13.3.24

Diálogo à esquerda?

 



P. S. – PS, PCP, Livre e PAN já deram resposta positiva a este apelo e vão reunir-se.
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12.3.24

Há obras na linha férrea

 

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Até ver, o grande vencedor do 10 de Março

 


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"Diário de Notícias": grave, gravíssimo

 


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Do Outro Lado do Espelho

 


«A noite de eleições foi coberta por um espetáculo de superlativos que se inscreve na história com a pompa de um déjà vu crónico: a afluência às urnas atingiu picos nunca antes vistos: apoteose da participação democrática. A ascensão de uma terceira força ao pódio da representação nacional não se fez por menos, gravando-se nos anais como um feito sem precedentes. E, como se não bastasse, a margem que acabou por separar Luís Montenegro de Pedro Nuno Santos reduziu-se afinal a um fio tão ténue que quase nos faz questionar se houve mesmo um vencedor ou se saímos, afinal, todos empatados. É que há sempre um recorde, mais uma excepção, mais um feito sem paralelo – mas que raramente surpreende.

A curta vitória de Luís Montenegro é só isso – um feito do líder que arrasta os seus, quase a contragosto, para um triunfo ténue. A Aliança Democrática consegue escapar-se do entalanço entre duas forças nas suas pontas porque Luís Montenegro reconheceu o recentramento e reclamou-o para si, contra tudo e contra todos. Não ganhou, mesmo que à queima-roupa, porque Passos Coelho inspirou os reformados, nem pela acutilante pertinência de Paulo Núncio, nem mesmo pela temperança calculada de Oliveira e Sousa. Ganhou apesar de todas as vozes (certamente bem-intencionadas) que o desautorizaram.

E Montenegro já se apercebeu disso: no discurso de vitória, reafirmou o não é não, reiterou o compromisso de reconciliação com os pensionistas e manteve a moderação no discurso. Querendo sobreviver na corda bamba, sabe que tem de chegar ao Orçamento do Estado com o capital de confiança em alta, e conseguirá fazê-lo com medidas que possam ser implementadas sem passar pelo crivo da Assembleia da República – adiando, assim, confrontos diretos. Terá de emular Cavaco em 1985 e fazer campanha através do cargo, rezando por um erro à-la-PRD.

Para o Partido Socialista, o resultado dificilmente poderia ter sido melhor. Pedro Nuno Santos, acólito do mantra errar em ação, beneficia de uma derrota suavizada por expectativas já de si baixas. Depois de oito anos e de uma saída precipitada e nebulosa de António Costa, poucos lhes imputavam a responsabilidade de vencer. Se ganhasse, aliás, a governabilidade pareceria uma miragem – mesmo com a esquerda a estender-lhe a mão. Depois de uma campanha a promover valores vagos, entre a continuidade e mudança, mas a vender-se como um homem de ação, Pedro Nuno consegue o melhor de dois mundos: quase ganha, mas não perde totalmente.

A estreita vitória da Aliança Democrática permite-lhe ganhar fôlego para calibrar as fileiras socialistas, dá tempo a António Costa para que consiga sair ileso da saga judicial e, com sorte, ganhar as eleições europeias, e permite-lhe consolidar a confiança que lhe foi dada – tudo isto antes de dar o golpe final a Montenegro.

É que, ao contrário do líder da AD, Pedro Nuno Santos tem o privilégio mais raro da política: pode esperar. Não tendo ninguém à sua esquerda capaz de o engolir, pode replicar o jogo de paciência que ensaiou na primeira semana de campanha. O primeiro adversário de Luís Montenegro não será o PS, mas André Ventura – que, ao contrário de Pedro Nuno, ainda não clarificou se votará a favor de um Governo que não o inclua. O PS só terá de conseguir não interferir enquanto a Aliança Democrática navega águas turbulentas. A estratégia não é nova, mas raramente se apresenta tão oportuna: deixar o adversário enterrar-se com as próprias mãos, enquanto se assiste, pacientemente, do lado seguro da trincheira.»

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11.3.24

Ferros

 


Ferro a carvão para passar roupa, 1870.

Daqui.
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A campanha solitária de Marcelo

 


O problema é que não sei se Marcelo, sendo de Direito, também é bom em Matemática. Seria uma raridade.

(Expresso)
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Onzes de Março

 


Quem viveu aquele que a imagem recorda só tem razões para encarar o de hoje com alguma distância e muita serenidade. Tenho um neto que votou ontem pela primeira vez. Tanta estrada andada, tanta estrada para andar.
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Bem gostava o Chega de assistir ao abraço de dois náufragos

 


«Chega era uma hecatombe previsível, talvez de dimensões ainda maiores do que o esperado, porque parece ter sido o principal motor para a queda da abstenção. Sobre as razões para este resultado, terei de escrever outro texto, com dados mais finos e ponderados dos resultados eleitorais – de onde veio exatamente aquele voto?

Há três dados incontornáveis: a esquerda tem o seu pior resultado de sempre, a AD tem uma vitória de Pirro (menos percentagem do que o PSD e o CDS juntos nas últimas eleições) e o PS tem uma derrota clara (sobretudo quando veio de uma maioria absoluta), ficando quase empatado com a AD.

O essencial é isto: a AD não consegue formar maioria sem o Chega e o PS, apesar de toda a esquerda ter mais do que a AD com a IL, não consegue formar uma “geringonça”. O debate sobre a tomada de posse de Luís Montenegro é o mais simples e o menos relevante. Basta que a esquerda não apresente qualquer moção de rejeição do programa para esse problema não ser um problema. A questão é, como me fartei de escrever, a viabilização do governo. Ou seja: a aprovação do Orçamento de Estado. Sendo certo que há um Orçamento em vigor e quem o aprovou não tem qualquer dever de o retificar, é no fim do ano que a questão se põe.

A pressão do centro-direita é e será a que se espera: que seja o Partido Socialista a viabilizar os governos de Luís Montenegro com Rui Rocha, uma situação absolutamente contranatura. Como ficou evidente no discurso de Luís Montenegro, quando deixou claro, com toda a legitimidade da vitória estreita (que a sua “alegria contagiante” demonstrou), que era o seu programa, oposto ao socialista, que ia ser aplicado.

Escrevi-o vezes sem conta: com um Chega inchado, PS e PSD suportarem governos do outro é garantir que o Chega lidera a oposição e cresce ainda mais. Mas quando escrevia isto era a pensar num Chega com 15%. O Chega conseguiu ultrapassar os 15,9% do CDS, em 1976; os 17,9% do PRD, em 1985; e ficou muito perto dos 18,8% da APU, em 1979. Não é apenas o terceiro partido. É um partido com todas as condições para liderar a oposição e recolher todo o descontentamento que venha a existir se lhe fizerem esse favor.

Quem defenda que o PS deve suportar um governo da AD e da IL não quer salvar o país e a direita do Chega, quer retirar ao PS o legítimo dever de liderar a oposição e abrir o caminho à sua decadência, libertando o Chega da pressão política que o obrigue a ser claro em relação aos seus eleitores. O Chega, pronto para mostrar ao país que o sistema se une contra si, agradeceria e continuaria a engordar. Olhem para a Europa.

Com a vitória de Pirro da AD e a derrota do PS, o apoio mútuo seria um abraço de dois náufragos, com morte certa por afogamento e o Chega a olhar seguro, do seu barco. Fez muito bem Pedro Nuno Santos em deixar tudo claro, para não abrir uma interminável novela de meses. Cabe à AD apresentar, em outubro, o Orçamento de Estado e deixar que o Chega escolha a queda do governo, pagando o preço por isso, ou aceitar que não está de fora o sistema, e pagar o preço por isso.

Como o BE e o PCP podem explicar, quem se assumir como suporte dos orçamentos deste governo será responsabilizado por uma crise política, quando deixar de o fazer. Não vale a pena pensar que é só por um ano ou dois. Como António Costa mostrou, é fácil escolher o momento para esticar a corda e obrigar à crise política. Se o PS se puser nessa posição, está a enfiar o pescoço nessa guilhotina e a libertar o Chega da responsabilidade de responder aos eleitores de direita. Quem defenda este caminho está objetivamente a ajudar ao crescimento da extrema-direita. Talvez numas próximas eleições o abalo fosse muitíssimo maior. Que seja, por uma vez, responsável pelas escolhas que faz. Sem ser salvo.»

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Uma grande vitória da Montenegro!...

 

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10.3.24

Já reflecti e já votei

 

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Meio país ignorado

 


«As escolhas que hoje decidirão o futuro do país serão tomadas essencialmente por quatro distritos e estarão fortemente inclinadas para a faixa litoral. É nela que se concentram 175 dos eleitos, ficando a faixa interior (nela incluída o distrito de Santarém) com apenas 40. Todos sabemos que Lisboa e Porto absorvem 88 dos 230 lugares do hemiciclo, mas não sei se habitualmente nos lembramos que também distritos como Setúbal e Braga (19 deputados cada) elegem, sozinhos, mais representantes do que os seis distritos do interior raiano (somados, valem apenas 18).

Dir-se-á, e é verdade, que esta distribuição espelha a realidade de um país demograficamente assimétrico. Como mostraram os Censos 2021, um quinto da população está concentrada nos sete maiores municípios, que abrangem uma área correspondente a apenas 1,1% do território nacional.

Não é aceitável, ainda assim, que se ache adequada uma forma de representação que vai alimentando um círculo vicioso. Enfraquecido, o interior fica cada vez mais despovoado e vai perdendo os seus representantes. Sub-representado politicamente, continua a ver enfraquecida a sua voz e capacidade de influenciar decisões que contribuam para inverter o estado de coisas.

Há outras consequências desta forma de representação. Além do risco de os programas políticos falarem sobretudo para os principais círculos eleitorais, deixando de fora uma fatia considerável da população portuguesa, acentua-se o afastamento de muitos cidadãos das urnas, sentindo que as suas escolhas não têm efeito prático. Em 2022, foi o que aconteceu a mais de metade dos votos em Portalegre, que elege apenas dois deputados.

Quando amanhã o país acordar a debater questões de governabilidade e desafios imediatos resultantes das eleições, este problema será provavelmente ignorado. Como tem sido ignorada uma grande parte do país que não dá votos. Cabe ao futuro Parlamento refletir, a sério, se nele cabe todo o território que lhe compete representar.»

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