14.5.24

Sugestão para um pacote Habitação?

 


Torre Tao Zhu Yin Yuan, Taipei, Taiwan.

Daqui.
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14.05.1958 - Humberto Delgado no Porto

 


«Povo do Porto, a resposta está dada com esta manifestação. Façam eleições livres e venceremos!» Foi com estas palavras que Humberto Delgado se dirigiu à multidão que o aclamou em frente à sede da sua candidatura, na Praça Carlos Alberto, no Porto, há 66 anos. A fotografia passou a funcionar quase como uma espécie de ícone de uma campanha extraordinária que abalou fortemente a ditadura de Salazar.




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José Luís Saldanha Sanches

 


Morreu há 14 anos, pouco depois de atingir os 66 – estupidamente cedo.

Vale a pena ler uma longa entrevista dada em 2008, em conjunto com Maria José Morgado, a Anabela Mota Ribeiro.
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É o racismo e é a aporofobia

 


«A forma como os direitos humanos têm vindo a ser postos em causa nos últimos tempos é triste e é revoltante. Vemos isto a acontecer noutras partes do mundo, vemos isto a acontecer no nosso país e, mais tarde ou mais cedo, vemos isto a acontecer a uns minutos de casa. As motivações destes crimes são sempre discriminatórias: quem só reconhece o direito de existir às pessoas que se parecem consigo – comportamental ou fisicamente – sente-se facilmente ameaçado por tudo o que seja diferente. Isto aplica-se a imensas realidades, mas a que tem estado na ordem do dia – sempre pelos piores motivos – é a discriminação racial e xenófoba.

Sobre isso, muito tem sido dito e, pelo menos no plano conceptual, toda a gente parece estar de acordo na condenação de actos de violência como os ocorridos no Porto há uns dias (se essa condenação é consequente ou se é um gesto vazio é toda uma outra discussão). Do que tenho sentido falta, porque não está integrada da mesma forma no discurso público, é da dimensão aporofóbica subjacente a esta violência. “Aporofobia” – termo cunhado pela filósofa Adela Cortina – designa a repulsa pela pessoa pobre, o preconceito relativamente à pessoa sem recursos.

Isto é relevante porque as pessoas atacadas no Bonfim não foram atacadas apenas por serem imigrantes: foram atacadas por serem imigrantes e por serem pobres. Estivessem estes imigrantes no Porto a gerir um hotel de luxo, ninguém teria qualquer problema com a sua nacionalidade, a sua religião, a cor da sua pele (ou com o que quer que fosse, na verdade – nada limpa a alma como o capital). Essas pessoas não são sequer designadas por “imigrantes”: são “investidores” e não importa de onde vêm.

Naturalmente, imigrantes com capital não se vêem envolvidos em situações como assaltos. Tal como pessoas portuguesas com capital não se vêem envolvidas em situações como assaltos. O que leva alguém a roubar – falando desta escala, de pequenos assaltos – é, como é óbvio, a falta de recursos. E essa razão é a mesma para todos os assaltantes, sejam portugueses ou imigrantes. Mas convém manter presente que as pessoas imigrantes (estas pessoas imigrantes) lidam com circunstâncias de fragilidade social e económica muito mais acentuadas do que as pessoas nascidas em Portugal, precisamente pelo facto de serem imigrantes – o racismo e a xenofobia entram em cena. Mas elas roubam como roubaria eu se estivesse nas mesmas circunstâncias, não roubam por serem imigrantes.

É por demais evidente que nem todas as pessoas imigrantes são criminosas, porque são as circunstâncias e não a sua proveniência que determina essa necessidade. A indisponibilidade para aceitar estas pessoas como iguais não está, portanto, apenas no facto de não serem portuguesas, está no facto de acumularem estes dois factores de exclusão: são imigrantes e são pobres.

Estamos preparados para aceitar pessoas pobres nacionais, mesmo que isso as leve a assaltos – já fui várias vezes assaltado no Porto, sempre por portugueses, e isso nunca gerou nenhuma espécie de revolta popular – e estamos preparados para acolher de braços abertos investidores estrangeiros, de onde quer que possam vir. Mas aceitar imigrantes pobres parece ser um pedido a que nós, colectivamente, não estamos preparados para aceder.

Esta realidade reforça a necessidade de união em torno do que temos em comum – já que a humanidade partilhada parece não ser suficiente – e do que desejamos para as nossas comunidades. Não importa em que território administrativo calhou termos nascido, não importa a língua, não importa a orientação sexual, a identidade de género, a religião que praticamos ou quanto dinheiro temos. Importa o que queremos fazer em conjunto e importa a nossa responsabilidade individual e colectiva perante o bem comum. Sejamos, por isso, consequentes nos nossos princípios: façamos a necessária revisão aos nossos comportamentos quotidianos e exijamos às pessoas a quem atribuímos poderes de decisão colectiva que façam o mesmo.»

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13.5.24

Casas

 


Casa com gatos, Kiev, Ucrânia, 1909.
Arquitecto: Vladimir Bessmertny.


Daqui.
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Saúde no limbo

 

«O ciclo político mudou. A AD venceu tangencialmente as eleições de 10 de março e, em pouco mais de um mês de funções, tem somado exonerações e demissões. Ainda que expectável, a saída de Fernando Araújo da Direção Executiva do SNS e a consequente indefinição quanto ao futuro daquele organismo deixam no limbo a reforma que acabou com as cinco administrações regionais de saúde (ARS) e reorganizou centros de saúde e hospitais em 39 unidades locais de saúde (ULS). Quem está no terreno queixa-se de dificuldades operacionais, que vão desde a compra de medicamentos ao pagamento de incentivos das equipas da USF.»

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13 de Maio

 


Vieira Resurrected no Facebook.
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Eurovisão: de falsamente apolítica a verdadeiramente censória

 


«É fascinante que um festival de péssima música tenha saído do esquecimento em que, para lá de alguns países mais a leste, vivia. E mais intrigante que tenha sido apropriado pela comunidade LGBT, ao ponto da única bandeira autorizada no recinto, para além da das dos países concorrentes, ser a do arco-íris, numa improvável aliança com nacionalismo cançonetista.

Seja como for, ganhou relevância para não poder deixar de ser, como são todos os acontecimentos em que estão envolvidas representações oficiais dos países (ainda mais de televisões estatais), um momento político. E é especialmente difícil insistir no seu caráter “apolítico” quando se deixa participar um Estado que está a provocar uma das maiores catástrofes humanitárias deste século depois de ter suspendido a Rússia – e bem, porque ao contrário do bloqueio a músicos e artistas, esta suspensão é a uma delegação da televisão estatal. A incoerência da European Broadcasting Union (EBU) reproduz a hipocrisia europeia em relação aos dois conflitos e não podia ser mais política, no pior sentido da palavra.

Quem fecha a porta à política num acontecimento artístico destas dimensões sabe que ela entrará pela janela. E que só pode impedir que ela tome conta da casa se impuser limites à liberdade de expressão. Sem liberdade, a arte é eunuca. Ou é propaganda, como a primeira versão da canção israelita. Mostrando que tudo o que se passou no sábado foi, como inventivamente seria, político, Israel empenhou-se, lançando uma campanha nas redes sociais para transformar a Eurovisão num momento de legitimação internacional. Era o que a Rússia faria, se lá tivesse estado, em 2022.

Com as suas decisões contraditórias, a EBU transformou este festival no mais político de sempre. Isso não seria necessariamente mau, para quem vive bem com a liberdade e o pluralismo, mesmo quando perturbam o comércio. Houve manifestações em Malmo, a canção israelita foi vaiada e os apoiantes do genocídio de Gaza mobilizaram-se para dar um sinal público de solidariedade ao governo de Netanyahu. Como a mobilização para concentrar o voto num concorrente funciona muito mais do que para não votar nele (nesse caso, dispersam-se os votos por outros, como aconteceu na votação de Salazar para maior português de sempre), Israel conseguiu uma boa votação. Ainda assim, falhou o objetivo de vencer no televoto, tendo ficado atrás da Croácia. Em sentido inverso, os sindicatos da televisão pública da Flandres cortaram a transmissão durante a atuação de Israel. Ninguém estava a pensar nas músicas, obviamente.

A incoerência da EBU e a necessidade de impedir que a operação de branqueamento do que se passa em Gaza fosse contestada e estragasse o espetáculo levou, como era de esperar, à censura. Começou na imposição de que Israel alterasse a letra da sua canção, com referências ao conflito, para que a operação de propaganda oficial na justificação do genocídio não fosse tão óbvia. < br>
Continuou na interdição de bandeiras da Palestina no recinto, com a segurança a retirar pessoas que a exibissem. A concorrente irlandesa terá revelado, num TikTok que apagou, que a produção a obrigou a alterar a maquilhagem porque, no rosto, tinha uma mensagem de apoio à Palestina em que pedia o cessar-fogo.

Prosseguiu com os canais oficiais da Eurovisão a usarem, nas suas redes, fotos e vídeo da participação portuguesa na semifinal (no site oficial e YouTube, o vídeo da atuação só foi publicado depois do televoto ter terminado), para omitir a frase final de Iolanda – "a paz prevalecerá " – e o facto da cantora ter símbolos culturais da Palestina pintados nas unhas.

O desejo deixado por Iolanda é consensual, mas foi, e bem, entendido por todos como uma posição política. Os símbolos que usou eram microscópios, mas foram notados por todos. A forma como Iolanda se manifestou é a que os artistas usam, em ditaduras, para contornar a censura. E a reação automática de tentar esconder aquele momento – assim como se abafaram as vaias na transmissão televisiva com aplausos pré-gravados (usados pela primeira vez em 2014, para silenciarem os apupos à Rússia) – é a habitual em ditaduras. Com o fracasso também habitual, em tempo de redes sociais. A única diferença, que não é pequena, é que a concorrente não arriscava a prisão, só a desqualificação. Apesar de tudo, parecendo que se passava na Rússia, aquele espetáculo aconteceu na Suécia, uma democracia consolidada e moderna.

Tudo isto parece apenas entretenimento, mas não é. Para além da mensagem deixada pelos organizadores da Eurovisão, ao suspenderem a Rússia e permitirem a participação de Israel, a falsa afirmação de que a Eurovisão é apolítica degenerou, para impedir a contestação do que se passa em Gaza, num conjunto de imposições censórias ao público e aos concorrentes que não podem ser toleradas por televisões públicas de democracias. E deve levar a um debate sério das condições em que estas empresas de Estados aceitam participar em momentos culturais em que a liberdade de criação e expressão não são escrupulosamente respeitados.»

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12.5.24

Mesquitas

 


Mesquitas Mesquita Nasir al-Molk ou Mesquita Rosa, Shiraz, Irão, 1876-1888.
Arquitectos: Mohammad Hasan-e-Memār, Mohammad Hosseini Shirazi e Mohammad Rezā Kāshi-Sāz-e-Širāzi.

Daqui e não só.
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Se...

 


Se é possível conservar a juventude
Respirando abraçado a um marco de correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu
Deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
Pôs marfim a sorrir;
Se o Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
Veio de longe ver o Presidente
A cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
E a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se reentrante, protuberante, perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge (o «ponto» do Jorge!) tentou beber naquela noite
O presunto de Chaves por uma palhinha
E o Eduardo não lhe ficou atrás
Ao sair com a lagosta pela trela;
Se «ninguém me ama porque tenho mau hálito
E reviro os olhos como uma parva»;
Se Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
Cantar com o Alberto...

    ...Acaso o nosso destino, tac!, vai mudar?

Alexandre O'Neill,
1958

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Engana-me que eu gosto

 


Esta imagem, e várias outras que circulam nas redes sociais como a Torre de Belém, foram feitas com Inteligência Artificial (PromptCraft) e o seu autor indicou-o quando as publicou.

O que se passa é que gente pouco séria copia as imagens sem a informação dada por quem as criou. E mesmo quem partilha da fonte, fá-lo sem ler e tentar perceber o que lá está escrito. Não sabem que ninguém viu Aurora Boreal em Lisboa? 
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A era do ódio

 


«O Porto, cidade aberta, livre e liberal, assistiu no passado fim-de-semana a um horrível crime de ódio. A tragédia, porque todos os crimes de ódio são uma tragédia, deixou muita gente surpresa, dando conta da distracção ou ignorância em que vive uma grande parte da nossa sociedade sobre o que realmente se passa no país.

Usar a analogia epidémica é, talvez, a forma mais eficaz de falar sobre a revolução subterrânea em curso. Enquanto à superfície as forças radicais vão forçando as fronteiras do aceitável, persistindo na descredibilização das instituições e relativizando a realidade, no plano subterrâneo vão infectando sem controlo os crentes, os sedentos e os vulneráveis. A par da infinitude de coisas extraordinárias que a Net e as redes sociais nos trouxeram, grassa aí todo o tipo de informação especulativa e manipulativa, sendo a nova arma de destruição maciça com exércitos poderosos e eficazes.

De forma persistente e muito bem organizada, essencialmente através dos grupos de WhatsApp e canais do YouTube, está a ser criado um Portugal alternativo, onde vive cada vez mais gente. O foco, porque o medo do diferente une e galvaniza, é sempre o estrangeiro e a terrível ameaça que representa; depois, vêm as instituições, que urge descredibilizar. Há uma parte de Portugal que acha que não se pode sair à rua na Amadora, em Odivelas ou mesmo em Lisboa. Imagens de festas hindus num país qualquer são veiculadas como manifestações islâmicas supremacistas numa qualquer terra portuguesa, sublinhando o perigo iminente para o “português de bem” e a incompreensão pela passividade geral face à ameaça real da imigração. As reportagens de pseudo-repórteres no Martim Moniz, o aproveitamento e distorção das festas de fim de Ramadão ou outras, a invenção de factos e a revisão da história são o pão nosso de cada dia. Aparentes mães de família bramam em vídeo contra a ONU por legislação que nunca fez, acusam a OMS de promoção da pedofilia e avisam contra os inúmeros perigos de confiar no Estado. Cientistas forjados falam do tenebroso plano de controlar a população através de vacinação. Um destacado deputado do Chega faz um vídeo em que acusa a ocupação muçulmana da Península de ter explorado e abusado das nossas mulheres.

Esta persistência na infusão do medo, na insinuação permanente de que o imigrante é um marginal, de que os imigrantes gozam de impunidade perante a lei e têm mais direitos que os “portugueses de bem”, resulta num ódio crescente por parte daqueles que se deixam envolver pela narrativa. Tal como num passado de muito má memória, começaram com os ciganos, usando-os como teste e via de entrada para a construção da fractura social. De repente, havia gente que não se cruzava com um cigano há anos a discorrer sobre o fardo e ameaça que estes constituem. Seguiram-se os desgraçados do bairro da Jamaica, os muçulmanos das mesquitas de Lisboa e todos os que fazem o longo caminho da esperança desde o Indostão. Ventura chega a afirmar em directo nas televisões que Braga está “irreconhecível e tomada por gente do Indostão”. Em paralelo, estava em marcha a narrativa sobre as glórias do nosso passado colonial, os grandes feitos do Estado Novo e a urgência da restauração de uma certa ideia de Portugal que, de resto, nunca existiu.

As declarações de Ventura sobre o crime hediondo do Porto são um tratado de cinismo e o atestado da profunda má-fé que norteia a sua acção política, validando assim a sua ligação a este movimento subterrâneo aparentemente mais informal. O “sim, mas” é inaceitável. A “compreensão” por eventuais milícias e ajustes de contas é um ataque gravíssimo à democracia e ao Estado de Direito. O plantar da dúvida sobre a origem dos criminosos, que afinal serão portugueses de gema, tem o mesmo propósito. Trump, que Ventura já convidou várias vezes para vir a Portugal, faz exactamente o mesmo com os terroristas do 6 de Janeiro e com todos os criminosos que sirvam os seus intentos.

Esta é realmente a maior ameaça que enfrentamos, não aqueles que nos procuram em busca de uma vida melhor, mas os que vivem da divisão, do ódio e da violência. A imigração pode, e deve, ser regulada com humanismo, bom senso e regras claras, visando em primeiro lugar proteger os interesses de quem nos procura, e o todo, por consequência. O radicalismo é mais difícil de combater numa sociedade livre, exige melhor democracia, mais literacia, mais informação, mais cidadania e melhores protagonistas; não se resolve por decreto.»

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