abertura a acordos com os setores privado e social (depois da asneirada com o fim das PPP hospitalares) e a revisão da remuneração médica em serviço de urgência. Marta Temido dirigiu-se ao país com solenidade, como se tudo fosse uma enorme surpresa, como se não houvesse, há anos, suficientes sinais sonoros da longa degradação do Serviço Nacional de Saúde. Depois, entrou em cena António Costa, primeiro-ministro de um Governo absoluto que já parece cansado ao fim de três meses de vida. Para segurar a ministra no cargo, mas sobretudo para reconhecer que não considera "aceitáveis estas falhas de serviço". O plateau das evidências foi posteriormente tomado pelo presidente da República, que se manifestou agradado pelo facto de o primeiro-ministro ter reconhecido que "há problemas estruturais, graves, situações inaceitáveis" na Saúde. Porque, acrescentou Marcelo, "o povo vive de uma maneira e os que estão com maiores responsabilidades políticas não veem essa realidade toda".

A semana não terminou sem que a diretora-geral da Saúde tratasse mais uma vez os portugueses como crianças de colo, ao pedir-lhes o enorme favor de não padecerem em agosto, porque esse é o pior mês para "se ter acidentes ou doenças". Durante a apresentação do Programa Juntos por um Verão Seguro, Graça Freitas aconselhou ainda os cidadãos a ligarem o ar condicionado em locais fechados, a beberem água quando está calor e a evitarem o bacalhau à Brás nos piqueniques de família: "É uma coisa pré-feita de manhã, aquece-se, não chega a aquecer e os ovos são uma cultura de salmonela". Não satisfeito, o presidente da República reforçou a mensagem: "Cada qual fará o esforço para não estar doente, por si mesmo, e para não pressionar o cuidado da saúde dos outros". Por isso, já sabe: neste verão, fique em casa. Pela sua saudinha. Portugal regressa em setembro.»

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