6.8.24

Tu n'as rien vu a Hiroshima

 


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06.08.1945 – Hiroshima: os relógios pararam às 8:15




Foi nesta data que a humanidade viveu um dos dias mais terríveis do século XX. Quem alguma vez passou por Hiroshima não saiu de lá como entrou, ficou certamente marcado para sempre como eu fiquei.

Se eu apenas pudesse guardar duas fotografias, dos milhares que fui tirando por esse mundo fora, escolheria estas. De má qualidade, sem dúvida, mas que me recordam dois objectos expostos no Museu de Hiroshima, que nunca mais esquecerei. Numa, um relógio que parou à hora exacta em que a bomba explodiu. A outra fala por si.





Parque Memorial da Paz de Hiroshima - algumas imagens:










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Os lucros da banca

 


«Na última semana, vários bancos portugueses divulgaram as suas contas e anunciaram lucros e aumentos das respetivas margens para níveis que podemos chamar, sem grande hesitação, “muito simpáticos”. Os valores anunciados falam por si: as cinco maiores instituições nacionais tiveram em conjunto, nos primeiros seis meses do ano, lucros de 2619,4 milhões de euros. Qualquer coisa como 14 milhões por dia…

Vivemos num sistema económico em que é quase impossível não querer retribuir os investimentos, ou seja, é benéfico para todos que os bancos sejam rentáveis. É um sinal de boa saúde da economia. Aliás, este mesmo debate aconteceu há seis meses, quando foram divulgadas as contas do ano anterior. E os argumentos são idênticos: de um lado, quem defende os lucros como sinal saudável e necessário para o futuro do setor e, do outro, quem aponta a imoralidade destes resultados num período em que as famílias enfrentam inflação, aumento das taxas de juros e do desemprego.

Na verdade, há algo desequilibrado quando colocamos todas estas parcelas nos pratos da balança. Sim, é verdade que não podemos desejar que os bancos tenham prejuízos e enfrentem dificuldades como muitos cidadãos. Já percebemos que eles são essenciais para a saúde financeira da sociedade em que vivemos. Mas não deixa de ser inaceitável que quando a situação está mais complicada para os cidadãos, alguém tire daí benefícios diretos.

Não se trata aqui de discutir teorias económicas e, em especial, quais delas trazem melhores resultados para os cidadãos. Trata-se de questionar, tão simplesmente, se não haverá uma forma de equilibrar tudo isto: a banca poder remunerar o seu capital, mas os cidadãos comuns não serem espremidos quando mais precisam de ajuda.

Ou, de forma quase humorística, trazer para a economia o velho conceito asiático que defende o equilíbrio. Uma espécie de yin e yang que nos permita algum apoio sem que isso signifique a destruição de nenhum setor da economia.»


5.8.24

Bichos há muitos (1)

 


Um belo casuar. Sydney, Austrália, 2017.

O casuar é uma ave de grande porte, nativa do nordeste da Austrália, Nova Guiné e ilhas próximas, muito ágil (pode correr 50 km/hora e saltar 1,5m).

Torna-se muito agressiva se se trata de proteger ninhos e crias. As fêmeas põem entre 3 e 5 ovos, mas depois vão-se embora e os machos cuidam sozinhos dos ninhos e das crias durante os nove meses seguintes.

JO: em 1968 foi assim

 




JO: em 1936 foi assim

 



Etíopes

 


37 que são 120 milhões

 


«Os Jogos Olímpicos (JO) são geralmente notícia pelas medalhas (ou a sua escassez) ou pelas polémicas, mais ou menos estéreis, que se esfumam rápida e inconsequentemente. Como a alegada paródia à última ceia de Jesus (que afinal era uma recriação da mitologia grega com Dionísio), as acusações de que a pugilista Imane Khelif é trans (quando nasceu e sempre viveu como mulher, ainda que tenha níveis de testosterona elevados) ou as suspeitas sobre o tempo conseguido pelo nadador chinês Pan Zhanle, que retirou 40 centésimos de segundo ao anterior recorde mundial também fixado por ele. Certamente alheia a controvérsias balofas, a pugilista Cindy Ngamba fez história ontem, ao garantir a primeira medalha para a Equipa dos Refugiados Olímpicos. Nascida nos Camarões há 25 anos, vive no Reino Unido e integra a equipa de 37 atletas refugiados que estão a competir em 12 modalidades.

A comitiva deste ano é liderada por Masomah Ali Zada, que despertou a ira do regime afegão por andar de bicicleta, a ponto de ser apedrejada quando pedalava nas ruas de Cabul. Fugiu para França, onde estuda engenharia e cumpre o sonho de praticar ciclismo de alta competição. Outra das estrelas desta equipa é o queniano Dominic Lobalu, muitas vezes comparado com o somali tetracampeão olímpico Mo Farah, que foi a sua inspiração para se entregar ao atletismo. O atual campeão europeu dos dez mil metros vai correr os cinco mil metros e quer conquistar uma medalha olímpica.

É a terceira vez que os JO acolhem desportistas de elite que tiveram de fugir dos seus países, dignificando a tradição olímpica de cultivar a paz e a amizade entre os povos. “Permite-nos chamar a atenção e compreender a realidade global de que 120 milhões de pessoas, ou uma em cada 69 pessoas em todo o Mundo, foram forçadas a fugir das suas casas”, justifica Jojo Ferris, diretora da Fundação Refúgio Olímpico.

A medalha de Cindy Ngamba é a primeira da equipa, mas é muito mais do que isso. Porque os 37 atletas em competição representam os 120 milhões de vidas invisíveis que o Mundo quer esquecer.»


4.8.24

Não temos cá disto (11)

 


Grandes verdades

 


04.08.1578 – Adeus, Alcácer-Quibir

 


Foi há 446 anos que Portugal sofreu uma derrota em Alcácer-Quibir quando decidiu aliar-se a um sultão, Mulay Mohammed, e acabou por ser vencido por um outro, Mulei Moluco. Derrota pesada acima de tudo sobretudo porque nela se perdeu um rei sem descendentes, D. Sebastião.

Foi tal o desespero que o povo não quis acreditar na sua morte, ou ficou na expectativa que ressuscitasse, numa atitude heróica e trágica que o marcou para todo o sempre. Hoje continua, talvez inconsciente mas serenamente, à espera que regresse o tal salvador que o livrará de todos males.

Com música de vários autores:











O umbigo de Paris

 


«A cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris não correu bem; e a culpa não foi da chuva, esse álibi de costas largas. A sondagem em que 85% dos franceses consideram a cerimónia um sucesso revela apenas que gostam de si próprios, o que já sabíamos. Aliás, nesse estrito sentido, a sessão de abertura cumpriu.

Para dirigir o espetáculo foi contratado um ator e encenador de teatro, Timothy Jolly, e a realização foi entregue à Olympic Broadcasting Services, uma filial do Comité Olímpico, que faz todas as transmissões há mais de 20 anos, em estádios. Jolly rodeou-se de quatro outros criativos, em áreas complementares como dança e guarda-roupa. Ao todo, foram cinco os grandes responsáveis, unidos na vontade de “celebrar a diversidade”. Imagino que nas suas reuniões tenham passado o tempo a dizer uns aos outros “Mais ça c'est génial!” (mas isso é genial), sem que ninguém de seguida lhes editasse as ideias. A sessão de abertura acabou por se caracterizar por um barroquismo com pretensões futuristas, ambicionando surtir pasmo e arrebatamento. Houve mesmo um comentador que, ao ver uma estátua dourada a emergir do solo, narra com entusiasmo: “E agora vemos Olympe de Gouges, uma mulher muito importante na Revolução Francesa.” Em certa medida sim, foi suficientemente importante para lhe cortarem a cabeça.

Acima de tudo, a realização não mostrou ter léxico para dialogar com a escala da cidade. Bastaria o conhecimento mínimo de algumas regras elementares de realização, como o raccord de direção, para que o espectador se sentisse, no mínimo, orientado no espaço. Entradas e saídas de campo seriam exequíveis de forma elegante e barata com movimentos de câmara planificados: teria sido escusada a quantidade de elevadores e alçapões para fazer emergir estátuas e pessoas. Sei que o orçamento foi ultrapassado, mas era investir menos em alçapões e pagar a uma boa equipa de realização.

Porque o problema foi também narrativo: os criadores engendraram uma personagem original, com a cara coberta por uma espécie de máscara de esgrima, um vulto negro e expedito que galga a cidade, num parkour incansável. É a personagem que cola toda a emaranhada narrativa, e nós, como espectadores, investimos no seu mistério. Vem-se a revelar que o grande desígnio desta figura, depois de toda a aventura, era entregar a tocha a Zidane, num gesto pífio, e ir-se embora. Se porventura tirasse a máscara e fosse uma mulher, isso teria significado: equalité. Mas não: “Toma lá a tocha, Zidane, que me cansei para aqui chegar.”

Por outro lado, representar a diversidade através de uma profusão de cores e formas, tipo cada fatiota cada melro, também não foi o modo mais eloquente de figurar pluralidade. Na imagem, o conceito de diferença emerge de forma muito mais clara em presença de padrões que se quebram do que perante uma diversidade total. O espetáculo esqueceu-se de que era para ser gravado e emitido, que não era teatro de rua. Esta sessão de abertura sofreu de uma grave falha processual: ninguém trabalhou a sério a sua transposição para televisão.

Mas, como sempre, nem tudo foi mau, que para absolutos bastou a corte do Rei Sol. Quando anoiteceu, a sessão melhorou muito, talvez porque a iluminação pontual destacou as zonas de interesse e as câmaras passaram a saber para onde apontar. Atletas vestidos com um equipamento branco ágil e bonito fizeram caminho até à base do grande balão dourado que aguardava a tocha, com sede de fogo. A base incendiou-se e o balão voou. E desde esse dia que paira sobre Paris, como um umbigo da cidade — narcisa, potente, belíssima.»