«É estranho chegar a uma certa idade sem perceber nada de como funciona o mundo. Soube há dias, por um acaso, que, nos idos anos 1990, aquando do frenesi das privatizações na Rússia, a PepsiCo, detentora dos refrigerantes gaseificados, tornou-se uma das maiores potências navais do mundo, pois, em troca das garrafas e das latas Pepsi que estava a vender à larga para a ex-URSS, aceitou ser paga em espécie: 17 submarinos soviéticos, um cruzeiro, uma fragata e um contratorpedeiro. A frota foi vendida para sucata, o que levou o presidente da empresa a gracejar com a Casa Branca: "nós estamos a desarmar a União Soviética muito mais depressa do que vocês."
É desta e de muitas outras loucuras que se faz o nosso tempo, triste e opaco, sem rumo nem norte, abominável mundo novo. E, por detrás dos governos e dos políticos, da ONU e doutras organizações internacionais, das diplomacias, cimeiras bi- ou multilaterais, há gente que actua na penumbra e na sombra, que movimenta o planeta e o põe a rodar sem que nós, os comuns mortais, tenhamos a mínima consciência disso, das decisões e opções que afectam milhões, muito mais do que julgamos. Quando lemos nas notícias que a Rússia autoriza ou não a exportação do ucraniano grão, quando sabemos dos movimentos e dos fluxos do petróleo e da recente - e inacreditável - facada da Arábia Saudita nas costas no Ocidente, julgamos que tudo se passa a um nível estritamente político, entre governos e líderes cujos rostos conhecemos, quando, na realidade, e sem falsos conspirativismos, há outra gente envolvida, muita outra gente envolvida, que compra e vende as mercadorias, os bens de necessidade primeira, que os paga a pronto ou a fiado, que os vai buscar a terras em guerra, que os despacha para onde mais pagarem. O Mundo à Venda. Dinheiro, poder e as corretoras que negoceiam os recursos da Terra (Casa das Letras, Setembro de 2022), um livro recente, da autoria de dois credenciados jornalistas do Financial Times e da Bloomberg, Javier Blas e Jack Farcity, levanta a ponta do véu da actividade dos corretores de matérias-primas, um punhado de empresas que controlam uma parcela substancial dos recursos naturais do planeta e que na sombra fazem lucros estratosféricos, muitas vezes à conta da guerra e do sofrimento alheio. Dirão os seus defensores que, sem os corretores de recursos, não teríamos o que comer à mesa nem gasóleo nos depósitos, não haveria casas, computadores, aviões no ar, carros nas estradas, o que é indiscutivelmente verdade, mas mostra o poder que tais indivíduos e empresas têm, a sua capacidade de domínio e influência, com a agravante de não sabermos quem são e o que fazem, de agirem na obscuridade e quase total impunidade, alheios ao controlo democrático e ao escrutínio mediático a que sujeitamos, e bem, os nossos governantes. É por isso, justamente por isso, que se torna ainda mais absurdo, inconcebível, que ignoremos sequer a existência destas pessoas e entidades, que não saibamos quem são e o que fazem, quais são os seus líderes e os seus perfis, concentrados que estamos em celebridades ou políticos que, na esmagadora maioria dos casos, não têm poder comparável ao desta gente sem rosto. Fiz a experiência: na sempre informada Wikipédia, cliquei no nome de "Gary Neagle" e deparei com quatro linhas apenas, que nos dizem tratar-se de um sul-africano que fez um curso de comércio e de contabilidade na Universidade de Witwaterstrand e que em 2000 entrou para os quadros da Glencore, de que é hoje o CEO. Nada mais é dito, nada mais sabemos sobre o homem que está aos comandos de uma das maiores empresas do mundo, ainda hoje a maior empresa de corretagem de mercadorias do planeta, até há pouco a maior empresa da Suíça, dominando 60% de todo o zinco comerciado internacionalmente, 50% do cobre, 9% do trigo, 3% do petróleo.
Ou veja-se uma outra empresa, a familiar e centenária Cargill, sediada no Minnesota, da qual provavelmente poucos ouviram falar, ao contrário do que sucede com a Apple, a Zara, a IKEA ou tantas outras. Pois bem, a Cargill é uma empresa privada, mas, se fosse aberta e cotada em bolsa, estaria no 15º lugar do índice Fortune 500. Com mais de 166 mil empregados espalhados por 66 países, dedica-se ao trading de cereais e outros produtos agrícolas, como o óleo de palma, mas também ao comércio de energia, aço, gado, rações, bem como à produção de xarope de glucose, óleos vegetais, alimentos processados. É responsável por 25% de todas as exportações norte-americanas de trigo e pelo abastecimento de 22% da carne consumida nos Estados Unidos. Todos os ovos consumidos nos restaurantes McDonald"s da América provêm de aviários da Cargill, que é também a maior produtora de frangos da Tailândia. O seu CEO chama-se Dave McLennan e, se forem novamente à Wikipédia em língua inglesa, encontrarão não mais do que três linhas, que dizem apenas que se formou em Amherst e que fez um MBA em Chicago, que é casado e tem três filhos, mas nada mais adiantam ou esclarecem. Sucede que, em 2019, num relatório produzido para o Center of International Policy, um think tank de Washington fundado em 1975, o antigo representante democrata Henry Waxman não hesitou em qualificar a Cargill como "a pior empresa do mundo", cuja dimensão colossal a faz esmagar todos os seus concorrentes e com um inenarrável cadastro em matéria de abate de florestas, poluição, alterações climáticas e tráfico e exploração de seres humanos. O rol das acusações é extenso e brutal: em 2021, oito antigas crianças escravas do Mali intentaram uma acção contra a Cargill, pelas condições de trabalho que sofreram nas plantações de cacau do Mali, existindo notícias sobre redes de tráfico e exploração nesses países desde 2005, pelo menos, o mesmo sucedendo com o algodão do Usbequistão, que a Cargill adquire e que é produzido com trabalho escravo e trabalho infantil. A isso juntam-se problemas laborais gravíssimos, como tentativas de supressão de sindicatos, exposição dos funcionários aos riscos da Covid-19, a par de aquisição abusiva de vastas parcelas de terra, violando os limites da propriedade fundiária, venda de alimentos adulterados (em 1971, a Cargill foi responsável pela venda de trigo contaminado ao regime de Saddam Hussein, provocando a morte de 650 pessoas, pelo menos), deflorestação na selva amazónica e das florestas tropicais na Sumatra, no Bornéu, no Gana, na Costa do Marfim (a Cargill comprava ou compra cacau plantado ilegalmente nos parques naturais desse país!), poluição atmosférica intensa, fraude e evasão fiscal. "A pior empresa do mundo", dizem, e o mais grave é nem sabermos que ela existe e o que faz.