25.10.22

Portas

 


Porta de entrada do Edifício Lavirotte, Paris, 1899-1901.
Arquitecto: Jules Lavirotte.


Daqui.
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Aumento das pensões explicado a totós

 



Entretanto, notícia de hoje:

Governo reconhece folga para subir mais as pensões no próximo ano
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Alô, André Ventura

 


Não é mau que o homem faça afirmações delirantes como esta. Está a enterrar-se, tenhamos esperança!

Observador, 25.10.2022
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É o colonialismo, estúpidos

 


«Quando vi pela primeira vez o vídeo, disse aos meus botões: - "Isto só pode ser fake!". Passei adiante. Mas depois voltei a vê-lo, repassado por várias fontes credíveis e reputadas. Não posso ignorar a minha própria indignação, que, necessariamente, inclui o responsável pelas frases abjetas que proferiu e também a honorável imprensa mainstream do Ocidente, a qual, olimpicamente, as ignorou.

Refiro-me às declarações do responsável pelo pelouro das relações exteriores da União Europeia, Josep Borrell, feitas num encontro recente com estudantes na Bélgica (isto é, as futuras elites europeias). Afirmou ele, sem qualquer rubor na face: - "A Europa é um jardim. Nós construímos um jardim. É a melhor combinação entre liberdade política, prosperidade económica e coesão social. A maioria do resto do mundo é uma selva. E a selva pode invadir o jardim. Os jardineiros precisam de ter cuidado!"

Como é possível que uma afirmação destas, tresandando a colonialismo e racismo por todos os poros, não mereça por parte da grande mídia ocidental, assim como dos seus intelectuais liberais e autoproclamados os únicos democratas à face da Terra, o menor reparo?

Na realidade, pelo menos uma voz se levantou, embora o eco do seu protesto não tenha sido devidamente repercutido pelos meios de comunicação globalmente dominantes: o eurodeputado belga Marc Botenga, do Partido dos Trabalhadores. Eis a sua declaração: - "Muita gente em África, na Ásia e na América Latina lembra-se da maneira como sempre foi tratada pelo colonialismo em nome da civilização, ou seja, como animais selvagens, escravizando-os, torturando-os e inclusive exibindo-os em zoos humanos. Assim, quando o principal diplomata da União Europeia considera o resto do mundo uma selva, a mensagem que essas pessoas escutam é que a Europa continua dominada e conduzida por uma visão colonialista. Não podemos deixar passar essa mensagem!".

A verdade, nua e crua, é que essa mensagem continua a passar e a ser a mensagem dominante. O "jardim" hegemónico, isto é, a região geográfica constituída pela Europa Ocidental e pelos Estados Unidos da América, é uma sangrenta construção edificada graças à exploração das demais regiões do mundo e os "jardineiros" farão tudo para que continue a sê-lo.

Para mencionar unicamente o caso de África, o mundo unipolar em que vivemos, configurado e liderado pelos EUA e do qual a União Europeia é um mero apêndice, está desenhado para que o continente em questão continue a ser um mero fornecedor de matérias-primas. Outro vídeo gravado secretamente e distribuído pelas redes sociais mostra um líder ocidental confirmando tal estratégia. As suas palavras são brutais: - "A África subsariana tem sido fundamental para a prosperidade dos países avançados. O seu papel é de fornecedor de matérias-primas. Nós faremos tudo para que África continue a sê-lo, o que significa que todas as estruturas económicas, todas as instituições globais e todos os centros académicos devem ser desenhados para manter África na situação em que ela está, inclusive na pobreza".

Como intelectual africano, não me basta, obviamente, culpar o Ocidente e as suas elites. Nós, africanos, dos cidadãos comuns aos governantes, passando pelas diferentes elites existentes, temos um papel a cumprir. A redefinição das estratégias de desenvolvimento dos nossos países, a adoção de modelos democráticos que funcionem (o que inclui, ao mesmo tempo, reforçar as instituições republicanas e articular a democracia liberal com os nossos valores e práticas culturais, tarefa perfeitamente possível se houver vontade política), o combate sistémico, abrangente e inteligente (e não apenas jurídico-penal) à corrupção são algumas das nossas obrigações.

A dignidade é fundamental, tal como os pais das nossas independências nos ensinaram (e mau grado os erros posteriores que muitos deles cometeram). Para começar, podemos exigir aos nossos governantes que declarem o execrável chefe da diplomacia da União Europeia persona non grata nos nossos países.»

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24.10.22

Só para francófonos

 

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Duas Portarias, dois meses, dois campos de concentração

 




«No espaço de dois meses, o governo de Salazar criou formalmente, pela mão do ministro do Ultramar, Adriano Moreira, dois campos de concentração, eufemisticamente denominados "campos de trabalho":

• A Portaria n.º 18539, de 17 de junho de 1961 (ver anexo), que reabriu na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, o Campo de Concentração do Tarrafal, agora designado como campo de trabalho de Chão Bom (cuja localização não vem identificada para além do nome), assegurando o seu funcionamento com servidores dos "quadros da Província de Angola";
• A Portaria n.º 18702, de 24 de agosto de 1961 (ver anexo), institui "na Província de Angola", o campo de trabalho de Missombo, cujo quadro de pessoal comportava 105 unidades.

Duas notas:

1. No mesmo dia 24 de agosto de 1961, foi publicado o Decreto-Lei n.º 43.875 extinguindo o regime das culturas obrigatórias e regulando o regime da cultura do algodão - tentando assim responder às causas que originaram a revolta e o massacre de Cassange;
2. A segunda fase do Campo de Concentração do Tarrafal (crismado em 1961 como "Campo de Trabalho de Chão Bom") viria a receber presos políticos de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde mas esteve igualmente prevista a deportação de moçambicanos para aquele campo de concentração, chegando a ser publicada a Portaria n.º 20811, de 21 de setembro de 1964, regulando a "contribuição da Província de Moçambique" para o efeito.»

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Rosa Parks morreu num 24 de Outubro

 


Rosa Parks morreu em 24 de Outubro de 2005, com 92 anos. Era costureira, vivia em Montgomery e apanhava todos os dias o mesmo autocarro. A história é conhecida: no dia 1 de Dezembro de 1955, a parte da frente do mesmo, reservada a passageiros brancos, já não tinha nenhum lugar vago e o condutor ordenou que Rosa se levantasse e cedesse o seu. Recusou e foi presa, facto que desencadeou uma reacção em cadeia, nomeadamente o boicote dos autocarros de Montgomery durante um ano.

Mas não se tratou de um impulso isolado: há muito que Rosa se recusava a entrar nos autocarros pela porta traseira e que era activista em outras causas, nomeadamente na luta pelo direito ao voto. Ficou ligada, para sempre, juntamente com Luther King e tantos outros, à luta pela emancipação dos negros, sendo muitas vezes qualificada como «the first lady of civil rights» ou «the mother of the freedom movement».

A conquista de direitos humanos fundamentais nunca está garantida, é necessário lutar para que não seja aniquilada.



Versão Pete Seeger:


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Von der Leyen felicita Meloni

 


«Não é estranho que Ursula Von der Leyen tenha saudado a nova primeira-ministra italiana. São relações institucionais que devem ser estabelecidas e mantidas. Mas seria fundamental que tivesse escolhido as palavras. Temos uma líder num país europeu que é de extrema-direita xenófoba e admiradora de Mussolini. O elefante está na sala. Como lidar com isto? Von der Leyen tomou a dianteira; felicitou Meloni pelo seu novo cargo e destacou o facto de ser a primeira mulher a assumir essa posição em Itália.

A declaração de Von der Leyen foi duplamente infeliz. Por um lado, ignorou olimpicamente que Meloni concretiza uma ameaça, uma afronta até, aos valores do chamado projeto europeu, passando a todos a mensagem de que se tratam afinal de valores de importância relativa. A primeira-ministra italiana foi militante de grupos neofascistas desde a adolescência. São conhecidas as suas posições contrárias ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, contrárias à imigração, contrárias ao aborto, etc. Pois nada disso transparece na felicitação que recebeu da presidente da Comissão Europeia.

Por outro lado, Ursula Von der Leyen conseguiu apequenar a causa feminista enquanto, supostamente, a enaltecia. Felicitar Meloni por ser mulher e por, enquanto mulher, chegar a primeira-ministra, não é feminismo. É sim uma ofensa à causa e a quem se bate por ela.

O feminismo não é uma causa cega. Está agregada ao osso dos ideários políticos fundamentais e, já agora, ao bom senso. Não precisamos de uma representação feminina em todas as áreas e o facto de ser uma mulher a destacar-se naquilo que devemos combater não é certamente uma razão de orgulho. Há mais homens condenados pelo crime de corrupção do que mulheres e, nessa diferença, não existe um motivo para incentivarmos a que mais mulheres tomem as rédeas na matéria.

Também Hillary Clinton tinha feito uma declaração miserável a propósito da eleição de Giorgia Meloni: “A eleição da primeira mulher primeira-ministra de um país representa sempre um corte com o passado e isso é certamente positivo.” Ficamos esclarecidos relativamente ao entendimento que estas mulheres têm da causa feminista.

É preciso cuidado com o feminismo que se despegou da luta por um modelo socioeconómico justo ou, pelo menos, da luta contra as desigualdades. Porque deverão as mulheres sentir alguma espécie de satisfação por chegar ao poder uma pessoa que usou como slogan o patriarcal “Deus, pátria e família” e que não reconhece os direitos de milhares de mulheres que integram minorias e que chegam à Europa em busca de trabalho e de uma vida digna?

Foi a esquerda que abriu este flanco. É a esquerda que tantas vezes aceita confundir-se com as lutas progressistas desintegradas da grande luta dos trabalhadores ou, para quem não tiver medo do nome, desintegradas da luta de classes. É um feminismo que deixa para trás as mulheres que mais precisam dele e que se fixa nas vitórias de umas quantas que chegam ao poder. O culto das vencedoras e da meritocracia. Como se não soubéssemos todos que as condições socioeconómicas são um impostor que altera por completo a lógica da discriminação e do preconceito. Uma mulher racializada é potencialmente vítima de preconceito racial, de género e de classe. Tudo se altera se for rica.

Foi na esquerda que tiveram início as lutas progressistas, mas, quando a esquerda se esgota nessas lutas – esquecendo as suas origens de luta por um modelo socioeconómico – eclipsa-se e sobretudo abre as portas a que todos se apoderem delas. Não bastava o feminismo neoliberal, chegámos ao dia em que a própria extrema-direita se arroga com créditos na luta das mulheres e temos uma presidente da Comissão Europeia que nos faz embarcar nessa narrativa.

Giorgia Meloni é mulher. Nisso, tem tanto mérito como culpa: zero. O mesmo número que está inscrito na dívida da causa feminista para com ela. Não existe nenhuma razão para estarmos contentes por uma mulher de extrema-direita ter chegado a primeira-ministra. Mais valia um homem decente.»

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23.10.22

Mais um vitral



 

Vitral na escadaria da Casa Maria Robert, Barcelona, 1888-1890.
Arquitecto: Salvador Viñals.


Daqui.
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23.10.1956 - A «Revolução Húngara»



 

A chamada «Revolução Húngara» começou numa terça-feira, 23 de Outubro de 1956, no centro de Budapeste, com uma manifestação de milhares de estudantes que tentaram ocupar a rádio para transmitirem as suas exigências: fim da ocupação soviética e a implantação de um «verdadeiro socialismo». Foram detidos e quem do lado de fora exigia a sua libertação foi alvejado pela polícia a partir do interior do prédio.

Espalhada a notícia, a revolta alastrou primeiro a toda a cidade de Budapeste e depois ao resto do país, provocou a queda do governo e a sua substituição. Mas em 4 de Novembro deu-se a invasão pelas tropas do Pacto de Varsóvia e a resistência não durou mais de seis dias.

Pouco mais de duas semanas, portanto, que se saldaram por duas dezenas de milhares de mortos e por um verdadeiro êxodo de cerca de 200.000 húngaros, sobretudo jovens, que fugiram do país e pediram asilo um pouco por toda a Europa e também na América, do Norte ao Sul. Conheci uns tantos na Universidade de Lovaina, uns anos mais tarde.

Hoje a Hungria tem um dos governos mais sinistros da União Europeia. Os estudantes de 56 são agora velhos ou já morreram. Gostava bem de saber o que pensam disto tudo os meus amigos Eva, Nicholas e Elisabete, mas perdi-lhes o rasto. 
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Berlim, ontem

 


Solidariedade com as mulheres iranianas.
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Os donos disto tudo

 

@rafaelcosta 

«É estranho chegar a uma certa idade sem perceber nada de como funciona o mundo. Soube há dias, por um acaso, que, nos idos anos 1990, aquando do frenesi das privatizações na Rússia, a PepsiCo, detentora dos refrigerantes gaseificados, tornou-se uma das maiores potências navais do mundo, pois, em troca das garrafas e das latas Pepsi que estava a vender à larga para a ex-URSS, aceitou ser paga em espécie: 17 submarinos soviéticos, um cruzeiro, uma fragata e um contratorpedeiro. A frota foi vendida para sucata, o que levou o presidente da empresa a gracejar com a Casa Branca: "nós estamos a desarmar a União Soviética muito mais depressa do que vocês."

É desta e de muitas outras loucuras que se faz o nosso tempo, triste e opaco, sem rumo nem norte, abominável mundo novo. E, por detrás dos governos e dos políticos, da ONU e doutras organizações internacionais, das diplomacias, cimeiras bi- ou multilaterais, há gente que actua na penumbra e na sombra, que movimenta o planeta e o põe a rodar sem que nós, os comuns mortais, tenhamos a mínima consciência disso, das decisões e opções que afectam milhões, muito mais do que julgamos. Quando lemos nas notícias que a Rússia autoriza ou não a exportação do ucraniano grão, quando sabemos dos movimentos e dos fluxos do petróleo e da recente - e inacreditável - facada da Arábia Saudita nas costas no Ocidente, julgamos que tudo se passa a um nível estritamente político, entre governos e líderes cujos rostos conhecemos, quando, na realidade, e sem falsos conspirativismos, há outra gente envolvida, muita outra gente envolvida, que compra e vende as mercadorias, os bens de necessidade primeira, que os paga a pronto ou a fiado, que os vai buscar a terras em guerra, que os despacha para onde mais pagarem. O Mundo à Venda. Dinheiro, poder e as corretoras que negoceiam os recursos da Terra (Casa das Letras, Setembro de 2022), um livro recente, da autoria de dois credenciados jornalistas do Financial Times e da Bloomberg, Javier Blas e Jack Farcity, levanta a ponta do véu da actividade dos corretores de matérias-primas, um punhado de empresas que controlam uma parcela substancial dos recursos naturais do planeta e que na sombra fazem lucros estratosféricos, muitas vezes à conta da guerra e do sofrimento alheio. Dirão os seus defensores que, sem os corretores de recursos, não teríamos o que comer à mesa nem gasóleo nos depósitos, não haveria casas, computadores, aviões no ar, carros nas estradas, o que é indiscutivelmente verdade, mas mostra o poder que tais indivíduos e empresas têm, a sua capacidade de domínio e influência, com a agravante de não sabermos quem são e o que fazem, de agirem na obscuridade e quase total impunidade, alheios ao controlo democrático e ao escrutínio mediático a que sujeitamos, e bem, os nossos governantes. É por isso, justamente por isso, que se torna ainda mais absurdo, inconcebível, que ignoremos sequer a existência destas pessoas e entidades, que não saibamos quem são e o que fazem, quais são os seus líderes e os seus perfis, concentrados que estamos em celebridades ou políticos que, na esmagadora maioria dos casos, não têm poder comparável ao desta gente sem rosto. Fiz a experiência: na sempre informada Wikipédia, cliquei no nome de "Gary Neagle" e deparei com quatro linhas apenas, que nos dizem tratar-se de um sul-africano que fez um curso de comércio e de contabilidade na Universidade de Witwaterstrand e que em 2000 entrou para os quadros da Glencore, de que é hoje o CEO. Nada mais é dito, nada mais sabemos sobre o homem que está aos comandos de uma das maiores empresas do mundo, ainda hoje a maior empresa de corretagem de mercadorias do planeta, até há pouco a maior empresa da Suíça, dominando 60% de todo o zinco comerciado internacionalmente, 50% do cobre, 9% do trigo, 3% do petróleo.

Ou veja-se uma outra empresa, a familiar e centenária Cargill, sediada no Minnesota, da qual provavelmente poucos ouviram falar, ao contrário do que sucede com a Apple, a Zara, a IKEA ou tantas outras. Pois bem, a Cargill é uma empresa privada, mas, se fosse aberta e cotada em bolsa, estaria no 15º lugar do índice Fortune 500. Com mais de 166 mil empregados espalhados por 66 países, dedica-se ao trading de cereais e outros produtos agrícolas, como o óleo de palma, mas também ao comércio de energia, aço, gado, rações, bem como à produção de xarope de glucose, óleos vegetais, alimentos processados. É responsável por 25% de todas as exportações norte-americanas de trigo e pelo abastecimento de 22% da carne consumida nos Estados Unidos. Todos os ovos consumidos nos restaurantes McDonald"s da América provêm de aviários da Cargill, que é também a maior produtora de frangos da Tailândia. O seu CEO chama-se Dave McLennan e, se forem novamente à Wikipédia em língua inglesa, encontrarão não mais do que três linhas, que dizem apenas que se formou em Amherst e que fez um MBA em Chicago, que é casado e tem três filhos, mas nada mais adiantam ou esclarecem. Sucede que, em 2019, num relatório produzido para o Center of International Policy, um think tank de Washington fundado em 1975, o antigo representante democrata Henry Waxman não hesitou em qualificar a Cargill como "a pior empresa do mundo", cuja dimensão colossal a faz esmagar todos os seus concorrentes e com um inenarrável cadastro em matéria de abate de florestas, poluição, alterações climáticas e tráfico e exploração de seres humanos. O rol das acusações é extenso e brutal: em 2021, oito antigas crianças escravas do Mali intentaram uma acção contra a Cargill, pelas condições de trabalho que sofreram nas plantações de cacau do Mali, existindo notícias sobre redes de tráfico e exploração nesses países desde 2005, pelo menos, o mesmo sucedendo com o algodão do Usbequistão, que a Cargill adquire e que é produzido com trabalho escravo e trabalho infantil. A isso juntam-se problemas laborais gravíssimos, como tentativas de supressão de sindicatos, exposição dos funcionários aos riscos da Covid-19, a par de aquisição abusiva de vastas parcelas de terra, violando os limites da propriedade fundiária, venda de alimentos adulterados (em 1971, a Cargill foi responsável pela venda de trigo contaminado ao regime de Saddam Hussein, provocando a morte de 650 pessoas, pelo menos), deflorestação na selva amazónica e das florestas tropicais na Sumatra, no Bornéu, no Gana, na Costa do Marfim (a Cargill comprava ou compra cacau plantado ilegalmente nos parques naturais desse país!), poluição atmosférica intensa, fraude e evasão fiscal. "A pior empresa do mundo", dizem, e o mais grave é nem sabermos que ela existe e o que faz.